sábado, 16 de julho de 2016

A chuva


Caso morra, estarei barbeado e limpo,
como quem se higieniza para o amor
– não que a morte seja rito,
embora deva ser engravatada
e sonolenta como o morto se veste a rigor.
A rigor, a morte é higiênica.

Tua morte não aguda,
perpendicular,
garoa que perseguisse
o clima aziago do coração:
morte permanente e múltipla
a morte tem suas manias,
e o morto a idiossincrasia
de viver na memória dos outros
como uma chuva
que chovesse sem molhar.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem retirada da internet: chuva

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Dissolução, poema RCF






Não percebo fuga,
escape ou ladrão que me transborde.
Estou aprendendo a lição de casa,
tão difícil quanto qualquer lição da rua.
Não direi mais presente.
Quando vier a chamada direi futuro.
Refazer a ginástica:
pegar a própria barra para ascender.
Sou como os jardins que são florestas mansas
controladas por mão arquiteta,
na planta de papel vegetal,
na lobotomia da poda
ou no choque elétrico do cortador de grama.





(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)

imagem retirada da internet:miró

 

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um homem é muito pouco 25





         Há outro tipo de frequentador do bar do Vicentino. O sujeito que se aposentou da vida. O sujeito que se aposentou da vida não é necessariamente um sujeito velho, apenas deixou que o corpo dele desse expediente. O sujeito aposentado da vida não tem fundo de garantia, nem pensão. Geralmente vive à custa de mulher balzaquiana encalhada e com furor uterino, muitas vezes casada, ou vive de pequenos bicos e trambiques. Esse cara propriamente não tem a alma vadia e muito menos a alma dele chora pelos cantos. É um sujeito aleijado. Não no corpo, mas na alma. A alma de um sujeito que se aposentou aos vinte e três anos é alma que tem a perna da alma quebrada, os pés da alma quebrados e as mãos da alma inertes e perdidas. O corpo mesmo só serve para lhe dar prazer. O sol da praia, a cama das mulheres, um cigarrinho do que quer que seja. Se o corpo se esquece de ficar sadio e adoece, ele não quer mais o corpo. O corpo só lhe dá prejuízo. O corpo come, o corpo precisa de cama para dormir, o corpo tem que pagar roupa. É certo que ele gosta de dar roupa ao corpo, mas não gosta de gastar grana para o corpo deixar de ser corpo que é quando o corpo dorme. O sujeito que se aposentou da vida é vaidoso, gosta do corpo bronzeado que ele passeia pelas areias da praia. Drogado, gostaria de jogar o corpo fora. Não o sente. O corpo só dá gasto. Até que um dia o corpo também estará gasto. O corpo e suas despesas. Mas sabe que a alma não se deita com as mulheres maduras e gordas que fodem com ele e lhe dão grana. Sabe que a alma não lhe dá o prazer da droga. Sabe que a alma não toma sol.

            Outro tipo que aparece no bar do Vicentino é o sujeito que quer fazer câmbio de Dolores, como chamo o dólar. Como na região tem alguns hotéis e sempre estão cheios de gringos, Vicentino descobriu que podia ganhar a vida como banqueiro. Banqueiro de dolores. O gringo chega, pergunta se há cambiô e Vicentino já responde com a cotação do dia, vinte para a venda, quinze para a compra. Todo bar é um câmbio negro. A energia que emana de um bar é uma energia escura, cheia de ácido úrico, bêbada. Há algo bastante escuro no cambiô de dolores.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

Perigosa manhã, poema Memória dos Porcos


 

 

 
O dia nasceu prematuro,
os bracinhos de galhos secos,
o cobertor de lã cinza
cobre o corpo franzino da manhã,
o rosto amarrotado de nuvens.
Sob o narcótico do sono,
o sol, com sua luz antibiótica,
briga para arregaçar as mangas do dia.

Viro-me na incubadeira da cama,
a focinheira bafeja ar seco,
como seco é o choro do orvalho das árvores
                                    no estio de julho em Brasília.

O cinza que tudo anula,
desfaz, apaga ou nega
– existência que desconhece a existência –
não logra me trazer de volta à rotina
dos que vão para a enfermaria do trabalho.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


domingo, 10 de julho de 2016

A arca das consequências


 
nesta minha barca, só entrarão
os animais distorcidos pela aspereza
que dá substância ao ar
e ao viver um ato de roçar a cautela dos dias
haverá uma ninhada de desculpas
as aves irrequietas dos volúveis
paquidermismo da embriaguez
uma avareza em forma de cão
anônimas e sumidas vidas de insetos
répteis dos desejos
duas almas desgastadas
uma família de ânsias
um herdeiro do fim
duas medidas de despejo
o animal disforme da utopia
e muita água uterina
a nos afundar na origem
até que venha a pomba do apocalipse
a mostrar que ainda há vida
sobre a face da terra
e nenhuma salvação nos versículos que escrevo.
 
 
 
(do livro O difícil exercício das cinzas)