quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Um homem é muito pouco 14



Street Art

Um dia Yolanda acordou e entendia de artes plásticas. Quis visitar museus, fez viagem à Europa com
Clemente e com Clemente visitou o Prado, o Louvre, a National Gallery, em Londres, e outros museus e galerias. Encontraram-se em Gênova, onde o navio de Clemente parou e ele desceu de férias, como o combinado com o Lloyd. Yolanda queria esquecer a presença de Toninho Marcos que havia aparecido em seus sonhos e em alguns objetos que pegava.
          Entrava na cozinha, pegava o bule no café da manhã e o bule era Toninho Marcos. O bule não era Toninho Marcos, é claro, mas o rosto dele estava no bule tão nítido como se refletisse não a mão grande dela perto do bule, mas o rosto magro e ovalado de Toninho Marcos. Abria o guarda-roupa e Toninho Marcos estava lá dentro, pendurado num cabide. Entrava no táxi, ia pagar o motorista, ele se virava e o motorista era Toninho Marcos.
         Ela não queria trair Clemente e por isso inventou a tal viagem à Europa que ela já tinha tanto ido com os pais e nunca dera tanta atenção aos museus, nem via as igrejas como góticas.
       Para falar a verdade, aquele mundo de antiguidade e arte pertencia ao mesmo universo degradado do pai que vendia sabão. O pai gostava dos museus e das igrejas e logo se o pai gostava do museu e das igrejas e vendia sabão, a pequena Yolanda punha no mesmo saco igrejas, museus e sabão.
       A viagem não fez Yolanda esquecer Toninho Marcos. Ele estava nas gravuras ensandecidas de Goya, nos quadros medievais com guerreiros sobrepostos – como cabia tanta gente num mesmo quadro?, dos quadros da Galeria del Ufizzi, em Florença, nos retratos de Rembrandt e ela não entendia porque Rembrandt havia pintado Toninho Marcos. Nem também entendia como os rostos longos de El Greco todos retratavam Toninho Marcos.
         Durante toda a viagem, Yolanda reclamava do frio europeu e do cansaço de visitar tantos lugares de uma só vez e por isso não ia para a cama com Clemente. As duas únicas vezes que dormira com Clemente o chamara de Toninho e, em certa noite, que sonhava que discutia com Toninho Marcos o valor de um quadro, começou a falar palavras soltas como móbile, arte, vida, arames, Gauguin. Só quando voltou ao Brasil é que Yolanda percebeu não poderia mais viver com Clemente.


(Um homem é muito pouco. São Paulo: Ed. Nankin, 2000)

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