domingo, 20 de agosto de 2017

O abutre albino, poema RCF





A noite dorme só com um olho aberto.
Na caserna do pasto
se perfilam as árvores-soldados
vestidas de verde oliva.


No campo, nada adormece
além dos homens e das pedras.
O sono reparador das pedras:
inexato e fluido.
O sol, ao se pôr, recolhe as tralhas
– panelas velhas de alumínio do corpo,
restos do couro da frustração,
a bolandeira gasta da fome –
e se acocora atrás da mata
à espera de outro dia
quando sai a lume
e espreguiça seus dedos rosa que Homero pintou na Odisséia.

O sol campesino é marcial,
marcha nos trilhos do céu,
um vagão só fornalha.
Ao se pôr, o sol não se deita
nem puxa o cobertor de veludo negro.
Fica ali mesmo, sem sono.
Por isso o sol é triste e bufa no espetáculo de fogo
e queima com dó no peito.
Barítono da epopéia dos nadas,
tenor do deserto,
soprano dos sentimentos escusos.
O sol é o avesso
com seu monóculo cego.
Linear e bacharel,
doutor em cruzes,
magistrado das plantas,
falastrão no tribunal das urzes.
No céu despido, voam as aves negras de rapina
sob a vigilância do abutre albino:
o sol, imóvel, sobrevoa a presa,
maligno e único com suas garras de hidrogênio.

(do livro Terratreme, Prêmio da Fundação Cultural de Brasília)

imagem retirada da internet

sábado, 19 de agosto de 2017

O desperdício, conto RCF





Resultado de imagem para vivian maier

         



O pensamento é longo. O diabo do pensamento não tem paredes. Quanto mede a obsessão? Ele era composto por músculos, humores, líquidos e obsessões. A obsessão dele era a sobra. O mundo não podia ser restante. Deveria ser exato como soma.
         O que ele não sabia era se a morte podia ser considerada desperdício. É certo que, durante a vida, desperdiça-se muito. E que este desperdício cessa com a morte. Mas a questão não era para ser posta desta maneira. E, sim, se, depois da morte, o corpo era mais desperdício do que em vida. Ou seja, em outras palavras, não interessa se o morto não desperdiça, mas ele queria saber se entre o corpo morto e o corpo vivo, qual deles se desperdiça mais?
         Depois, obviamente, de vigiar os desperdícios ordinários como água, papel, luz, chamadas telefônicas – não só seus desperdícios, mas o desperdício alheio, na maioria das vezes, gerando discussões, caras fechadas, vizinhos que cortaram relações, a família que o marginalizara, uns chamando-o de excêntrico, outros de inconveniente – o certo é que chegou a uma conclusão impeditiva: o pensamento também desperdiçava. Era preciso eliminar o pensamento mecânico, cotidiano, ordinário, desnecessário e, certamente, perdulário.
         O pensamento perdulário era o lugar-comum, as ruminações automáticas, o raciocínio viciado. Para evitá-los havia de fazer um esforço sobre-humano e, mais ainda, treinar a mente. O pensamento que não se desperdiça, logo, deveria ser o contrário. O que trouxesse novidade, luz, idéia transformadora ou mesmo disparatada, deveria ser visto como pensamento inquieto e ousado. Ou melhor, um pensamento não perdulário, um pensamento econômico.
         Ele, afora a discussão interna sobre quem desperdiçava mais, se o corpo vivo ou o corpo morto, decidiu vigiar também o desperdício da vida. O difícil era delimitar o que era vida excessiva. Não lhe interessava considerações e coros alheios. Ele se perguntava o que podia cortar em sua vida para que não desperdiçasse.
         Deitar-se, alimentar-se pouco, somente pensar o necessário e útil, imprescindível, o pensamento raro, não, não era a saída. A cama poderia também ser vista como desperdício horizontal. Poderia aprisionar-se. Mas o corpo necessitava de energia, músculo, excrescência – os corpos, visivelmente exteriores, são feitos de excrescências, vejam os membros, há excrescência mais significativa e simbólica do que os membros?
         O trabalho era desperdício, ora se não, já o havia abandonado fazia tempo. O trabalho é um mecanismo de relógio, músculo de horário, roldanas feitas de veia e sangue, o sujeito desperdiça a vida atrás de uma mesa. Não conseguia pensar no trabalho sem que a imagem de uma mesa devorando-o, infectando-o de cupim e papel, tornando sua pele seca, sugando-lhe a seiva mínima da dignidade, o invadisse de forma inquietante. O trabalho rotineiro era invenção não do diabo, mas de um Deus patrão.



(Manual de Tortura. Contos, 2007)

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

A máquina das mãos no jornal O Estado de Minas


ESTADO DE MINAS GERAIS

André Di Bernardi Batista Mendes



Ronaldo Costa Fernandes marca seu lugar no cenário da poesia contemporânea

A Editora 7 Letras acaba de lançar A máquina das mãos, do poeta, romancista e ensaísta Ronaldo Costa Fernandes. A poesia do maranhense radicado em Brasília transita e percebe o trágico a partir do simples, do cotidiano. Sua áspera letra já nasce torta, desce da descoberta das inúmeras e indissolúveis fraudes de que é feita a tessitura do duro dia-a-dia, que não concede espaço e é, sempre, amplo de controvérsia e clausura. Mas, transido, fortalecido pelo mistério de um olhar extremamente sensível, são grandes os nacos de fascínio que encontra na gravidade que desliza, por exemplo, das telas do pintor americano Edward Hopper: “A vida como um quadro americano/ do qual não podemos escapar”.


Sua linguagem e seu estilo simples atingem façanhas de desnorteios (“Entre o sim e o não/ não existe o talvez./ Entre o sim e o não/ existem as palavras cruzadas’’) e também concede, oferece, com a desfaçatez e o descaramento de um bandido consciente, o estímulo necessário para o primeiro e extremo passo rumo aos desatinos sobre os conhecimentos e desconhecimentos da sempre estranha e inalcançável natureza das coisas. Tudo no seu estado mais bruto. “Eu não aprendo a natureza./ Pergunto uma e outra vez seus nomes,/ e, na chamada, não me respondem.” Pobre leitor, pobre poeta que se debruça, louco para “sabatinar as árvores”, as “buganvílias desavisadas” e as “quaresmeiras duras”.
Não há vanguarda que dê conta do recado no inusitado âmbito poético. O cabresto das instituições, a cara fechada das academias, a moda dita, exige, com seu chicote ridículo, um poema curto, enxuto, low profile. Aí chega um artista, um escritor contemporâneo, e apresenta os seus longos poemas simples, adivinhando, arbitrário, provocativo, que o futuro pode ser um corredor: “Que dia virá o futuro/ com seu longo pescoço de ânsia?”. Pessimista, cínico, Ronaldo descortina um futuro simplesmente branco, branco como uma tela em branco, branco como o papel pode ser apenas branco.
Os bons poetas marcaram um encontro com a vida. E Ronado chegou na véspera. Mas ele também encontrou nestes tropeços a sua boa parcela, a sua cota de danação pelo caminho. Em seu livro, Ronaldo visita os demônios de Bosch (“Há morte e morbidez no amor’’); adula o seu roteiro de esquecimentos (“Tudo é um imenso galpão vazio”); faz poema para e sobre arames (“Há mãos farpadas/ que não ouso tocar”) e não deixa de corajosamente encarar a dor extrema, inigualável, ao tentar decifrar o alfabeto dos suicidas, num dos poemas mais belos e incisivos do livro (“Suicídio é o cano de escape/ com que respiramos,/ a fuga para dentro de si/ como o peixe que pula/ para a prisão do ar livre”).
Não é preciso paciência para ler os poemas de A máquina das mãos. Não é preciso condescender, anuir para encontrar fruição. Dono de um “olfato dos que cheiram a finitude das coisas”, Ronaldo dá notícia dos extremos que sobram. A sua poesia é feita de pequenos intervalos, de portos, de refúgios sempre provisórios. Nestas brechas cabem carros sem gasolina, rodoviárias onde inexiste a delícia da viagem, algaravias desenfreadas, cartas, a dura vida das putas, becos, febres, mormaços, fotografias e a dimensão inexata de uma alma que se revela linear, mas ambivalente, sempre por meio da dor. No ordinário Ronaldo descobre “a agulha da beleza”, para ele, “a realidade só não acusa o inconsciente”, que aí já seriam outros quinhentos.
Os poemas de A máquina das mãos, em sua maioria, padecem de uma melancolia que se justifica na medida em que revelam a face crua do, digamos, real verdadeiro, que, despido das bobagens de um lirismo fácil, revela que qualquer canto quase sempre desafina, que a verdade não existe, que existem margens que impressionam pela brutalidade e pelo desencanto. Entre a falta e o excesso, Ronaldo sabiamente cobra a fatura e aprende a rir de tudo e de si mesmo, deste seu, deste nosso “ato vazio de nada pegar”. Carece de poesia, pode ser leve o breu que nos envolve.
Como bem anotou Hildebrando Barbosa Filho, no posfácio do livro, a poesia de Ronaldo é também feita de “impurezas e epifanias”. A tormenta das estradas fornece um amplo repertório e munição para uma voz que se estende para que, algum dia, algumas janelas e todas as gaiolas se abram. Ronaldo apura o seu olhar e o seu canto poético que pretende ser, apenas, “um caminho entre caminhos”.



A MÁQUINA DAS MÃOS
De Ronaldo Costa Fernandes
Editora 7 Letras, 104 páginas, R$ 28


Canto do castigo
(trecho)

Há dias que não consigo
aprender minha pouca matéria.
Só tenho um ano
repetente, oclusivo, recorrente:
o ano em que me reprovei.
Já fui mais
quando tinha menos corpo.
Se o corpo se alonga,
quem negará que a mente
ganha gordura, extensão e músculos?



imagem retirada da internet: Hopper, summer evening

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Um homem é muito pouco 9



Resultado de imagem para can dagarslani
Outro amigo de Juliana ele identificava como Ian, o que fuma cachimbo. O cheiro de cachimbo irritava os pulmões de Horácio e ele pedira para Juliana dizer, muito gentilmente, para que o diabo do Ian não fumasse cachimbo na frente dele, Horácio. E toda vez que Ian puxava o cachimbo, Horácio se retirava da sala. Mas Horácio não queria destratar o fumador de cachimbo, Ian possuía dois ou três cavalos de Horácio. E, de vez em quando, levava algum amigo ou conhecido para visitar o ateliê de Horácio. E quando Ian levava um amigo para visitar o ateliê aí então Horário suportava a fumaça cinza do cachimbo de Ian.

Outra aproximação mnemônica era a de Lúcia Vera, que morara na África de língua portuguesa, viajava muito, trabalhava como tradutora e o jeito que Horácio encontrou de associá-la com algo foi com as cabeças empalhadas que os caçadores de bichos grandes trazem na parede como troféu. Era mulher pequena e magra, que falava português com sotaque não identificado, embora fosse pernambucana. Vera Lúcia aparecia uma vez por ano, trazia presentes para Juliana e conversavam horas a fio lembrando amigos comuns quando trabalhavam na Unesco como tradutoras. Horácio não gostava de Vera Lúcia e um dia teve um sonho em que, em vez de esculpir cavalos, ele esculpia a cabeça do animal Vera Lúcia. Vinham os compradores e ele vendia as cabeças de Vera Lúcia que acabavam na casa dos colecionadores milionários, geralmente numa sala dedicada a animais empalhados e cabeças de veado, tigres, rinoceronte e Vera Lúcia.

Horácio alimentava ciúme de homem e ciúme de mulher. Se Alexandre, o que jogava pôquer, ele achava que era um amigo de Juliana que dava em cima dela, com Vera Lúcia, a africana de cabeça empalhada, ele sentia que a mulher, quem sabe, não teria tido um caso com ela. O certo é que nutria ciúme de Vera Lúcia, inclusive porque Vera Lúcia podia ser empalhada, mas sabia fazer muito carinho na sua mulher e até mesmo massagem e beijá-la de modo lúbrico, com os olhos duros e empalhados, porém com brilho diferente e aquoso que não tinham os animais empalhados.

Havia também Amélia. Horácio gostava de Amélia, que era mulher bonita e modelo e que dava alegria à casa. Falava alto e contava casos picantes da alta sociedade que frequentava na baixa condição de modelo e amante de magnatas. Desbocada e nervosa, sem conseguir parar num lugar, Horário associou-a com a música do Mário Lago. Com tanta exuberância e transbordando de energia, Horácio foi identificar Amélia justamente com seu oposto: a que era mulher de verdade.

Quanto a Ambrósio relacionava com sonho que o paulista lhe contou: gostava tanto de cães que certas manhãs acordava e não sabia se estava na própria cama ou em algum canil. Quando estava no pesadelo, ele se encontrava no canil público, na fila de espera para ser sacrificado, da mesma maneira que havia nos EUA o corredor da morte para os condenados a cadeira elétrica.

Tão logo Horácio terminava de descrever o elenco de associações e de amizades da mulher que ele usava para guardar na cabeça, entrou na sala um sujeito baixo, de voz de barítono, que andava de um lado para o outro examinando as peças de Horácio, sem olhar Clemente quando foi apresentado a ele.

Vestia-se com apuro. Apuro europeu e com o irritante lenço de seda preso ao pescoço, a substituir a gravata. O paletó azul-marinho estava impecavelmente bem cortado e o sujeito era pernóstico e, por ser baixo, como é comum acontecer com os homens baixos, mantinha a coluna ereta a fim de crescer míseros centímetros que não lhe alteravam a altura. Mas o baixo cresce psicologicamente e, se a postura lhe dava altura superior, que fizesse uso do expediente de empertigar-se.

O desconcertante é que a voz grave e cava saía daquela esfera. O homem, além de pequeno, era gordo, o que lhe dava um contraste exótico como se a voz já estivesse gravada dentro dele, e logo não lhe pertencia. Ou como se algo estivesse avariado como caixa de música que, abrindo-se, não tocasse o que se esperava, melodiazinha enjoada e repetitiva. Geralmente clássico erudito diluído e remanchão.

O nome do homenzinho era Bob, pelo menos assim o chamava Horácio. Devia se chamar Roberto, ou melhor, Robert, porque havia sotaque nele e o rosto rosado e sanguíneo traía origem acima da linha do Equador.

Por onde passava, ou ainda, por cada cavalo que passava ia dando os preços, Por este aqui pago quarenta, Bem aqui podemos dar uns vinte, Este quem sabe poderia até pagar bem mais regiamente, quem sabe noventa ou duzentos.

Tanto Clemente quanto Horário haviam parado de se balançar nos cavalos e olhavam assustados para o pequeno reizinho que ia distribuindo preços e fantasticamente comprando os cavalos de Horácio como se estivesse num frenético leilão. E não se discute, disse por fim, colocando a mão na barriga qual Napoleão de opereta.

Clemente estava desnorteado, como se já não bastasse estar ali naquela estrebaria fantasmagórica de cavalos de madeira, a extravagância mnemônica de Horácio e agora a presença daquele homem elegante, mas rude, que parecia não dar importância a Clemente.

Não dava importância nem mesmo a Horácio, embora quisesse adquirir todas as obras que ali estavam num afã milionário que estonteava qualquer um.

Bob, Bob, tentou Horácio interromper o comprador.

Não se discute, você sabe, disse ele, que comigo preço não se discute. Hoje você tem uma cotação, amanhã os preços explodirão, estive conversando com um amigo meu parisiense que me disse que agora entraremos numa fase da arte moderna onde não existirá mais cavalete e tudo virá de Duchamp, as obras são conceituais, body art e o que mais houver, estamos vivendo uma revolução tão séria no campo das artes plásticas como foi a vanguarda do fim do século passado com o impressionismo e com o surrealismo do princípio do século, uma nova era, senhor Horácio, e o senhor será quem sabe o Picasso brasileiro ou o Duchamp carioca dessa nova era da arte moderna no Brasil e no mundo.

O homenzinho, o Bob, o Robert, falava alto, agigantara-se, discursava, punha-se na ponta dos pés, vibrava o dedo acusatório e definitivo para um ser ali inexistente. Estava tão apoplético que Horário temeu que o homem tivesse um ataque.

Bob virou-se para Clemente e continuou ameaçando, Então o senhor vem aqui e quer pechinchar preço, desconfia da qualidade desse artista genial, desse homem que é modesto por natureza, mas que traz dentro dele uma genialidade infernal, ora, meu amigo, vamos e venhamos, o senhor está no ateliê de um grande artista, saiba disso, e essa visita o senhor nunca mais esquecerá , eu lhe juro, nunca mais esquecerá.

Bob, repetiu Horácio, escute-me, homem.

Pela primeira vez, quem sabe para tomar ar ou porque exagerara, Robert sentou-se, ofegante, pediu um copo d’água.

Você não precisava continuar nessa encenação toda, homem de Deus. O Clemente aqui não é comprador, é amigo da Juliana. Você precisa ser mais previdente e menos maluco. Assim nossa sociedade não dará certo.

Foi aí que Clemente percebeu o que ocorrera. O pobre do Bob ou Robert encenava ser comprador de obra de arte que irrompia no ateliê de Horácio a fim de influenciar na venda das peças que um desavisado visitante pudesse ainda estar em dúvida. Nem sempre dava resultado. Nem sempre a performance de Bob era tão enfática como foi aquela. Uma pena Robert ter gastado tanto conhecimento de artes plásticas para apenas uma visita familiar. Era preciso tomar mais cuidado e saber quem realmente estava no ateliê e não entrar porta adentro, enlouquecido.



(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Outro deserto, poema RCF







Assim a praia deserta,
imóvel, paquiderme de areia,
inventando-se a si própria,
onda que de si se alimenta,
estava o coração do mundo.

As palmeiras perfiladas não discordavam
com suas palmas indecisas
e toda nervura da manhã deserta
era a desfiguração da realidade
postal do tempo estagnado:
praia, homem, olhos e areia.

O que escalda não é a areia fina
nem o sol que se dependura, coco
exaustivo, passado do tempo,
o que escalda é o remorso arenoso.

Este mar que me banha
não é líquido.

Já não tenho a memória dos peixes.



(do livro Eterno Passageiro, Brasília, Ed. Varanda, 2004)


(foto rodney smith)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

As escadas, conto RCF









         Sobreveio o desastre, nenhum pé subiu mais os degraus. A brancura do mármore, a superfície porosa, os detalhes dos encaixes em cobre, o corrimão de madeira escura.
         Meu método: manhã, limpar de baixo para cima; tarde, descer os degraus, um por um, como quem rola um terço.
         Diariamente mais de quatro mil pessoas. Quatro mil pessoas! Sem falar dos empregados, dos juízes, dos desembargadores, das autoridades, do guarda-livros, dos chefes de seção, do pessoal da biblioteca, dos faxineiros, dos bombeiros, dos guardas de segurança. Oh, como podia esquecer, a segurança pessoal dos juízes, desembargadores, autoridades, chefes e chefes, eram tantos chefes.
         Esse silêncio. A ordem superior que mandou desativar o prédio. De dia, se podia observar a escada com toda clareza e exuberância. Quando começava a anoitecer, subia até o depósito. Lá estavam as velas. Buscava-as, trazia até a escada e a iluminava.
         Um homem tem que ter disciplina. Se ninguém olha para o seu trabalho, tudo vai por água abaixo. Organizei minha hierarquia. João Pândega era um sujeito que tinha de manter sob rédea curta. Os outros dois, eu respeitava. Um deles, Anacleto, mal falava comigo. Já me acostumara ao mutismo de Anacleto.
         Não era eu quem limpava a mesa de Anacleto, do desembargador Anacleto. Os autos se avolumavam, se espalhavam pela mesa. Estava sempre de toga, o desembargador. Era um homem imponente. A gola branca, em contraste com o rosto vermelho, lhe dava um ar de severidade imperial. Não cuidava dos bustos. Aliás, desconhecia quem cuidava dos bustos.
         Os bustos estavam secos, rachados, outros tinham limo. Os que apanhavam sol sofriam de secura, os que estavam na sombra eram perseguidos pela umidade.
         Minhas escadas tinham sombra e luz.
         O desembargador Anacleto não podia reclamar de mim. Se não limpava sua sala ou sua mesa – a sala do desembargador já estava completamente tomada de ratos, os processos sofriam a passagem do tempo e também eram vítimas dos roedores –, ao menos cuidava do próprio desembargador.
         De ano em ano, costurava a barriga para que não saísse a palha e pintava o rosto de vermelho. O mesmo fazia, sem diferença de hierarquia, com o pobre do João Pândega. O homem me escutava falar havia mais de trinta anos e nunca reclamava, fazia cara de desagrado ou emitia um som qualquer que pudesse ser interpretado como fastio.
         Vão demolir o prédio. Há mais de cinco meses cumpro o que considero a minha mais importante missão: cortar as partes da escada e reconstruí-la na fazenda.
         A escada, diz o documento, deverá ser mantida intacta. Esta foi a sua função. Logo, deverá devolvê-la do mesmo modo que a encontrou trinta anos atrás. Leio, fico perturbado. É uma intimação. Querem me julgar por não ter cumprido o contrato.
         Um juiz de toga exuberante, negro como um corvo de gola branca, discursou furioso. Não admitia o sumiço da escada. Sem a escada não se fazia justiça.
         – O senhor entende do que estou falando? – me perguntou. – Sem a escada não se faz justiça. O senhor não tinha compromisso com nada neste mundo além da Justiça. A Justiça!
         E cada vez que pronunciava a palavra Justiça parecia que ia ter um ataque apoplético. O rosto sanguíneo e leitoso se avermelhava, as veias do pescoço inchavam, as mãos tremiam, os olhos reviravam.

(do livro Manual de Tortura. Brasília, Esquina da Palavra, 2007)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Os tambores de São Luís, de Josué Montello

(do livro A cidade e a literatura e outros ensaios. São Luís: Edições da Academia Maranhense de Letras, 2016)

Em Os tambores de São Luís, a ambientação épica se mescla com o drama individual de Damião. Ali está a saga do negro escravo no Maranhão e, por extensão, no Brasil Império. O horror da escravidão coloca a famosa frase do homem como lobo do homem num exemplo maior de degradação do homo sapiens. Josué Montello, assim como o Graciliano de São Bernardo, soube agregar o fator humano e psicológico ao grande drama coletivo. Ao mesmo tempo em que descreve o regime escravocrata em suas minúcias, com a lupa do historiador meticuloso, Josué também se adentra na psique de Damião, sua angústia individual, seu percurso cruel de negro foro que não encontra lugar na sociedade dos brancos. A saga individual de Damião é de grande força narrativa. Um personagem que supera o ambiente, impõe-se pela inteligência e cultura, mas definha e encurrala-se, escorraçado pelo meio mesquinho e amesquinhante. De certa forma, diria que Montello construiu uma fábula. Sua narrativa realista, que se aproxima dos grandes narradores do século XIX, é verdadeiramente verossímil e aposta tanto na realidade que, em certo sentido a supera, a narrativa passa a ser, inclusive porque está em outra época, uma narrativa de cunho quase mítico. Josué Montello, que com sua extensa obra, poderia ser classificado de o Balzac maranhense, também poderia levar outro título, com este Os tambores de São Luís. O do autor da Damiíada, ou seja, o poema homérico do negro brasileiro em sua epopéia de salvar um povo. Damião, assim como Ulisses, participa de uma verdadeira guerra dos quilombos. A partir da volta à fazenda onde era escravo, Damião empreende uma verdadeira viagem de retorno a sua casa. A casa de Ulisses era Ítaca. A casa de Damião é uma casa coletiva: o reencontro do negro com sua raça livre. Observe-se que durante todo o périplo de uma noite, Damião é perseguido por uma identidade sonora: os tambores de Mina que lhe dão a identidade afro-brasileira. Todo o livro é uma seqüência de lutas e de conquistas, de sereias que encantam e ilhas que na verdade são armadilhas como o clero e o magistério, de polifemos que o querem destruir. Dois tempos como na epopéia: o tempo do narrado e o tempo do narrador. Embora não haja o absurdo e o maravilhoso de Homero, existe aqui o homem em luta contra os elementos da natureza e das forças sociais que o fazem herói de sua raça. Para aqueles que estranham a comparação entre o romance de Josué Montello e a Odisséia, de Homero, lembremos que o Ulisses, de James Joyce, que se pretende uma narrativa homérica, valeu-se de apenas um dia do personagem Leopold Bloom para construir sua epopéia moderna.


O romance histórico não tem sua pertinência se não tocar em temas contemporâneos. Esta é a grande virtude e defeito do romance histórico. Se não for bem realizado, soa como coisa antiga, ultrapassada. Há de haver no bom romance histórico o diálogo com dois tempos: os problemas que afligem os de hoje com a trama e o tema de que trata a narrativa. Nesse sentido, Josué Montello realizou muito bem seu projeto estético ao construir Os tambores de São Luís. O problema social da discriminação racial ainda está presente na agenda das discussões do Brasil de hoje.

Quando criticaram Umberto Eco por colocar no romance O nome da rosa, ambientado na Idade Média problemas que não tinham sido aventados naquela época e que pertenciam às inquietações de hoje, Eco respondeu que não entendia o romance histórico de outra maneira, já que a reconstrução de uma época pura e simples de nada valia se não contivesse o germe do permanente e da inquietação do leitor moderno. Eterno e moderno parecem ser as duas palavras chaves do romance histórico.

Em Noite sobre Alcântara, Josué faz do romance um retrato de uma decadência de uma cidade. Na verdade, Natalino, o Major Natalino, herói da Guerra do Paraguai, que retorna à cidade natal é uma metonímia da cidade e a cidade, por sua vez, é a grande personagem da história. Natalino e Alcântara tanto se imiscuem que a infertilidade de um é a improdutividade de outra. Aqui está a cidade abandonada, entregue às suas ruínas e a seu passado faustuoso, às lembranças de tempo de bonança. Na figura balzaquiana do personagem comprador de antiguidades, o judeu Davi Cohen, Josué caracteriza a avidez dos que vivem da decadência alheia. Cohen não é apenas um comerciante, mas um personagem ávido por bens materiais que para seus antigos proprietários representavam valores afetivos e toda uma cultura doméstica que a ganância de Cohen, símbolo quem sabe do capital despersonalizado, desconhece. Junto com Os tambores de São Luís, neste livro Josué mapeia o imaginário maranhense de determinada fase da nossa cultura. Mostra o estágio da economia agrária que levaria a uma industrialização que tarda a chegar. Mostra um Maranhão, por outro lado, rico e majestoso em sua história e nos caminhos e descaminhos de sua cultura. O incêndio final na casa de Cohen vem fechar definitivamente um ciclo. O incêndio na casa do judeu não apenas acaba com suas peças valiosas ou de arte, mas também coloca cinza e ponto final, na passagem do século XIX para o XX, em sua festa de Ano Novo, quando os velhos habitantes retornam para a festividade, o incêndio na casa de Cohen, dizia eu, queima as últimas quimeras de um retorno a uma cidade que há muito deixou de existir.

É também simbólico o fato de Natalino, que se considerava estéril, descobrir, ao final da vida, que tinha gerado um filho. É simbólico porque o filho de Natalino também sugere o renascimento de Alcântara. Não mais com o fausto anterior, mas como promessa de outra vida, da continuidade da existência, da passagem do Natalino velho ao filho novo, ou ainda no plano simbólico, da velha e aristocrática Alcântara a uma promessa de uma vida que não se encerrou com a improdutividade da cidade que vivia da atividade agrária e da escravatura.

imagem retirada da internet

domingo, 13 de agosto de 2017

A fome, poema RCF



A fome se alimenta de gente:
quanto mais mirrado o homem
maior o dente.
Morde a carne pouca
nem lamentar pode
através da voz rouca.

Mais incha o bucho da fome
aquele que nada tem
e abre mão da vida e do nome
nem sabe pra que vem.

Ali vem outro, retirante,
quanto mais cresce diminui,
se estica feito barbante,
tão fino quanto gilete.
É seguro por uma linha
feito marionete.

A fome também vira camponesa:
da foice o corte perverso,
da enxada o revolver da terra.
Não é tema que dê bom verso
embora acerta mais do que erra:
tem o tiro perfeito da garrucha
no passarinho distraído na serra.

É semente vazia
que cresce quanto mais
avança o dia.

(do livro Terratreme, Fundação Cultura de Brasília)

imagem retirada da internet: portinari

sábado, 12 de agosto de 2017

Largo parto, Memória dos Porcos


rodney smith

Tudo o que pego parto
mesmo quando parto me pego
sendo outro que eu mesmo parto.

Por onde ando largo meus passos,
por onde passo ando ao largo,
por largo tempo meus passos não creem
que vão dar no Largo do cemitério
onde um dia largo meu último passo.




sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Marítimo, poema RCF

 Elina Brotherus's Baigneuse, Orage Montant'

                                  


Que velocidade marítima está em nós,
que Deus sabe de meus pecados
e tombadilhos
à espera de um
dedo de proa
que nos livre do
cais, do caos
e da desordem?

Que jardim marítimo planta
a rosa dos ventos
nesta naufragata
que avança alucinada e pura
e não me popa
destes diários desatinos
                                   de bordo?

Este mar não me salva-vida
me leva o Leme
faz do Rio um mar
e me naufraga na onda
das marés da moda.
Este o dilema, o fato mercante
que me assalta:
a bússola ou a vida?

                                   (do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Picadeiro de ruínas, poema RCF


 Ilustração | Stamatis Laskos
Estou abandonado ao próprio eixo
que de mim me gira e me solta frouxo,
tudo escurece ao se perder o alvo,
um homem que esqueceu do seu agosto.
Morto me encontro vivo e vivo
me sinto falecido das faculdades
contra o açude da memória
que me transborda de passado.
Minha razão – cavalo esquivo –,
trota no picadeiro de dúvidas,
percebo o salto triplo
do erro: o nulo, o vago, o curvo.
O interruptor das pálpebras
desliga a realidade.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)




(imagem: Stamatis Laskos)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O homem e o talho, poema RCF


 

Alguma coisa vem e me talha.
Não é o talho de algo cortante,
objeto pontiagudo, diria um legista,
mas o talho de um leite
que é o princípio de uma desagregação
e, em certo sentido, de sentimentos talhados,
maneira de se sentir em regime de decomposição.

Sou então um homem talhado.
Talhado para o amor?
Talhado para determinada profissão?
Sem que a frase continue
– o talho é intransitivo.


E vou me fermentando por dentro
até que o que me corrompe
deixe de ser fluido e se torne sólido.
Tenho então outro órgão dentro de mim
que não é apêndice nem tem função,
a não ser a de me lembrar
que minhas incandescências
são contraditórias, sólidas e em forma de talho.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Variações sobre a sombra-2, poema RCF


Resultado de imagem para can dagarslani

A sombra e seu exército


O cabo da penúria
que nos exercita nas barras da noite.
A hierarquia de nuanças,
a divisa de penumbras,
a artilharia de chumbo grosso dos pesadelos.

A sombra impõe sua marcha
feita de claro e escuro
e a companhia de si mesmo
que é a reprodução chapada
e sob os pés
da escuridão de nós mesmos.
O espelho de silhuetas
a refletir o perfil do acaso.

Depois, há um batalhão de equívocos,
a caserna de escusas e negaças,
o aquartelamento dos sentimentos
e o acampar de esconderijos.

Aqui nada escapa à patente das máculas,
tudo se curva à tropa dos desvios
e aos poucos se diluem
as inúteis trincheiras de luz.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

sábado, 5 de agosto de 2017

A peripécia, conto de Ronaldo Costa Fernandes


Vamos, imagine, um padre de batina na fila de uma boate de striptease. Uma geladeira no meio da sala. Um fogão no banheiro. Vamos, imagine. A imaginação tem dois defeitos. A imaginação tem vários defeitos. Mas dois me incomodam, só dois. A imaginação, ora. Incendeia quando deve esfriar e não se conforma com um círculo na casa dos quadrados.
Era como me sentia ao dizer que era professor de grego. Grego. É muito difícil sobreviver hoje em dia com uma língua que não está nos currículos escolares. Só o alfabeto, alfa, gama, sigma, só o alfabeto já reprovaria metade da turma. Falam tanto em mundo virtual e essas coisas e tal. O barato hoje é ser virtual. O grego é virtual. Uma língua que não existe mais é virtual. Existe apenas nos livros e na mente das pessoas. Nada mais virtual que o grego.
Os colégios expulsaram o grego como quem afasta mau-olhado. Nas reuniões, festinhas, mesas de bar, quando você fala que é professor de grego, as pessoas o olham como se tivesse revelando uma tara. Minha tendência é beber mais um copo de cerveja, olhar o relógio, desculpar-me. Ora, desculpem, mas estou atrasado. E nunca mais voltar a ver quem me acha esquisito. Atrasado, desculpem. O relógio. Não vou conviver com quem me acha esquisito.
Tenho parte de culpa por não ter virado professor universitário. É, universitário. Mas minha experiência com a academia foi desastrosa. O erro é meu. O erro não é do grego. O grego não tem erro. O grego é uma língua e uma língua não é errada por existir. Ou por ter existido. Morrer é um equívoco. Mas acontece que não consigo conviver com intriga, vaidade, gente medíocre e, principalmente, com alunos desinteressados que perguntam a todo o momento a serventia do grego no mundo moderno. Oh, Deus, pra que serve o grego no mundo moderno? Sem resposta – é, sem resposta.
Passei a dar aula particular. Sou baixo, ando de terno sem gravata – um terno surrado que me faz suar, afasta as mulheres, dá asco nos homens. O terno. Ou o paletó. O paletó me torna mais civil. E me protege. Eu, que tenho bunda larga e gorda. O paletó me cobre a bunda larga e gorda. Há algo de couraça no algodão. Se ando de manga de camisa, tanto que estou desacostumado, que me sinto nu. É muito inconveniente você andar nu pelas ruas. Nu na casa dos outros. Entrar nu em fila de banco. Sei que cheiro mal. Mas gosto de mim desta maneira. Não, não, não falo do odor. Falo da maneira sem compromisso com a vida social. O paletó me cobre a bunda larga e gorda, cobre.
Gosto de pensar em mim como um ser em extinção. Um mico leão dourado, olhos pequenos espantados, gestos rápidos e ladinos.
– Você é um cara antigo – dizia um aluno. – Um cara que devia ter vivido antes de Cristo.
Quando nasci? 50 a.C. Antes de Cristo era uma hipótese de Deus sem carne. Eh, bem.
O sujeito tem que revolver a memória. Revolvendo minha memória, talvez eu já tenha nascido antigo. Morei em orfanato. Morar em orfanato é ser inquilino do diabo. O endereço, inferno. Lá, a gente aprende duas artes: a de sobreviver e a de viver desterrado.
Fui o que sou hoje: criança triste e desconfiada. Nunca mudei. Por isso digo que já nasci velho. Criança não é projeto de adulto. Não é miniatura de gente. Criança é espécie de raça. A raça negra, amarela, branca caucasiana e, por fim, a criança. Um dia já fui da raça das crianças. Magrelo, feio, cheio de feridas, lendo pelos cantos O Cruzeiro, revista de contos policiais, nunca gostei de gibi. Quando deixei a raça criança, fui ser de outra raça mais mofina ainda. Mas aí, ora aí, aí eu já sabia outras línguas, tinha outro corpo, outras mãos, os pés me levavam aonde queria. Cresceu meu membro que, depois descobri, ao morar com uma viúva velha de um parente afastado, me transformou em homem.
Sempre sobrevivi aos trancos e barrancos. Morei numa quitinete no Méier, cercado de livros, em sua maioria, é claro, em grego. Uma pequena fortuna. Houve mês que deixei de comer para comprar livro. Hoje não faço mais estas extravagâncias. Um mês comendo miojo, um mês.
Vivi assim até o dia em que um incêndio tirou meu ganha-pão. Todo incêndio faz desgraceira danada. Queima documento, queima móvel, queima coisas queridas, queima coisa cara. Nunca vi incêndio doméstico que não roubasse a paz de um cristão. No meu caso, tenho o nervo como a coisa mais inflamável dentro de mim. Este incêndio queimou principalmente meus nervos.
O incêndio levou os livros e meus dois alunos. Não, não, claro que o incêndio não matou os dois alunos, os frades capuchos que tinha, não, o incêndio queimou minha vontade de ensinar.
Fui então trabalhar como balconista – longe dos livros, longe de qualquer coisa que me lembrasse os livros. Era loja de bricabraque, numa rua sem saída, do centro da cidade, cercada por lojas de carcamanos que vendiam roupas baratas, utensílios de cozinha, cutelaria, chapelaria, todas ordinárias, as mercadorias cheias de pó, antiquadas como seus donos septuagenários, um gueto de libaneses com barba por fazer, cabelo ralo em pé, curvados, vidros embaçados das vitrines e as moscas visitando as lojas como nos velórios.
Jantava às vezes no botequim que misturava ovos coloridos com esfirras. Andava calado e, quando falava, falava grego com os clientes. Nem grego era. Digo que falava grego porque dizia coisas sem nexo, resmungava, falava sozinho, discorria sobre as peças de Sófocles e o teatro grego pro rapazinho da lanchonete que, para outro cliente, girava o dedo à altura da orelha. O riso dos outros é uma comédia e a comédia, vocês sabem, Aristóteles não tinha em boa conta a comédia. Que riam, os cretinos.
Fui mandado embora. Já não tenho mais nada o que vender para sobreviver. Depois do incêndio sobrou pouca coisa: minha língua inútil, meu cansaço dos anos. Um homem deve orgulhar-se de sua diferença, língua estranha ou estrangeira – o que dá no mesmo – e sua enorme capacidade de ocupar um espaço na natureza. Por isso, renego a cremação. A cremação é um ato indigno, recolhe da natureza algo que ainda existe. Os ossos ainda são parte da natureza, embora sua existência seja tão sensível como uma pedra.
Procurei os padres capuchos. Um estava no Rio Grande do Sul, outro voltara para a Itália. O certo é que estavam doentes, tomados por doença rara, falavam grego, sim, falavam grego, para espanto dos seus pares e do superior. Não creio que tenham enlouquecido. Queriam um mundo helênico para suas vidas, apenas. Que mal há de querer a convivência com Aristóteles, Sócrates e Ésquilo?
De qualquer maneira não poderia mais ter um trabalho ordinário. Estava ficando cego. Fui ao médico. De nada adiantou. Como iria ganhar a vida? O destino, que tem buraco no muro de beco sem saída, outra vez me pôs em caminho sinuoso.
Chego ao fim da minha peripécia, se posso chamar de peripécia. Fui até o subúrbio, busquei o número anotado no verso do cupom de loteria. A moça me abriu a porta, perguntei se era ali que tinham posto anúncio pedindo professor de grego. Ela me levou até o quarto escuro, onde jazia o homem. Seu último desejo: aprender grego e depois morrer. Foi o velho mesmo que propôs que eu fosse morar com eles. O senhor tem onde morar? Não? Aceite o meu convite, disse o velho. Mudei-me para a casa do subúrbio.
A menina gostava de hip hop, reggae baile funk fumaça crack a pedra andava de moto estudava no noturno do supletivo, Quer saber, dizia, não estou nem aí. Acabou acordando num hospital público emergência o tênis sujo de sangue, a calça de cós baixo tinha virado bermuda e a escuridão tomava os olhos e tudo por causa do tiroteio e de uma bala encontrada (não perdida) uma bala alojada no cérebro que não afetou nada além do nervo ótico.
Os objetos são negros, a experiência é negra e, logo, o mundo é negro. Ensinei-lhe o elementar do grego. Os pássaros riscavam o cinza dos dias chuvosos que têm tom grave.
Um homem deve ser senhor do seu último desejo. Um professor de grego como eu só tem um único desejo: a mocinha cega. Tenho que aprender a viver com poucos recursos e meus últimos desejos. Por que, tardiamente, os testículos vêm me atormentar como se o pesadelo não estivesse na cabeça, mas entre as pernas?
Com o tempo, o velho morreu. O enterro foi uma tristeza. Só havia a neta, mais dois parentes (um dos quais bêbado), e eu. Cega, a mocinha pediu que eu ficasse na casa, ajudasse no supermercado. Aos poucos os objetos vão perdendo contorno, mesmo onde há luz existe penumbra. Não me importa ficar cego. O silêncio é escuro. O silêncio. O grego já não me serve para ver nada. Olho difusamente a mocinha trocar de roupa. Aquilo me enoja. Sinto-me covarde e canalha. Logo a escuridão vai ser minha nova língua. Sem ver a mocinha, perco os testículos e ganho a escuridão. A escuridão é silenciosa. A solidão é língua morta.


(do livro de contos Manual de Tortura, Ed. Esquina da Palavra, 2007)



imagem retirada da internet: lucian freud