sábado, 30 de julho de 2016

Um homem é muito pouco 33





Os amigos poetas de Alice não gostam de mim. Me acham burro. Um sujeito sem leitura. Tenho minha leitura, mas não é a leitura deles. Alice odeia a poesia dita feminina que fala na hora presente, no amado perdido, no voo do pássaro, na tentativa de recuperar o instante e tudo o que é deliquescente e abstrato ou trata do universo feminino como menstruação, maternidade e pintura de unhas só pode entrar na poesia se for como ironia.

            Procurei Alice na casa de Artur Rabelais (é claro que o Rabelais era apelido e não o sobrenome do cara) e ele me disse na porta do apartamento, uma espelunca igual a minha, que não via Alice fazia uma semana e que não tinha ideia onde ela poderia estar. Alice não tinha pouso fixo e se eu quisesse entrar que eu entrasse, mas Alice não estava ali. Bati em outras duas portas e ninguém tinha visto Alice. Outro grupo de Alice era de cineastas ou de candidatos a cineasta. Eram cineclubistas e curta-metragistas. Haviam feito apenas um ou dois filmes, mas quem os ouvisse falar pensava que estava falando com Antonioni ou com Bergman. Falavam em Dizga Vertov, Griffith e Eisentein. Mas quem não fala em Dizga Vertov, Grittith e Eisentein nos dias de hoje? Cheguei a ir ao Museu de Arte Moderna, na Cinemateca do MAM, para ver se a encontrava. Os cineastas já eram outro tipo de gente, tinham mais grana, eram de famílias ricas. Para fazer um filme você precisa de grana, para fazer poesia basta papel e lápis. Os cineastas amigos de Alice também ficam impressionados como conheço cinema. Conheço cinema porque eu via desde Tom e Jerry, nas sessões dominicais do Pax quando criança, O Rei dos Reis, um filme que passava sempre na semana santa, e hoje em dia vivo escondido no cinema vendo comédias idiotas até filmes de arte. Alice já aparecera nos dois curtas-metragens do grupo, mas Alice não quer ter corpo e quem não quer ter corpo não pode colocar o corpo inteiro numa tela. Alice pensa que pode ser reconhecida, e por meio das pessoas do filme, eles chegariam até ela. Alice não diz quem a persegue, não digo quem me persegue.


(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


quinta-feira, 28 de julho de 2016

O homem olha o Mondego, poemaRCF


 

 

Alguns rios me banham: Bacanga e Anil.
Meu corpo está cheio de rios:
minhas veias são rios vermelhos
que desembocam no mar do meu coração.
Os rios se instalam em mim
e em mim me danam, lanhando
por dentro meu corpo, linfáticos e
cheio de incertezas, onde habitam
passado e história, dor e escuridão.
Há rios em mim que desconheço
sua foz, sua embocadura,
de onde nascem, para onde vão.
O pior rio é o da mente
que flui sem margens,
desordenado e com várias águas,
águas desiguais e turvas.
Há rios em mim que nunca supus ter.
Meu pensamento é um rio seco
mas pleno de correnteza e afogamento.

  

Coimbra, 18.10.2009

(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


 

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Um homem é muito pouco, carta do leitor

Somos poucos para tanta vida



Comecei a ler Um homem é muito pouco em março deste 2011. Confesso que, a princípio, fiquei meio assustado com as 490 páginas. É uma temeridade lançar um livro tão volumoso em tempos de Internet. Segurá-lo nas mãos não foi muito fácil, principalmente no metrô lotado (rs), onde costumo aproveitar o tempo. Até mesmo em casa, costumo segurar os livros nas mãos – não gosto de apoiá-los em mesas porque não oferecem um ângulo bom para leitura. Terminei de ler em fins de abril, mas valeu a pena, porque o seu romance “vale quanto pesa”.
Cara, você é o rei das analogias. Você cria metáforas muito interessantes, poéticas, singulares, aparentemente absurdas, mas que levam o pensamento a campos inimagináveis, inexplorados, estimulando sinapses em nossos cérebros. Cria inteligência natural.
Curioso, também, que você foge dos travessões nos diálogos, assim como das irritantes aspas. E usa poucos pronomes (quase nenhum), preferindo repetir os nomes dos personagens quantas vezes forem necessárias, sem nenhum constrangimento. E faz isso de propósito, notei.
A sua obra é bastante existencialista e reflete sobre a aventura humana de um jeito despojado, como quem não quer nada – filosofia silenciosa. Faço questão de assinalar algumas das analogias/metáforas que mais me chamaram a atenção. Para mim, elas são o ponto forte da sua obra. Eis algumas delas (vou fazer como você, não vou usar aspas):
• O pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma.
• A maior perseguição é a perseguição do homem com sua fuga.
• Um homem não pode viver despido de sentimento.
• Tem gente que já nasce morto e vive morto pela vida afora.
• A maioria das pessoas vive morta e só acabará com o sofrimento quando chegar o que se julga morte.
• Não, a vida de um homem não é peso que se pesa ao subir na balança. O peso do homem inclui sua consciência.
• O sujeito pode trabalhar todo o dia como pedreiro ou carpinteiro, mas a alma continua vadia.
• Não há passado, nem há presente – apenas o futuro que chega a cada minuto.
• O sujeito que se perde pode estar perto do ponto aonde quer chegar, mas caminha em direção oposta.
• A morte é uma condenação para culpados ou inocentes, e parece que, diante da morte, todos somos culpados.
• Sentaram num restaurante e nenhum dos dois comeu nada. Os pratos ouvindo a conversa.
• Há pessoas que, mesmo na aparente rotina, são tão múltiplas dentro de si, tão outras, tão variadas, que não há jeito de criar rotina.
• Gostava da rotina. Achava a rotina criativa. As melhores ideias que tinha apareciam durante a rotina.
• Os dois médicos de Cristina disseram que ela gestava um medo menina.
• E ela foi viver com Jaime sabendo que casava com um vulto.
• Há pessoas que nascem, vivem e morrem na mesma casa e passaram a vida em fuga.
• Os obsessivos dão voltas em torno de si mesmo.
• Vi o cadáver e o cadáver estava pronto para ir para o trabalho e não para o cemitério.
• Só sei mentir para mim. Sei me enganar como nenhum outro.
• O cara que mais vigio sou eu mesmo.
• O passado pode me abocanhar o calcanhar e não deixar que eu ande livremente.
• A gente não mora em lugar nenhum. O único lugar em que a gente mora é dentro da gente, dentro do corpo.
• Até mesmo a lei da gravidade nos oprime.
• Todo homem traz um pouco do resto da humanidade.
• As grades feitas de pensamento são muito mais difíceis de serrar.
• Eu também devia ter alguns roubos dentro de mim que eu não dava queixa a ninguém.
• A gente nunca sabe quando é a última vez que se vê uma pessoa. Olho-me no espelho e penso que talvez seja a última vez que me vejo.
• O modo de eu desaparecer de mim é perder a memória.
• A doença de Humberto era falta de vida como quem tem falta de vitamina ou de sangue.
• Havia na Rua Buenos Aires uma farmácia que vendia veneno para suicidas e que todos conheciam.
• Caçava-me, caçava uma mulher, caçava um sentido. Cansa muito caçar um sentido para a vida.
• Vestia-me de prisioneiro todo dia para ir trabalhar.
• Amanhã terei que comprar comida para alimentar o corpo que insiste em viver.
Etc., etc.
Meu caro Ronaldo, um homem é, realmente, muito pouco para absorver toda a sua riqueza como escritor. Aguardo o próximo romance. Me avise.



Jaime Pereira da Silva
Jornalista e compositor, 59 anos cravados na beleza da vida.

imagem retirada da internet: loliness

domingo, 24 de julho de 2016

Memorabilia, poema RCF



A surpresa sucumbe submissa e arredia.
Os móveis tímidos,
pratos desconfiados.
Não sei para que ralo
escorre o líquido solitário.
Sou feito de matéria que desconheço.
Minhas pernas já se acostumaram
a tomar seu rumo.
A gente vai inventando vivência.
O burburinho de roupas falantes,
a algaravia de pernas de voz fina.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)