segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Um homem é muito pouco, por Lourival Serejo

O ROMANCE DE RONALDO
Jornal "O Estado do Maranhão"




Acabei de ler o último romance de Ronaldo Costa Fernandes, com este título instigante: “Um homem é muito pouco” (São Paulo: Nankin, 2010). Antes, já havia lido “O viúvo” (Brasília: LGE, 2005), um romance muito elogiado pela crítica, mas cuja leitura não me causou o impacto desta obra ora comentada. Aliás, elogios o autor já vem recebendo há muito tempo, inclusive de forma objetiva, ao vencer vários concursos literários, como foi o caso do almejado prêmio “Casa de las Américas”, pelo romance “O morto solidário”, que ainda não li.
O desafio da leitura de “Um homem é muito pouco” começa pelo número de páginas: 487. Para a pressa em que vivemos, é um número considerado elevado. Só o prestígio do autor pode tornar esse detalhe irrelevante, como é o caso de Ronaldo. À minha frente estou com o propósito de ler o “2666”, de Roberto Bolaño, com 852 páginas. Por enquanto estou marcando corrida.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes compõe-se de quatro partes, com uma sucessão de histórias distintas que se interligam em alguns pontos. Aliás, esse entrelaçamento de destinos é a tônica notável do romance. Adianto que a terceira parte arrebatou com mais intensidade minha preferência.
O leitor deve saber que vai encontrar um romance moderno e maduro, que não segue o clássico encadeamento de começo, meio e fim, com os personagens permanentes que desembocam num final esperado no círculo de suas expectativas.
Milan Kundera, em seu livro “A arte do romance”, lembra que o romance não examina a realidade, mas a existência, como um campo das possibilidades humanas. A meu ver é este o catálogo que Ronaldo oferece ao tratar da história dos personagens que desfilam no romance. São as possibilidades que surgem em razão das ações do homem, das relações familiares conflituosas, dos anseios e sonhos recalcados, dos condicionamentos e, até mesmo, do absurdo do cotidiano.
Trata-se de um romance escrito por um professor de literatura, pleno de todas as técnicas da escrita, fatores que poderiam retirar a leveza do estilo e provocar uma reação negativa no leitor. Mas nada disso ocorre, pois o estilo é leve e me fez lembrar alguma coisa como mastigação. O autor fica remoendo o fato, indo e vindo, repetindo, fixando, o que torna agradável a leitura e faz o leitor viver a realidade que a ficção pretende criar. São frequentes passagens como esta: “Nunca vi Alice tão solar, nítida e límpida. Eu via Alice através de um olho só. Era o olho que com lente de aumento se avalia a joia. Que joia era Alice? Alice não era joia alguma, pois joia é um fetiche da mercadoria como ela mesma disse. Alice era submarina. Gosta das mulheres submarinas. Nossa conversa era toda debaixo d´água. Eu abria a boca e da boca não saía nem um som. Ela abria a boca e da boca de Alice não saía nenhum som. Nós só precisávamos das borbulhas para nos entender.”
Apesar de Ronaldo ser maranhense de São Luís e morar em Brasília, as histórias que tecem o romance se passam no Rio de Janeiro, cidade que, pelas descrições minuciosas dos lugares, deve fazer parte, também, da vida do autor como fazia parte da vida do narrador da segunda parte do romance: “Não posso fugir do Rio de Janeiro porque o Rio de Janeiro está em mim como fígado ou rim. Não posso viver sem o fígado, não posso viver sem o rim”.
Como já disse anteriormente “Um homem é muito pouco” revela a maturidade de um escritor que não faz romance pela primeira vez, que já teve testada e aprovada sua competência como romancista.
Quanto ao título do livro, se o leitor não encontrar a resposta após o término das suas 487 páginas, só perguntando ao autor que detém a chave dessa inspiração. Umberto Eco, ao explicar as origens do processo de criação de “O nome da Rosa” disse que um título deve confundir ideias, nunca discipliná-las.
Com certeza posso dizer que tantas páginas ainda me deixaram a sensação de que foram muito poucas para o que ainda se desejava saber sobre certos personagens.

imagem retirada da internet: magritte

domingo, 3 de janeiro de 2016

Aos dezoito anos, poema RCF

radu belcin


Aos dezoito anos,
havia mais noite em meus dias,
aos dezoito, tropicalizei-me,
aos dezoito, fui recruta e recrutei,
aos dezoito, rock enrolei-me,
alberguei-me nas esquinas, onde a
cidade é mais cidade,
aos dezoito, pari desertos,
a periferia virou centro,
aos dezoito anos de idade,
vendi um jipe e comprei
um sol a pino para
aparafusar minha velocidade,
aos dezoito anos,
desde o começo namorei o fim,
li Whitman e Álvaro de Campos
e acreditei que uma máquina
triturava minhas manhãs,
as rodas dentadas na maçã
e o coração flamejante de coca-cola,
o sangue a 24 quadros por minuto,
uma roupa brilhante de futuro
e não perdi a ternura,
faca que se amola
sem nunca chegar a ter gume,
aos dezoito anos,
mimeografei meus dedos
e encarcerei-me na liberdade.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)