quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crônicas de um leitor apaixonado, Vera Lúcia de Oliveira


Shakespeare
                                                

            Disse Stendhal que “A vocação é a felicidade de ter como ofício a paixão”. Como toda máxima, essa encerra uma grande verdade. Pelo menos é o que transparece na leitura de Crônicas de um leitor apaixonado (Ed, Thesaurus, 2015), livro de Fábio de Sousa Coutinho, carioca/brasiliense, escritor e acadêmico que dedica seu tempo e entusiasmo a literatura. E, pela quantidade e qualidade de relatos em seu livro, podemos imaginar a grande viagem do autor: de Shakespeare a Vinicius de Moraes, passeando pelos talentos de vários séculos e lugares, sua acuidade e sensibilidade mostram um leitor que não só é apaixonado como também é um crítico perspicaz.

            São crônicas literárias, homenagens e saudações a seus pares, na melhor tradição da Academia como lugar do saber e do encontro entre aqueles que, muitas vezes, vindos de universos diferentes, comungam o espírito da inteligência e se ocupam da palavra-arte. Ainda bem. Os textos curtos, enxutos/caudalosos, numa linguagem fluente e bem articulada, com a palavra (que parece) fácil e o estilo alto e claro como as estrelas, para lembrar quem entende do assunto, o padre Vieira. Tudo de que necessita essa narrativa chamada crônica, tão brasileira!

            Pelos seus olhos apaixonados, os grandes se agigantam e se tornam apaixonantes. E, como um Virgílio moderno, ele nos conduz  com a experiência de leitor culto e refinado num longo percurso no tempo e no espaço, rememorando fatos emocionantes como o discurso de Rui Barbosa no adeus a Machado de Assis, que são “passagens extraordinárias da vida nacional, verdadeiros marcos da nossa civilização tropical” (Pág. 100). É também um passeio no museu de tudo onde vemos o que há de belo na literatura brasileira, aí considerando de modo especial a brilhante prosa dos jornalistas que se destacaram entre nós. Nesse museu, inspirado pelas musas da Eloquência, da História e da Poesia, Fábio Coutinho nos leva ao salão em que perfilam prosadores, poetas, contistas, cronistas e biógrafos  -  todos merecedores da fama que os eleva e da nossa admiração pelo muito que fizeram pela língua e cultura do país. Temos o mestre Rubem Braga, o incrível Otto Lara, a genial Lucia Miguel Pereira, a doce Ana Miranda, o poeta e amigo Antonio Secchin, mais os que em Brasília viveram e produziram, como Cyro dos Anjos, Almeida Fischer, e os que vivem, escrevem e distinguem a cidade com obra significativa, como Edmílson Caminha. E muitos, muitos mais. Aqui santo de casa faz milagres.

            Ler Crônicas de um leitor apaixonado  é, sobretudo, apaixonar-se pelo encanto das letras nacionais e lembrar que temos uma literatura sofisticada, imensa, que nos orgulha, com um rico passado que só um autor apaixonado pode presentificar. Essas Crônicas são um presente. Se lhe fosse perguntado quanto tempo levou para escrever o livro, Fábio Coutinho poderia parafrasear uma de suas musas, Lygia Fagundes, e responder: a vida inteira!

                                                Vera Lúcia de Oliveira é professora  de literatura.

 

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