segunda-feira, 23 de outubro de 2017

As palavras interditas, Eugênio de Andrade





Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.




           De As Palavras Interditas (1951)




domingo, 22 de outubro de 2017

Poema sobre cheiro, RCF




Naquelas tardes neutras
cheiravas a navio.
Cabelos invadiam o voo dos ventos
e se faziam asas
que em vez de pena
usavam fios sonoros e socorros de cabelo.

Se tu fosses uma morta,
mesmo com a fetidez da morte,
ainda seria um odor vital.
O morto não tem narinas,
não pode respirar o fim.
O teu cheiro é vontade de ser carne.
O teu cheiro – vapor –
é um dos estados da carne.

Meu cheiro tem lembranças
de outros cheiros teus.
Nada mais sugestivo
que o olor do canto
– o canto, por sua vez,
traz teu cheiro em forma de som.

Gostaria de ter um armário de cheiros
– não o armário de cheiros
dos perfumes que são bibliotecas
de cheiros – mas a estante
guardada dos mínimos anos.
Lá poderia me apropriar
do raso, do fluido,
do inexato, de ti.
Meu cheiro tem vários sentidos.



(do livro A máquina das mãos, 2009, prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras 2010)


(imagem internet: di cavalcanti)

sábado, 21 de outubro de 2017

A estrada, conto RCF






Arre. Nem mesmo o posto de gasolina da Ipiranga havia encontrado. Parou o caminhão no acostamento. Desceu. Olhou em volta: a vegetação miúda e retorcida. Tirou o boné, passou o braço na testa para recolher o suor. O que havia de errado naquele caminho? O pio dos pássaros. Como podiam sobreviver ali? Comer das árvores sem fruto, beber na poeira dos riachos secos. Entrou no caminhão. Pasmo. Que ia fazer? Inútil. Não estava três horas naquela esperança de encontrar Carolina?

Avistou o caminhão que vinha na outra pista. Fez sinal. O motorista não parou. Vinte e tantos anos de estrada e nunca vira aquilo. Vira assalto – chegara a ver motorista morto dentro de caminhão –, prostituição – as menininhas da idade de sua filha se oferecendo por quase nada –, vira de tudo na estrada, só não vira aquela afronta, aquele descaso, aquilo lhe doía mais do que assalto ou prostituta sem peito.

Cosme seguiu estrada. Mas não andou muito. Merda, sem gasolina. A única coisa diferente na estrada que conhecia de cor e salteado eram uns marcos, visivelmente novos, anunciando os quilômetros. Cosme estava no quilômetro 320 – quilômetro trezentos e vinte de onde para aonde?

Já ia anoitecer.

Lembrou-se da família – o que estariam fazendo agora? Três filhos, a mulher e a avó morando numa casa de dois quartos que construíra ele mesmo, tijolo após tijolo.

Frequentava a igreja. A igreja é que salvava todo mundo na vizinhança. A igreja é que salvara o Silvino da bebida, salvara o Marcos da jogatina, salvara a própria mulher dele da tristeza. A tristeza da mulher era um vício. Se não fosse o pastor da igreja a mulher tinha se matado e ele tinha de criar três filhos e cuidar da avó – como ia cuidar da avó e criar três filhos se cada dia que passava em casa correspondia a uma semana na estrada?

Adormeceu.

Dia seguinte, acordou com o sol seco e frio batendo no rosto. Pela primeira vez na vida, pela primeira vez na estrada, Cosme entrou em pânico. Imaginou-se eternamente perdido ali, abandonado. Como um náufrago, como alguém perdido no deserto. Que diabo acontecia com aquela estrada, que diabo acontecia com ele? Teria entrado numa estrada desativada? Ou ainda estava preso ao pesadelo? Iria acordar em Carolina, na cama de um hotel vagabundo e aí então suspiraria de alívio. E riria de tudo aquilo, contaria o sonho para a mulher que se benzeria e diria, cruz credo, parece até coisa do demônio.

Nenhuma nuvem no céu. Ligou o rádio. Chiado. Mexeu na antena e nada. Isolado do mundo. Desesperado, fechou o caminhão. Caminhar ainda com o sol fraco. Meio-dia, impossível a caminhada. Carolina deveria estar atrás de alguma curva, ainda que Cosme pudesse avistar a estrada meter-se, de tão reta, na linha do horizonte.

Por certo havia acidente. A polícia rodoviária desviaria o trânsito. Seria isso? Sabia não. Ao meio-dia exato, parou. Buscou abrigo na sombra de uma árvore. Passado um tempo conferiu o relógio: meio-dia. Há quantas horas ou minutos estivera andando com o ponteiro em meio-dia? Teve medo de enlouquecer. A mulher, Valquíria, lhe disse que preferia a loucura à tristeza. Quis enlouquecer: louco, ele não estaria ali. Adormeceu. Não sabia quanto tempo dormira, mas, agora, de onde estava, podia ver a estrada movimentada: caminhões, caminhonetes, carros de passeio, a estrada voltou a ser a estrada que conhecia.

Um caminhoneiro parou a um sinal de carona de Cosme. Levou-o até o local onde estava o caminhão. Mas o caminhão não estava lá. Cosme enfureceu-se. Filhos da puta, nem podia ganhar a vida honestamente, um bando de malandros vinha e lhe roubava o instrumento de trabalho.

Meses depois de voltar para casa, Cosme foi ficando triste, triste e a mulher o levou até a igreja. O pastor não a havia livrado da tristeza, por que não podia tirar Cosme daquele abatimento? Cosme frequentou a igreja. Tomou gosto das rezas. Estava desempregado, pagava ainda as cotas do caminhão roubado. Mas era feliz. Até o dia que entrou na igreja e encontrou-a vazia. Nem mesmo o pastor estava lá. Como a igreja podia estar vazia se era domingo de Páscoa?





imagem retirda da internet:rodney smith