sábado, 20 de agosto de 2016

Vida militar, poema RCF




radu belcin
 

 

O que o homem carrega em sua pasta
é mais que papéis: leva com ela a cabeça.
Cada órgão tem sua idade,
pode-se supor que um fígado seja adolescente,
enquanto o coração amadureceu.
As ideias também têm rugas
que são difíceis de maquiar.
Faz mal aos pulmões
quando se inspira compaixão.
O homem sai de casa acompanhado por tropa:
vão com ele seu medo, que tem alta patente,
um pouco à frente segue o futuro,
que vai mudando de farda,
do seu lado vai o fardo,
que é o grosso da tropa.
Arregimenta sua dor
camuflada de civilidade
e aquartelada pela caserna do trabalho.
Reformou-se da alegria
só espera a hora de dar baixa
no pelotão dos homens.
Só tem um superior:
o deserto que o faz mais raso
e a vida de quartel
onde não sai da guarita,
sentinela que é do inimigo
que o ronda
na noite deserta
ou na manhã que não nasce.                                                    

(de O difícil exercício das cinzas, 2014)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Cansaço dos buquês, poema RCF








Memória dos porcos (capa dura)



De carro ou a pé,
foge da bifurcação que é uma forquilha
que lhe atira a primeira pedra.
Pedestre,
não tem mais nenhuma ânsia de pé.
Queria andar de quatro,
quatro pés no chão,
quatro mãos na terra,
quatro dimensões do medo,
quatro estações florescem no cérebro.
Veraneia devaneios,
hiberna sentimentos,
no outono, caem folhas de papel,
floresce seu desgosto
– um buquê de mágoas
que não murcham.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)










quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Raízes expostas, poema RCF




Matemática sem números,
álgebra sem cálculos,
tormento sem vento,
apenas o lamento
do vento no torno do dia.

Essa paralisia, voz que não escapa,
essa distonia, mão que não aperta,
é o fruto da terra crescendo pra dentro
como um tubérculo que afunda
no mar de terra.

Raízes expostas - são feridas da terra
no tecido seco depois das queimadas.
Secos também são os olhos camponeses
onde nada viceja.

Um dia o homem
é o gafanhoto e sua praga,
no outro é o semeador
que aplaca a chaga.


(do livro Terratreme, Fundação Cultural de Brasília, 1998)


imagem : portinari

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Cera da manhã, poema RCF







Eis que a mãe
surge pela manhã.
Traz o tempo nas veias.
Sentada e imóvel,
ela é a melhor fotografia
tridimensional de si própria.
Tem medo de que
quem esteja ali sentada
seja inflamável
por ser uma cópia de cera.

A mãe o chama
e se incandesce.
É conversa que se consome
e bruxuleia,
ora pavio lúcido,
ora a cera do esquecimento.
Tem medo de que ela se esqueça
dele e, assim, ceráceo e ardente,
enrijecerá a infância,
serão últimos os primeiros passos
e morrerá vivo na memória
da mãe que o perdeu
dentro de seu labirinto
feito de museu e cera.



(imagem retirada da internet:tredalert)

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Código postal, poema RCF


.



Faz tempo que me mudei.
Às vezes mudo e não falo nada a ninguém.
Nada me endereça.
Sou destinatário de todas as entregas equivocadas.

Não gosto de mergulhar em mim.
O sal do pensamento é grosso.
No fundo sou um sujeito que não dá pé.
Por isso cada mergulho é um naufrágio.
E não faz bem à saúde
naufragar todos os dias.




Memória dos Porcos, 2012

foto: rodney smith