quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Lição de anatomia, poema RCF





Sou coisa
Algo assemelhado a
lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Oftalmologia, poema RCF




Quando estou cheio de cimento
das cidades
em meus olhos crescem grama
por isso talvez eles sejam verdes.

As pupilas têm o senhor reitor
das jabuticabeiras
e quando é inverno neva histórias
nos afluentes das íris.


(imagem internet: dali shirley temple, 1939)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Andy Warhol, poema RCF





Tu, Andy,
novayorkino polinésio,
Gauguin do Soho,
clichê de tua cabeleira pintada,
paixão em negativo colorido,
na solidão das séries
o tutti-fruti dos desvarios.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)



imagem retirada da internet: andy wharol