sexta-feira, 11 de março de 2016

Nos rastros de Fernando Pessoa, Walnice Galvão








Passando por Portugal, é bom lembrar que Lisboa é a cidade de Fernando Pessoa: tratemos de seguir seus rastros.
Vale uma visita à Casa de Fernando Pessoa, onde o poeta viveu seus últimos quinze anos. É um casarão com vários pisos, constituindo o mais completo e atualizado museu sobre o poeta. Ali se encontram objetos e mobiliário do espólio, bem como os famosos óculos de vovó, juntamente com a máquina de escrever, a biblioteca particular com 1200 volumes (já toda digitalizada), uma sala astrológica – assunto a que, como se sabe, o poeta era devotado -, retratos e pinturas a óleo, com versos, frases e muitas imagens suas espalhados  pelas paredes, etc.
Tão famoso quanto os óculos, fica ali também o retrato em tamanho natural pintado por Almada Negreiros. E tudo o que há de mais moderno, virtual, eletrônico e interativo, inclusive entrada de wi-fi gratuito, no projeto da arquiteta italiana Daniela Ermono  inaugurado em 1993. O mais que famoso baú não fica lá, mas na Biblioteca Nacional – onde há décadas é fonte preciosa de estudos, pesquisas e edições, já que ainda havia muita coisa inédita.
O endereço da Casa de Fernando Pessoa é: rua Coelho da Rocha, 16, no belo bairro de Campo dOurique. O nome do bairro alude ao evento fundador de Portugal, quando o país foi criado. Passou-se assim: estava o Infante D. Afonso Henriques em Ourique, no Alentejo, no sul do país, às vésperas de uma batalha com os mouros, quando teve uma visão, em que lhe apareceu Cristo crucificado, com promessas de vitória. A batalha se deu no dia 25 de julho de 1139, quando, reza a lenda, era dia do aniversário tanto do Infante quanto de Santiago (S. Tiago) o Matamouros. A lenda reza ainda que o Infante comandou a luta com um inimigo numerosíssimo, liderado por cinco reis mouros. Filho e herdeiro do conde Henrique o Borguinhão, a vitória deu-lhe o título de rei, e a Portugal a autonomia, promovendo o país de condado a reino. Assim, Portugal viria a ser o mais antigo país da Europa, ou seja, o primeiro a se constituir. Se alguém estiver interessado, pode ler o episódio descrito com abundância de detalhes no poema épico nacional, Os Lusíadas, de Camões. Essas circunstâncias ficaram gravadas até hoje no brasão de armas da nação, ou escudo, onde se vêem, muito estilizados, tanto as cinco chagas de Cristo quanto os cinco reis mouros.
Não longe da Casa de Fernando Pessoa fica o túmulo do poeta, no Cemitério dos Prazeres, onde foi enterrado. Posteriormente, ele seria trasladado para o Mosteiro dos Jerônimos, ganhando um monumento fúnebre, numa figuração do ortônimo com seus três heterônimos principais – Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.
Em outro bairro, o Chiado, na calçada defronte ao café por nome A Brasileira encontra-se a estátua de bronze do poeta seu frequentador, sentado a uma mesa, a tomar a sua “bica” com ar absorto. Os turistas não resistem a fazer uma selfie com ele. Dentro, outro belo retrato.
Lá em baixo, na Praça do Comércio, número 3, fica o café-restaurante Martinho da Arcada,  próximo ao escritório em que o poeta trabalhava ingloriamente. Tem vista para o mar, ou pelo menos para o Tejo que já se alarga no estuário, dando matéria à poesia e alento às fantasias de Fernando Pessoa sobre viagens, navios e piratas, enquanto continuava atado à escrivaninha em seu modesto e monótono mister de amanuense. Fala-se em criar um museu a ele dedicado, nos altos do café.
A crônica do Martinho da Arcada é tão ilustre quanto boêmia, constando que foi frequentado por Bocage, Cesário Verde, Antonio Botto e o pintor Almada Negreiros, entre muitos outros, inclusive políticos, em diferentes épocas. Com o pintor teria o poeta tomado um último café, três dias antes de sua morte em 30 de Novembro de 1935.
Até hoje, Fernando Pessoa tem mesa ali reservada,
lembrando a de Hemingway em Havana no La Floridita, onde, ao que dizem, inventou o daiquiri da casa. Ao perguntar a um garçom se aquela cadeira no canto, protegida por um cordão de seda, é a de Hemingway, recebe-se inesquecível resposta: “Lo era, compañera. Ahora es nuestra”.
Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da USP.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Café para dois, poema RCF









O café nos une.
Mas as palavras não se diluem
como quem adoça com pó de gesso.
É preciso degustar
o açúcar refinado das relações perigosas.

Sob a luz fria e fluorescente das negações,
a cegueira das mãos
que não sabem por onde andam.
O que nos separa não é uma mesa.
São a tabula rasa do medo,
a toalha dos bons comportamentos
e as quatro pernas do desejo.





(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)