domingo, 31 de dezembro de 2017

Passagem do ano, poema de Carlos Drummond de Andrade




O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejaria viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



(in: A rosa do povo)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Pescoços torcidos, poema RCF






Os pássaros se jogam de cabeça
na piscina vertical do reflexo
e, na sua ânsia de voo,
não percebem que a janela
é uma fotografia de vidro.

Os pássaros já vêm com pescoços torcidos
para a forca horizontal
da janela narcísica
em busca do infinito.
O lago de vidro não tem fundo
e o que espelha
é apenas uma imagem virtual
que mata com sua força de ilusão.
Nada é tão cortante, falso,
nulo e sem perspectiva
que a ilusão de vidro fumê.

Há de se ter por coisa não pouco
miúda isso do medo dos vidros,
da ilusão que pode se converter
em forca e fazer do voo diário
um espelho de pescoço torcido.




sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O coração das trevas no pulso, poema RCF



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O relógio de ponto calcina
o coração das horas.
Na bainha do pulso
o tique-taque da bomba-relógio.
Os minutos disparam
o gatilho do tempo.
A roda da fortuna
 sempre os mesmos números.
Tiros de festim na pontaria dos ponteiros
atingem o difícil exercício das cinzas.

(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O boi, poema RCF



na colcha
                  de retalhos das plantações
o campo
                  não se mede com o metro do homem
o que vale
                 são os pastos
o livro tombo dos mourões
o tabelionato das valas
a notaria dos rios
o documento de letras dobradas
dos córregos e montanhas

o boi
              é o verdadeiro agrimensor
                                                anarquista
tabelião rebelde
              só respeita a seca
                                     forma de cerca
               hectare de um metro
que o cerca a cada passo
                            na terra devastada

o boi
           come o hectare
                                como quem pasta o limite


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

(imagem retirada da internet: pintura ignacio da nega)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Desclassificado poético, poema RCF




Vende-se, troca-se, empresta-se
alma vazia, uso desmedido,
não necessita de muita manutenção,
um pouco de poesia,
dois dedos de beleza,
um pouco de amor, pelo amor de Deus.
Capaz ainda de espasmos,
lúcida, embora dolorida,
aparência de nova,
perspicaz e dolorosa,
pode ser usada em leitura,
sentimentos nobres permitidos,
outros ignóbeis também presentes.
Quem tiver interesse,
telefonar ou procurar
na portaria do corpo
bater à porta
do corpo que a transporta.
Exige-se sigilo.
E uma profunda humanidade.


(do livro Memória dos Porcos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


(imagem retirada da internet: alma gêmea)

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Ensinamento do mundo, poema RCF



Em cada luz há implícita a escuridão.
Tão urgente
quanto um pássaro
que não pode fechar asas
em pleno voo.
A vocação fantasma dos navios
– existir na imaginação
incrédula dos outros.
O cinza é a dor
que mais endurece.
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

domingo, 24 de dezembro de 2017

Tristeza marinha




Sofro de tristezas marinhas
e, no lusco-fusco
das minhas tormentas,
na umidade das indecisões,
a noite ilumina-se
nos abismos da vertigem.

Pertenço ao armário
das armas incompletas:
como xícara sem asa
ou graxa que endurece e racha.

De alumínio são meus nervos
                 – dúcteis com aparência de aço.
Sou troco que se recusa,
embora maior quando dizem
                 que me dobro.

Meu quarto é um terço do que sou.
E um terço do que sou é meu rosário.

Pai nosso que estás no céu,
a soma dos meus ângulos
é um teorema de nulidades.


(do livro Andarilho)


fotot: rodney smith

sábado, 23 de dezembro de 2017

Um homem é muito pouco - 8


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E bem, ali estavam os três, Clemente, Yolanda e Aninha para fazer visita a Juliana. Clemente ficou impressionado com a casa. Não pelo luxo que não havia, Juliana era intelectual e não cuidava muito da casa. Havia livros e papéis por todos os cantos e os móveis pareciam estar fora de lugar por alguma razão desconhecida. E além do mais, em todas as partes havia cavalos de pau.

O marido de Juliana não gostava de ser chamado de marceneiro, acreditava que os móveis que fazia, muitos deles desenhados por ele mesmo, eram obra de arte. Copiava modelos ingleses, franceses e italianos, mas também impunha aos fregueses os traços do seu desenho, que poderia nunca chegar a ser grife, mas que lhe dava a paz de realizar trabalho artístico e não meramente mecânico e operário.

Mas a fascinação do marido de Juliana eram os cavalos. Então havia na sala em que foram recebidos cavalos de todos os tamanhos, pequeninos, médios, grandes. Clemente mesmo se sentou numa cadeira que tinha forma de cavalo. Do mesmo modo, Yolanda e Aninha também sentaram em cadeiras-cavalo, enquanto Juliana se estirava numa chaise-long, depois de recolher pratos jogados sobre a mesma, papéis espalhados em cima do sofá como se tivesse sido pega de surpresa e não ter convidados para o chá. Yolanda já estava acostumada com Juliana e com a casa de Juliana. Aninha sempre gostava de ir à casa de Juliana, que lhe parecia enorme casa de brinquedo que, lamentavelmente, só tinha o brinquedo do cavalo.

Quem estava incomodado era Clemente, que não se sentia à vontade sobre uma cadeira que era cavalo ou sobre um cavalo que era cadeira.

O marido de Juliana era um cavalo. Era um cavalo grande. Homem cinza. Todo ele era cinza. E ainda por cima fazia questão de se vestir de cinza. Horácio era o nome dele. Mas Horácio não é nome de cavalo. Horácio deveria ter nascido com o nome de cavalo. Ele levou Clemente para outra sala com pé-direito alto.

Lá havia outros cavalos. Era a “cocheira” de Horácio. Era ali que ele esculpia e guardava os cavalos, principalmente os cavalos maiores. Horácio devia se chamar Homero e tornar verdade a história do cavalo de Troia. Horácio era o único homem que Clemente conheceu que podia ter construído, nos tempos modernos, o cavalo de Troia. Horácio era um homem espichado, magro de tanto cavalgar seus cavalos, alimentando-se pouco e raramente. A cabeça de Horácio cobria-se de cabelos cinza, as crinas de Horácio comportavam o cinza. Horácio colocou Clemente num cavalo grande e ele também sentou num cavalo grande.

A impressão que Clemente reteve foi não que os cavalos fossem grandes, mas que os dois, Horácio e ele, haviam diminuído. Clemente se sentia um pouco criança, mas não se importava de se sentir um pouco criança. Os cavalos enormes, gigantes, de Troia, os cavalos grandes de Horácio eram estilizados, logo não se sentia cavalgando na madeira da oficina de Horácio. Coerente com os cavalos de pau, não havia capim no chão da oficina, ou melhor, o capim também era de madeira.

Os cavalos ficavam distantes um do outro e Horácio falava alto e espichado, falava magro e cinza. Clemente respondia no mesmo tom e altura.

Era uma conversa desencontrada e magra. Dois meninos se balançando em dois balanços numa praça, de vez em quando as vozes e os ouvidos se cruzavam, mas no resto ele falava uma coisa, mas Clemente não escutava, estava no alto, logo Clemente falava outra que ele não escutava, estava lá embaixo e vice-versa ou versa-vice, como o próprio Horácio gostava de dizer. O versa-vice para Horácio era a conversa secundária. Ele perguntou a Clemente o que ele fazia, Clemente lhe disse e ele confessou que gostaria de ter sido marinheiro, que quando criança pensava em entrar para a Marinha, mas depois tomou gosto de cavalos e no mar não havia cavalos e era besteira de chamar de cavalo-marinho o cavalo-marinho que era marinho mas não era cavalo.

Eu joguei todos os meus livros fora, ele gritou.

E por quê?

Os livros, como aconteceu com Dom Quixote, estavam me enlouquecendo. Eu não gosto de enlouquecer, ele completou.

Clemente não disse para ele que também não gostava de enlouquecer, aliás Clemente não conhecia ninguém que gostasse de enterro e de enlouquecer.

Não, Horário não se parecia com Dom Quixote, embora tivesse o rosto também espigado e cabelo com topete que alongava o rosto dele. Horácio era tão magro que Clemente via não somente as veias dos braços como também os feixes mínimos de tendões e músculos que seguram as carnes.

Sabe quanto custa um cavalo desses?, perguntou apontando para os cavalos em que estavam sentados. Quase um carro popular.

Clemente não sabia a razão de Horácio falar aquilo de os cavalos custarem os olhos da cara. Queria se valorizar, é claro. Mostrava seus laivos de artista e de artista plástico com exposição montada e cavalos vendidos. Clemente, não por maldade, e sim por ingenuidade, perguntou se Horário já vendera algum daqueles cavalos.

Alguns, poucos, respondeu com sinceridade Horácio.

Clemente gostou da sinceridade de Horácio. Se fosse homem rico, somente pela sinceridade de Horácio, compraria o cavalo que valia carro popular embora ninguém ainda tivesse pagado o preço de carro popular para um cavalo daqueles.

Você gosta de amêndoas?, perguntou de súbito Horácio, sem que nada que tivessem conversado antes levasse a tal pergunta.

Gosto, gosto de amêndoas. Clemente pensou que Horácio ia lhe oferecer amêndoas. Mas não. Feita a pergunta, se calou.

E um tempo depois disse: As amêndoas são muito boas.

Clemente não havia escutado direito e pediu que ele repetisse. E Horácio disse: As amêndoas são muito boas. Clemente balançou a cabeça afirmativamente. E pensou que talvez não estivesse ali em Botafogo, na casa de Juliana, conversando com o marido cinza dela, sentado num cavalo gigante, e sim que estava no sanatório em Bremen. Horácio explicou que aquele era seu método mnemônico para guardar os nomes das pessoas. De agora em diante, Clemente se chamaria “Clemente, o que gosta de amêndoas”. Ele, Horácio, já provara o método inclusive numa visita que o casal fizera a amigos dela em Santa Tereza. Horácio se prometeu que sairia de lá sabendo o nome de todos os amigos dela. Eram quase vinte pessoas. Horácio foi apresentado a todos e pediu que Juliana ao apresentá-lo lhe dissesse o nome. Na hora de partir, Horácio se despediu um por um pelo nome.

Boa noite, Otávio. Boa noite, dona Marina. Boa noite, seu Cláudio. Boa noite, seu Antonio Carlos. Horácio, ao ser apresentado, juntava o nome do sujeito ou da mulher com algo aleatório, como Otávio com piano, Mariana com fruta-pão e por aí vai.

Ao sair da festa, Horácio estava se despedindo era do piano, da dona fruta-pão, do seu manteiga, da sua graminha, do seu novato, do doutor capacho, de dona língua grande. Horácio não gostava de associar traços físicos com o nome, para ele era o mais fácil de confundir. Nariz grande servia pra um bando de pessoas ali mesmo na festa.

O método que Horácio consagrara – embora não fosse inventado por ele – se estendia aos amigos de Juliana. Se Clemente era o que gostava de amêndoas, Alexandre era o sujeito que gostava de jogar pôquer. Horácio não gostava muito de Alexandre, pensava que ele dava em cima da mulher dele, o que não era de todo descabido.

Juliana era uma mulher muito bonita. O dinheiro do pai de Yolanda podia comprar qualquer miss, por isso não ia gastar tempo e dinheiro com uma secretária que recitava Le dormeur du val, de Rimbaud. Se fosse feia, poderia discorrer sobre toda a literatura francesa, de Rabelais a Flaubert, que não levaria nenhuma bicota na boca murcha.

O pai de Yolanda conhecia o mundo e o mundo era belo. O mundo não era belo para os pobres, mas o que o dinheiro que o pai de Yolanda comprava era belo. Era bela a literatura do pai de Yolanda, eram belas a mulher e a amante do pai de Yolanda, eram belas a casa e as viagens do pai de Yolanda, era bela a casa com piscina em Palmas de Mallorca, era imensa com quadras de tênis e uma cascata natural a mansão do pai no Alto da Boa Vista. Yolanda não conhecia tudo sobre o pai dela. Havia um lado que o dinheiro não comprava e que ele escondia da família.

O pai de Yolanda tinha muito a ver com o capitão Vaz. Não, não, nunca se encontraram e agora que o pai de Yolanda estava morto só se encontrariam na vida eterna, caso os dois acreditassem na vida eterna e, principalmente, se existisse a vida eterna. O pai de Yolanda foi procurado por um empresário paulista do grupo Ultragás e ele pensou que o empresário fosse convidá-lo para o pai de Yolanda fazer parte da companhia que estava de pernas bambas. Mas o negócio que empresário paulista propôs foi ser sócio do Brasil.

O senhor é um patriota, dr. Macedo.

É claro que sou.

Muito bem, venho lhe propor se associar ao Brasil.

Mas o Brasil não tem dono.

É aí que o senhor se engana, disse o empresário paulista. O país é de todos, mas há uma canalha que pensa que o país é deles e que eles vão tomar o Brasil só para eles.

Meu Deus, exclamou com verdadeira surpresa. O pai de Yolanda era o sujeito mais esperto e safado que se conhecia, mas às vezes deixava passar ingenuidade.

Depois dessa conversa no Golden Room do Copacabana Palace, o pai de Yolanda passou a contribuir para armar a repressão contra os comunistas que queriam o Brasil só pra eles. O que jamais o pai de Yolanda ia imaginar é que a amante querida e que ele cuidava como quem cuida da educação de filha na Suíça fosse casar com comunista que militara antes de conhecer a arte de esculpir cavalos.

Mas voltando à questão mnemônica de Horácio, o homem cinza que vinha a ser Horácio – o rosto apresentava-se macilento, viam-se os pomos da face e até mesmo os olhos apresentavam tonalidade cinza como de certos felinos – contou para Clemente que Juliana tinha um amigo chamado Alfredinho e que ele identificava Alfredinho como corretor da Bolsa. Certa vez chegou mesmo a misturar as coisas e perguntar a Alfredinho como iam as ações na Bolsa e que conselhos Alfredinho dava para quem, como ele inexperiente, quisesse se meter a aplicar na Bolsa e foi quando Alfredinho disse que não era corretor da Bolsa e que trabalhava numa imobiliária como corretor, não da Bolsa, mas de imóveis.



(Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

O viúvo, início do romance




  


Sei que, no dia seguinte, a cegueira será ver em demasia. A luz do sol vai ferir os olhos. Tudo brilhar demasiado: os carros no estacionamento, o chão cinza de cimento, as paredes marrons, as árvores excessivamente verdes. A claridade é o diabo de uma agulha e os ruídos, por mínimos que sejam, entrarão pelos tímpanos fodendo meus nervos. Preciso trabalhar. Eu atrapalho? O que você acha? Há mofo por tudo quanto é canto. A empregada está aí pra isso. D. Benedita, ela ainda está contigo?
– Não era teu desejo?
– Tenho frio.
A casa não consegue dormir. Quando está com insônia, os olhos inchados e vermelhos ficam de pálpebras baixas, mas não se fecham. Todo um torpor, dores, músculos cansados tomam a casa. Os livros sussurram indistintamente. Não querem dizer nada, são balbuceios, murmúrios, apenas sons sem sentido. Querem se fazer presentes, me solicitam, mas não posso atendê-los. De que adianta o diálogo mudo com eles? Não consigo ler. Por que não dorme? Ora, não vê, a casa não deixa. As teclas estão dentro de mim, não posso escrever, oh, não, não posso escrever com teclas que estão dentro de mim.
 – Os alunos?
– Continuam lá.
– Você está infeliz.
– Estou é inquieto.
Ando pelos corredores, o perigo de Lídia me acusar. Por que isso, por que aquilo, a lengalenga de sempre. Lídia não pode entender de solidão. É difícil para uma mulher como ela perceber porque o homem tem menos facilidade de viver só. A casa bufa. A agitação das narinas, o gosto do olfato, os odores da casa em funcionamento. Meu pai era um homem de cabelos fartos negros o que lhe faltava era argila o que dizes? os mortos somos nós somos nós somos nós a noite tem seus motivos, ora se tem. Se eu estivesse contigo, iríamos pra cama. Uma boa foda é o melhor calmante. Você acha que não tenho lembrança de gozar?
– Não quero discutir orgasmo com os mortos.
– Grosseiro.
Agora as cortinas balançavam ao vento. Fechei a janela. Ela ficou lá fora, bateu no vidro, mas como o soco dos mortos é silencioso, não ouvi nada, apenas vi o vento movendo as plantas da jardineira.




(do romance O viúvo. Brasília, LGE, 20015)

East Coker, T. S. Eliot



EAST COKER
                                  (trecho inicial da parte I)

Em meu princípio está meu fim. Umas após as outras
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são
                                        [ ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Irrompe um campo aberto, uma usina, um atalho.
Velhas pedras para novas construções, velhos lenhos
                                        [ para novas chamas,
Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre
                                        [ a terra semeadas,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestas, trigais e folhas.
As casas vivem e morrem: há um tempo para
                                        [ construir
E um tempo para viver e conceber
E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas
                                        [ vidraças
E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre
E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a
                                        [ silente legenda.

Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina
Sobre o campo aberto, abandonando a recôndita
                                        [ vereda
Cerrada pelos ramos, sombra na tarde,
Ali, onde te encolher junto ao barranco enquanto
                                        [ passa um caminhão,
E a recôndita vereda insiste
Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico
Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada
É absorvida, irrefratada, pela rocha grisalha.
As dálias dormem no silêncio vazio.
Aguarda a coruja prematura.



(tradução Carlos Machado)


quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A seringueira, poema RCF



A seringueira sangra,
cortada nos pulsos,
o sangue branco do látex.
Pelotões desavergonhados
sem ordem nem progresso
– a imagem dos homens-rãs
submergidos na umidade verde.

Suor de ouro
na epiderme
da terra doente.
Floresta grega:
a medusa dos galhos,
o jogo dos espelhos verdes,
o enigma das árvores mudas:
o homem, um animal planta
ou
uma planta animal?
o coro fatal dos fazendeiros.

Os bichos piam
pio pio pio pio pio pio pio
– a floresta geme – ,
o vento mesmo, nos matos,
se esgueira como quem
passa por porta estreita,
à noite, em volta da fogueira,
a chama exclama.

Os olhos insones da coruja,
o balé da suçuarana,
a caricatura do macaco
no traço dos galhos.

Os caminhos bíblicos da floresta,
trilhas tortuosas
que vão dar no lugar certo.
Não há dia nem noite na floresta
mas um longo tempo florestal:
eterno, um tempo antes da criação.
Santo Agostinho perguntou:
– O que fazia Deus antes da criação?

A incerteza do chão
que se move com as cobras
– medo não é o veneno,
mas o chão, serapilheira,
                         e falta aos pés.


imagem retirada da internet: serigueira

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Um homem é muito pouco 18


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SEGUNDA PARTE
Sempre odiei os dentistas. Tenho horror a tudo que se corta no corpo. Mesmo o ato diminuitório de cortar as unhas. Toda vez que corto as unhas é como se cortasse uma parte de mim. Ninguém gosta de que cortem as partes da gente. Um pedaço de dedo, um pedaço de perna, uma orelha ou coisa que o valha. Sinto o cheiro de minhas unhas cortadas. O dentista arranca os dentes e arrancar os dentes é uma forma de mutilação. O dentista mesmo é mutilado. Usa dentadura. É um velho. Um velho já foi muito mutilado. Talvez viver seja ser mutilado ano a ano. Tenho medo de ser mutilado.

Fui duas ou três vezes nele. Não vou mais. Ele treme. Deu-me injeção. Perdi o queixo. Gosto de perder o queixo. Porque perder o queixo quando não se perde o queixo é uma coisa boa. A anestesia é uma brincadeira dos sentidos. A gente brinca de perder o corpo ou partes do corpo. Perdi o queixo durante duas horas. Depois o queixo voltou. Queria era anestesiar meu corpo todo. E não sentir medo. Se a gente não tem corpo, como alguém pode ofender o corpo da gente? O sujeito vem cortar a vida do corpo da gente e não encontra corpo. Quando ele vai embora, o corpo volta.



(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)



terça-feira, 19 de dezembro de 2017

A guerra, poema de RCF




Cheguei a ter uma rosa dos ventos
que apenas floriu
nas cartas que jamais recebi.
Não posso negar que tenho a consistência
de um trem:
meu início pode ser meu fim
(basta que mude de lugar
a fornalha que arde meus loucos motivos).

Cheguei a crer-me medieval e encouraçado:
era apenas a Idade Média da adolescência.
Meu norte é fácil porque depende apenas
de um fonema: a morte.
Tenho nostalgias das pontes
e gosto da idéia de estar
suspenso entre duas margens.

Acordo sempre com a sensação
de não haver dormido.
E o sono, ao contrário da letargia,
tem sido apenas uma pitada errada
do sal da lucidez
que, exagerado,
maltrata antes que dá gosto.

Nenhuma arma
fere mais, mortal e decisiva,
como o fogo-fátuo das sensações.
Passo então o dia no mundo da lua:
Sou Jorge e o Dragão.



(do livro Estrangeiro, Rio, 7Letras, 1997)



imagem retirada da internet: medieval

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Soneto de amor e morte, Quevedo









Amor me teve alegre o pensamento
em um tormento cheio de esperança;
carregou-me, por vã, a confiança
o claro olhar do meu entendimento.


Do erro passado hei arrependimento,
pois quando chegue ao porto com bonança,
de quanto glória e bem-aventurança
o mundo pode dar-me, tudo é vento.


Tenho vergonha dos mal passados anos,
que reduzir pudera a melhor uso,
buscando paz, e não seguindo enganos.


E assim, meu Deus, a Ti volto confuso,
certo que hás de livrar-me destes danos,
pois minha culpa sei, e não a escuso.








Tradução: Fernando Mendes Vianna

domingo, 17 de dezembro de 2017

Lección de anatomia, poema em espanhol RCF




Soy cosa
Algo semejante a
                       lápiz o vela
que para existir se consume
esgrimiendo garabatos o quemándose
en el fulgor de las palabras o en la luz suicida
que ilumina mientras se inmola.

El bombo de los solitarios es el mismo que el de los eufóricos
gime con la misma voz sorda
al compás del tiempo de las matrices.

La tarde
con su envoltura de nubes
conspira con voces en la liturgia de los alborotos.

La vida es un error:
                             algunos llegan a ser sentenciados
                             a los ochenta años de vida.


(do livro Andarilho, Ed. 7Letras, Rio de Janeiro, 2000)

 
 
Lição de anatomia


Sou coisa
Algo assemelhado a
                           lápis ou vela
que para existir se consome
esgrimindo garatujas ou se queimando
no fulgor das palavras ou na luz suicida
que ilumina enquanto se imola.

O bumbo dos solitários é o mesmo dos eufóricos
geme a mesma voz surda
no compasso do tempo das matrizes.

A tarde
com seu invólucro de nuvens
conspira com vozes na liturgia dos alvoroços.

A vida é um erro:
alguns chegam a ser sentenciados
a oitenta anos de vida.


(do livro Andarilho, Ed. 7Letras, Rio de Janeiro, 2000)



Traducción de Alícia Silvestre y su equipo de alumnos en la Universidad Nacional de Brasília

sábado, 16 de dezembro de 2017

Supermercado, poema RCF


Aqui também há outra cidade
com avenidas e gôndolas,
veneza de cores, mares, matadouros,
tudo reduzido a suas metonímias,
o horto vertical das leguminosas,
o pomar das caixas penduradas
nos galhos das prateleiras.

O mundo reduzido
– a vida, sempre a vida
imperiosa como a sede –
ao ar preso e condicionado
de um quilômetro quadrado.





(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Delito do corpo, poema Ronaldo C. Fernandes





Igor K Marques
Por que certos amores
insistem em não envelhecer?
Por que alguns amores permanecem
como a mancha que nenhuma lavanderia apaga?
Não se vergam ao tempo
feitos de flandres humano,
não oxidante,
flébeis e olorosos
igual à matéria de jardinagem
que adubasse flores de carne?

Meu querer se sujeita ao alumínio,
dúctil, se muito dobrado, rasga.
Meu corpo é ainda mais frágil
que o alumínio: se ilude em ser papel.
Quando puder,
escritura de minha posse,
doarei minhas pernas
ao asilo das cadeiras
e minha cabeça
aos vagões soturnos do metrô
que passam vazios
e não param na estação
porque não há ninguém para descer,
não há ninguém para subir.

Tive uma paixão – esta sim –
que cumpriu o ciclo vulcânico:
explosão, lava e, ao final,
Pompéia soterrada.
Guardo o real amor como um lenço
que volta sem uso para casa.
Quem sabe algum dia
a loucura arranque
o que não ousa nascer,
o que sobrevive morto,
e o amor outra vez
se aliste na tropa do meu corpo?
O único crime que cometi foi a vida.






(do livro A máquina das mãos, Ed. 7Letras, Rio, 2009)



O difícil exercício das cinzas, novo livro RCF

O difícil exercício das cinzas



"Ronaldo Costa Fernandes – autor premiado e com uma obra já reconhecida pelos críticos entre as mais criativas e significativas de sua geração – tem o dom de encantar o leitor com uma poesia com a fluência da prosa, construindo uma intimidade imediata que passa pelos cenários internos (da cartografia humana, como em “Anatomia das dores”) ou externos (da geografia urbana, como nos “riscos ariscos no céu de Brasília”, cidade que ganha nova cor em seus versos) para desvendar as paisagens mais inesperadas. Estão presentes neste seu novo livro alguns dos temas marcantes em sua obra, como a passagem do tempo– seja nos ecos proustianos de “O quarto inútil” ou às vezes metaforizada de modo surpreendente, como em “Anatomia do ciclista” – e a instável condição humana. Aliando rigor, precisão, pleno domínio da língua a algumas pitadas de humor e ironia – e principalmente com altas doses de originalidade na construção poética –, Ronaldo Costa Fernandes atinge com este difícil exercício das cinzas um novo degrau de uma obra que vai muito além de seu tempo: pois é daquelas que ganham um novo sabor a cada releitura."
                                                                                           Jorge Viveiros de Castro











quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Fruto da paixão



A flor do maracujá é a flor da paixão.
A flor,
exposta à paixão dos olhos
e não ao amoroso da boca,
é fruto exibido.

Flor do maracujá –
vária e diversa – ,
flor utilitária
que fora de seu caule
murcha
como o homem sem a seiva da ambição.

Flor de fruto
fruto do fruto
beleza tímida
horária – vivendo apenas
seu tempo exato
no pé.
Fora dele, a flor da paixão,
passion fruit
ou
fruit de la pasion,
é o avesso de si
e se fecha, negando
aos outros a beleza
que apenas se nutre
e se mostra a si
mesma como a alma
que, embora bela,
não pode se expor sozinha.

Qual o tempo exato
para a fruta madurar?
Sob a bigorna do sol
moldada a ferro e fogo
ou sob a salmoura
dos dias nublados?
Cada fruta: seu forno,
seu tempo e sua temperatura
de andar madura
na cerâmica
do longe.
Ao longe a fruta é natureza morta,
pinceladas abstratas, traços exatos,
sem sabor, unidimensionais.




(Terratreme, 1997)

imagem retirada da internet: miró

A prosa e o verso maranhenses em quatro autores, por Lourival Serejo



Praça Gonçalves Dias

                                                                                                         

Sem a pretensão de fazer crítica literária, venho falar de quatro livros e quatro autores maranhenses. Refiro-me a lançamentos recentes, que confirmaram o talento desses escritores na prosa e na poesia.

O que antes era raridade – a sequência de lançamentos de livros –, nos últimos anos, em São Luís, tornou-se motivo para comemorar. São muitas edições aprimoradas, graças ao avanço técnico de novas gráficas instaladas e o destaque de profissionais que trabalham nesse desafiante artesanato de fazer livros. A Academia Maranhense de Letras tem feito o seu papel, nesse momento de expressividade, promovendo vários lançamentos, muitos deles com o selo da Casa.

Inicio esta digressão banhando-me n´O rio, de Arlete Nogueira da Cruz. A prosa da autora de Litania da velha flui como a correnteza do seu rio: tranquila, leve e envolvente. A magia que emerge da prosa de Arlete tem raízes no sentimento da terra que ela cultiva ainda hoje, mesmo tendo deixado sua aldeia há muito tempo.

A história de Pedro, que Arlete nos conta, em O rio, com muita habilidade, é a angústia que domina todo jovem, principalmente os jovens daqueles tempos, sem a facilidade de comunicação que temos hoje. É a busca de si mesmo e o desejo de conquistar o mundo. De certo modo, Pedro é Arlete, no que ela tinha de jovem inquieta e sonhadora, desejando navegar por outras águas em busca da sua afirmação.

As ilustrações de Péricles embelezam ainda mais o livro da musa do poeta Nauro Machado.

Do rio de Arlete, contemplo o Último sol nascente, de Alex Brasil.  Depois de consagrar-se como poeta, Alex atirou-se ao conto, esse gênero que cativa todos os escritores, tão fácil e tão difícil ao mesmo tempo. No meio dessa incerteza é que veio a famosa e muito citada frase de Mário de Andrade, dita em tom de desafogo diante de tantos originais para opinar: Conto é tudo aquilo que chamamos de conto.

Propositadamente, o autor deixou o conto cujo título dá nome ao livro, para o final, com o propósito de nocautear o leitor com uma história bem elaborada e bem concluída.

Por coincidência, o prefaciador do livro de Alex é o próximo autor de quem pretendo dizer alguma coisa. Já tive oportunidade de falar sobre a prosa de Ronaldo Costa Fernandes, ao comentar seu romance Um homem é muito pouco. Agora, ele volta à poesia, com a mesma competência que lida com a prosa, apresentando-nos Memórias dos porcos. O denominador comum dessa habilidade, não há dúvida, é a sensibilidade do escritor em sintonizar-se com a matéria-prima dos seus trabalhos.

Chamou-me a atenção o poema “Minha fraqueza é meu único talento”, quando o poeta diz: “Sou apenas um homem/ e um homem é muito pouco”. Nesse excerto, encontrei a chave para explicar o título do seu romance já referido: Um homem é muito pouco.

Para falar dos poemas de Ronaldo, teria que usar todo este espaço, o que ofenderia a isonomia que pretendo dedicar aos quatro escritores aqui mencionados. Destaco, só por ênfase, estes poemas que mais me cativaram: Verso e reverso, Código penal, Prescrição médica, Testamento, Carga pesada e Meu pai tem um calendário. Impossível deixar de me solidarizar com o poeta, quando ele clama: “Não posso viver num mundo/em que tudo se transforma em hipótese”.

Por fim, apraz-me falar do último romance de Waldemiro Viana: O pulha fictício. Usufruindo de sua gentileza, já havia lido os originais desse livro, muito antes de sua publicação.

Waldemiro não é mais calouro no romance. Anteriormente, já nos brindou com outros títulos: Graúna em roça de arroz (1978); A questionável amoralidade de Apolônio Proeza (1990); O mau samaritano (1999); e A toga e a tara (2010).

A receptividade que O pulha fictício está merecendo dos leitores é proporcional à naturalidade como o autor articula o enredo dos seus romances, motivando o leitor a chegar até ao fim para, então, ser compensado com o término da leitura.

Como se vê, essas quatros amostras que acabo de expor dão o toque da qualidade das nossas letras, atualmente, com novas publicações e a demonstração da capacidade desses já conhecidos escritores.


                           (Publicada no jornal O Estado do Maranhão, em 13 de abril de 2013).