segunda-feira, 24 de abril de 2017

Ó vida contemporânea, poema RCF





                                                                    Ó vida futura,
                                                                    nós te criaremos
                                                                            Drummond



Ó vida passada,
nós te criaremos.
Ontem vou iniciar uma dieta.
Há um mês cuidaremos da saúde.
Usaremos máquina que nunca
a memória ousou pensar ou existir.
No canto escuro das lembranças,
vamos predizer o passado.
Defenderemos teorias já inventadas,
usaremos objetos em desuso,
projetaremos naves enferrujadas
e nos comunicaremos com a tecnologia
primeira e última: o corpo humano.
Ó vida passada
nós te criaremos
a nossa imagem e semelhança.
E vidas que nunca foram vividas
serão futuro e nele futuraremos
todas as invenções que nos transformaram
em outra invenção: o homem sem tempo.
Somos contemporâneos do medo do limo
e viveremos no eterno passado
que é um tempo sem tempo.
Ó vida passada, nós te criaremos,
nós te criaremos em outra dimensão:
o obsessivo tempo virtual.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


domingo, 23 de abril de 2017

Aduana, poema RCF

            


Nada a declarar, nada a declarar,
digo ao fiscal da alfândega.
Na minha bagagem só trago
o tédio de uso pessoal,
o aroma dos descasos
e agasalhos de livros
que mais me desnudam que me protegem.
Nada estrangeiro,
além do meu sentimento
de não ser natural de lugar nenhum.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet

sábado, 22 de abril de 2017

Alma pequena, poema RCF




Não contente com sua oficina de erros,
criou em mim máquina de desconcertos.
Deus me deu a poesia,
não para que eu fosse poeta,
mas a fim de que,
para onde me virasse,
mais apertasse no pescoço
a agulha da beleza.

Oh, Deus, por que não cozeste meu barro
e deixaste meu corpo em tabatinga viva?
Minhas palavras têm fraquezas de caixa,
argumentos de eco,
digitais que não deixam impressão,
ao morrer serei menos que o vento,
uma forma de existir sem forma.

Deus, dai-me outra alma
que esta já não serve.
Dai-me a madeira dos serenos,
o osso dos indiferentes,
o alumínio dos sensatos,
a cartilagem dos felizes,
oh, Deus, dai-me outra alma
para que meu corpo cansado
de suportar um peso maior
que seu próprio peso,
possa apenas ser um corpo
como outro corpo qualquer.




(A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)