quarta-feira, 28 de outubro de 2015

De repente, nas profundezas do bosque, Amós Oz

A FÁBULA COMO ARMA




Num mundo de hoje, ainda cabe fábula para adulto. Em De repente, nas profundezas do bosque, do escritor israelense Amós Oz (1939-), percebe-se, pela linguagem, que o pequeno livro mostra um autor preocupado com a forma. O que distingue logo esta fábula de outras para crianças é a escritura. O livro não faz concessões à linguagem tatibitate de outros livros infantis.
Escrito de forma vigorosa, em que palavras se repetem de maneira variada em frases longas, Oz trabalha tanto com o imaginário infantil quanto com o imaginário adulto. Talvez fosse melhor dizer que opera com o mesmo imaginário ancestral e arquetípico. E as preocupações do autor, oriundo de uma zona em permanente conflito como é o Oriente Médio, não podem se dar ao luxo de não serem interpretadas como discussão sobre o problema palestino.
De repente, nas profundezas do bosque conta a história do desaparecimento de todos os bichos da aldeia: cachorros, gatos, pássaros, cobras, lagartos, bichos rastejantes, bichos voadores, bichos domésticos, bichos de cria, bichos da água, tudo havia desaparecido. Os bichos foram levados por aquele que as pessoas da aldeia acreditavam fosse o demônio das montanhas: Nihi.
Ninguém mostrava às crianças que eles um dia pudessem ter existido. As crianças supunham que o mundo era composto apenas de seres humanos e que as possíveis histórias de bichos eram invenção de uns poucos adultos perturbados da cabeça. Alguns, como a professora Emanuela, que contava histórias sobre como latiam os cachorros, eram motivo de chacota e desprezo. Os adultos, quando inquiridos pelas crianças, tratavam do desaparecimento dos animais como tabu. Desconversavam, negavam, não queriam falar sobre o assunto.
Mas, dois personagens infantis, Maia e Mati, adentram o bosque vizinho, e lá descobrem que os animais foram seqüestrados por Nihi, que não passa de um menino que resgatou os animais contra a fúria e a zombaria dos adultos. De repente, nas profundezas do bosque é uma fábula contra o preconceito e a intolerância. O alvo maior é o entendimento e a aceitação do Outro. A passagem em que as metáforas perdem sua força e dão lugar às explicações para o significado da fábula talvez seja o momento do livro menos forte, já que a fábula significaria por si mesma, sem necessidade de uma “moral” ao fim do livro.
Amós Oz, que declarou ter tido a ajuda dos netos ao contar-lhe a fábula antes de escrevê-la, é um escritor israelense que luta por uma solução pacífica ao problema palestino. Uma solução, como ele mesmo declarou numa entrevista, “de fundo chekhoviana para o conflito, antes que uma solução shakesperiana, pois nas tragédias de Shakespeare quase todos morrem, enquanto nas tragédias de Chekhov, todos acabam desapontados, desiludidos, mas vivos”.
Autor de literatura para adultos, talvez o principal escritor israelense vivo, traduzido para trinta idiomas, com dezoito livros escritos, Amós Oz é o co-fundador do movimento pacifista Peace Now. Esse escritor que também é professor da Universidade Ben Gurion, morando em Arad, no deserto de Negev, já chegou a dizer, num dos seus livros (De amor e trevas), que, quando criança, tinha medo de ficar adulto, pois para ele ficar adulto representava a morte. Com todo esse passado e toda essa moldura política, Amós Oz não precisava explicar suas metáforas, já por si significativas. Lewis Carroll, por exemplo, autor de dois públicos, o infantil e o adulto, não fez concessão nem à inteligência das crianças nem à argúcia dos leitores adultos.
Por fim, há uma clara divisão entre o reino animal e os humanos. As pessoas, sem os animais, se tornam tristes e desoladas e negam a existência deles para as gerações posteriores. Apesar de tudo, persiste uma lembrança de um reino de complementariedade: os animais como parte de um complexo maior que é a vida. Lida como fábula ecológica – o que não exclui a leitura política –, De repente, nas profundezas do bosque é a metáfora maior do reino animal do qual o homem é somente mais um elemento. Logo, excluir os animais é correr o risco da extinção do próprio homem.

 
imagem retirada da internet: amós oz

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Um estudo de linguagem e referencias na obra de Ronaldo Costa Fernandes




Bruno Ramos


O autor, oferecendo elementos para uma análise do comportamento do personagem Calunga, como em outras narrativas, tem perspectiva multidisciplinar e constrói a partir dela uma base de signos psicanalíticos pela qual denuncia os rigores da vida urbana e as contingencias do que migra para os grandes centros. Para delinear os conflitos de Calunga serve-se da música clássica erudita e do boxe, conteúdos que vão justificar o seu caráter dual. Há, em Calunga, sobretudo, a evidencia de certo neonaturalismo, e a marca constante da fatalidade. Além dessas características, a obra acusa a preferência do autor pelo inusitado, diferente, estranho e não convencional.

“A imaginação, ora. Incendeia quando deve esfriar e não se conforma com um circulo na casa dos quadrados”. (A Peripécia)

Exigindo, apesar da simplicidade do discurso, um olhar interdisciplinar para atender a complexidade de Calunga e seu drama interior, a obra ganha excelência, confirmando a genialidade do escritor. Esse, com aptidão, trata da tipologia do excluído, do que vive a margem ou fora dos padrões convencionais da sociedade.

Em outro trecho da obra, Calunga é situado num contexto de realismo e criticidade descrito com detalhes que dimensionam a experiência do indivíduo determinado pelo seu ambiente e hereditariedade.

“Também sou nordestino. O nordestino não emigra. O nordestino é eterno retirante. A seca, mesmo que o bicho seja do litoral, está entranhada na alma. Não tem gente apátrida? O nordestino, como eu, é sem-estado. Nem lá nem cá. Um ser que migra pro limbo. Porra, pro limbo.”

Poderíamos lançar a pergunta: o que esconde o signo "gordura" nessa obra? O que esse elemento provoca no personagem e que ele quer reprimir? A repulsa e relaxamento dos músculos que o signo causa ao personagem não diria algo revelador sobre sua inquietação? O que está ai insinuado nas entrelinhas do texto? O uso dessa metáfora e dos aspectos sinestésicos que a acompanham (figuras de linguagem) não estariam ai para configurar um conteúdo sexual, instintivo, abrangendo temas comuns do naturalismo como a homossexualidade, o incesto, o desequilíbrio e a loucura?

“– Sonho que o azeite, o óleo, a fritura, tudo isso chegue, fisicamente, lá dentro de mim e amoleça os músculos.”

Como na sua poética, precisamos depreender a carga semântica das palavras e retirar aos poucos a máscara (persona) de Calunga imposta pela vivencias sociais e certo racionalismo do discurso para ver o que denuncia nas entrelinhas. Assim, na (poesia) como na prosa, o uso de metáforas sustentam teses do personagem ou eu lirico.

“Penso em mim como aquele saco.”

O rico material para análise que o protagonista produz diz da especialidade do autor em descortinar e dissecar conteúdos humanos com minúcia machadiana. Porém se esse está para o realismo e engendra no campo do comportamento, Ronaldo mais ao neonaturalismo, aprofunda a pesquisa no âmbito científico da psicanálise, com conteúdos centrados numa provável patologia que dá distinção a seus personagens e, sobremaneira, em Calunga. Assim, desce ao abismo das relações instintivas, das taras, do medo, da ira e da morbidez para justificar ações e palavras do personagem.

Sua sintaxe merece estudo aprofundado. No conto, digo na prosa contemporânea, em que se exige mais objetividade e se quer garantir excelência ao gênero como o fizeram Machado e Duílio Gomes, Ronaldo desafia as convenções e faz uso de conotação, metáforas e outras figuras de linguagem, trazendo as influencias de sua poética, - essa também muito rica em criticidade -, porém não destoa do tom objetivo, cientifico e social da obra. Sem dúvidas, o seu transito pelos gêneros o tornaram um “exper” na arte de escrever.

Ao leitor, sugere a vida do ser em abandono. Constrói para isso metáfora, metonímias, comparações e diversas interdisciplinaridades para que nelas o seu personagem venha refletir sua essências. São nesses elementos da sintaxe do autor que revelam sua genialidade.

“Uma luta de doze assaltos, de peso-pesado, é uma ópera”
“...três assaltos com protetor na cabeça, uma ária.”
“...Mas gosto não é ouriço ou porco espinho: os gostos são animais domésticos.”
“A memória tem um punho vigoroso, mas às vezes soca o vazio.”
“Nada pior que alcançar o queixo do nada.”
“Penso em mim como aquele saco.”

A escolha por esses personagens desajustados, a preferência pelo anti-herói denotam certo niilismo por apresentar as misérias humanas em todos os níveis, físico, psicológico e psicanalítico. Calunga, por isso, vive de exclusões e do fracasso emocional e tem acusados nas entrelinhas os desastres da relação familiar e os desvarios da autocondenação e da culpa. O autor que nos exige, desse modo, uma leitura no nível das significações e lá esconde razões de toda a fragilidade e contingencias que tornam mais verossímil.

Se há um questionamento a ser feito é da própria condição humana. O autor não fica na superficialidade-máscara; antes, o seu conto trata da interioridade para revelar as dicotomias do ser através de sentimentos, culpas e confrontos com seu inconsciente:

“Toda vez que treino e bato no saco, penso que estou batendo em mim mesmo.”

Ler Ronaldo é, sem dúvida alguma, ler um clássico.


(imagem retirada da internet: nastaja fourie)