terça-feira, 29 de dezembro de 2015

As palavras interditas, Eugênio de Andrade





Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.


 

           De As Palavras Interditas (1951)




 

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Lição de anatomia, poema RCF





Sou coisa
Algo assemelhado a
lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Oftalmologia, poema RCF




Quando estou cheio de cimento
das cidades
em meus olhos crescem grama
por isso talvez eles sejam verdes.

As pupilas têm o senhor reitor
das jabuticabeiras
e quando é inverno neva histórias
nos afluentes das íris.


(imagem internet: dali shirley temple, 1939)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Andy Warhol, poema RCF





Tu, Andy,
novayorkino polinésio,
Gauguin do Soho,
clichê de tua cabeleira pintada,
paixão em negativo colorido,
na solidão das séries
o tutti-fruti dos desvarios.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)



imagem retirada da internet: andy wharol

sábado, 19 de dezembro de 2015

Nadar quando se voa, poema RCF


 

Um pequeno ser – vespa
ou algo parecido – bate
asas no ar pesado da água.
O ser alado não entende
como seu habitat  se tornou
denso e líquido
e que voa na horizontal,
sem fôlego, à beira da exaustão.
 
Nunca imaginou que existir
exigisse tamanho esforço
e aquilo que era fluido e gasoso
passou a ser um tormento aquoso.
 
Retirado da água,
longe do pesadelo molhado
esquece que um dia esteve
preso a sua própria precariedade
e que nadou numa piscina
como um peixe que voasse.
 
A vespa nos lembra
que, como uma gravidez de pânico,
às vezes esquecemos a dor do parto
de nadar quando se deveria voar
ou voar quando nadar é preciso.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Da linguagem, poema de Hildeberto Barbosa Filho




Meu código
de ira e de uivos
combina signos
perfumados,
sintaxes inauditas.

Na minha frase faz
o tempo vertical.

Meu idioma
é a sobra das coisas
arruinadas.

A poesia bruta
da vida e sua imagens
fraturadas.

Os violinos da morte
numa sinfonia
inacabada.


Hilberto Barbosa Filho publicou Nem morrer é remédio (poesia reunida), pela Editora Ideia, de João Pessoa. Hildeberto reúne aqui todos os livros de sua brilhante carreira.

sábado, 7 de novembro de 2015

Os ruídos das coisas ao cair, Juan Gabriel Vásquez


Os ruídos vindos da Colômbia

 

 

                                                                                     Lourival Serejo

 

 

A literatura colombiana tornou-se mais conhecida e respeitada depois de Garcia Márquez, depois dos “Cem anos de solidão”, precisamente. Arrebatando o Prêmio Nobel de Literatura, em 1982, Garcia Márquez elevou a literatura latino-americana, a ponto de despertar interesse pelo seu estudo e conhecimento em todo o mundo. O escritor laureado tornou-se tão grande, que deixou de ser só da Colômbia para tornar-se um escritor representativo de toda a América Latina, assim como é atualmente o peruano Vargas Llosa, outro ganhador do Nobel de Literatura.

A literatura sul-americana tem a abundância dos fatos reais que distinguem as coisas deste continente, seja no Uruguai, com Onetti; seja no Chile, com Skármeta e Bolaño; seja na Argentina, com Ricardo Piglia; ou no Peru, com Vargas Llosa.

Os escritores colombianos que se seguiram a Garcia Márquez são, de certa forma, seus discípulos, mesmo que não tenham optado pelo realismo mágico. É o caso de Juan Gabriel Vásquez, que nos traz uma obra apoiada em fatos reais da vida social e política daquele país, com o título “O ruído das coisas ao cair” (Objetiva, 2013). Outros escritores colombianos já estão traduzidos no Brasil, como Santiago Gamboa e Efraim Reys, este com o irreverente título “Técnicas de masturbação entre Batman e Robin”.

Interessei-me pela leitura do livro de Juan Gabriel, movido pela curiosidade despertada pelo título e pelo autor, um nome novo que ainda não conhecia, apesar de ser um escritor premiado e com o peso de um currículo grandioso. Não me arrependi da iniciativa, pois fui recompensado com uma leitura  satisfatória.

Trata o romance de Juan Gabriel, vencedor do Prêmio Alfaguara de melhor romance, em 2011, da busca pela história de um amigo de mesa de sinuca, assassinado ao lado do personagem narrador, Antonio Yammara, numa avenida de Bogotá. A partir da busca pela vida de Ricardo Laverde, Antonio, professor de direito, atira-se a unir as pedras de um quebra-cabeça que o faz mergulhar no seu passado, misturado com a história do seu país, e debater-se com suas angústias existenciais, “pois ninguém que viva o suficiente pode se surpreender com o fato de sua biografia ter sido moldada por acontecimentos distantes, por vontades alheias, com pouca ou nenhuma participação de suas próprias decisões”.

Aproveita-se o narrador onisciente para explorar suas memórias: a infância, em Bogotá, a prisão de Pablo Escobar, os protestos estudantis contra a Guerra do Vietnã, a morte de Kennedy e outros acontecimentos das últimas décadas do século passado, incluindo as ações contra o narcotráfico. O livro começa com a narração da morte de um hipopótamo do zoológico de Pablo Escobar. A lembrança do narrador sobre esse fato decorre da impressão que teve ao visitar, às escondidas dos seus pais, esse local quando era estudante. O autor mistura ficção e realidade no enredo do romance, tornando-o mais verossímil.

O ruído que se encontra no livro de Juan Gabriel é a gravação da queda de um Boeing da American Airlines vindo de Miami para Bogotá, no momento em que se preparava para pousar no aeroporto de Cali. Dentre os passageiros mortos, estava a mulher de Ricardo Laverde, Elaine (ou Elena) Fritts, que vinha para reencontrá-lo, depois de muitos anos ausente, devido ao tempo em que estava preso. A fita, adquirida por ele, não se sabe como, continha a gravação da caixa-preta do avião e narrava os últimos momentos de desespero vividos pelos pilotos. A obsessão de ouvir essa gravação passou de Ricardo Laverde para sua filha Maya.

Esse fato ocorreu, na vida real, em 20 de dezembro de 1995. O avião chocou-se com as montanhas próximas do aeroporto, depois de um desvio equivocado na sua rota de descida. O apelo dramático dos pilotos, tentando subir a aeronave, quando perceberam o erro, é o mesmo que intitula o último capítulo do livro: Sobe, sobe, sobe.

A partir do segundo capítulo de “Os ruídos das coisas ao cair”, o autor consegue envolver o leitor na busca das respostas que ele e  a filha de Ricardo Laverde procuram para entender a vida de um homem desconhecido para ambos e que, pelas circunstâncias da sua morte, deixou a curiosidade como herança para aqueles que se aventuraram a penetrar no labirinto de sua vida.



quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Para fazer um soneto, poema Carlos Penna Filho

Aldemir Martins - Dois Gatos Azuis

Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse,
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O homem do violão azul, Wallace Stevens






I

Homem curvado sobre violão,
Como se fosse foice. Dia verde.
Disseram: "É azul teu violão,
Não tocas as coisas tais como são".
E o homem disse: As coisas tais como são
Se modificam sobre o violão".

E eles disseram: "Toca uma canção
Que esteja além de nós, mas seja nós,
No violão azul, toca a canção
Das coisas justamente como são".

II

Não sei fechar um mundo bem redondo,
Ainda que o remende como sei.
Canto heróis de grandes olhos, barbas
De bronze, mas homem jamais cantei.
Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.
Mas se cantar só quase ao homem
Não chega às coisas tais como são,
Então que seja só o cantar azul
De um homem que toca violão.



(tradução Paulo Henriques Britto)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Saudação a Edmílson Caminha, Fabio Coutinho


      O escritor que hoje recebemos no glorioso e octogenário PEN Clube do Brasil figura entre os melhores cronistas da língua portuguesa, sejam quais forem a época, o lado do Atlântico e o continente de que se a observa. Infelizmente, contudo, uma calada conspiração da indiferença umbiguista impede que se saiba disso, não apenas em Portugal e na África, mas também nas regiões Sudeste e Sul de nosso país. Até hoje, a extensa obra de Edmílson Caminha, cultivada com esmero, paciência, criatividade e originalidade por este artífice do vernáculo, era de conhecimento exclusivo do Ceará, do Distrito Federal e de alguns privilegiados leitores de fora, como o poeta e biógrafo baiano João Carlos Teixeira Gomes, para quem Caminha é autor de “um dos mais lúcidos e profundos estudos existentes na nossa crítica sobre a relevância do memorialismo como criação literária, (...) em que ele efetua, pela primeira vez, a classificação e a tipologia do gênero.”

      Já destacou, também, Teixeira Gomes, que “do mais alto relevo são (...) as revelações contidas em estudo básico sobre Rachel de Queiroz, editado pela Academia Brasileira de Letras, relembrando as passagens essenciais da vida da magnífica romancista.”

      A eleição de Edmílson Caminha para o PEN Clube do Brasil, o reduto nacional da promoção da literatura e da defesa da liberdade de expressão, surgiu, assim, com o propósito de sanar essa gritante falha de autoconhecimento da cultura brasileira.

      No parágrafo vestibular do capítulo intitulado Massangana, de seu clássico Minha Formação, o inigualável Joaquim Nabuco assinalou: “O traço todo da vida é para muitos um desenho de criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá sempre que se cingir sem o saber...”

      Viajante contumaz, hoje conhecedor dos quatro cantos do planeta Terra, Caminha soube invariavelmente carregar, na mala que leva sobre a cabeça, a origem cearense de que sobremodo se orgulha, a do menino que nasceu, cresceu e se fez homem em Fortaleza, mas dela partiu para o mundo, fixando tudo em crônicas saborosas, captando o novo e a novidade como a criança intelectualmente curiosa que sempre foi e registrando-os em livros cultos, prazerosos, instigantes.

      A impressão que sobeja da fatura literária de Edmílson Caminha é a de que o livro é quase a concretização de um múnus público, ou seja, algo que dá aos outros qualquer coisa em termos de informação, de distração, de direito à felicidade. Um texto que faz o leitor ficar pensando nos viajantes, na geografia, na história, deixando fluir a imaginação, até mesmo embarcando com o autor. Nas palavras inspiradas do fenomenal escritor espanhol Javier Marías, “às vezes tenho a sensação de escrever prosa com a paciência e o senso de rítmo com que o poeta escreve seus versos.”

      E não basta escrever bem, tão bem que o leitor,  a certa altura, pare de ler porque não segue uma aventura de viajante atento, observador, perspicaz, mas um mero, burocrático e enfadonho roteiro literário. Escrever é uma serventia oferecida à sociedade, a exemplo da medicina, da arquitetura, da carpintaria. É, como evidenciam os livros de Caminha, uma prestação de serviço público, pois ele escreve para os outros, para quem, por enquanto, não pôs a mala na cabeça, mas, se  e quando o fizer, será um viajante mais completo, mais educado e sábio.

      Em suma, o novo Membro Titular do PEN não escreve, jamais escreveu, para si, nem para seu grupo de amigos, muito menos para os críticos. Fá-lo erga omnes.

      Querido confrade Edmílson Caminha: sem conseguir escapar da força avassaladora do duplo sentido de um trocadilho, vislumbro que Vossa Senhoria ainda está fadado a alçar novos e mais altos vôos. Aqui, nesta bela sede do PEN Clube do Brasil na Cidade Maravilhosa, de há muito era urgentemente esperado. A casa é sua: pode entrar, instalar-se na cadeira que conquistou com tantos méritos e competência tanta e conviver fraternalmente, enquanto merecermos o extraordinário dom da vida.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O nobre sequestrador, Antônio Torres


Duguay-Trouin com o Rei Louis XIV

O sequestro do Rio


Ronaldo Costa Fernandes


A tomada do Rio de Janeiro pelo corsário francês René Duguay-Trouin, que, durante dois meses manteve a cidade sob seu jugo em 1711 e exigiu uma fortuna para devolvê-la, é o tema do romance do escritor Antônio Torres intitulado O nobre sequestrador.
Antônio Torres é um velho lobo do mar, para usar linguagem marítima. Autor maduro, de larga trajetória, Torres envereda pelo romance histórico de maneira original, usando vozes diversas, recursos narrativos densos e variedade de tempo e espaço.
A diferença entre pirata e corsário deve ser estabelecida. O pirata é um bandido por contra própria, um empreendedor privado; o corsário é um bandido subsidiado pelo rei, um empreendedor estatal. Se os capitais para a empresa são diversos, o objetivo final é idêntico: o roubo, a pilhagem, a destruição de cidades. René Duguay-Trouin manteve a cidade do Rio de Janeiro sitiada e só a libertou em troca de vinte milhões de cruzados, mais ouro, prata, 27 canhões, 1167 barbatanas de baleia, 750 volumes de lonas, cem caixas de açúcar, duzentas cabeças de gado e inúmeras outras mercadorias e objetos. O corsário, em nome de um direito internacional de cabeça para baixo, de uma Europa em permanente litígio e a América e os mares vistos como terra de ninguém, vagava pelos oceanos com o aval do Rei Luís XIV.
O nobre sequestrador, em sua primeira parte, excetuando um exórdio carnavalesco, onde mistura presente e linguagem coloquial brasileira com o século XVIII e a história ainda a ser contada do personagem que ele elegeu, é uma narrativa realista, colada ao texto das memórias verdadeiras de René Duguay-Trouin. Está cheia de dados, números, referências a documentos, presa a datas e fatos precisos. Nesta primeira parte, quem narra a história é o próprio Duguay-Trouin. Conta-nos não apenas a tomada do Rio de Janeiro como sua juventude e ingresso na vida de homem do mar, aventureiro, filho da cidade conhecida pelos seus corsários: Saint-Malo. Ainda nesta primeira parte, o francês, ou melhor, a estátua do francês visitada pelo narrador do romance, trezentos e tantos anos depois, de uma perspectiva histórica cronológica impossível, mas verossímil como ficção, conta-nos os feitos de sua vida aventureira.
Na segunda parte, surge uma mistura do velho narrador René Duguay-Trouin e um narrador onisciente que atualiza a história. Este narrador relata o aparecimento da curiosidade do pesquisador brasileiro em relação ao corsário, conta suas viagens à França em busca de informação complementar, sua demissão do trabalho de publicitário ( e divagações ligeiras sobre a velhice ). Retorna ao relato, agora através de um diário impessoal, narrado em terceira pessoa, com a descrição simples das ações para a tomada da cidade do Rio de Janeiro.
Uma terceira e última parte vem se acrescentar: o narrador passa a ser a própria cidade. Ofendida, machucada, ressentida, violentada.
Este vaivém narrativo enriquece o romance, atualiza-o, dá-lhe um viés da pós-modernidade: metaficção historiográfica. Outra face contemporânea dá-se na ucronia ( “tempo histórico maluco, em que Júlio César duela com Napoleão e Euclides consegue demonstrar o teorema de Fermat” – Umberto Eco ). Revela-se principalmente no fato de a estátua dialogar com o narrador-investigador da vida corsária de René Duguay-Trouin, a mistura de tempos diversos e da visão de apreender a História como mais um texto. Mas há, contudo, um dado inquietante: os narradores insistem em perpetuar a memória do corsário. Não desfazem ou humanizam a figura do personagem histórico. Esta é uma questão que vale a pena ser levantada do ponto de vista mesmo do autor: por que a preocupação de manter a imagem de herói para o corsário? Ora, René Duguay-Trouin é um bandido real, um saqueador, pode ser herói para a França, mas não há heroísmo nenhum no fato de nós, brasileiros-cariocas, termos sido saqueados por um francês.
Antônio Torres, porém, é um mestre da narrativa. Com pulso forte, pena da galhofa e ironia sem melancolia, Torres nos sequestra para sua aventura narrativa e nos fascina com dois mundos: Saint-Malo e Rio de Janeiro. E lança-nos em dois tempos: passado e presente convivendo no tempo histórico da trama.

imagem retirada da internet:Duguay-Trouin com o Rei Louis XIV

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Canteiros, Cecília Meireles






Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.




 

DEUS DE CAIM, de Ricardo Guilherme Dicke



Dicke: a reparação de uma injustiça literária Adelto Gonçalves (*)

I

Em algum lugar, este articulista já escreveu – e repete-o agora – que, daqui a cem anos, o historiador literário que pretender traçar um inventário da melhor literatura produzida no Brasil na segunda metade do século XX e nas primeiras décadas do século XXI não poderá se limitar a consultar as listas dos livros mais vendidos das revistas semanais nem os catálogos das grandes editoras.

Se o fizer, correrá o risco de cometer equívocos, tal como o investigador que se satisfaz ao compulsar apenas a documentação oficial de determinado período histórico – porque acaba por ficar com a visão de apenas um lado da História e exatamente o mais forte e opressivo. Afinal, boa parte da literatura de melhor qualidade vem sendo publicada no Brasil por pequenas editoras fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro.

Basta ver que nenhuma das casas editoriais paulistas e cariocas de hoje ocupou o vácuo deixado pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro, que, da década de 1940 até meados da década de 1980, cumpriu exemplarmente o papel de incentivar os jovens talentos, revelando um grande número de romancistas, contistas e poetas que hoje fazem parte da história da Literatura Brasileira.

Uma prova do que se escreve aqui é o romance Deus de Caim, de Ricardo Guilherme Dicke (1936-2008), que agora sai em terceira edição pela editora Letra Selvagem, de Taubaté-SP, depois de ter sido publicado pela Edinova, do Rio de Janeiro, em 1968, e pela Gráfica Sereia, de Cuiabá, em 2006. Se tivesse sido lançado à época pela José Olympio, teria seguido um percurso natural, ganhando maior divulgação na imprensa e adquirido o foro de grande revelação literária. Afinal, em 1967, o romance conquistara o quarto lugar do Prêmio Nacional Walmap, o mais importante do País à época, depois de analisado por um júri integrado por Guimarães Rosa (1908-1967), Jorge Amado (1912-2001) e Antonio Olinto (1919-2009).

O primeiro lugar ficou com Jorge, um brasileiro, de Oswaldo França Júnior (1936-1989). Olhando-se a uma distância de 45 anos, é de reconhecer que o júri não andou mal ao escolher o livro de França que, talvez até em função da premiação ou do ativismo literário do próprio autor, tornou-se mais conhecido e teve melhor fortuna crítica, assim como boa parte da produção do escritor mineiro, ainda que se possa dizer que, literariamente, o romance de Dicke é mais bem trabalhado e cerebral. Por isso, mereceria ter tido melhor sorte.

II

Ao contrário de Oswaldo França Júnior, que, morando em Belo Horizonte, teve alguns de seus livros publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, e, dentro das limitadas dimensões da literatura num país ainda extremamente inculto, tornou-se um nome conhecido nacionalmente, Dicke teve uma carreira literária, praticamente, ignorada, ainda que tenha sido citado por alguns raros autores e estudiosos, que conheciam a sua obra e reconheciam sua importância. Entre aqueles que se referiram com entusiasmo à obra de Dicke estão Hilda Hilst (1930-2004), Nélida Piñon (1937) e até o cineasta Glauber Rocha (1939-1981), que chegou ao exagero de afirmar que Dicke era “o maior escritor vivo do Brasil, mas que ninguém o conhecia”.

Quem consultar hoje o Google talvez venha a concluir que foi preciso que Dicke morresse para que seu nome passasse a se tornar mais conhecido. De fato, hoje, já não é tão desconhecido assim. E até já ultrapassou os muros da universidade. Em 2005, Juliano Moreno Kersul de Carvalho, mestre em História pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), apresentou a dissertação “Do sertão ao litoral: a trajetória do escritor Ricardo Guilherme Dicke e a publicação do livro Deus de Caim na década de 1960”. Para escrevê-la, teve a oportunidade de consultar o arquivo particular do autor. É de sua autoria o prefácio da segunda edição, reproduzido também nesta terceira edição.

Em 2011, Luciana Rueda Soares, professora de Língua Portuguesa, também obteve o seu mestrado em Letras pela UFMT com a dissertação “A configuração das personagens em Madona dos páramos, de Ricardo Guilherme Dicke”, mas, antes disso, já escrevera o artigo “Ricardo Guilherme Dicke e a marginalização do sistema literário tradicional brasileiro”, fruto das pesquisas para a sua tese de mestrado, em que aborda a questão da ausência de escritor no cânone literário nacional.

Luciana afirma que essa constitui apenas uma das muitas injustiças que ocorrem em uma sociedade em que uma elite intelectual determina o que tem valor estético ou não. Para ela, “são muitos os excluídos da lista canônica, mas com o avanço e a globalização das informações é só uma questão de tempo e oportunidade para que essa questão seja revista”. Ainda bem. Aliás, a reparação dessa injustiça começa a ser feita pela terceira edição de Deus de Caim, pela Letra Selvagem, que vem alcançando grande repercussão nos jornais que ainda dedicam espaço à literatura. Com essa (re)descoberta do grande autor que Dicke sempre foi, o que se espera é que as dissertações de Juliano Moreno Kersul de Carvalho e Luciana Rueda Soares também sejam publicadas em livro em breve.

Sem contar que a terceira edição de Deus de Caim traz também uma apresentação de Nelly Novaes Coelho, professora titular da Universidade de São Paulo, em que a renomada crítica literária diz que este labiríntico romance “deu início à grande obra que Ricardo Guilherme Dicke realizou durante toda a sua longa vida”.

III

Dicke nasceu em Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso, onde passou a infância. Era filho de um alemão que viveu no Paraguai e mudou-se para o Brasil. Já adulto, passou a morar em Cuiabá, onde chegou a escrever o seu primeiro livro, Caminhos de Sol e Lua. Ainda bastante jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se licenciou em Filosofia e especializou-se em Merleau-Ponty (1908-1961) e fez mestrado em Filosofia da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estudou pintura e desenho e participou do Salão de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1966.

A essa época, trabalhou como revisor, redator e tradutor e foi repórter de O Globo. Depois da publicação de Deus de Caim em 1968, resolveu voltar a Cuiabá, onde trabalhou como professor e jornalista e fez várias exposições de seus quadros. Ao morrer, aos 72 anos, deixava uma obra respeitada por alguns intelectuais, mas ao mesmo tempo ignorada. Seus livros, na maioria, foram publicados por editoras pequenas, em tiragens reduzidas, e repercutiram pouco na imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo. Ao que parece, deixou ainda algumas obras inéditas nas mãos da viúva, Adélia Boscov, com quem casara aos 26 anos de idade.

Publicou ainda Como o silêncio (1968), Caieira (1978), Madona dos páramos (1981), Último horizonte (1988), A chave do abismo (1986), Cerimônias do esquecimento (1995), Rio abaixo dos vaqueiros (2001), Salário dos poetas (2001), Conjunctio oppositorum no Grande Sertão (2002) e Toada do esquecimento & sinfonia eqüestre (2006).

IV

Inspirado em conhecido mito bíblico, Deus de Caim conta a história de dois irmãos gêmeos, Jônatas e Lázaro, que se apaixonam pela mesma mulher, Minira, localizando-os em Pasmoso, cidade inventada assim como a Yoknapatawpha, de William Faulkner (1897-1962), a Macondo, de Gabriel García Márquez (1927), e a Santa Maria, de Juan Carlos Onetti (1909-1994), imaginada no interior do Mato Grosso. Com estilo denso, Dicke leva o leitor para um mundo dominado pelo ódio e pela incompreensão, em que todos parecem condenados ao inferno.

Na apresentação que escreveu para o romance, o escritor e crítico Ronaldo Cagiano diz que Deus de Caim “se converte numa escritura das paixões e desatinos humanos; é também fruto de uma catarse do autor e de seus personagens, tal o fluxo desordenado, eruptivo e fulminante com que sua narrativa, tecnicamente apurada, vai se processando”. E observa que, “ao traçar um painel da vida rural e urbana do Mato Grosso, Deus de Caim desvela também as tensões sociais da época, o garroteamento da liberdade, a relação entre a civilização e a barbárie, entre o campo e a cidade, entre a descrença e a utopia, entre o imperativo da modernidade e os grilhões do atraso”.

Já no prefácio que escreveu para a primeira edição de Deus de Caim, o acadêmico Antonio Olinto comparou o estilo de Dicke com o de Louis-Ferdinand Céline (1894-1961), embora soubesse que o escritor matogrossense nunca havia entrado em contato com a obra do francês. E observou que “o estilo e os temas de Céline andavam no ar e outros escritores os pegavam sem precisar de leitura”. Para o crítico, ambos os escritores usam “uma linguagem de ódio”, embora Dicke use também “uma linguagem de amor, não o romântico, o de puro sentimento, mas o erótico, o da loucura de Eros que, felizmente, o mais civilizado dos homens e a mais industrial das sociedades ainda são capazes de ter”.

O que é de admirar é que um romance dessa qualidade tenha passado, praticamente, despercebido pela crítica e pelas grandes editoras (e, por extensão, pelo leitor) durante tanto tempo. A culpa, com certeza, não cabe ao autor.

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DEUS DE CAIM, de Ricardo Guilherme Dicke. Taubaté-SP: Letra Selvagem, 2010, 400 págs., R$ 40,00. E-mail: letraselvagem@letraselvagem.com.br Site: www.letraselvagem.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br

terça-feira, 13 de outubro de 2015

A maldição da estreia, Antonio Carlos Secchin



Costumamos imaginar dois tipos de avaliação de um autor experiente quanto a seu livro de estreia: endosso ou rejeição. Mas, entre os dois extremos, a gama de reações parece infindável, como veremos a seguir, acompanhando as estratégias de afamados escritores brasileiros do século XX frente a suas primeiras obras, no campo da poesia.

Na ponta do endosso, um nome que avulta é o de Manuel Bandeira. Lançou "A Cinza das Horas" em 1917 (contava, então, com 31 anos) e até o fim da vida não cessou de reeditar o volume, ainda que ele próprio já houvesse substituído a dicção parnaso-simbolista da obra inicial pela linguagem modernista, soberana a partir de "Libertinagem" (1930).

Na ponta do "não" radical, Cecília Meireles. Publicou aos 18 anos (em 1919) o opúsculo "Espectros", de fatura neoparnasiana. Não contente em jamais reeditá-lo, chegou ao ponto de sequer permitir que o livro fosse arrolado em sua bibliografia. Em decorrência, "Espectros" tornou-se um dos mais fantasmagóricos mistérios das letras brasileiras: durante mais de 80 anos se chegou, até mesmo, a conjecturar que não restara sequer um exemplar para contar a (pré-)história ceciliana. Finalmente localizado no início do século XXI, foi incorporado à "Poesia Completa" da escritora, na edição comemorativa de seu centenário de nascimento.

Guimarães Rosa tampouco pensou em endossar suas primícias poéticas - que representaram, aliás, no conjunto do autor, uma solitária incursão ao gênero. Bem antes de consagrar-se como notável ficcionista, a partir de "Sagarana" (1946), Rosa obtivera com "Magma", em 1936, o primeiro lugar em concurso de poesia promovido pela Academia Brasileira de Letras. Somente em 1997, 30 anos após a morte do escritor, foi publicado o volume, que em quase nada lhe prenuncia o talento.

Vinicius de Moraes renegou na íntegra "O Caminho para a Distância" (1933), fazendo constar, num adendo a bibliografias posteriores, que a edição fora "recolhida pelo autor". Publicada quando Vinicius contava 20 anos, tributária do influxo da poesia de Augusto Frederico Schmidt e do pensamento católico, a obra estampa uma visão atormentada e culposa do desejo, bem diversa daquela que o poeta em breve iria abraçar.

Já no extenso arco das estreias rejeitadas, "ma non troppo", figura "Há uma Gota de Sangue em Cada Poema" (1917), de Mário de Andrade, sob pseudônimo de Mário Sobral. O poeta afirmava que escritor algum deveria publicar antes dos 25, mas, no fim (ou no início) das contas, acabou desprezando a regra que ele mesmo criara, pois aos 24 anos editou a plaquete. É verdade que excluiu o volume de suas "Poesias" (1941), mas o preservou por inteiro em "Obra Imatura" - no caso, o adjetivo "imatura" parece sinalizar quase um pedido prévio de complacência ao distinto público.

Cassiano Ricardo opera em sentido diverso: aparentou preservar o pioneiro "Dentro da Noite" (1915), publicado aos 20 anos, nas "Poesias Completas" de 1957, mas o descaracterizou de tal modo que, dos 43 textos originais, apenas 5 reapareceram - ainda assim, com várias (não explicitadas) alterações. Como se não bastasse, enxertou, em 1957, dois poemas inexistentes na versão de 1915, dando a entender que houvessem desde sempre integrado o primeiro livro.

Nesse particular, Cassiano foi o mais camaleônico de nossos modernistas, sem pejo de reinventar continuamente o próprio passado, e considerando-se desobrigado de dar notícia das transformações (muitas vezes radicais) que efetuava em obras pregressas, tornando-as a posteriori mais "modernas" do que efetivamente haviam sido. Assim, um poema discursivo, originalmente em 50 versos, intitulado, em 1947, "A Inútil Serenata", ressurge em 1957, renomeado, sem aviso prévio, de "Serenata Sintética", e reduzido à concisão exemplar de seis escassos versos: "Lua/ morta/ rua/ torta/ tua/ porta".

Na esteira de Cassiano, outro poeta de São Paulo, Mário Chamie, também timbrava pela radical e subterrânea reescrita do passado. Chamie, aliás, foi bastante próximo de Cassiano Ricardo, a cuja obra dedicou minucioso estudo. A manutenção do título é o único ponto comum entre o "Espaço Inaugural" de 1955 (quando Mário tinha 22 anos) e o de 1977 (incluído em "Objeto Selvagem"). A versão de 1977 suprime na íntegra todos os poemas originais, substituindo-os por peças mais afins da estética do movimento de vanguarda Práxis, lançado e capitaneado por Chamie no início da década de 1960.


Com Murilo Mendes ocorreu fenômeno curioso: não renegou o primeiro e sim o segundo livro, "História do Brasil" (1932), por julgá-lo limitado demais ao compromisso para com o filão de poesia satírica e humorística do modernismo de 22. Na "Advertência" a suas "Poesias" (1959), assim justificou a eliminação dessa obra e o grande número de alterações impostas à versão original de outros livros: "Para esta edição revi inteiramente todos os textos, tendo também suprimido vários poemas que me pareceram supérfluos ou repetidos. Procurei obter um texto mais apurado, de acordo com a minha atual concepção da arte literária. Não sou meu sobrevivente, e sim meu contemporâneo". Agiu, portanto, conforme outros agiram, no sentido de uma modernização estilística, tendo, porém, o zelo de tornar pública a intervenção renovadora.

João Cabral de Melo Neto oscilou bastante nos procedimentos de inserção dos poemas de "Pedra do Sono" no conjunto de sua obra. O autor, que contava 22 anos quando o livro veio a lume (1942), sempre o considerou o mais frágil de sua produção, pela ostensiva presença de um veio surrealista, em pouco tempo eliminado (e execrado) pelo poeta. Ainda assim, os "Poemas Reunidos", de 1954, abrigam 24 dos 29 textos primitivos, destituídos dos respectivos títulos, e identificados em sequência de algarismos romanos. As "Poesias Completas", de 1968, reduziram a 20 poemas o espólio do livro, devolvendo-lhes os nomes e alocando-os no fim do volume. A "Obra Completa", de 1994, derradeira manifestação do autor sobre a questão, reconstituiu a integralidade de "Pedra do Sono".

Mais recentemente, Ferreira Gullar, que antes excluíra "Um pouco acima do Chão" (de 1949) da coletânea "Toda Poesia" (1980), chancelou o retorno da obra, desde que circunscrita ao "Apêndice", à sua "Poesia Completa, Teatro e Prosa" (2008). Os versos adolescentes, publicados na São Luís natal, vazavam-se em tom celebratório eivado de inflexões neorromânticas, numa atitude bastante diversa do complexo e filigranado trabalho de linguagem que Gullar desenvolveria, cinco anos depois, na forte poesia de "A Luta Corporal".

Se muitos poetas abandonaram o primeiro livro, houve um que jamais conseguiu dele sair: Raul Bopp. Com efeito, mesmo que tenha publicado alguns (poucos) títulos poéticos posteriores, Bopp persistiu inelutavelmente atrelado a "Cobra Norato", de 1928, de que passou a fornecer sucessivas edições com retoques, nem sempre felizes. Na contramão da maioria dos escritores, instalou-se para sempre no corpo de sua (c)obra inaugural.

Como a regra, porém, é o repúdio ou a restrição, em menor ou maior intensidade, ao "livro de estreia", poderíamos, com algum cinismo, sugerir aos jovens poetas que iniciem a carreira pelo segundo livro. Mas, se nos lembrarmos do exemplo de Murilo Mendes, o mais seguro, mesmo, é começá-la pelo terceiro.



(fonte: Valor Econômico de hoje; imagem retirada da internet: feira do livro)

Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta e membro da Academia Brasileira de Letras

domingo, 11 de outubro de 2015

O Cachorro e os Cães, conto de Jádson Barros Neves





De tarde, sentados no tronco de uma castanheira caída, três homens conversavam na clareira brilhante e silenciosa. Deitado na rede, no canto mais sombrio da palhoça, Severino contemplava-os em silêncio.

Depois, a velhinha enquadrou-se na porta, um vulto ligeiro e escuro como um rato, que logo sumiu para outra parte da cabana. Ela revolveu o borralho e retirou a banana com casca de cima das brasas. Em seguida, soprou as cinzas, pôs gravetos e lenha e despejou álcool. A madeira crepitou, o fogo explodiu, e Severino pensou que fosse incendiar as palhas.

O leite de pinhão-bravo fechara-lhe a ferida, e, mesmo inchada, a perna esquerda já lhe permitia algum movimento. “Sorte sua não ter acertado um osso ou o joelho...” ralhava a mulher, enquanto trocava a atadura. Uma rajada de metralhadora, girada em meia-lua – o cortar sibilante das balas que desapareceriam na mata –, deixando um homem morto e cinco em fuga.

Quando a velha saiu, Severino voltou a olhar para fora, mas não viu mais os três homens. Atrás do acampamento deserto, a floresta escurecia. Severino fechou os olhos e tentou adormecer. Depois de algum tempo, a velhinha reapareceu. Ela fazia tudo com desvelo, causando nele a impressão de sempre deixar desaparecidos seus passos órfãos e miúdos. Entregou a Severino o mastruço na garrafa e as ataduras.

Quando a sombra oblíqua das árvores já avançava pela clareira, apareceu um homem trazendo comida e água, que deixou perto da rede. Era alto, barbudo, de pele trigueira. Severino vira-o algumas vezes, comprando nos armazéns de secos e molhados.

– Os últimos partiram hoje. Vamos voltar para a cidade e ficar quietos por uns tempos. Amanhã cedo, alguns companheiros vêm buscar você, e você vai para outro acampamento. Levo sua cartucheira e estou deixando minha carabina e uma caixa de munição.

– Tudo bem – disse Severino, acomodando-se na rede.

– Camuflamos trabucos em toda a área de acesso à clareira. Protegemos as espoletas com cera de abelha, para não molharem ao sereno. Quem tocar as linhas de cobre vai levar tiro. Se algum crefo disparar, saia daqui e desça até o rio. Lá, você encontra uma canoa com motor, se precisar fugir.

– E Nuta?

– Contam que está preso, mas não sabemos se é verdade... Agora estão procurando por nós. Acham que você lhes preparou uma cilada. Somente ontem à tarde enviaram um pelotão para buscar o cadáver do policial. Hoje, mandamos as mulheres e as crianças para a cidade.– Estendeu a mão para Severino. – Até amanhã, companheiro. Procure se cuidar.

Quando o homem saiu, Severino ficou ouvindo o ruído cuidadoso das botinas que se afastavam, como o pisado macio de um animal nas folhas. Longe, alguém assobiou, e um longo assobio respondeu das imediações da palhoça. Em seguida, mais dois ou três assobios repetiram-se, como numa ressonância de espelhos, e então silenciaram.

A noite subiu pelo retângulo da porta, até escurecê-la, suavizando as árvores e as barracas ainda cobertas de lona plástica. Nos dias anteriores, Severino observara uma mulher muito jovem amamentar uma criança. A cabana dele era coberta com palmas de açaí, e estava enfiada na floresta, sob árvores enormes, perto da clareira.

Aproveitou a última claridade para atar a rede num local seguro. O homem tinha-lhe deixado uma lanterna, fumo, palha de cigarro e óleo de cozinha contra os mosquitos. Severino esticou-se na rede, ouvindo os últimos piados dos jaós. Depois, encostou a espingarda e a lanterna ao lado da perna doente, e ficou ouvindo o ruído da própria respiração, tentando adormecer.

A culpa de tudo era de Nuta, de sua mania de falar às gargalhadas, abrindo o bigode feito asas e encolhendo as perninhas sobre a cadeira. Contava qualquer fato como se fosse para todo mundo ouvir. Na tarde de terça-feira, ele andara bebendo na zona e tinha revelado que sabia onde os posseiros estavam. Sabia, disse, porque Severino tinha dito.

Na quarta-feira, depois do jantar, Nuta apareceu na casa de Severino, acompanhado por um sargento e por dois policiais à paisana. Foi logo anunciando quem levaria os policiais ao acampamento: não ele, Nuta, com a mulher acamada pela malária. Severino explicou que os acampamentos sempre mudavam de lugar. Era difícil achá-los. Existia muito boato, isso sim. Mas o sargento foi falando com calma, dizendo que Severino era o melhor batedor dali, conhecia cada palmo da selva próxima, era o único que poderia ajudá-los. E ainda lhe contou sobre uma recompensa oferecida pelos fazendeiros.

“Então até amanhã”, disse-lhe o homem. “Mas sua resposta é sim”, acrescentou em tom peremptório. “Tem de ser sim...”

Na manhã seguinte, apareceram dois policiais. Com eles, um velho conhecido de Severino, um rapaz de traços indiáticos, que da noite para o dia surgiu fardado na cidade, pondo ordem nos bordéis. Houve uma época em que ele e Severino caçavam juntos: faziam varridas para os bichos andarem na floresta ou armavam cartucheiras nos carreiros por onde passavam caças. Depois, o rapaz tornou-se policial, e então os dois se afastaram. Severino possuía um bar, onde também comprava ouro. Nessa manhã, ele o rapaz se falaram novamente.

“Um dinheirinho a mais não faz mal. Você não acha?” o rapaz comentou.

“Talvez ajude na época das chuvas, quando fecham os garimpos”. E Severino sorriu amargo, olhando a serra azulada pela distância.

“Então amanhã cedo, senhor Severino?”

“Sim, podem passar amanhã”.

Nuta apareceu de tarde com outra conversa. Dessa vez conservou o bigode sossegado e as pernas gambitas quietas, e contou sobre a bifurcação do caminho.

Severino derretia ouro em pó, inclinado sobre o prato de aço, e balançou o maçarico aceso perto do rosto de Nuta:

– Você, você, sempre me deixando em apuros... Não se pode falar nada, que logo espalha para o mundo inteiro.

Esperou que o ouro esfriasse até solidificar. Em seguida, guardou a pepita junto com outras, num bauzinho de madeira.

– Eu vim contar sobre a bifurcação dos caminhos – defendeu-se Nuta.– Na selva, o caminho se abre em dois. Pegue a trilha da direita e se atrase, deixe os polícias seguirem na frente. Quando passarem pela primeira castanheira, à direita, conte até cem passos, aí corra e se enfie no mato.

– Por que tudo isso agora, Nuta?

– Porque se você usar a trilha da esquerda vai levar até as crianças e as mulheres. São dois acampamentos. Num, estão os homens; no outro, as mulheres com as crianças. Imagine cinco ou seis policiais com metralhadoras e fuzis invadindo um acampamento onde só há crianças e mulheres...

– E o que vai acontecer depois?

– Nem me pergunte. Apenas corra e não olhe para trás. Agora está entendendo por que contei que somente você poderia levar eles até o acampamento? Eu não daria conta de correr...

Quando Nuta saiu, Severino varreu o bar e escondeu o bauzinho dentro de uma caixa de sapatos debaixo da cama. Parecia um animal, andando nas sombras do anoitecer. Era um homem baixo, de pele curtida pelo sol, cabelo cor de madrugada, e tinha uns olhos de gato que pareciam enxergar no escuro.

Dormiu um sono breve e agitado.

De manhã, bem cedo, já o esperavam. Eram seis homens. Traziam fuzis, e um deles carregava uma metralhadora. Severino subiu na carroceria da camioneta, onde já estavam quatro policiais. Os outros dois iam dentro da cabine, com o motorista.

Até perto do meio-dia, o veículo rodou velozmente pela estrada de piçarra. Para trás, ficavam as volutas de poeira vermelha. Os homens da carroceria viajavam cabisbaixos, procurando proteger-se do vento e do pó.

À medida que se aproximavam da fazenda, as árvores ficavam maiores. A certa altura, o veículo saiu da estrada principal e ganhou uma estradinha semelhante a dois caminhos paralelos. Não demoraram a chegar à fazenda. O capataz veio recebê-los, e Severino ouviu-o comentar com um dos policiais algo sobre o desaparecimento de reses. Almoçaram e, em seguida, continuaram a pé.

“Agora a coisa é com a gente, senhor Severino. A gente e o seu faro de vira-lata”.

Seguiram ao largo do pasto, que de tão extenso não mostrava a outra margem. Havia bois brancos pastando. Às vezes, erguiam a cabeça de dentro do capim e ruminavam os passantes nos olhos úmidos. Severino caminhava na frente, mantendo a cartucheira com o cano voltado para baixo. Os policiais contavam lorotas, divertiam-se com prisões de bêbados e putas. “Temos de deixar o xadrez com algumas cabeças, senão ficamos sem o que fazer.”

Após uma hora de caminhada, estavam diante da selva. Descansaram um pouco. Os policiais se detiveram, antes de retomar a marcha, olhando as árvores seculares, gigantescas, sufocadas por cipós. Ouviram gritos de animais desconhecidos.

“São apenas macacos guaribas”, disse Severino.

A picada fora aberta recentemente. Agora não se via mais o sol, e a luz descia filtrada pelas folhas. Mais tarde, chegaram ao local indicado por Nuta. Severino fingiu indecisão, mas entrou no caminho da direita. Iniciou, então, seu andar caranguejo: caminhava de lado, com o rosto voltado para cima, como se procurasse algo nas árvores, fazendo dois passos avançados terminarem num recuo. Mantinha, assim, o olhar vigilante e, ao passar pela castanheira, havia feito com que os policiais se dividissem em duas filas de três homens. Ele andava entre os dois últimos.

Colocando-se como o último da fila, pulou para dentro da mata. Correu, sem se voltar, descendo o morro, levando no peito ramagens e flores silvestres, junto com o ar das quatro da tarde de sexta-feira. Sentiu o impacto na perna esquerda, ao mesmo tempo em que ouvia as rajadas da metralhadora, e só depois notou o sangue e começou a sentir dor. Caiu, mas continuou rolando morro abaixo, até ser detido por um tronco meio podre. Pulou para trás dele e ficou deitado, olhando.

Viu os policiais se abaixando, atirando em todas as direções. Manteve o olhar cravado neles e conseguiu perceber quando, após rodar a esmo outra rajada, o rapaz da metralhadora foi erguido do solo por um instante alucinatório, suspenso pela explosão de uma espingarda, que o jogou com força e morte ao chão.

Os tiros vinham de trás das árvores – de mãos invisíveis, para os policiais espantados, que só não morreram porque recuaram. Depois de um demorado silêncio, Severino levantou-se, sacudindo o barro do corpo. Demorou a ver os vultos silenciosos que saíam da tocaia. Aos poucos, um homem surgia de uma moita, outro deixava o tronco de uma árvore ou a proteção de uma pedra.

– Você deve vir com a gente até o acampamento.

– Não sei se consigo andar direito. Acertaram minha perna.

Improvisaram uma maca, com taquaras e cipós. Dois homens o carregaram por quase meia hora, através de caminhos secretos na mata cerrada. Depois, saíram da floresta e entraram no acampamento sob as longas sombras das árvores e pontilhado de barracas. Foi quando deixaram Severino na palhoça, aos cuidados da velhinha.

Colocou a lanterna entre as pernas, o facho de luz dirigido somente para a rede, embora fosse um cuidado desnecessário, pois ali ninguém perceberia claridade alguma. Iluminou a carabina e achou bonita a coronha cor de acaju. Em seguida, abriu uma folhinha de papel, espalhou nela o fumo e enrolou o cigarro. Apagou a lanterna e ficou fumando no escuro. Um mucura entrou na palhoça e comeu o resto de comida. Severino acompanhou com os ouvidos os movimentos invisíveis do animal. Depois, fechou os olhos.

À noite, qualquer ruído torna-se imenso na selva. Ali, a floresta era de vegetação rasteira sob árvores copadas, muito altas, por onde a luz do dia mal entrava. O solo estava coberto de folhas, e escutava-se nelas o barulho dos bichos vagando. Às vezes, os ratos-saruês lançavam seu grito estridente, que repercutia como agulha que penetrasse a carne. Boa parte do tempo transcorreu assim: Severino tirava um cochilo, mas logo era despertado pelo ruído de algum animal nas proximidades.

De madrugada, porém, sentia-se descansado. Trocou a atadura, bebeu um gole do mastruço e fez outro cigarro. Se entrava um bicho buscando alimento, ele o iluminava, apenas para ver os olhos brilhantes sob a luz. Um gato maracajá esteve miando perto da cabana, em alguma árvore, e depois Severino ouviu também o rugido de uma onça. Então o silêncio saiu de seu canto e cobriu como uma névoa toda a redondeza. A onça rugiu ainda várias vezes, ela estava distante, e Severino não sentia medo.

Desejou estar na cidade, deitado com alguma puta ou simplesmente fumando tranquilo, como fazia agora, olhando a cada tragada a ponta vermelha do cigarro de palha. Também sentia saudade de bebida. Sabia que tudo que deixara estaria destruído ou fora roubado. A essa altura, nada mais restaria do bar. Tinha uma boa soma em ouro, guardada fazia vários anos, para montar um negócio melhor. Apenas a Nuta, seu compadre, mostrara as pepitas. Teria de recomeçar em algum acampamento, ou buscar um garimpo clandestino numa fazenda qualquer.

Conhecia o preâmbulo do amanhecer na mata. E aconteceu que o último saruê se calou em alguma toca, e Severino ouviu depois o canto dos mutuns. Duas ou três aves escondiam-se em alguma árvore fechada. Era assim que se protegiam. Às vezes, durante as caçadas, ouvia-as ao anoitecer ou somente na aurora. Pelo gemido dessas aves e o canto dos primeiros pássaros, sabia que já estava amanhecendo.

Fumou outro cigarro, movendo-se cuidadosamente na rede. Depois, ficou vigiando a entrada da cabana. Não o veriam, deitado na rede armada no outro canto, quase ao lado da parede, pois dentro da barraca ainda estava bastante escuro. Atiraria em qualquer sombra que aparecesse ao redor. Longe, na clareira agora acinzentada, havia um veado mateiro, imóvel. Daquela distância, conseguiria acertá-lo tranquilamente, pensava.

Os policiais deviam ter dormido por perto. Mas depois do que acontecera, só iriam procurá-lo à luz do dia. Não tinham instinto, a não ser se fossem orientados por um bom guia, como ele ou o compadre. Nuta nascera numa cidade ribeirinha, cercada pela selva. Conhecia o lugar como poucos. Antes de vir para o garimpo, vivera como seringueiro. Todo mundo conhecia-lhe a fama de bom guia, mas também a de bebedor, de forma que poucos se arriscavam a contratá-lo.

Severino pensava nisso, quando ouviu o disparo seco de um trabuco. Sentou-se na rede, a carabina na mão esquerda, os olhos mastigando a porta. Calçou as botinas e preparou-se para descer. Escutou mais um estampido e, logo em seguida, outro. Ouviu os pisados inconfundíveis das botas militares quebrando galhos, torcendo as folhas, afundando-se na terra macia. Saltou da rede, apoiando o peso do corpo na perna direita. Permaneceu agachado, atento aos mínimos ruídos, e buscando descobrir de onde vinham os homens.

Enfiou-se entre as palhas, sem barulho, e foi-se arrastando para trás. Parou apenas quando se achava numa distância segura. Então descobriu cinco homens cercando a palhoça. Afastou-se um pouco mais, e os viu atearem fogo às palhas. De onde se abrigava, atrás de um tronco, podia vê-los bem.

Observava os cinco homens de uniforme verde-oliva que olhavam o fogo consumir a cabana, quando apareceu entre eles uma figura pequena, vestida apenas de camisa e calção, que, pelo modo de se mover, agitar os braços e olhar para o solo, não deixava dúvidas. “Maldito cavalinho-do-diabo!” teve vontade de gritar. Apoiou o cotovelo no tronco, segurando a parte inferior da carabina com a mão esquerda espalmada para cima, a coronha apoiada no ombro, e o olho fazendo mira, medindo a distância, com o indicador direito no gatilho. Se ameaçassem descer a ladeira, ele acertaria primeiro em Nuta, seu compadre. Daquela distância e com arma tão boa, não erraria: disso tinha certeza.



(imagem retirada da internet: Tomas Kaspar)

Jádson Barros Neves, entre outros concursos de que participou, foi o vencedor do 2º lugar do Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale/Paris em 2000 (Prêmio Maison de l’Amérique Latine); vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003; vencedor do prêmio Felippe D’Oliveira, em 2001, vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003, vencedor do prêmio Domingos Olímpio/2004; em 2008, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria livro de contos e, em 2011, vencedor do Concurso de Contos Ignacio de Loyola Brandão, tendo outros dois contos classificados como menção honrosa.



sábado, 10 de outubro de 2015


A Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Imprensa Oficial de São Paulo lançaram no dia 29 do mês passado, a partir das 18h30, na sede da ABL, 38 títulos da Série Essencial.


Composto por livros que oferecem informações básicas sobre os ocupantes das cadeiras da ABL ao longo de sua história, bem como sobre os patronos da instituição, cada volume apresenta ainda sucinta antologia dos imortais.

Acadêmicos e especialistas responsáveis pelos textos pretendem atingir um público amplo e diversificado. A intenção é que a obra desperte no leitor o interesse de se aprofundar no conhecimento da obra de todos aqueles que tiveram seus nomes vinculados à ABL.

Em formato de bolso, a obra será comercializada em kits, a R$ 100, ou separadamente, a R$ 10 a unidade. O kit contempla 15 livros.



Imortais e seus autores:

Afonso Arinos – Autor: Afonso Arinos, filho; Afrânio Coutinho – Autor: Eduardo Coutinho; Alberto de Oliveira- Autor: Sânzio de Azevedo; Alberto de Faria – Autora: Ida Vicenzia; Alcântara Machado – Autor: Marco Santarrita; Alfredo Pujol – Autor: Fabio de Sousa Coutinho; Álvares de Azevedo – Autora: Marlene de Castro Correia; Álvaro Moreyra – Autor: Mario Moreyra; Augusto de Lima – Autor: Paulo Franchetti; Austregésilo de Athayde – Autora: Laura Sandroni; Antonio José da Silva, o Judeu – Autor: Paulo Roberto Pereira; Bernardo Élis – Autor: Gilberto Mendonça Teles; Castro Alves – Autor: Alexei Bueno; Celso Cunha – Autora: Cilene da Cunha Pereira; Cyro dos Anjos – Autor: Sábato Magaldi; Coelho Neto – Autor: Ubiratan Paulo Machado; Domício da Gama – Autor: Ronaldo Costa Fernandes; Euclides da Cunha – Autor: José Maurício Gomes de Almeida; Gonçalves Dias – Autor: Ferreira Gullar; Graça Aranha – Autor: Miguel Sanches Neto; Gregório de Mattos – Autor: Adriano Espínola; Humberto de Campos – Autor: Benício Medeiros; José do Patrocínio – Autora: Cecilia Costa Junqueira; Josué Montello – Autor: Claudio Murilo Leal; João Cabral de Melo Neto – Autor: Ivan Junque; Júlio Ribeiro – Autor: Gilberto Araújo; Lafayette Rodrigues Pereira – Autor: Fabio de Sousa Coutinho; Luiz Edmundo – Autora: Maria Inez Turazzi; Mario de Alencar – Autora: Flávia Amparo; Magalhães de Azeredo ; Autor: Haron Jacob Gamal; Machado de Assis – Autor: Alfredo Bosi; Rachel de Queiroz – Autor: José Murilo de Carvalho; Raimundo Correia – Autor: Augusto Sérgio Bastos; Ribeiro Couto – Autora: Elvia Bezerra; Sergio Correa da Costa – Autora: Edla van Steen; Teixeira de Melo – Autor: Ubiratan Machado; Vianna Moog – Autor: Luís Augusto Fischer; e Visconde de Taunay – Autora: Mary del Priore