sábado, 24 de setembro de 2016

Bumerangue, poema RCF



Toquem, ó caranguejos, castanholas
com suas patas de palafita.

Rodem, ó bicicletas, flechas em movimento,
fazendo o cubismo da tarde.

Não quero mais as sensações fluidas
e os desesperos amáveis.

Voem, ó pássaros, origamis de carne e pluma.
Gira, ó dúvida, no bambolê das perplexidades.




(do livro Andarilho, Rio:7Letras, 2000)

imagem retirada da internet: newton mesquita






quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Um homem é muito pouco - 39












            Mudei-me para Santa Tereza. Moro num quarto de um apartamento de três quartos. É uma república de estudantes. O único não estudante ali sou eu. A minha vizinha de quarto é Marilyn Monroe. É claro que a minha vizinha de quarto não é a Marilyn Monroe. Fui eu quem inventou o apelido para Sônia. Ela é branca e pinta o cabelo, tem o rosto redondo e embora não se pareça com Marilyn Monroe gosta de imitar os gestos de celuloide de Marilyn e fala com a voz radiofônica e em preto e branco de Marilyn Monroe. Não sei se Santa Tereza é o melhor lugar para me esconder. Creio que não. Há de tudo num bairro como Santa Tereza.
De noite ouço o barulho da cidade que não dorme. Alice reclamava do barulho da Prado Júnior. Agora vejo que não é o barulho da Prado Júnior, mas o barulho da cidade. A cidade é imensa caldeira. Uma caldeira não pode esfriar porque racha. O Rio não pode esfriar porque racha. Uma cidade rachada é uma cidade impraticável de morar. Por isso o estômago do bicho cidade trabalha de madrugada e do alto do morro de Santa Tereza posso ouvir as entranhas desfeitas do bicho cidade.




(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Verso e reverso, poema RCF



 by alicia caudle. www.alteredbits.com.




Uma estrela no bolso
me acompanha ao trabalho.
Ninguém vê a estrela no bolso.
O dia se fez aziago
e sem remissão.
A estrela me espeta
o lado esquerdo do mundo.
Minha estrela no bolso
tem pontas, arestas e chuvas de verão.
As sete pontas da estrela
são sete versos num papel dobrado.
Carrego um sentimento
brilhante e gasoso
algo que ninguém vê
e que ilumina os passos erradios
com a luz expediente da vida.


(Memória dos porcos, 2012)


terça-feira, 20 de setembro de 2016

História, ficção e memória, Manoel Hygino

(capítulo do livro "Memorialística: História, Memória, Ficção", de Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina C. Bellodi, sobre O viúvo)






Três professoras universitárias do Estado de São Paulo lançaram no ano morto um livro que merece atenção dos meios universitários e literários. Magaly Trindade Gonçalves e Zélia Thomaz de Aquino, de Araraquara, e Zina C. Bellodi, de Jaboticabal, o fizeram sem o anúncio que as boas criações estão a exigir, para melhor conhecimento da plateia-leitora.
“Memorialística: História, Memória, Ficção” tem 162 páginas e focaliza um tema fundamental para todos os que se interessam por analisar em profundidade Joaquim Nabuco (“Minha Formação”), Humberto de Campos (“Memórias”), Pedro Nava (“Baú de Ossos”) e Alberto da Costa e Silva (“Invenção do desenho-ficção da memória”), na área de memórias familiares.
No campo de memórias e histórias ficcionalizadas, comparecem Machado de Assis, “Dom Casmurro” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”; Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”; Graciliano Ramos, “São Bernardo”; Cyro dos Anjos, “O amanuense Belmiro”; Maria José de Queiroz”, “Joaquina, filha de Tiradentes”, Miguel Sanches Neto, “Um amor anarquista” e Godofredo de Oliveira Neto, “O bruxo do Contestado”.
Em memória no universo familiar, o mineiro Autran Dourado com “Ópera dos Mortos”; Josué Montello, com “Largos do desterro”; Milton Hatoum, com “Dois Irmãos”; ainda, Machado com “Esaú e Jacó”; Ronaldo Costa Fernandes, com “O viúvo” e Cristóvão Tezza, com “O filho eterno”. Em retalhos de memórias, Ignácio de Loyola Brandão, com “Veia Bailarina” e Lígia Fagundes Telles, com “Invenção e memória” e “Conspiração de Nuvens”.
Pela simples enunciação dos nomes, trata-se de seleção do mais alto nível. São 21 autores que conquistaram prestígio, embora Humberto de Campos já se encontre esmaecido. Estou certo de que, pela leitura do vigoroso estudo dessas três paulistas, com bela biografia nas letras e no magistério, muitos brasileiros poderão desejar conhecer mais os autores e obras focalizadas.
Sublinha-se: o que é História? O que é ficção? O que são memórias? “A oportunidade para um trabalho em que pelo menos história, memória e ficção aparece como diferentes modalidades da construção literária”. Donde concluem as autoras que “a literatura é um campo maior do que qualquer definição, e nela, mistura-se a todo momento”.

domingo, 18 de setembro de 2016

Bandeira, poema RCF



Resultado de imagem para vivian maier



Minha bandeira é não dar bandeira.
Minha bandeira é o toque de silêncio,
a morte do soldado desconhecido
que sou.
Quem depositará flores
neste monumento à minha batalha?
Minha ordem não tem progresso.






(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009. Prêmio de Poesia 2010 da Academia Brasileira de Letras)