domingo, 26 de março de 2017

Ventre frio, poema RCF


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O galo no meu jardim é uma planta de penas,
move sua crista em flor na inquietude verde.
As frutas azedam a existência pendurada.

A geladeira agasalha fragmentos dispersos de vida.
Uma coxa de galinha, meia garrafa de suco,
carne gelada do não,
ali, no ventre iluminado e frio,
a vida se dá nos pêssegos cortados
como fetos em conserva.

(Eterno passageiro, 2004)
 

sábado, 25 de março de 2017

Fleuma do sangue, poema RCF


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Onde estará o pensamento do sangue,
o temperamento da carne, a alegria dos pelos,

a melancolia dos vegetais – em mim
ou na capacidade das coisas de existir com humores?

 
 
(Eterno passageiro, Brasília: Ed. Varanda, 2004)
 
 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Poema Francisco Costa Fernandes Sobrinho (1914-1960), meu pai




Veritas


 Se fosse pura, límpida a amizade
que revelaste um dia com teu beijo;
se te não fora simples leviandade,
porém virtude excelsa que desejo;

se, não da carne vil que em ti rebrade,
mas de peito pudico num lampejo,
partira a furibunda tempestade
dos arroubos de amor que ainda revejo;

não trocarias tão irrefletida
a paz do nosso amor, o ninho quente
pelos prazeres fúteis desta vida;

não furtarias a meu lábio ardente
a morna taça, em parte já bebida,
do amor fingido que teu peito sente.



São Luís, 1935