quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Clara dos Anjos, Lima Barreto



por Adelto Gonçalves




Não se pode dizer que a reedição de Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881-1922), que narra as desventuras de uma adolescente pobre e mulata, filha de um carteiro, seduzida por um malandro branco, apesar das cautelas familiares, seja uma boa oportunidade para se reavaliar o conceito emitido por antigos críticos segundo o qual este romance que não estaria à altura da melhor produção de seu autor. Não está mesmo. Se não constitui um romance de todo falhado, a verdade é que, se comparado com os de Machado de Assis (1839-1908), cujas origens sociais são idênticas às de Lima Barreto, este livro deixa a desejar em alguns aspectos, inclusive, em certa pobreza vocabular, ainda que seja fundamental conhecê-lo para se entender a grandeza de toda a obra do autor.


Publicado postumamente em folhetim entre 1923 e 1924 e em livro em 1948, Clara dos Anjos, provavelmente, ainda passaria várias vezes pela lima horaciana de Lima Barreto, não tivesse o autor uma vida tão breve e interrompida aos 41 anos de idade por um colapso cardíaco depois de impiedosamente minada pelo alcoolismo. Fosse como fosse, o certo é que a trajetória de uma mulata jovem moradora nos subúrbios do Rio de Janeiro do começo do século XX foi uma ideia que perseguiu Lima Barreto desde cedo, exatamente desde 1904, quando começou a tentar colocar em pé o esqueleto desse romance. Levou quase vinte anos nessa luta e, quando morreu, ainda estaria às voltas com o romance.

De fato, a obra traz algumas descrições que, mesmo hoje, quando o Rio de Janeiro está totalmente desfigurado em relação ao que era há um século, graças às picaretas de uma falsa modernidade que não respeita nada e só leva em conta os lucros das construtoras e incorporadoras que seguem sempre montadas à ignorância cavalar dos governantes, seriam perfeitamente dispensáveis, pois tiram um pouco o ritmo da trama. Uma trama cujo desfecho está anunciado desde as primeiras páginas: a de que a jovem mulata haveria de sucumbir à lábia do malandro carioca suburbano, de nome Cassi Jones, entregando-se a ele para, logo em seguida, ser rejeitada. E condenada a criar um filho sem pai.

Já o sedutor Cassi é pintado com tintas pouco carregadas. Contra ele, vê-se apenas que é um incorrigível galanteador de donzelas pobres, mas, ao contrário de outras personagens, não é dado ao vício da bebida. De pele sardenta e cabelos claros, pouco afeito ao trabalho, Cassi serviria hoje mais para compor um personagem comum na cena política brasileira: o malandrão de poucos estudos que, graças à lábia, sabe como convencer amigos, conhecidos e até multidões para, assim, galgar espaço na vida sem muito esforço. São tipos comuns hoje no sindicalismo e nos partidos políticos.

II

Apesar de tudo o que se escreveu aqui, é claro que Clara dos Anjos constitui um texto-chave para se entender a obra do criador de Triste fim de Policarpo Quarema, autor de cabeceira e inspirador de outro escritor que procurou retratar a vida dos proletários e marginais que habitam as periferias das grandes cidades brasileiras, João Antonio (1937-1996). Além disso, esta nova edição pela Companhia das Letras traz notas explicativas a cargo de Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino, que se tornam fundamentais para a compreensão de alguns trechos e para a localização de determinados logradouros que no Rio de Janeiro desfigurado de hoje já não existem.

Sem contar que os editores tiveram o bom senso de reproduzir a introdução escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), publicada originalmente na edição de Clara dos Anjos de 1948 pela editora Mérito, e o prefácio de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), que saiu na edição de 1956 preparada pela editora Brasiliense. E ainda encomendar uma apresentação à crítica literária Beatriz Resende, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista na obra de Lima Barreto, que não só elucida muitas passagens do romance e aspectos da escrita do autor como traça um panorama do que foi a rejeição sofrida pelo romancista/jornalista a uma época em que o Brasil vivia um regime de apartheid disfarçado.

Apartheid, aliás, que pôde ser superado por alguns poucos afrodescendentes que não só tiveram engenho para adquirir fortuna e prestígio social como por aqueles que souberam ascender socialmente por meio da aquisição de cultura e conhecimento. Entre esses, podemos citar não só Machado de Assis, que procurou seguir caminho inverso de Lima Barreto, saindo do morro do Livramento para viver em bairros de classe média e abastada, depois de conquistada uma boa posição na burocracia estatal, como ainda pelo menos dois presidentes da República, Campos Sales (1841-1913) e Nilo Peçanha (1867-1924), ambos com visíveis traços fenótipos de descendência africana. Todos, obviamente, graças à riqueza familiar e ao prestígio social, tornaram-se “homens invisíveis”, para se citar aqui Invisible Man (1952), romance do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).

É de lembrar que, no Brasil, o dinheiro sempre teve o poder de “embranquecer” pessoas que, quando bem postas na vida, sempre tratavam de “esquecer” as origens. Ainda na década de 1980 – não faz tanto tempo assim... –, alguns senadores e deputados fugiam de qualquer reportagem que pretendesse fazer alguma referência a suas origens raciais. Bem situados no poder, o que menos queriam lembrar era que carregavam sangue africano ou indígena nas veias.

III

Não foi o caso de Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido no Rio de Janeiro, filho do tipógrafo João Henriques e da professora Amália Augusta, ambos mulatos. Seu padrinho era o visconde de Ouro Preto, senador do Império. A mãe, escrava liberta, morreu precocemente, quando ele tinha seis anos. As marcas desse período da história brasileira, que inclui a abolição da escravatura em 1888, sempre ocuparam o centro da obra literária de Lima Barreto, que procurou denunciar o preconceito racial e a difícil inserção de negros e mulatos na sociedade brasileira.

Lima Barreto sempre preferiu o subúrbio, o “refúgio dos infelizes”, território que passara a abrigar “os que perderam o emprego, as fortunas, os que faliram nos negócios”. Mas, ao contrário do pobre que só entraria triunfalmente no romance brasileiro na década de 1930 cheio de solidariedade com o próximo – inspirado pelas idéias socialistas e comunistas –, os pobres de Lima Barreto são “feios, sujos e malvados”, para lembrar aqui um filme de Ettore Scola.

Nada solidário, quem é um pouco mais branco já olha o mais escuro com desdém. A família cujo patriarca – geralmente, funcionário público – ganha um pouco mais já encontra motivos para menosprezar aquela que vive em maiores dificuldades. A família de Cassi, por exemplo, fazia questão de se mostrar superior às demais no subúrbio porque teria tido um ascendente importante. Isso era comum no Brasil: não havia família de descendentes de portugueses que, ao enriquecer, não tratasse de recorrer à arte da heráldica. Mais tarde, quando um dos rebentos ia a Portugal em busca de terras e brasões, geralmente, descobria que pais, avós ou bisavós nunca passaram de aldeões que se haviam atirado ao mar para escapar da pobreza.

Diz Sérgio Buarque de Holanda que Lima Barreto nunca conseguiu reunir forças para vencer, “ou sutilezas para esconder, à maneira de Machado, o estigma que o humilhava”. Pelo contrário. Em seus contos, romances e artigos de jornal ou revista, há vários exemplos de críticas ao comportamento larvar de alguns mestiços diante de brancos.

Diante disso, não foi à toa que Lima Barreto também encontrou obstáculos quando tentou ascender na república literária, ainda que a casa principal que abrigava a intelectualidade da época tivesse sido fundada exatamente por Machado de Assis. Intelectual versado em Humanidades, que por pouco não se formara engenheiro – a loucura que acometeria o seu pai o obrigaria a ganhar o sustento para a família –, Lima Barreto procurou por mais de uma vez alcançar o reconhecimento de seu talento por aquela sociedade ainda escravocrata no pensamento, ao candidatar-se sem êxito a uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Ainda no prefácio de 1956, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Astrojildo Pereira (1890-1965) segundo a qual Lima Barreto pertenceria à categoria dos “romancistas que mais se confessam”, isto é, daqueles que menos se escondem e menos se dissimulam. É o que se constata também nos registros de seu Diário íntimo, iniciado em 1900, que reúne impressões sobre a vida urbana do Rio de Janeiro.

IV

Lima Barreto começou sua colaboração mais regular na imprensa em 1905, quando escreveu reportagens publicadas no Correio da Manhã, sobre a demolição do Morro do Castelo, no centro do Rio, consideradas um dos marcos inaugurais do jornalismo literário brasileiro. Dele são ainda os romances Recordações do escrivão Isaías Caminha e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

O primeiro saiu em folhetim na revista Floreal, em 1907, e em livro em 1909 e o segundo seria publicado apenas em 1919. No primeiro romance, o jornal Correio da Manhã e seu diretor de redação são retratados de maneira impiedosa, ao que parece como uma espécie de vingança por seu autor ter sido maltratado. Provavelmente, Lima Barreto teria recebido como pagamento um salário tão miserável que não daria sequer para pagar uma dose diária de parati. Teve, então, seu nome proscrito na grande imprensa carioca.

O escritor publicou ainda crônicas, contos e peças satíricas em veículos como o Diabo, Revista da Época, Fon-Fon, Careta, Brás Cubas, O Malho e Correio da Noite. Colaborou também com o ABC, periódico de orientação marxista e revolucionária. Em 1911, escreveu e publicou Triste fim de Policarpo Quaresma em folhetim do Jornal do Commercio. Levando-se em conta a precariedade dos jornais e revistas da época, é de imaginar que escrevesse apenas pelo prazer da polêmica ou pelo fascínio da letra impressa. Afinal, se nos dias de hoje a grande imprensa costuma não pagar nada aos seus articulistas-colaboradores, só um tolo poderia imaginar que há cem anos teria sido diferente.

Publicou ainda Numa e ninfa (1915) e Histórias e sonhos (1920). Postumamente saíram Os bruzundangas e as crônicas de Bagatelas e mafuás.

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CLARA DOS ANJOS, de Lima Barreto, com apresentação de Beatriz Resende, introdução de Lúcia Miguel Pereira, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda e notas de Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2012, 304 págs., R$ 26,00. Site: www.companhiadasletras.com.br

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Poema de Frei António das Chagas - meados séc. XVII


Deus pede estrita conta de meu tempo.
E eu vou do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta
Eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
O tempo me foi dado, e não fiz conta,
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
Hoje, quero acertar conta, e não há tempo.

Oh, vós, que tendes tempo sem ter conta,
Não gasteis vosso tempo em passatempo.
Cuidar, enquanto é tempo, em vossa conta!

Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
Quando o tempo chegar, de prestar conta
Chorarão, como eu, o não ter tempo.

imagem retirada da internet: aleijadinho

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O olho, conto de Alice Munro


Alice Munro wins Man Booker International Prize
 
Quando eu tinha cinco anos, de repente meus pais apareceram com um menininho, que minha mãe disse que era o que eu sempre quisera. De onde ela tirou essa ideia eu não sei. Ela deu uma bela enfeitada naquilo, tudo inventado, mas difícil de contrariar.
Aí um ano depois apareceu uma menininha, e de novo foi uma balbúrdia, mas menos que da primeira vez.
Até a época do primeiro bebê, eu não me lembro de ter sentido algo diferente do que aquilo que a minha mãe dizia que eu estava sentindo. E até aquela época, a casa toda era tomada pela minha mãe, pelos passos dela, pela sua voz, por aquele cheiro poeirento, mas funesto que ocupava todos os cômodos mesmo quando ela não estava dentro deles.
Por que eu digo funesto? Eu não tinha medo. Não é que a minha mãe me dissesse exatamente como eu devia me sentir a respeito das coisas. Ela era uma autoridade no assunto, isso nem se questionava. Não só no caso de um irmão mais novo, mas também quanto ao cereal Red River, que me fazia bem e de que, portanto, eu devia gostar. E quanto à minha interpretação do quadro que ficava no pé da minha cama, que mostrava Jesus tolerando que as criancinhas viessem até ele. Tolerar significava outra coisa naquele tempo, mas não era nisso que a gente se concentrava. Minha mãe apontava a menininha meio escondida num canto porque queria ir até Jesus, mas era tímida demais para isso. Aquela era eu, minha mãe dizia, e eu achava que era, mas não teria entendido isso sem ela me dizer e na verdade preferia que não fosse assim.
O que me deixava tristíssima mesmo era a Alice no país das maravilhas imensa e presa no buraco do coelho, mas eu ria, porque a minha mãe parecia estar adorando.
Mas foi com a chegada do meu irmão e com aquele falatório todo sobre como ele era um tipo de presente pra mim que eu comecei a aceitar o quanto as certezas que minha mãe tinha a meu respeito diferiam das minhas próprias.
Acho que isso tudo estava me preparando para o momento em que a Sadie veio trabalhar para nós. Minha mãe tinha se recolhido para sabe-se lá qual território que ela ocupava com os bebês. Sem ela por ali o tempo todo, eu podia pensar no que era verdade e no que não era. Eu já sabia o suficiente para não falar dessas coisas com ninguém.
A coisa mais estranha da Sadie -apesar de não ser muito comentada lá em casa- era que ela era uma celebridade. A nossa cidade tinha uma rádio onde ela tocava violão e cantava o tema de abertura da programação, que ela mesma tinha composto.
"Olá, olá, olá, todo mundo...".
E meia-hora depois era, "A-deus, a-deus, a-deus, todo mundo." Entre um e outro, ela cantava músicas que as pessoas pediam e também algumas que ela mesma escolhia. As pessoas mais sofisticadas da cidade tendiam a rir das músicas dela e da rádio toda, que diziam que era a menor do Canadá. Essas pessoas escutavam uma estação de Toronto que transmitia canções populares da época - "Three little fishes and a mommy fishy too..." - e Jim Hunter berrando as desesperadas notícias da guerra. Mas as pessoas das fazendas gostavam da rádio local e daquelas canções que a Sadie cantava. A voz dela era forte e triste e ela cantava sobre a solidão e a dor.
Apoiada na cerca fria
De um curral imenso
Olhando pela trilha ao fim do dia
É só em você que eu penso
Quase todas as fazendas daquele canto do país tinham sido desmatadas e ocupadas havia coisa de cento e cinquenta anos, e de quase qualquer casa de fazenda dava para avistar outra casa de fazenda a poucos pastos de distância. Ainda assim, as músicas que os fazendeiros queriam ouvir falavam todas de vaqueiros solitários, do encanto e da decepção de lugares distantes, dos crimes horrorosos que faziam criminosos morrerem com o nome da mãe nos lábios, ou o de Deus.
Era isso que a Sadie cantava com tanto sentimento num tom de contralto encorpado, mas trabalhando com a gente ela era cheia de energia e de confiança, gostava de conversar e em especial de conversar sobre si própria. Normalmente não tinha ninguém para ouvir o que ela dizia, só eu. As ocupações dela e as da minha mãe as mantinham separadas quase o tempo todo e de qualquer forma eu acho mesmo que elas não teriam gostado de conversar. Minha mãe era uma pessoa séria, como já insinuei, que tinha dado aulas na escolinha antes de dar aulas para mim. Talvez ela tivesse gostado se a Sadie fosse alguém que ela pudesse ajudar, ensinando a não dizer "Cês quer". Mas a Sadie não dava muitos indícios de querer ajuda de quem quer que fosse, ou de querer falar de um jeito diferente de como sempre falara.
Depois da ceia, que era a refeição do meio-dia, a Sadie e eu ficávamos sozinhas na cozinha. Minha mãe aproveitava para tirar uma soneca e, se estivesse num dia de sorte, os bebês dormiam também. Quando ela acordava, punha um vestido diferente, como se estivesse esperando uma tarde tranquila, mesmo que seguramente fosse haver mais fraldas para trocar e também mais daquela atividade desagradável que eu me esforçava para não ver, a menorzinha chupando um peito dela.
Meu pai também tirava uma soneca -talvez uns quinze minutos na varanda com o "Saturday Evening Post" cobrindo a cara antes de voltar para o celeiro.
A Sadie esquentava água no fogão e lavava a louça, com a minha ajuda e com as persianas baixadas para não deixar entrar o calor. Quando a gente acabava, ela esfregava o chão e eu secava, com um método que eu tinha inventado - patinando de um lado para outro com panos de chão nos pés. Aí a gente retirava as espirais de papel pega-mosca amarelo e grudento que tinham sido colocadas depois do café da manhã e que àquela altura já estavam pesadas, cheias de moscas pretas mortas ou que zumbiam quase mortas, e pendurava as espirais novinhas, que estariam cheias das recém-mortas na hora do jantar. Tudo isso enquanto a Sadie me falava da vida dela.
Nessa época eu não conseguia julgar com facilidade a idade dos outros. As pessoas eram crianças ou adultas e eu achava que ela era adulta. Talvez ela tivesse dezesseis, talvez dezoito ou vinte anos. Fosse qual fosse sua idade, ela anunciou mais de uma vez que não estava com pressa de casar.
Frequentava bailes todo fim de semana, mas ia sozinha. Sozinha e só para si, dizia.
Ela me falou dos salões de baile. Tinha um na cidade, perto da rua principal, onde ficava a pista de curling no inverno. Você pagava um dime por uma dança, aí subia e dançava numa plataforma com as pessoas te encarando em volta, mas não que ela se incomodasse com isso. Ela sempre gostava de pagar ela mesma o seu dime, para não ficar em dívida. Mas às vezes um sujeito chegava antes dela. Ele perguntava se ela queria dançar e a primeira coisa que ela dizia era, E você sabe? Você sabe dançar? ela perguntava, seca. Aí ele dava uma olhada esquisita pra ela e dizia que sim, como quem quer dizer senão por que eu estaria aqui? E no fim o que ele chamava de dança em geral era um arrasta-pé com aquelas mãozonas carnudas agarrando a Sadie. Às vezes ela simplesmente deixava o sujeito ali perdido, saía dançando sozinha - que era o que ela gostava mesmo de fazer, afinal. Ela terminava a dança, que já estava paga, e se o camarada que pegava o dinheiro reclamasse e quisesse obrigá-la a pagar por dois quando ela era uma só, ela dizia para ele parar com isso. Eles podiam ficar todos rindo dela dançando sozinha se quisessem.
Dea Lellis/Arte Folha
O outro salão de baile ficava logo na saída da cidade, na estrada. Lá você pagava na porta, e não era por uma dança, mas pela noite toda. O nome do lugar era Royal-T. Ela também pagava sozinha, ali. Normalmente tinha uma classe melhor de dançarinos, mas mesmo assim ela tentava dar uma olhada para ver como eles se viravam antes de deixar que a tirassem para dançar. Em geral eram uns sujeitos da cidade enquanto que os do outro salão eram mais country. Com passos melhores - os da cidade - mas não era sempre com os passos que você tinha que se preocupar. Era com onde eles queriam segurar. Às vezes ela tinha que mandar eles pastarem e dizer o que ia fazer com eles se não parassem com aquilo. Ela deixava bem claro que tinha ido ali dançar e tinha pagado ela mesma. Além de tudo ela sabia onde acertar uma pancada. Aquilo deixava eles bem certinhos. Às vezes eram bons de dança e ela conseguia se divertir. Aí quando tocavam a última dança ela corria direto pra casa.
Ela não era como as outras, dizia. Ela não queria ser fisgada.
Fisgada. Quando ela dizia isso, eu via um anzol imenso descendo, com umas criaturinhas malvadas na ponta te enganchando de um jeito que você nunca mais poderia sair. A Sadie deve ter visto algo assim no meu rosto porque disse para eu não ficar com medo.
"Você não -precisa ter medo de nada nesse mundo, só se cuide."
"Você e a Sadie vivem conversando," minha mãe disse.
Eu sabia que viria alguma coisa que merecia cuidado, mas não sabia o quê.
"Você gosta dela, né?"
Eu disse que sim.
"Bom, claro que gosta. Eu também gosto."
Eu torci para aquilo ter acabado e por um momento pensei que tinha mesmo.
Aí, "Você e eu não ficamos muito juntas agora que a gente teve os nenês. Eles não deixam muito tempo pra gente, né?
"Mas a gente ama os nenês, né?"
Disse logo que sim.
Ela disse, "De verdade?"
Ela não ia parar se eu não dissesse de verdade, então eu disse.
*
Minha mãe queria muito alguma coisa. Será que eram boas amigas? Mulheres que jogavam bridge e tinham maridos que iam trabalhar de terno com colete? Não exatamente, e nem adiantava esperar por isso mesmo. Será que era eu como eu era antigamente, com os cachinhos no cabelo que eu não me incomodava de ficar bem quietinha enquanto ela ajeitava, ou o catequismo que eu fazia direitinho? Ela não tinha mais tempo para cuidar dessas coisas agora. E uma parte de mim estava ficando traiçoeira, embora ela não soubesse por quê, e eu também não sabia. Eu não tinha feito amigos da cidade na catequese. Em vez disso, eu idolatrava a Sadie. Ouvi minha mãe dizer para o meu pai. "Ela idolatra a Sadie."
Meu pai disse que a Sadie era um presente de deus. O que isso queria dizer? Ele parecia animado. Talvez quisesse dizer que não ia defender nem uma nem outra.
"Eu queria que a gente tivesse calçadas decentes para ela," minha mãe disse. "Talvez se a gente tivesse calçadas decentes ela aprendesse a patinar e fizesse uns amigos."
Eu queria mesmo ter patins. Mas agora, sem saber por quê, eu sabia que nunca ia admitir que queria.
Aí minha mãe disse alguma coisa sobre ficar melhor quando as aulas começassem. Algo sobre eu ficar melhor ou algo a respeito da Sadie que ia ficar melhor. Eu não queria ouvir.
A Sadie estava me ensinando umas músicas dela e eu sabia que eu não cantava muito bem. Eu torcia para não ser aquilo o que tinha que ficar melhor ou acabar. Eu não queria, de verdade, que aquilo acabasse.
Meu pai não tinha muito pra dizer. Eu era problema da minha mãe, a não ser mais tarde quando acabei ficando bem boca-suja e tinha que ficar de castigo. Ele estava esperando meu irmão ficar mais velho e passar a ser problema dele. Menino não tinha como ser tão complicado.
E claro que o meu irmão não foi. Ele cresceu bem tranquilo.
*
Agora as aulas começaram. Começaram tem umas semanas, antes de as folhas ficarem vermelhas e amarelas. Agora elas tinham quase todas ido embora. Eu não estou com o meu casaco da escola, mas com o melhor, aquele com os debruns de veludo escuro no punho e no colarinho. Minha mãe está com o casaco que ela usa para ir à igreja, e com um turbante que cobre quase todo o cabelo dela.
Minha mãe está dirigindo para sabe-se lá onde é que nós estamos indo. Ela não dirige muito, e sua direção é sempre mais solene e no entanto mais incerta que a do meu pai. Ela buzina em tudo quanto é esquina.
"Isso," ela diz, mas leva um tempo para colocar o carro na vaga.
"Então chegamos." Aparentemente, a voz dela quer ser encorajadora. Ela encosta na minha mão para me dar uma chance de segurar a dela, mas eu finjo que não percebo e ela tira a mão.
A casa não tem jardim nem calçada. É bacana, mas meio feia. Minha mãe ergueu a mão enluvada para bater na porta mas no fim nem precisamos. Abrem para nós. Minha mãe acabou de começar a me dizer alguma coisa encorajadora - alguma coisa meio, Vai ser mais rápido do que você pensa - mas ela não termina. O tom em que ela falou comigo foi algo severo, mas levemente tranquilizador. Ele muda quando abrem a porta e vira uma coisa mais contida, mais baixinha, como se ela estivesse curvando a cabeça.
A porta foi aberta para um pessoal sair, e não só para a gente entrar. Uma das mulheres que estão saindo fala por sobre o ombro com uma voz que não passa nem perto de tentar ser suave.
"É para ela que a moça trabalhava, e para a menininha ali."
Aí uma mulher que está vestida bem elegante vem falar com a minha mãe e ajuda a tirar o casaco dela. Isso feito, minha mãe tira o meu casaco e diz para a mulher que eu gostava especialmente da Sadie. Ela espera que seja tudo bem ter me trazido.
"Ah, coitatinha," a mulher diz e a minha mãe encosta de levinho em mim para me fazer dizer oi.
"A Sadie adorava criança," a mulher disse. "Adorava mesmo."
Eu percebo que tem mais duas crianças ali. Meninos. Eu conheço os meninos da escola, sendo um deles da primeira série, comigo, e o outro mais velho. Eles estão espiando lá de onde provavelmente é a cozinha. O mais novo está enfiando um biscoito inteirinho na boca de um jeito cômico e o outro, mais velho, está fazendo uma cara de nojo. Não para o enfiador de biscoito, mas para mim. Eles me odeiam, claro. Os meninos ou te ignoravam quando te encontravam num lugar que não fosse a escola (eles te ignoravam lá também) ou faziam essas caretas e te xingavam de uns nomes horrorosos. Quando eu tinha que chegar perto de um deles eu travava e não sabia o que fazer. Claro que era diferente quando tinha gente adulta por perto. Esses meninos ficaram quietos, mas eu me senti um pouquinho mal até alguém puxar os dois para dentro da cozinha. Aí eu me dei conta da voz especialmente delicada e interessada da minha mãe, mais educada até que a da porta-voz com quem ela estava falando, e pensei que talvez a careta tivesse sido para ela. Às vezes as pessoas imitavam a voz dela quando ela ia me chamar na escola.
A mulher com quem ela estava falando e que parecia ser a encarregada de tudo ali estava levando a gente para uma parte da sala onde um homem e uma mulher estavam sentados num sofá, com cara de quem não estava entendendo bem por que estava ali. Minha mãe se abaixou e falou com eles de um jeito muito respeitoso e me apontou para os dois.
"Ela gostava demais da Sadie," ela disse. Eu sabia que era para eu dizer alguma coisa nessa hora, mas antes que eu conseguisse a mulher sentada ali explodiu num urro. Ela não olhou para nenhuma de nós duas e o som que ela fazia parecia o som que você faz quando algum animal te morde ou te rói. Ela batia nos braços como se estivesse tentando se livrar daquela coisa, mas a coisa não ia embora. Ela olhava para a minha mãe como se a minha mãe fosse a pessoa que tinha que fazer alguma coisa para resolver aquilo.
O velho disse para ela se acalmar.
"Está sendo muito duro para ela," disse a mulher que estava conduzindo a gente. "Ela não sabe o que está fazendo." Ela se curvou ainda mais e disse, "Ai-ai-ai, você vai assustar a menininha".
"Vai assustar a menininha," o velho disse obediente.
Quando ele terminou de dizer isso, a mulher não estava mais fazendo aquele barulho e dava tapinhas nos braços arranhados como se não soubesse o que tinha acontecido com eles.
Minha mãe disse, "Coitada."
"E também filha única," disse a guia. Para mim ela disse, "Não se incomode."
Eu estava incomodada, mas não com os urros.
Eu sabia que a Sadie estava em algum lugar e eu não queria vê-la. Minha mãe não tinha chegado a dizer de fato que eu ia ter que ver, mas também não tinha dito que não.
A Sadie tinha morrido voltando do salão de bailes Royal-T. Tinha sido atropelada por um carro naquela estradinha de pedra entre o estacionamento lá do salão e o começo da calçada de verdade da cidade. Ela devia estar correndo como sempre, e com certeza achou que dava para os carros verem que ela estava ali, ou que ela tinha tanto direito de estar ali quanto eles, e talvez o carro atrás dela tenha dado uma guinada ou talvez ela não estivesse bem onde achava que estava. Ela foi pega por trás. O carro que a atropelou estava saindo da frente do carro que vinha atrás, e esse segundo carro estava tentando fazer o primeiro entrar numa rua da cidade. O pessoal tinha bebido no salão, apesar de não ter bebida à venda lá dentro. E sempre tinha gente buzinando e gritando e saindo rápido demais quando a dançaria acabava. A Sadie apressada sem nem ter farol ia agir como se os outros é que tivessem que sair da frente dela.
"Uma menina sem namorado indo nos bailes a pé," disse a mulher que continuava sendo simpática com a minha mãe. Ela falou bem baixinho e minha mãe murmurou alguma coisa lamentosa.
Era pedir para alguma coisa dar errado, a mulher simpática disse mais baixo ainda.
Eu tinha ouvido umas conversas em casa que não tinha entendido. Minha mãe queria que fizessem alguma coisa que possivelmente tinha a ver com a Sadie e o carro que a atropelou, mas meu pai disse para ela deixar de lado. A gente não tem nada que se meter com as coisas da cidade, ele disse. Eu nem tentei entender isso tudo porque estava tentando nem pensar na Sadie, muito menos no fato de ela estar morta. Quando eu percebi que a gente estava indo para a casa da Sadie eu quis não ir, mas não vi jeito de escapar a não ser me comportando de um jeito imensamente feio.
Agora, depois do ataque da mulher, parecia que a gente podia dar meia-volta e ir para casa. Eu nunca ia ter que admitir a verdade, e a verdade era que eu me mordia de medo de qualquer cadáver.
Bem quando pensei que isso podia ser possível, ouvi minha mãe e a mulher com quem agora ela parecia estar tramando alguma coisa falarem do pior de tudo.
Ver a Sadie.
Sim, minha mãe estava dizendo. Claro, a gente tem que ver a Sadie.
Sadie morta.
Eu tinha ficado com os olhos bem abaixadinhos, vendo quase nada além daqueles dois meninos que mal eram mais altos que eu, e os velhos que estavam sentados. Mas agora minha mãe estava me levando pela mão em outra direção.
Tinha um caixão na sala o tempo todo mas eu estava achando que era outra coisa. Por causa da minha falta de experiência eu não sabia exatamente a cara de uma coisa dessas. Uma prateleira de acomodar flores, aquele objeto de que a gente estava se aproximando podia ser, ou um piano fechado.
Talvez as pessoas que estavam em volta tivessem dado algum jeito de disfarçar o tamanho e o formato e a função real daquilo. Mas agora as pessoas estavam respeitosamente abrindo caminho e minha mãe falou com uma nova voz, muito baixinha.
"Agora, vem" ela me disse. A delicadeza dela me soou odiosa, triunfante.
Ela se abaixou para olhar meu rosto, e isso, eu tinha certeza, era para evitar que eu fizesse exatamente o que tinha acabado de me ocorrer - ficar com os olhos bem apertados. Aí ela desviou o olhar de mim mas ficou com minha mão bem presa na sua. Eu acabei conseguindo baixar as pálpebras assim que ela tirou os olhos de mim, mas não fechei até o fim por medo de tropeçar ou de que alguém me empurrasse bem para onde eu não queria ir. Pude ver só um borrão das flores rígidas e o brilho da madeira envernizada.
Aí eu ouvi minha mãe fungando e senti que ela se afastava. A bolsa dela se abriu com um estalo. Ela tinha que pôr a mão lá dentro, então me soltou um pouco e eu consegui me libertar. Ela estava chorando. Foi ela ter que cuidar das lágrimas e da fungadeira que me deixou escapar.
Olhei bem para o caixão e vi a Sadie.
O acidente tinha poupado o pescoço e o rosto dela, mas eu não vi tudo isso de uma vez. Só tive a impressão geral de que nada nela estava tão feio quanto eu tinha temido. Fechei os olhos bem rápido, mas percebi que não conseguia evitar olhar de novo. Primeiro a almofadinha amarela que estava embaixo do pescoço dela e que também dava um jeito de cobrir a garganta e o queixo e a bochecha que eu podia ver com facilidade. O truque era ver um pouquinho dela depressa, aí voltar para a almofada, e na próxima vez dar conta de mais um pouquinho que não desse medo. E aí era a Sadie, ela toda ou pelo menos tudo que eu podia esperar ver do lado que estava à mostra.
Alguma coisa se mexeu. Eu vi, a pálpebra dela que estava do meu lado mexeu. Não estava abrindo ou abrindo pela metade, nada assim, mas erguendo só um nadinha como que para permitir, se você fosse ela, se você estivesse lá dentro dela, que você conseguisse enxergar por entre os cílios. Só para distinguir talvez o que era claro lá fora e o que era escuro.
Eu não fiquei surpresa na hora e nem um pouco assustada. Imediatamente, essa visão se encaixou em tudo que eu sabia da Sadie e de alguma maneira, também, no que quer que a experiência me reservasse de especial. E eu nem sonhei em chamar a atenção de mais alguém para o que estava ali, porque não era para eles, era completamente para mim.
Minha mãe tinha pegado a minha mão de novo e disse que estava na hora de a gente ir. Falaram mais umas coisas, mas antes que qualquer tempo passasse, pelo que me pareceu, a gente já estava lá fora.
Minha mãe disse, "Parabéns." Ela deu um apertão na minha mão e disse, "Então. Passou." Ela teve que parar para conversar com mais alguém que estava chegando na casa, e aí a gente entrou no carro para voltar pra casa. Passou pela minha cabeça que ela ia gostar que eu dissesse alguma coisa, ou quem sabe até que eu contasse alguma coisa para ela, mas não falei nada.
Nunca mais houve uma ocorrência desse tipo e na verdade a Sadie desapareceu bem depressa da minha memória, com o choque da escola, onde eu acabei dando algum jeito de me virar com uma estranha mistura de viver morta de medo e viver me exibindo. A bem da verdade um pouco da importância dela tinha desaparecido naquela primeira semana de setembro quando ela disse que tinha que ficar na casa dela agora para cuidar do pai e da mãe, então ela não ia mais trabalhar para nós.
E aí minha mãe descobriu que ela estava trabalhando na loja de laticínios.
Mas mesmo assim, por bastante tempo, quando eu pensava nela, eu nunca questionava o que eu achava que me tinha sido revelado. Bem, bem depois disso, quando eu não estava mais nada interessada em feitos sobrenaturais, eu ainda mantinha em mente que uma coisa daquelas tinha acontecido. Só que eu simplesmente acreditava, como você pode acreditar e na verdade até lembrar que um dia teve dentes de leite, desaparecidos hoje, mas mesmo assim reais. Até que um dia, um dia quando eu talvez já estivesse na adolescência, eu soube como que com um buraco esquisito nas entranhas que agora já não acreditava mais.


(Do livro Querida vida, da Companhia das Letras)


Tradução de Caetano W. Galindo.


 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A visita cruel do tempo, Jennifer Egan





 Jennifer Egan ganhou com seu livro A visita cruel do tempo (A visit From the Goon Squaq), da editora Intrínsica (2012), os mais importantes prêmios de 2011 nos EUA. Além do mais importante, o Pulitzer, acumulou ainda o National Book Critics Circle Award, o Los Angeles Times Book Prize e o Tournament of Books.



Duas publicações brasileiras fizeram comentários pouco relevantes sobre a autora. A revista Veja ressaltou a beleza de Jennifer Egan e observou que ela usou sapatos baixos por causa do calçamento de Paraty ao participar da Flip. E a Folha de São Paulo chamou de insípida a sua presença na mesa-redonda da qual participou.
Primeiro vou enumerar as coisas que me agradaram no romance A visita cruel do tempo, de Jennifer Egan.
Gosto das mudanças temporais, dos capítulos intercalados, das observações de sensações dos personagens (geralmente um só parágrafo) quando a ação fica suspensa para ser retomada mais à frente. Gosto dos cortes repentinos, quando a autora apresenta outro parágrafo em que mostra o personagem já no presente como no caso do safári em que há um enlevo entre a moça e o rapaz africano que dança e ela, Jennifer, salta até hoje e faz uma rápida reflexão de que aquele homem negro morrerá cheio de mulheres e filhos e seu neto migrará para os Estados Unidos onde se formará em robótica. E de que cada capítulo se refere a um personagem. Nada novo no front literário, mas que ela o usa com habilidade não se pode negar.
 O que me desgosta é que a autora trabalha com pesquisa. No final do livro, há uma lista de agradecimentos e se percebe que ela adentrou no mundo da música e das gravadoras por intermédio de pessoas que a levaram a este nicho e que Jennifer usou sua habilidade como jornalista (lembra Zola que anotou seis meses na vida de uma mina e de seus trabalhadores) para escrever muitos dos capítulos. Creio que ela se apresenta melhor e mais escritora quando trata dos sentimentos que são inerentes ao ser humano, independente do lugar e da profissão que exercem os personagens.
 Há também muito exotismo desnecessário como o safári africano ou a jornalista que vai “limpar” a imagem de um general genocida, imagina-se na África. Desgosto também da exagerada enumeração de músicas e de conjuntos musicais, além de termos técnicos da produção musical, tudo em nome de gerar uma verossimilhança.
 O que Egan quer mostrar é o lugar-comum de descrever a passagem do tempo. Não era necessário tanto fogo de artifício. Talvez bastasse mais fogo que artifício e o livro cumpriria sua missão.