sábado, 10 de setembro de 2016

Coração, poema RCF



Arte | Antonio Lee
Antonio Lee


Meu coração é um bicho
que coaxa dentro de mim
às vezes se acanha
outras dispara seu relógio de sangue.
Meu coração não sabe dançar:
quando começa seu descompasso
pisa no pé das minhas dores.
Ora late como cão
sem corpo ou rabo
ora lembra caixa vazia
um oco no sem jeito no peito.
Meu coração tem sua ginástica
corre mais que o dono
quando a hora é escassa.
Meu coração é um fole
que mal se enche
logo se esvazia.
Meu coração tem estômago fraco
não é bom da cabeça
tem mania de grandeza
quer ser melhor do que é,
embora saiba que, preso,
não tem pernas pro que der e vier.
Meu coração tem vocação militar
por isso marcha rubro
no mesmo lugar
como um recruta punido.


(do livro A máquina das mãos, Rio: 7Letras, 2009)



imagem retirada da internet: magritte

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Por que um homem é muito pouco, Edilson Dias Moura




Edilson Dias Moura
Crítico Literário, Mestre pela USP, Editor da revista Opinães.


Publicado no fim de 2010, começo de 2011, pela Nankin, Um homem é muito pouco revela mais do que se espera sobre nosso tempo. Ao transformar em simbólico, representativo, o usual e imperceptível, e até mesmo o repugnante, em literatura, o romance nos leva, contra o pano de fundo de nossa memória, ao reconhecimento dos muitos de nossos pseudovalores ético-morais, produtos do consumo-capitalista e do marketing, de uma estrutura sociomental reificante; contudo, não num sentido de denúncia social, mas em termos de elaboração estética literária. A surpresa é tal que aquelas primeiras elucubrações iniciais, dos prêmios principalmente, se dissolvem completamente sob o prazer da decodificação literária.

(...) Clemente reconheceu o homem que o assaltara. O coração agitou-se. Olhou para o pescoço e o cordão de ouro dele estava no pescoço do homem. Clemente avançou no pescoço do homem, arrancou o cordão. O cordão na mão lhe devolveu as forças e suas pernas rejuvenesceram trinta anos. As pernas também pensam. E o que as pernas pensaram naquele momento é que não deveriam ficar ali paradas. As pernas servem para sustentar o sujeito como pilotis, mas também servem para transformar a parte de cima do corpo em um tronco leve. (...) A metade de baixo corresponde às pernas e quando as pernas viram máquina de correr então a parte de cima é apenas um busto que é levado por uma carreta ligeira. (FERNANDES, p. 13, 2010)

Diante da ousadia do texto, percebemos que o romancista não traz na bagagem apenas alguns romances, alguns prêmios, mas sim certa compreensão da arte e da prática literária bastante surpreendente perto de tudo que nos tem sido apresentado nos últimos anos, seja por grandes ou pequenas editoras. Por meio de uma escrita muito particular e de um modo de descrever e de compor próprios, vai-se revelando a atualidade desse romance pouco a pouco.

Combinando elementos inusitados do modelo automatizado do mundo com o modo de funcionamento do raciocínio de seus personagens, suas manias, anseios etc., o autor surpreende-nos com o desenvolvimento de uma narrativa constituída de elementos que não se deixam analisar classicamente: já não se trata apenas da reificação e sua ação nas atitudes mentais, embaralhando valores mercantis e qualidades humanas; mas sim de um esgotamento do sentido humano das coisas, do sentido de fragmentação, inclusive do sentido de homem, menos que um “mineral” na vida quando destituído de um papel social. Algo só verificável em contraste com os valores de nosso próprio tempo e suas demandas, sob o fetiche dos avanços tecnológicos e da vida informatizada.

Conta-se, em determinada altura, quando se reúne a família de Eurico para comemorar o aniversário da mãe, que um de seus irmãos morrera ainda menino. Desde então, a mãe permanentemente o esperava. Para aliviar a dor dessa ausência, os familiares passam a inventar uma biografia: “foi ao colégio, fez faculdade, agora o menino morto tinha casado e ainda não tinha filho” (FERNANDES, 2010, p. 258). Eurico é relojoeiro, e desde o início desta parte do romance nos habituamos a uma espécie de assimilação da consciência, do mundo e do próprio personagem, pelos mecanismos do relógio e suas dimensões maquinal e temporal. E é nesta reunião de família, em torno da mãe numa cadeira de rodas, que encontramos uma das mais belas passagens desse romance:

Um pouco da tristeza de Eurico é que não podia fazer a felicidade da mãe. A mãe perdera os rolamentos há muito tempo. Tinha gente na família que dizia que a mãe começou a atrasar as ideias quando morreu o menino morto. E traçavam o percurso de atrasos das ideias da mãe. Lembra a viagem à Bahia? Lembra quando a mãe esqueceu onde morava? Lembra quando a mãe... e davam corda no relógio da memória a lembrar fato e datas em que a mãe se perdera de si à procura do menino morto. (FERNANDES, 2010: p. 259)

Sucede a esta passagem magnífica o elo com a primeira parte do romance, quando Clemente procura recuperar o cordão de ouro que lhe furtaram e, ao arrancá-lo do pescoço do suposto ladrão, suas pernas rejuvenescem trinta anos. Adriano, filho de Eurico, apaixonado da prima a dançar twist, observando as pernas da prima, compara a juventude e velhice da seguinte forma: “As pernas mortas eram o começo de o homem virar mineral. As pernas minerais da avó, por exemplo, já diminuída da cabeça, a transformava num busto que se recusava a deixar a vida.” (FERNANDES, 2010: p. 261).



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Empório de cenas, poema RCF


 

 

 

Um inventário de cenas
do passado estão penduradas
no empório da memória,
mas não quero buscar
o instante perdido
no balcão dos anos
– não há tempo,
apenas o presente
que é um trem sem parada.

O médico prescreve:
eliminar o passado
duas vezes ao dia.
Leio a bula:
Composição: 1984 mg
de presente fraturado.

O remédio me extirpará
o apêndice da infância,
que só serve para inflamar.
Deixei de ser o que sou
faz muito tempo e me felicitarão
por me desfazer da vesícula
dos tortos e angustiados.
Terei a anestesia das marchas:
cinco para a frente
e nenhuma marcha a ré.                                       



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



 (foto:vivian maier)

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Horas tortas, poema RCF


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Aqui a lâmpada me vigia
com seu grande olho branco.
Pingam os minutos na torneira das horas.
O relógio é bússola
cujo norte é o próximo segundo.
Tudo me olha e controla
até mesmo a imagem no espelho
que passa de lá para cá
e sinto minha ausência
que não se fixa e não me olha.

E então busco o sono,
mas a insônia, prima da solidão,
segura minhas pálpebras abertas
com as pinças do sol da meia-noite.
A solidão escorre pelas paredes brancas
e um fio de silêncio cai do teto.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Tattoo, poema RCF






As tatuagens são grafites
na pele que só desaparecem
na morte, onde a parede murcha,
o muro apodrece, e o tattoo
migra para a alma,
que tem outra espécie de grafite,
as cicatrizes das perguntas
que logo desaparecem
– algum cretino vem e sopra
a chama da vela e deixa escuro
o que era inquieto e bruxuleante.

As tatuagens na alma
têm sua tabuada do medo,
lá onde um e um nunca serão dois,
porque nela não existe soma,
apenas a subtração dos vestígios.
As tatuagens da minha alma são feitas do desassossego do linho,
que, mesmo engomado, não suporta pressão,
tem a engenharia das obras abandonadas
que por sua vez são uma espécie de tattoo sobre a pele do tempo
e à incúria de Deus que não gosta das cidades.

Todo meu corpo é devoluto,
terra grilada ou invasão,
Meu muro é minha pele lúcida
que vai se esburacando
e meu contrato é com a imaginação
e se alguma certidão tenho
é a certidão de nascimento do fim.


(do livro Memórias dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

Paulo Paniago comenta Memória dos Porcos


Retrato de uma dama com livro, s/d
Andrea Appiani (Milão, Itália, 1754 – 1817)

o poeta ronaldo costa fernandes lança terça (22) à noite, no carpe diem, o livro memória dos porcos.

em geral introspectivo, o escritor também desafora, sabe que o mundo merece melhoras.

ao comentar as linhas tortas que deus escolhe para escrever certo, ele aponta:

                                                   deus deveria ter um caderno
                                                  de caligrafia para melhorar a letra.

tem outras coisas geniais por lá, mas essa aí bastou para me tirar o fôlego. me proponho a colaborar com a vaquinha que forneça a deus uma caneta-tinteiro.

(do blog Desaforismos)

domingo, 4 de setembro de 2016

Jó, romance de um homem simples, de Joseph Roth

A DIÁSPORA QUE ESTÁ EM NÓS


Joseph Roth





Ronaldo Costa Fernandes



A diáspora está por trás de toda literatura feita por judeus sobre temática judia, seja de maneira explícita, seja de maneira implícita. No caso de Joseph Roth, sua literatura contém todos os elementos da literatura de cunho judaico, sem perder a modernidade e ser um dos grandes livros da literatura de língua alemã. E mais ainda quando sua história é uma declarada paródia à bíblica história de Jó que desafiou Deus. Jó não é o único personagem da Bíblia a ser testado por Deus. Deus gosta de colocar seus filhos mais amados numa provação que chega ao limite do desespero. Não é diferente aqui com esse Jó russo e judeu, chamado Mendel Singer, que emigra de um vilarejo pobre da Rússia, onde é simplório professor, para os Estados Unidos, para se tornar pária. Sua recompensa virá ao final, depois de sofrer provação e blasfemar severamente.
Jó, romance de um homem simples é tradicional em sua forma de apresentação linear e contínua, tendo um só narrador onisciente. Mas a aparente fábula e paródia de Roth tem tanto vigor narrativo e sua construção em ritmo trepidante, emocional e direta carrega muito da modernidade de outros seus contemporâneos. O livro, dizem alguns críticos, se insere entre as grandes narrativas do princípio do século XX.
Joseph Roth (1894-1939) nasceu em Brody, cidade que integrava o Império Austro-Húngaro, hoje pertencente à Ucrânia. Jornalista de êxito, dedicou-se à literatura no final dos anos vinte. Tem outras narrativas, entre elas o romance A marcha de Radetzky. A Cia das Letras publicou, em 2006, Berlim, em sua série de jornalismo literário. Em 1933, emigra para a França onde irá falecer no final da mesma década. Querem colocá-lo entre os renovadores da literatura moderna, mas Joseph Roth é um grande narrador, excelente romancista, um dos grandes mestres do século XX, mas não se enquadra na tropa vanguardista de Proust, Kafka e Joyce, em que querem alistá-lo.
Jó, romance de um homem simples trabalha também com um dos elementos primordiais das antigas narrativas: a metamorfose. Não a metamorfose fantástica, mas a transformação inesperada e a surpresa a partir da transformação. Muito utilizada nas narrativas até o romantismo, a transformação radical, não a lenta maturação psicológica do personagem ou a mudança de comportamento, deixa no romance um traço da tradição – laica e religiosa – que permeia a história de escrita por Roth.
Não são poucos os que criticam a América como lugar de sonho e de degradação, das perdas dos valores fundamentais. América é a fuga e o mal, Deus e o Diabo. O país da oportunidade e da propalada igualdade social é aquele que manda o filho de Mendel para morrer na guerra por uma pátria que supostamente não é a dele. Mendel Singer é mais que um imigrante judeu: Singer é a desilusão com o mundo da terra prometida. América não é Canaã
Um espírito de fábula moderna permeia o romance e o insere na tradição das narrativas moralistas. São moralistas os escritores ingleses e franceses do séc. XVIII: Stern, Fielding, na Inglaterra, e, na França, Diderot e Voltaire. Embora todos esses citados tenham influenciado o nosso Machado e sejam irônicos, o caráter moralista da fábula de Roth não é isento de outro tipo de ironia: a ironia ácida, o destino visto como trapaça irônica. Não há sarcasmo nem humour, mas o que o povo chama de ironia do destino. A fábula de Roth, como toda fábula, também torna o particular coletivo. O drama de Mendel Singer não é só o drama individual, mas o drama de seu povo. Roth amplia a condição humana. E Jó passa a ser todo o povo sofrido e perseguido.
Nesse sentido mais amplo, diria que a fábula explícita de Roth torna-se um dos paradigmas do romance moderno. O romance moderno é uma fábula moralista em que é elidido o segundo elemento de comparação. Moralistas são os escritores modernos na medida em que não querem apenas deliciar seu público leitor (falo dos escritores sérios e não autores de outro gênero e espécie), mas ao transgredir estética e tematicamente estão apontando para uma degradação social. E, mesmo quando são autores intimistas ou solipsistas, a moralidade está em rejeitar a massificação e condená-la por rejeitar o humanismo. O mergulho na subjetividade não é alienação, mas o recurso para buscar no fundo do homem sua humanidade última como quem recolhe água barrenta do fundo de um poço vazio. Mas Jó, romance de um homem simples é garantia de emoção e beleza, de uma história rica de encantamento como nas fábulas antigas e que agradará a leitor comum e a leitor exigente, pois Roth tem a magia de um povo milenar cujas narrativas já seduziram todo gênero de público.


imagem retirada da internet: joseph roth