sábado, 3 de dezembro de 2016

Um homem, poema RCF



 



Não conhece os homens,
nem as marés, nem o murmurar do vento.
Quer ser a rocha,
imune e presa a si mesma,
que se desgasta aos poucos
à passagem solar dos séculos.

Quer a paz dos gerânios,
que sopra dentro dele
como uma brisa marítima.
Quer a simplicidade do pão
que se divide e alimenta a manhã,
ser apenas:
o vento, a pedra, um homem.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(pinacoteca de são paulo: bruno giorgi)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

O cão é o cão e sua circunstância, RCF


Resultado de imagem para rebecca dautremer
Com suas quatro patas vadias
inaugura a rapidez do faro.
Seu rabo desenha-se na rua,
movendo a pequena máquina
do corpo.

Esgueira-se pela fraude do lixo,
o mundo desordenado,
feito de dejetos e pouca carne,
sempre o caminho menos curto
e as palmas a enxotá-lo
de sua paz de orelhas em pé.

Sonha  com a retidão
de uma vida ordenada,
sem a liberdade da caça
– já que não é caçador –
onde possa sonhar
que não é um cão vadio.

Boi e cão são parte do homem.
Em todo lugar há cães.
Um homem é um homem,
sua circunstância e seu cão.

O cão fareja o fim,
como um elefante
busca seu cemitério
e enrosca-se na manta
do vento, ali onde se
agasalha antes de desistir.
O homem não é o melhor amigo do cão.
A que raça de cães
pertencem os moradores de rua?



(O difícil exercício das cinzas. 2014)

ilustração: rebecca drautemer

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Luto, poema RCF





O carpir da chuva
ao velar o féretro do domingo.
O ponteiro do relógio,
que poderia ser minha bússola,
não fosse flecha também enclausurada.

Tentei o compasso da capoeira,
a cunha das artes marciais,
busquei em vão o quadrado
das caixas de murros.

Luto comigo
que é uma luta desigual.
Mas há em mim outra luta.
Meu fumo é o do luto,
por isso meus pulmões,
em vez de nicotina,
tragam asma,
que é um fole
que não infla,
só expele flauta,
dor e ar escuro.

Por outro lado, sou rijo
rijo como o colete das vértebras.
Mas, ao não me encontrar em nenhum canto
do triângulo das dúvidas, vivo de ponta-cabeça.





(do livro A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Medo de voar, poema de Memória dos Porcos


Os aviões estão parados no ar
como pássaros que se aninham
nas nuvens, rochas brancas de névoas.
Só um instrumento o homem necessita:
o altímetro para medir
a altura da sua queda.
Se fosse trezentos, trezentos e cinquenta,
fretaria um avião de eus para voar.
Mas não tem nem certeza
de que viaja no seu lugar vago.
O corpo que carrega
é como camisa emprestada,
em algum momento,
sonha que terá que devolver
camisa ou corpo.
Quando está só
nunca se acompanha.
Ser trezentos deve ser
muito barulhento.
Não se ouve
e por isso é surdo à felicidade
que é multitudinária, manche,
e só tem posição para subir.
Já o sonho é uma aeronave
perigosa porque só tem o instrumento
do inconsciente.
E o inconsciente não costuma ser bom piloto
e gosta da turbulência dos abismos.
Dentro dele não há imagens moventes
como nos filmes que são sucessão de fixidez.
Dentro dele, só há fotodrama.
Nada se move, além, é claro,
surrupiando, a velocidade da morte,
zás, um segundo, e oxida o sonho.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Verso e anverso, poema de Alberto Bresciani




Sobre o penhasco
o cão hirto
fixa o barco
no traço do mar
Lamenta? Celebra?
Ele o homem
vira-se e vê
um cão igual
no barco
mira o outro
Foge? Escolhe?
Não há tempo
ou resposta
Ele
o homem
é o cão no penhasco
é também
o cão
no barco


domingo, 27 de novembro de 2016

A máquina das mãos por Carlos Machado


Maranhense criado no Rio e radicado em Brasília, o poeta e romancista Ronaldo Costa Fernandes já apareceu aqui nesta página na edição n. 126, em julho de 2005. Agora ele volta, graças ao lançamento de A Máquina das Mãos (7Letras, 2009), sua nova coletânea de poemas.
Naquele boletim de quatro anos atrás, dizia-se que o poeta, andarilho e estrangeiro, seguia em busca do humano, perquirindo, indagando, mesmo sem esperar resposta. Em A Máquina das Mãos, o desassossego é o mesmo, a procura é idêntica. Com domínio ainda maior dos instrumentos, o poeta apresenta um universo real e sufocante, em versos que não foram feitos para integrar "o coro dos contentes". O que se encontra aí é uma poesia de mal-estar, de osso e alma perturbados — como aliás tende a ser toda grande poesia.
O olhar atento do poeta se mantém voltado para o incessante movimento da vida, representado tanto pelo que acontece nas ruas, no trem, na rodoviária, como as sensações que percorrem o fluxo íntimo do corpo. Desse modo, em cada verso encontra-se um naco de existência, uma gaiola vazia, uma sala de jantar, um relógio de ponto.
Mesmo quando o poema poderia resultar em algo puramente cerebral, o poeta consegue colocá-lo nos trilhos do cotidiano. Veja-se, por exemplo, o poema "Hopper", que alinha considerações sobre os quadros do americano Edward Hopper (1882-1967), pintor realista popularmente conhecido por ter pintado flagrantes do modo de vida de seu país. Na visão de Costa Fernandes, os personagens dos quadros de Hopper somos nós. (A propósito, por causa Dispensar  desse poema, todas as ilustrações deste boletim são pinturas de Hopper.)

Um procedimento comum nos poemas de A Máquina das Mãos é o poeta partir de um fato particular e daí avançar para um desfecho mais amplo, existencial ou filosófico. É o que ocorre no poema "O Maratonista". O texto já se inicia com uma indagação: "que rumo persegue o maratonista, / avestruz no meio da rua?" E as perguntas se sucedem: "que logra o maratonista nesta longa / jornada dia adentro, / vestido de suor e magreza?" No final, o poema conclui que o atleta "desconhece que o corpo / é que é a pista de corrida da / maratona da vida". Poesia sem truques, sem malabarismos, na justa medida da emoção.
Como bem destaca o poeta paraibano Hildeberto Barbosa Filho, no posfácio de A Máquina das Mãos, Ronaldo Costa Fernandes está entre os que "sabem tocar o limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva de um lado e, por outro, a facilidade expressiva, logrando, assim, na cartografia poética, o equilibrado encontro de forma e fundo, de linguagem e conteúdo, de estilo e temática".
É isso. Degustem, ao lado, algumas das engrenagens poéticas de A Máquina das Mãos. Essa máquina que se lava na "água da alegria", mas se lubrifica com o "azeite do desengano".


imagem retirada da internet: hopper