quinta-feira, 2 de junho de 2016

Desclassificado poético, poema RCF




Vende-se, troca-se, empresta-se
alma vazia, uso desmedido,
não necessita de muita manutenção,
um pouco de poesia,
dois dedos de beleza,
um pouco de amor, pelo amor de Deus.
Capaz ainda de espasmos,
lúcida, embora dolorida,
aparência de nova,
perspicaz e dolorosa,
pode ser usada em leitura,
sentimentos nobres permitidos,
outros ignóbeis também presentes.
Quem tiver interesse,
telefonar ou procurar
na portaria do corpo
bater à porta
do corpo que a transporta.
Exige-se sigilo.
E uma profunda humanidade.


(do livro Memória dos Porcos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


(imagem retirada da internet: alma gêmea)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O boi, poema RCF



na colcha
                  de retalhos das plantações
o campo
                  não se mede com o metro do homem
o que vale
                 são os pastos
o livro tombo dos mourões
o tabelionato das valas
a notaria dos rios
o documento de letras dobradas
dos córregos e montanhas

o boi
              é o verdadeiro agrimensor
                                                anarquista
tabelião rebelde
              só respeita a seca
                                     forma de cerca
               hectare de um metro
que o cerca a cada passo
                            na terra devastada

o boi
           come o hectare
                                como quem pasta o limite


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

(imagem retirada da internet: pintura ignacio da nega)