sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Lamento do menino triste, poema RCF






O azeite ainda se agarra
às paredes do frasco depois de esvaziado.
A água, leve, esvazia-se rápido,
às vezes até evapora, e não deixa resíduo,
nada se gruda à parede do frasco.
Ó mãe, faz permanecer em mim a água da alegria
e me livra do azeite do desengano.




(do livro A máquina das mãos, 2009, Ed. 7Letras)
 
 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Carga pesada, poema RCF


 

 

Minha mente é um navio cargueiro
que leva apenas uma carga:
a carga pesada dos dias
que se torna mais carga
quanto mais afunda
o transporte de bens
que desconhece a estiva do dia
e boia imerso
sob a água insalubre dos relógios de pulso.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)




 

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Poema quase erótico, RCF


Di Cavalcanti



A visão dos teus quartos




O parlamento do corpo
na assembléia de membros,
tua bunda,
tuas duas luas nuas,
o sistema solar do assoalho,
os olhos chineses da persiana,
e, tu, na ventriloquia do telefone.

Tu, que és distúrbio,
multidão de uma só pessoa,
passeata de sopranos e bombardinos,
me lanças coquetéis molotovs
e me incendeias com a gasolina dos teus cheiros.

Os poros como ventosas,
os pelos se eriçam como línguas tremelicantes.
Cai a chuva amarela da luz dos postes.
Meus dedos têm memória:
tocam o espinho de carne do teu seio.
Teu biquinho do peito
como o segredo do cofre,
vou rodando até fazer clic
e aí teu coração – ou o tesão – se abre.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet