quinta-feira, 17 de março de 2016

Noite, pura noite, poema de RCF





Não há carteiros na noite.

Feito só de cabeça,
corpo de luz invertebrada,
o sinal de trânsito
pende gota gorda de vermelho.
As putas dão prazer automóvel.
Na numismática das janelas
o único olho aceso do prédio não pisca.
A noite não tem pés só cabeça
o travesseiro feito de vozes interiores,
fronhas inconscientes,
vigílias sonâmbulas.
Inventar a noite:
abolir sua mania de enigma,
a substância silhueta,
eliminar o hábito de sombra.



(do livro Eterno passageiro, Varanda, 2004)