terça-feira, 24 de abril de 2018

Varal dos sonhos, poema RCF



 



Depois da chuvarada,
os passarinhos vieram quarar as asas
no varal do fio de alta tensão.
Ali ficaram pendurados
como roupas de asas,
sob o sol morno da vida.

Os morcegos, ao contrário,
se penduram no trapézio
do forro e dormem invertidos
como minha alma ao forro do dia.

À noite, acordados,
vêm voar nas vigas dos meus pesadelos
e transformar o que é forro
em fio de alta tensão.





domingo, 22 de abril de 2018

O assassinato, conto RCF



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         Está muito claro que fui assassinado naquele verão, à beira da praia, numas férias fora de hora e, poderia dizer, fora de lugar.
         Na vendinha da cidade – caso se possa chamar o vilarejo de cidade –, vende-se tudo: botões, gás, linhas, agulhas, lanternas, botes inflamáveis, revistas, varas de pescar, sardinhas enlatadas (e bem, tudo comestível enlatado) e minha máscara mortuária.
         – O que é isto? – perguntei.
         – Uma máscara – respondeu o dono da loja.
         – Oh uma máscara!
         – Uma máscara.
         – E o que faz uma máscara aqui?
         – O mesmo que uma pilha ou um despertador.
         – Uma pilha e um despertador.
         – Isso mesmo: uma pilha e um despertador.
         – Um despertador!
         – Ou outro objeto qualquer na loja. Aqui é uma loja – disse o vendedor. – As pessoas vêm, escolhem o que querem, pagam e vão embora.
         – Um despertador, ora bolas! Um despertador!
         O homem olhou-me abismado.
         E assim me levou para conhecer o inferno que estava dentro de um caixote. O inferno era azul e tinha botões dourados.


(conto de Manual de Tortura)

sábado, 21 de abril de 2018

Em torno a uma imagem de Derrida pouco antes de sua morte, poema RCF






Recuso a voz verde de Derrida,
os olhos de estanho,
a pele ausente que pode rasgar-se,
plumagem de pássaro último.
O câncer está prestes a mudar sua pele
– esta, a plumagem de gesso envelhecido,
a pele de terno com que se veste o morto.
Cada vez que respira,
a marreta do matadouro miúdo
ameaça o cérebro filósofo.
Carrega consigo o pequeno cadáver
de fígado, rim ou pulmão
que morreu antes dele.
Logo sairá do cinema da morte.
Entramos numa grande sessão de cinema
que dura vinte, cinqüenta ou setenta
anos e, de súbito, em vez de as luzes
acenderem, tudo se apaga.


(do livro A máquina das mãos, 2009)
 
(imagem: chagall)