sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A máquina das mãos no jornal O Estado de Minas


ESTADO DE MINAS GERAIS

André Di Bernardi Batista Mendes



Ronaldo Costa Fernandes marca seu lugar no cenário da poesia contemporânea

A Editora 7 Letras acaba de lançar A máquina das mãos, do poeta, romancista e ensaísta Ronaldo Costa Fernandes. A poesia do maranhense radicado em Brasília transita e percebe o trágico a partir do simples, do cotidiano. Sua áspera letra já nasce torta, desce da descoberta das inúmeras e indissolúveis fraudes de que é feita a tessitura do duro dia-a-dia, que não concede espaço e é, sempre, amplo de controvérsia e clausura. Mas, transido, fortalecido pelo mistério de um olhar extremamente sensível, são grandes os nacos de fascínio que encontra na gravidade que desliza, por exemplo, das telas do pintor americano Edward Hopper: “A vida como um quadro americano/ do qual não podemos escapar”.


Sua linguagem e seu estilo simples atingem façanhas de desnorteios (“Entre o sim e o não/ não existe o talvez./ Entre o sim e o não/ existem as palavras cruzadas’’) e também concede, oferece, com a desfaçatez e o descaramento de um bandido consciente, o estímulo necessário para o primeiro e extremo passo rumo aos desatinos sobre os conhecimentos e desconhecimentos da sempre estranha e inalcançável natureza das coisas. Tudo no seu estado mais bruto. “Eu não aprendo a natureza./ Pergunto uma e outra vez seus nomes,/ e, na chamada, não me respondem.” Pobre leitor, pobre poeta que se debruça, louco para “sabatinar as árvores”, as “buganvílias desavisadas” e as “quaresmeiras duras”.
Não há vanguarda que dê conta do recado no inusitado âmbito poético. O cabresto das instituições, a cara fechada das academias, a moda dita, exige, com seu chicote ridículo, um poema curto, enxuto, low profile. Aí chega um artista, um escritor contemporâneo, e apresenta os seus longos poemas simples, adivinhando, arbitrário, provocativo, que o futuro pode ser um corredor: “Que dia virá o futuro/ com seu longo pescoço de ânsia?”. Pessimista, cínico, Ronaldo descortina um futuro simplesmente branco, branco como uma tela em branco, branco como o papel pode ser apenas branco.
Os bons poetas marcaram um encontro com a vida. E Ronado chegou na véspera. Mas ele também encontrou nestes tropeços a sua boa parcela, a sua cota de danação pelo caminho. Em seu livro, Ronaldo visita os demônios de Bosch (“Há morte e morbidez no amor’’); adula o seu roteiro de esquecimentos (“Tudo é um imenso galpão vazio”); faz poema para e sobre arames (“Há mãos farpadas/ que não ouso tocar”) e não deixa de corajosamente encarar a dor extrema, inigualável, ao tentar decifrar o alfabeto dos suicidas, num dos poemas mais belos e incisivos do livro (“Suicídio é o cano de escape/ com que respiramos,/ a fuga para dentro de si/ como o peixe que pula/ para a prisão do ar livre”).
Não é preciso paciência para ler os poemas de A máquina das mãos. Não é preciso condescender, anuir para encontrar fruição. Dono de um “olfato dos que cheiram a finitude das coisas”, Ronaldo dá notícia dos extremos que sobram. A sua poesia é feita de pequenos intervalos, de portos, de refúgios sempre provisórios. Nestas brechas cabem carros sem gasolina, rodoviárias onde inexiste a delícia da viagem, algaravias desenfreadas, cartas, a dura vida das putas, becos, febres, mormaços, fotografias e a dimensão inexata de uma alma que se revela linear, mas ambivalente, sempre por meio da dor. No ordinário Ronaldo descobre “a agulha da beleza”, para ele, “a realidade só não acusa o inconsciente”, que aí já seriam outros quinhentos.
Os poemas de A máquina das mãos, em sua maioria, padecem de uma melancolia que se justifica na medida em que revelam a face crua do, digamos, real verdadeiro, que, despido das bobagens de um lirismo fácil, revela que qualquer canto quase sempre desafina, que a verdade não existe, que existem margens que impressionam pela brutalidade e pelo desencanto. Entre a falta e o excesso, Ronaldo sabiamente cobra a fatura e aprende a rir de tudo e de si mesmo, deste seu, deste nosso “ato vazio de nada pegar”. Carece de poesia, pode ser leve o breu que nos envolve.
Como bem anotou Hildebrando Barbosa Filho, no posfácio do livro, a poesia de Ronaldo é também feita de “impurezas e epifanias”. A tormenta das estradas fornece um amplo repertório e munição para uma voz que se estende para que, algum dia, algumas janelas e todas as gaiolas se abram. Ronaldo apura o seu olhar e o seu canto poético que pretende ser, apenas, “um caminho entre caminhos”.



A MÁQUINA DAS MÃOS
De Ronaldo Costa Fernandes
Editora 7 Letras, 104 páginas, R$ 28


Canto do castigo
(trecho)

Há dias que não consigo
aprender minha pouca matéria.
Só tenho um ano
repetente, oclusivo, recorrente:
o ano em que me reprovei.
Já fui mais
quando tinha menos corpo.
Se o corpo se alonga,
quem negará que a mente
ganha gordura, extensão e músculos?



imagem retirada da internet: Hopper, summer evening

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Um homem é muito pouco 9



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Outro amigo de Juliana ele identificava como Ian, o que fuma cachimbo. O cheiro de cachimbo irritava os pulmões de Horácio e ele pedira para Juliana dizer, muito gentilmente, para que o diabo do Ian não fumasse cachimbo na frente dele, Horácio. E toda vez que Ian puxava o cachimbo, Horácio se retirava da sala. Mas Horácio não queria destratar o fumador de cachimbo, Ian possuía dois ou três cavalos de Horácio. E, de vez em quando, levava algum amigo ou conhecido para visitar o ateliê de Horácio. E quando Ian levava um amigo para visitar o ateliê aí então Horário suportava a fumaça cinza do cachimbo de Ian.

Outra aproximação mnemônica era a de Lúcia Vera, que morara na África de língua portuguesa, viajava muito, trabalhava como tradutora e o jeito que Horácio encontrou de associá-la com algo foi com as cabeças empalhadas que os caçadores de bichos grandes trazem na parede como troféu. Era mulher pequena e magra, que falava português com sotaque não identificado, embora fosse pernambucana. Vera Lúcia aparecia uma vez por ano, trazia presentes para Juliana e conversavam horas a fio lembrando amigos comuns quando trabalhavam na Unesco como tradutoras. Horácio não gostava de Vera Lúcia e um dia teve um sonho em que, em vez de esculpir cavalos, ele esculpia a cabeça do animal Vera Lúcia. Vinham os compradores e ele vendia as cabeças de Vera Lúcia que acabavam na casa dos colecionadores milionários, geralmente numa sala dedicada a animais empalhados e cabeças de veado, tigres, rinoceronte e Vera Lúcia.

Horácio alimentava ciúme de homem e ciúme de mulher. Se Alexandre, o que jogava pôquer, ele achava que era um amigo de Juliana que dava em cima dela, com Vera Lúcia, a africana de cabeça empalhada, ele sentia que a mulher, quem sabe, não teria tido um caso com ela. O certo é que nutria ciúme de Vera Lúcia, inclusive porque Vera Lúcia podia ser empalhada, mas sabia fazer muito carinho na sua mulher e até mesmo massagem e beijá-la de modo lúbrico, com os olhos duros e empalhados, porém com brilho diferente e aquoso que não tinham os animais empalhados.

Havia também Amélia. Horácio gostava de Amélia, que era mulher bonita e modelo e que dava alegria à casa. Falava alto e contava casos picantes da alta sociedade que frequentava na baixa condição de modelo e amante de magnatas. Desbocada e nervosa, sem conseguir parar num lugar, Horário associou-a com a música do Mário Lago. Com tanta exuberância e transbordando de energia, Horácio foi identificar Amélia justamente com seu oposto: a que era mulher de verdade.

Quanto a Ambrósio relacionava com sonho que o paulista lhe contou: gostava tanto de cães que certas manhãs acordava e não sabia se estava na própria cama ou em algum canil. Quando estava no pesadelo, ele se encontrava no canil público, na fila de espera para ser sacrificado, da mesma maneira que havia nos EUA o corredor da morte para os condenados a cadeira elétrica.

Tão logo Horácio terminava de descrever o elenco de associações e de amizades da mulher que ele usava para guardar na cabeça, entrou na sala um sujeito baixo, de voz de barítono, que andava de um lado para o outro examinando as peças de Horácio, sem olhar Clemente quando foi apresentado a ele.

Vestia-se com apuro. Apuro europeu e com o irritante lenço de seda preso ao pescoço, a substituir a gravata. O paletó azul-marinho estava impecavelmente bem cortado e o sujeito era pernóstico e, por ser baixo, como é comum acontecer com os homens baixos, mantinha a coluna ereta a fim de crescer míseros centímetros que não lhe alteravam a altura. Mas o baixo cresce psicologicamente e, se a postura lhe dava altura superior, que fizesse uso do expediente de empertigar-se.

O desconcertante é que a voz grave e cava saía daquela esfera. O homem, além de pequeno, era gordo, o que lhe dava um contraste exótico como se a voz já estivesse gravada dentro dele, e logo não lhe pertencia. Ou como se algo estivesse avariado como caixa de música que, abrindo-se, não tocasse o que se esperava, melodiazinha enjoada e repetitiva. Geralmente clássico erudito diluído e remanchão.

O nome do homenzinho era Bob, pelo menos assim o chamava Horácio. Devia se chamar Roberto, ou melhor, Robert, porque havia sotaque nele e o rosto rosado e sanguíneo traía origem acima da linha do Equador.

Por onde passava, ou ainda, por cada cavalo que passava ia dando os preços, Por este aqui pago quarenta, Bem aqui podemos dar uns vinte, Este quem sabe poderia até pagar bem mais regiamente, quem sabe noventa ou duzentos.

Tanto Clemente quanto Horário haviam parado de se balançar nos cavalos e olhavam assustados para o pequeno reizinho que ia distribuindo preços e fantasticamente comprando os cavalos de Horácio como se estivesse num frenético leilão. E não se discute, disse por fim, colocando a mão na barriga qual Napoleão de opereta.

Clemente estava desnorteado, como se já não bastasse estar ali naquela estrebaria fantasmagórica de cavalos de madeira, a extravagância mnemônica de Horácio e agora a presença daquele homem elegante, mas rude, que parecia não dar importância a Clemente.

Não dava importância nem mesmo a Horácio, embora quisesse adquirir todas as obras que ali estavam num afã milionário que estonteava qualquer um.

Bob, Bob, tentou Horácio interromper o comprador.

Não se discute, você sabe, disse ele, que comigo preço não se discute. Hoje você tem uma cotação, amanhã os preços explodirão, estive conversando com um amigo meu parisiense que me disse que agora entraremos numa fase da arte moderna onde não existirá mais cavalete e tudo virá de Duchamp, as obras são conceituais, body art e o que mais houver, estamos vivendo uma revolução tão séria no campo das artes plásticas como foi a vanguarda do fim do século passado com o impressionismo e com o surrealismo do princípio do século, uma nova era, senhor Horácio, e o senhor será quem sabe o Picasso brasileiro ou o Duchamp carioca dessa nova era da arte moderna no Brasil e no mundo.

O homenzinho, o Bob, o Robert, falava alto, agigantara-se, discursava, punha-se na ponta dos pés, vibrava o dedo acusatório e definitivo para um ser ali inexistente. Estava tão apoplético que Horário temeu que o homem tivesse um ataque.

Bob virou-se para Clemente e continuou ameaçando, Então o senhor vem aqui e quer pechinchar preço, desconfia da qualidade desse artista genial, desse homem que é modesto por natureza, mas que traz dentro dele uma genialidade infernal, ora, meu amigo, vamos e venhamos, o senhor está no ateliê de um grande artista, saiba disso, e essa visita o senhor nunca mais esquecerá , eu lhe juro, nunca mais esquecerá.

Bob, repetiu Horácio, escute-me, homem.

Pela primeira vez, quem sabe para tomar ar ou porque exagerara, Robert sentou-se, ofegante, pediu um copo d’água.

Você não precisava continuar nessa encenação toda, homem de Deus. O Clemente aqui não é comprador, é amigo da Juliana. Você precisa ser mais previdente e menos maluco. Assim nossa sociedade não dará certo.

Foi aí que Clemente percebeu o que ocorrera. O pobre do Bob ou Robert encenava ser comprador de obra de arte que irrompia no ateliê de Horácio a fim de influenciar na venda das peças que um desavisado visitante pudesse ainda estar em dúvida. Nem sempre dava resultado. Nem sempre a performance de Bob era tão enfática como foi aquela. Uma pena Robert ter gastado tanto conhecimento de artes plásticas para apenas uma visita familiar. Era preciso tomar mais cuidado e saber quem realmente estava no ateliê e não entrar porta adentro, enlouquecido.



(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Outro deserto, poema RCF







Assim a praia deserta,
imóvel, paquiderme de areia,
inventando-se a si própria,
onda que de si se alimenta,
estava o coração do mundo.

As palmeiras perfiladas não discordavam
com suas palmas indecisas
e toda nervura da manhã deserta
era a desfiguração da realidade
postal do tempo estagnado:
praia, homem, olhos e areia.

O que escalda não é a areia fina
nem o sol que se dependura, coco
exaustivo, passado do tempo,
o que escalda é o remorso arenoso.

Este mar que me banha
não é líquido.

Já não tenho a memória dos peixes.



(do livro Eterno Passageiro, Brasília, Ed. Varanda, 2004)


(foto rodney smith)