quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Sonho de uma noite de verão, conto RCF




(Publicado no jornal Correio Braziliense)

Estou na Rodoviária. A fila anda. Entro no ônibus. Não pego lugar para sentar. Mas estou acostumado a viver na vertical. Minha casa mesmo é tão pequena que só não durmo na vertical porque o homem foi feito para morrer a cada noite. E a gente não pode morrer e ser enterrado em pé. Vivo tanto de pé que, quando morrer, quem sabe, serei enterrado em pé. Há tanta gente no mundo que um dia ainda existirão os cemitérios para defuntos em pé.

O ônibus parte. Chega perto do Zoológico, ele desaparece.

No outro dia, monto minha barraca. Chamo a barraca de loja. Os camelôs formam um mercado. O mercado dos camelôs tem o alto-falante de suas vozes, as vitrines horizontais, o caixa sentado no banquinho e a loja de um só funcionário. Vendo de tudo: relógio, caneta, cd, dvd, mp3, e todo e qualquer objeto que fascina o cliente por ser pequeno e representar o mundo grande.

Escurece. Fecho minha loja. Vou até a Rodoviária. Tomo o ônibus. Desta vez passo o Zoológico. No Núcleo Bandeirantes, quase chegando nos motéis, o ônibus desaparece novamente.

Mais outro dia volto para montar minha loja de um só funcionário que sou eu mesmo. Sou eu mesmo, sim, senhor. Tenho um caixa na cabeça. Três por dois, desconto de dez ou vinte por cento, se levar cinco ganha brinde. No Setor Comercial Sul bate o coração de Brasília. Meu vizinho acha que o coração de Brasília se chama Rodoviária. É bem possível que uma cidade tenha dois corações. Uma cidade não é pessoa. Uma cidade tem vários corações. Mas não posso me perder do meu assunto. Então chega a hora de fechar minha loja, deixar as mercadorias com o vigilante. Dou a ele grana pra guardar meus badulaques no edifício onde é vigia.

Pego o ônibus. O bicho desce pela Asa Sul, Zoológico, Núcleo Bandeirante, e, quando vai pegar o Riacho Fundo, desaparece.

Volto no outro dia para o meu ponto. O mercado está agitado. Agitado porque alguém pegou a bolsa de uma madame, saiu correndo, veio polícia. Não gosto da palavra madame. Meu vizinho que já foi poeta e agora é só bêbado diz que madame é coisa do passado. Agora não há mais madame. Madame é coisa tão antiga quanto as perucas empoadas dos nobres do passado. Eu também tenho meu lustre. Eu escrevi esta frase “Eu também tenho o meu lustre” para mostrar que eu também tenho o meu lustre.

Eu estudei na vida. Não sei para que serve o estudo. O estudo só serve para embebedar meu vizinho. Se meu vizinho não soubesse tanto ele não beberia. Eu não bebo. Outra vez pego o ônibus na Rodoviária. Ele vai pela Asa Sul, toma a direção do Zoológico, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo, e, na entrada para Taguatinga Sul, o ônibus desaparece.

Mais outro dia no mercado de concreto. Anuncio com vigor os produtos. Tenho boa venda. Sinto leve torpor. Há bastante umidade por causa da chuva. Estamos em época de chuva. Durante a seca, o mercado se transforma em mercado persa no deserto. O asfalto fica a areia mais quente que conheço. Areia compacta, dura, escura. O Setor Comercial Sul se apresenta como deserto negro, agudo e vertical. O mundo vertical em que vivo. Até mesmo o sexo é vertical. Há uma mendiga mais limpinha. Quando quero sexo vertical, não vou pra casa antes do escurecer.

Certa vez o parceiro dela nos surpreendeu atrás da banca de revistas. Puxou estilete. Fez o gesto de que ia me degolar. Depois caiu de costas de tão bêbado. Os meninos cheiram cola. Os pivetes já levaram muita coisa minha. Pobre não devia roubar pobre. Se ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, pobre que rouba pobre deveria ter cem anos de prisão. Os ônibus são obsessivos. Os ônibus têm a mesma rota. Meu drama se resume a não conseguir chegar em casa.

A Rodoviária bem que poderia também ser mercado. Mercado humano. Os homens e as mulheres sentem o cheiro de cansaço e lascívia. Os ônibus estão carregados de lascívia. A lascívia nos ônibus ocupa muito espaço.

Meu ônibus avança pela Asa Sul.

Dessa vez, creio, estou confiante, chegarei a meu destino. Meu vizinho não gosta que se fale a palavra destino. Ela lembra que em inglês há duas palavras para destino. Destiny e destination. Diabo de homem instruído. Que faz enfiado num buraco? O primeiro é o destino da pessoa. O segundo é o destino da pessoa. Meu vizinho explica. O primeiro é a vida que a gente tem, o fado, o futuro, a fortuna. O segundo é o lugar para aonde se vai. Não se pode confundir o lugar para aonde se vai com o destino maior da gente. O destino da gente está escrito na cabeça da gente. O lugar para aonde a gente vai está escrito na parte dianteira do ônibus.

Meu vizinho foi professor da Fundação. Hoje vive largado dos estudos. Ele diz que os estudos é que o largaram. Ele tenta ler, mas não consegue entender mais nada. A pinga se mostra máquina de fazer velho. Uma máquina de fazer velho gente nova. Meu vizinho é um velho novo. Ou um novo velho. Novelho, meu vizinho. Velhovo, meu vizinho. Ele não se importa. Ele gosta que eu brinque com as palavras. Meu vizinho não tem mais nada na vida além das palavras. Quando a última palavra se for, ele morrerá.

Faço o mesmo percurso, até que enfim chego no meu ponto, desço e aí tudo desaparece. Estrada, ônibus, parada.

No outro dia volto para minha loja. Minha loja não paga imposto. O único imposto que minha loja paga é pra vida. A vida cobra um imposto danado da gente. Vida sovina. A vida quer cada vez mais. Hoje o dia está chuvoso e quando o dia está chuvoso vendo bem guarda-chuva. Tudo barato. Minha vida barata. Como marmita com ovo, lingüiça e arroz. Eu mesmo preparei. Dei um pouco pro meu vizinho. O dia passa rápido. Faturei bastante. Meu destino não sei qual é, mas minha destinação não é mais em direção a Samambaia que vou. Quero mudar de vida.

O ônibus chega. Asa Sul, Zoológico, Núcleo Bandeirantes, Riacho Fundo, Samambaia e por aí vai. Tenho medo de que tudo desapareça de novo.

Estou no sonho de um sujeito que acorda sempre que vai chegar em casa. Ela acorda porque não quer chegar em casa. Não quer reconhecer o pesadelo que é trabalhar de camelô no Setor Comercial Sul, pegar o ônibus suado, viver em pé o dia e a noite, para morar num barraco de invasão.

Estou cansado de morar nos sonhos de pobre. Bem que eu podia amanhã, em vez de morar num sonho onde no final o ônibus desaparece, eu bem que poderia morar num lugar de bacana, num lugar que o sujeito sonhasse que pegava o carro de luxo, tomava a direção do Eixão e fosse até a mansão dele no Lago Norte. E lá ele podia desaparecer com a sogra com Alzheimer, a mulher que embagulhou, o filho porra-louca. E no outro dia eu podia estar no sonho dele e começar tudo de novo até ele chegar em casa no Lago Norte, colocar uma dose de uísque no copo e tudo desaparecer.

O que tenho que fazer para morar no sonho de outro homem? O que tenho de fazer para sair da miséria que é ser apenas morador no sonho de um sujeito que não quer dormir para não sonhar que é ele mesmo?

(imagem retirada da internet: João Câmara)

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Lucia’, a biografia da grande biógrafa

terça-feira, 19 de setembro de 2017

‘Lucia’, a biografia da grande biógrafa


                                                            I
A uma época em que das mulheres da burguesia só se esperava que fossem boas donas de casa e cuidassem bem dos filhos, Lucia Miguel Pereira (1901-1959) foi uma personagem incomum. Ensaísta, romancista, crítica literária e tradutora, ela cumpriu uma trajetória singular, ao se tornar biógrafa dos dois maiores expoentes da Literatura Brasileira no século XIX: Machado de Assis (1839-1908) e Gonçalves Dias (1823-1864). Para recuperar essa história de vida, o poeta, ensaísta e cronista Fabio de Sousa Coutinho escreveu Lucia: uma biografia de Lucia Miguel Pereira (Brasília, Outubro Edições, 2017).

Filha de um médico de muito prestígio – hoje nome de uma cidade do Estado do Rio de Janeiro – e formada no Colégio Sion, da antiga capital da República, tradicional escola católica de ensino básico privado para moças, Lucia foi, acima de tudo, uma mulher de coragem e de personalidade invulgar, que enfrentou “as amarras da sociedade de seu tempo”, como assinalou a escritora Ana Miranda no texto de apresentação que escreveu para este livro.

A um tempo em que mulheres só entravam na Academia Brasileira de Letras (ABL) se fossem acompanhar seus maridos acadêmicos, Lucia, desde cedo, procurou cumprir uma carreira literária, colaborando em jornais e revistas, a partir da Elo, publicação fundada por antigas alunas do Colégio Sion, que durou de 1927 a 1929, com continuidade no famoso Boletim de Ariel, onde exerceu crítica literária até 1937, e na Revista do Brasil, de 1938 a 1943 e, mais tarde, nas páginas dos tradicionais diários Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, e O Estado de S. Paulo,em cujas páginas do seu famoso Suplemento Literário pontificou com textos profundos que mais se assemelhavam a estudos literários.

A erupção de Lucia no panorama literário brasileiro, porém, deu-se com aquela que é considerada a sua obra-prima, Machado de Assis (estudo crítico e biográfico), cuja primeira edição é de 1936 pela Companhia Editora Nacional. Com um estilo elegante e preciso, Coutinho faz uma análise irretocável desse trabalho da então jovem Lucia Miguel Pereira:

            “Lucia fixou, para a eternidade, a vida de um mestiço de origem humilde – filho de um mulato carioca, pintor de paredes e dourador, e de uma lavadeira lusitana da ilha açoriana de São Miguel – que, tendo frequentado apenas a escola primária e sido obrigado a trabalhar desde a infância, alcançou alta posição na burocracia e obteve a consideração social numa época em que o Brasil era ainda uma monarquia escravocrata. É certo frisar que, graças às tendências literárias do imperador Pedro II, o valor intelectual era então mais acatado, em comparação com o econômico e, até mesmo, com os valores hereditários”.

Igualmente importante foi a biografia que fez de Gonçalves Dias, o maior dos poetas brasileiros na segunda metade do século XIX, “perfeitamente caracterizado como romântico e indianista, ao lado de José de Alencar (1829-1877), o fundador do romance brasileiro”, na definição de Coutinho. O livro foi publicado em 1943 pela Livraria José Olympio Editora, 37º volume da Coleção Documentos Brasileiros, com excepcional acolhida pela crítica. Só agora, em 2016, saiu a sua segunda edição pela Edições do Senado Federal.


                                                           II
Se tivesse ficado resumida a essas duas biografias, a carreira literária de Lucia já seria importante, mas de sua obra constam ainda livros clássicos como Ensaio de interpretação da literatura norte-americana (Rio de Janeiro, Sociedade Felipe d´Oliveira, 1943), Prosa e ficção de 1870 a 1920 (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1950), e Cinquenta anos de literatura(Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Nacional, 1952), além da tradução que fez de O Tempo Redescoberto, de Marcel Proust (1871-1922), e de sua co-autoria (organização) com Câmara Reys em Livro do centenário de Eça de Queiroz, publicado em 1945 pela Edições Dois Mundos: Portugal-Brasil.

Sem contar os livros em edição-póstuma com artigos selecionados por Luciana Viégas, como A leitora e seus personagens (1992), que abrange textos saídos entre 1931 e 1943, Escritos da maturidade (2005), seleta de textos publicados em periódicos de 1944 a 1959, e O século de Camus (2015), que reúne quase duas centenas de estudos que apareceram de 1947 a 1955 noCorreio da Manhã e mais de uma dezena no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo em 1957, todos publicados pela Graphia Editorial, do Rio de Janeiro, além de Ficção reunida(Curitiba, Editora UFPR, 2006). É de se notar que Luciana Viégas é autora da tese de doutoramento Escrever para compreender, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 2012, em que faz uma leitura atenta dos escritos da maturidade de Lucia Miguel Pereira.

Em sua incomum capacidade de trabalho, Lucia ainda teve tempo de dedicar-se à literatura infantil, escrevendo quatro romances: A fada menina, que marca sua estréia em 1939, obra reeditada em 1944, e A floresta mágica, Maria e seus bonecos e A filha do Rio Verde, todos publicados em 1943 e sem reedição até hoje.  


                                                           III
Sobrinho afim de Lucia Miguel Pereira, Coutinho, que tinha apenas oito anos de idade quando a historiadora literária morreu, desde cedo alimentou a ideia de escrever a sua biografia. Na verdade, sempre foi considerado “a pessoa ideal para levar a efeito essa grande navegação biográfica”, como disse o poeta Anderson Braga Horta no prefácio que escreveu para esta obra.

É que o autor é sobrinho do grande historiador Octavio Tarquínio de Sousa (1889-1959), com quem Lucia se casou oficialmente em 1939, no Uruguai, já que o noivo à época era desquitado. E recebeu o apoio de vários parentes e amigos do casal, especialmente de Antonio Gabriel, neto de Octavio, mas que foi criado como filho pelo casal, além de personalidades como o embaixador Afonso Arinos, filho, primo de Lucia, que ocupa uma cadeira na ABL.

O parentesco vem do fato de que o médico Miguel da Silva Pereira (1871-1918), pai de Lucia, era irmão do desembargador Cesário Pereira, pai de Anah, mulher do pai de Afonso Arinos, filho, o político udenista Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990). Também o poeta e acadêmico Lêdo Ivo (1924-2012), o professor Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017), cuja mãe era irmã da mãe de Lucia, e o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), amigo do casal, entre outros, contribuíram para que fosse traçado o bem-acabado perfil de Lucia.

Conhecendo profundamente os laços familiares da biografada, Coutinho valeu-se ainda de pesquisas de arquivo para estabelecer a trajetória de vida e literária de Lucia, marcada especialmente por seu trágico desaparecimento a 21 de dezembro de 1959, ao lado do marido, num acidente de avião próximo ao aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, em viagem de retorno de São Paulo, onde o casal havia cumprido um roteiro cultural ao lado de Antonio Candido e sua esposa, a filósofa, crítica literária, ensaísta e professora Gilda de Mello e Souza (1919-2005).

Aliás, o biógrafo recorda ainda que, no dia 3 de dezembro de 1928, Lucia deixara, por insistência da mãe, de viajar no avião que faria um vôo em homenagem ao retorno ao Brasil do aeronauta Alberto Santos Dumont (1873-1932), considerado o pai da aviação brasileira. Esse avião, que iria saudar o navio que trazia o herói brasileiro, entraria em pane ao fazer uma curva brusca para evitar colisão com outra aeronave,  espatifando-se nas águas da Baía da Guanabara. Morreriam seus cinco tripulantes e nove passageiros.


                                                           IV
Fabio de Sousa Coutinho (1951), nascido no Rio de Janeiro, é diplomado em Direito, com mestrado em Direito Internacional e Comparado pela Southern Methodist University (SMU), de Dallas, Texas-EUA. Advogado, já atuou como vogal da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro, subsecretário de Justiça e do Interior do Estado do Rio de Janeiro e advogado do Banco Mundial.

Foi membro da Comissão de Ética Pública da Presidência da República (2009/2012). É membro titular do Pen Clube do Brasil, da Academia de Letras do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e da Academia Brasiliense de Letras, além de sócio-fundador da Confraria dos Bibliófilos do Brasil. Em 15 de abril de 2015, foi eleito presidente da Associação Nacional de Escritores (ANE), de Brasília, para o biênio 2015/2017, tendo sido reeleito para 2017/2019. É colaborador de vários jornais e revistas do País.

É autor de 30 anos de poesia (Poebras, 2008); Differences between civil law and common law procedure as illustrated by Brazil and the United States (1977); O princípio da legalidade (em parceria, 1981); Princípios constitucionais tributários (em parceria, 1993); Leituras de Direito Político (Brasília, Thesaurus Editora, 2004); Juristas na Academia Brasileira de Letras (2006);Três irmãos do Recife (2009); Alfredo Pujol (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Série Essencial, 2011); Elogio de Fernando Mendes Vianna (Brasília, Thesaurus Editora, 2010); Na cadeira de Castro Alves (Brasília, Thesaurus Editora, 2013), Lafayette Rodrigues Pereira (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, Série Essencial, 2011); Em louvor a Drummond(em colaboração, 2012); Cadeira 24: dos rios do Pará aos verdes mares do Ceará (em colaboração, 2013); e  Crônicas de um leitor apaixonado (Brasília, Thesaurus Editora, 2015). Participou da coletânea Espelhos da palavra/Espejos de la palabra (Brasília, Abrace Editora, 2001). Adelto Gonçalves - Brasil

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Lucia, uma biografia de Lucia Miguel Pereira, de Fabio de Sousa Coutinho. Brasília: Outubro Edições, 178 págs., R$ 40,00, 2017. E-mails: fabiodesousacoutinho@terra.com.broutubroedicoes@gmail.com


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Adelto Gonçalves, jornalista, mestre em Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-americana e doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP), é autor deOs Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012) e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015).



terça-feira, 19 de setembro de 2017

O quarto inútil, O difícil exercício das cinzas


 


Havia um muro urdido
na renda de bilro
em que o tempo fiava
a juventude e, ainda nova,
luzia um lugar nítido.
Aos poucos as luzes,
que antes eram nulas e frias
acalantam cantigas
que se perderam entre colunas e becos.
Não voltaremos o rosto
ao frio das manhãs
nem aos acordes sinfônicos
de uníssonos pios
que, como a luz e sua sombra,
ecoavam pelo quarto inútil.
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio 7Letras, 2014)