domingo, 22 de outubro de 2017

Poema sobre cheiro, RCF




Naquelas tardes neutras
cheiravas a navio.
Cabelos invadiam o voo dos ventos
e se faziam asas
que em vez de pena
usavam fios sonoros e socorros de cabelo.

Se tu fosses uma morta,
mesmo com a fetidez da morte,
ainda seria um odor vital.
O morto não tem narinas,
não pode respirar o fim.
O teu cheiro é vontade de ser carne.
O teu cheiro – vapor –
é um dos estados da carne.

Meu cheiro tem lembranças
de outros cheiros teus.
Nada mais sugestivo
que o olor do canto
– o canto, por sua vez,
traz teu cheiro em forma de som.

Gostaria de ter um armário de cheiros
– não o armário de cheiros
dos perfumes que são bibliotecas
de cheiros – mas a estante
guardada dos mínimos anos.
Lá poderia me apropriar
do raso, do fluido,
do inexato, de ti.
Meu cheiro tem vários sentidos.



(do livro A máquina das mãos, 2009, prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras 2010)


(imagem internet: di cavalcanti)

sábado, 21 de outubro de 2017

A estrada, conto RCF






Arre. Nem mesmo o posto de gasolina da Ipiranga havia encontrado. Parou o caminhão no acostamento. Desceu. Olhou em volta: a vegetação miúda e retorcida. Tirou o boné, passou o braço na testa para recolher o suor. O que havia de errado naquele caminho? O pio dos pássaros. Como podiam sobreviver ali? Comer das árvores sem fruto, beber na poeira dos riachos secos. Entrou no caminhão. Pasmo. Que ia fazer? Inútil. Não estava três horas naquela esperança de encontrar Carolina?

Avistou o caminhão que vinha na outra pista. Fez sinal. O motorista não parou. Vinte e tantos anos de estrada e nunca vira aquilo. Vira assalto – chegara a ver motorista morto dentro de caminhão –, prostituição – as menininhas da idade de sua filha se oferecendo por quase nada –, vira de tudo na estrada, só não vira aquela afronta, aquele descaso, aquilo lhe doía mais do que assalto ou prostituta sem peito.

Cosme seguiu estrada. Mas não andou muito. Merda, sem gasolina. A única coisa diferente na estrada que conhecia de cor e salteado eram uns marcos, visivelmente novos, anunciando os quilômetros. Cosme estava no quilômetro 320 – quilômetro trezentos e vinte de onde para aonde?

Já ia anoitecer.

Lembrou-se da família – o que estariam fazendo agora? Três filhos, a mulher e a avó morando numa casa de dois quartos que construíra ele mesmo, tijolo após tijolo.

Frequentava a igreja. A igreja é que salvava todo mundo na vizinhança. A igreja é que salvara o Silvino da bebida, salvara o Marcos da jogatina, salvara a própria mulher dele da tristeza. A tristeza da mulher era um vício. Se não fosse o pastor da igreja a mulher tinha se matado e ele tinha de criar três filhos e cuidar da avó – como ia cuidar da avó e criar três filhos se cada dia que passava em casa correspondia a uma semana na estrada?

Adormeceu.

Dia seguinte, acordou com o sol seco e frio batendo no rosto. Pela primeira vez na vida, pela primeira vez na estrada, Cosme entrou em pânico. Imaginou-se eternamente perdido ali, abandonado. Como um náufrago, como alguém perdido no deserto. Que diabo acontecia com aquela estrada, que diabo acontecia com ele? Teria entrado numa estrada desativada? Ou ainda estava preso ao pesadelo? Iria acordar em Carolina, na cama de um hotel vagabundo e aí então suspiraria de alívio. E riria de tudo aquilo, contaria o sonho para a mulher que se benzeria e diria, cruz credo, parece até coisa do demônio.

Nenhuma nuvem no céu. Ligou o rádio. Chiado. Mexeu na antena e nada. Isolado do mundo. Desesperado, fechou o caminhão. Caminhar ainda com o sol fraco. Meio-dia, impossível a caminhada. Carolina deveria estar atrás de alguma curva, ainda que Cosme pudesse avistar a estrada meter-se, de tão reta, na linha do horizonte.

Por certo havia acidente. A polícia rodoviária desviaria o trânsito. Seria isso? Sabia não. Ao meio-dia exato, parou. Buscou abrigo na sombra de uma árvore. Passado um tempo conferiu o relógio: meio-dia. Há quantas horas ou minutos estivera andando com o ponteiro em meio-dia? Teve medo de enlouquecer. A mulher, Valquíria, lhe disse que preferia a loucura à tristeza. Quis enlouquecer: louco, ele não estaria ali. Adormeceu. Não sabia quanto tempo dormira, mas, agora, de onde estava, podia ver a estrada movimentada: caminhões, caminhonetes, carros de passeio, a estrada voltou a ser a estrada que conhecia.

Um caminhoneiro parou a um sinal de carona de Cosme. Levou-o até o local onde estava o caminhão. Mas o caminhão não estava lá. Cosme enfureceu-se. Filhos da puta, nem podia ganhar a vida honestamente, um bando de malandros vinha e lhe roubava o instrumento de trabalho.

Meses depois de voltar para casa, Cosme foi ficando triste, triste e a mulher o levou até a igreja. O pastor não a havia livrado da tristeza, por que não podia tirar Cosme daquele abatimento? Cosme frequentou a igreja. Tomou gosto das rezas. Estava desempregado, pagava ainda as cotas do caminhão roubado. Mas era feliz. Até o dia que entrou na igreja e encontrou-a vazia. Nem mesmo o pastor estava lá. Como a igreja podia estar vazia se era domingo de Páscoa?





imagem retirda da internet:rodney smith

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Pai nosso que estais no céu de Brasília, RCF


portinari

  

O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios d’água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.


(Publicadono Correio Braziliense)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E a história começa, Amós Oz



Em E a história começa, Amós Oz comenta dez inícios de clássicos da literatura universal. Alguns por demais conhecidos como o conto “O nariz”, de Gogol, o romance O outono do patriarca, de García Márquez e o conto “Um médico da aldeia”, de Kafka. Outros não são tão familiares ao leitor brasileiro. Exímio narrador, Amós faz de cada análise sua uma outra narrativa também tão agradável e surpreendente quanto o texto de que trata. A interpretação e leitura de Amós não desvendam os mistérios da ficção. O leitor desavisado não aprenderá a ler ou a escrever, mas a perceber que existe um mundo mágico na leitura. Amós aponta procedimentos narrativos que passam despercebidos aos leitores. E são esses “elementos despercebidos” que criam a magia da leitura. O início de cada narrativa é uma maneira de cativar o leitor, mas também tem a função de fazê-lo penetrar num mundo mágico particular. Cada narrativa, mesmo a realista, tem seu universo mágico próprio. A narrativa é um mundo virtual que, a priori, o leitor sabe-o crível, mas não verdadeiro. O papel do início é dar a segurança de um mundo virtual, verossímil e encantatório. Por ser o início do pacto leitor/narrador, os inícios de narrativa são reescritos várias vezes pelos autores a fim de encontrar o tom exato do fascínio. O início das narrativas é como, nos parques, os homens que anunciam as atrações fantásticas da tenda de horrores ou fantasia que estão lá dentro. “Certa vez, em uma praia de nudismo, vi um homem sentado, nu, prazerosamente absorto em um exemplar de Playboy. Exatamente como esse homem, no interior, não no exterior, é onde o bom leitor deve estar enquanto lê”, conclui Amós.



imagem retirada da internet: escher

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Poema de amor, RCF




 


Meus cílios batem asas mas não voam.
Digo ao meu amor: buganvila-me.
Às vezes falo nerudamente.
Sua o corpo de mulher,
fecha os ouvidos da perna
e aí meu pensamento
sussurra em língua Breton.
Três caravelas descobrem
a américa do meu norte:
santa maria pinta e borda,
sob os olhares de Nina.
E aí me pergunto:
de quantas luzes
se faz um escuro?
Ela, com sexo submarino e salgado.
Uma igreja não é um templo,
mas uma caixa de esperança.
Meu medo às vezes enferruja.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A máquina das mãos por Igor Fagundes

A medida de um palmo




Publicado no jornal Rascunho

Ainda que porventura fora dos perímetros de intenção do autor, aludir à máquina do mundo de Camões e Drummond consiste em um dois caminhos possíveis para nos aproximarmos do livro de poemas "A máquina das mãos", de Ronaldo Costa Fernandes. Não apenas pela presença, quiçá proposital, da palavra "máquina" no título. Sobretudo porque, a cada página, participamos de uma meditativa mundividência, que teria tônus metafísico ("Um dia me cansarei de ser/a nota dissonante/ e abandonarei a lição de casa,/ a lição da rua, a lição da vida,/ Oh, Deus, todas as lições que nunca aprendi") se, em contrapartida ao etéreo e elemental do autor de "Os lusíadas", não houvesse duas mãos(pensas)e um sentimento do mundo.
Se a poesia em questão não contasse nos dedos algum senso crítico e alguma ironia que rói a melancolia encardida nas unhas. Se, enfim, uma - assim chamada- "alma pequena" não assistisse à produção em série de sua inoperância: "Não contente com sua oficina de erros,/ criou em mim uma máquina de desconcertos".
A máquina perfeita da razão, a pressupor uma existência organizada segundo leis bem definidas, finalidades manejadas por uma causalidade e eficiência transcendentes, seja intelectualmente, seja divinamente, rui para dar vez à "vida como carro desgovernado", "costura de fio sem meada" em meio à qual as linhas inscritas e cruzadas na palma judiariam de toda crença em uma travessiaprescritível e, sob quiromantescifras, por elas esclarecida ("Quem inventou a medida do palmo/ queria ter o mundo em suas mãos.// As palmas me causam horror: o ato vazio de nada pegar").
Ronaldo Costa Fernandes faz da imperfeição de sua máquina impulso para uma escrita que, engenhosa, anseia o perfeito, isto é, a plenitude de um poeta senhor de suas impressões digitais (para não dizermos, mediante um desgastado fonocentrismo, senhor de sua voz). De pulso forte para cavar "fundo até aparecer o osso do mundo", de modo que não somente o termo "máquina" venha assumir relevância nas referências a Drummond e a Camões, mas o próprio vocábulo "mundo" em sua recorrência lexical e inquietante: " o mundo deve ser muito importante/ pra dar muxoxo pra gente/ ou não responder ao que a gente pergunta.// Ontem inventei outro mundo, mais cheio de vermes e de tarântulas,/ os coelhos gostam de mastigar o infinito".
Por manusear o que não tem limite, o que não encontra fim e, assim, desafia o empenho das fábricas do pensamento, bem como o desempenho das programações, o punho de Fernandes, à revelia do maquínico, se dedica a compreender incompreensões com a mesma força que incompreendecompreensões; à indagação sobre qual rumo perseguem os maratonistas e qual sem-rumo conseguem os suicidas; à exclamação do crematório dos fornos de churrasco; à amostragem sem auto-vitimização dos pecados pendurados em carnes de açougue; à assunção de tudo o que, finito, flagra a limitação dos dedos fincados no teclado e na tinta impressa das letras, metonímicos e metafóricos dos seres humanos, que "não têm tato, só conhecem o tagarelar dos acenos". O poeta ensaia sua poesia quando falha o projeto de dizer, quando equivocada a redução da trama do viver às sistemáticas forjadas pelo homem:

"Meus dedos demoram a pensar.
Têm memória curta.
Têm a surpresa do estalo,
mas não regulam bem,
cada qual em seu drama:
a polegada de vida medida,
o fura-bolo do desatino,
o maior-de-todos os
descompassos,
seu-vizinho do medo de viver
e a vida mindinha que se leva".

A lírica de descuidos com que este livro cuidadosamente se faz alça-o a uma claridade paradoxal, enquanto coerente em seu ofício de dar-nos mais clareza quanto aos paradoxos que subsistem no homem e regem sua inventividade- senão redentora, sentenciosa da impunidade com a qual somos coniventes e viventes quando alimentados pelo estremecimento nosso de cada dia.
A partir de tamanho tremor (nunca temor) imagético, o poeta verte seu verso e é profícuo na proeza de não deixar que a articulação soberba de imagens a priori desconexas, características da poesia, caia na armadilha do "incongruente como fórmula" ou do fluxo compulsivo que só prevê vertigem sem sentido, e não inverso: o sentido com vertigem, a oscilação entre um e outro, a impedir aquele enfadonho hermetismo onde as possibilidades de acesso e interpretação se encarceram. Na obra "A máquina das mãos", a fartura de figuras de linguagem ("Os cabelos das ondas/ necessitam de cachos para espumar") não insinua exibicionismo infértil, houvesse a fatura de um pensamento regente, consciente da pertinência de suas escolhas formais e estilísticas, zeloso de uma poética que, na contramão de um dito plenamente realizado de significados, conhece a diferença entre "dizer possibilidades e nada dizer". Habitante de uma terceira margem, não vê, por outro lado, diferença entre o beletrismo conservador-tecnocrático e a ditadura da anarquia verbal, para a qual liberdade estética é antônimo de responsabilidade artística e, quando muito (ou pouco), só se quer mesmo responsável pela geração espontânea do novo natimorto.
Não se encontrando "em nenhum canto do triângulo das dúvidas", vive "de ponta-cabeça" este poeta "cansado de pisar [ou, no caso, apalpar] a própria sombra".
Por isso, ele a compartilha conosco e, ao revés, irradia uma oblíqua luz de dentro e para dentro de seus (nossos)- não mais drummondianos, mas personalissimamente universais- claros enigmas. Mesmo que duvidoso das linhas da palma e da medida de um palmo, merece o dadivoso de todos os aplausos.



Igor Fagundes é poeta e crítico literário.
 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Se correr o bicho pega..., poema RCF







Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
A frase popular virou nome de peça.
O teatro ficava perto de um viaduto.
Eu tinha que passar pelo viaduto quase todos os dias e via o letreiro da peça.
E morria de medo, diabo, então não tem salvação.
Mal eu sabia que o bicho era eu.


 
(do livro Memória dos porcos, Ed. 7Letras, 2012)





domingo, 15 de outubro de 2017

Mares, poema RCF

malecón de Havana

Na Venezuela, meus companheiros
me levam para ver o mar do Caribe.
Bebemos, rimos, comemos peixe à beira-mar.
Me perguntam o que acho do mar do Caribe.
Ora, amigos, o mar é o mesmo como uma nota musical.
No malecón de Havana, Cuba,
em La Guaira ou na Urca,
o mar não tem sotaque nem hino que se cante.

Uma cantora canta El día que me quieras e penso
que o que vivi é apenas bolero.
Os amigos são fotos que falam, batem no ombro
e dizem que não vale a pena sofrer por uma mulher.
Os amigos afundam na densa neblina da essência e, fugidios,
deixam-se entrever na parede do espanto e nas portas do tédio.

O mar chocoalha as maracas de espumas
para acompanhar a cantora.
Alguém, bêbado, brinda a mim;
penso na ressaca exagerada de mim mesmo,
no sal extravagante da memória e dos fugazes tateares
do mistério de ser eu mesmo meu algoz.
Falam de mulheres e riem alto. Nada mais sabem de literatura.
Ao diabo a literatura!
E então penso em ti, que engana meus sentidos,
como o pau de sebo das marés
se oferecendo e recusando como dois amantes com remorso.

Ao final saímos do bar e dirigimos feito loucos
sempre bordejando o mar, eternamente bordejando o mar,
o mar que sacode o lenço de sal e maresia.
Onde estarás agora que arrisco minha vida e minha literatura
na avenida beira-mar de um país distante?
Onde estará teu corpo de ausência
e cavalos-marinhos de torpor e vício?
A literatura já não me importa, nem mesmo a vida
com suas saias rodadas e luas espessas já não me importa.
O álcool espuma nas veias como o buscapé das águas
explodindo nas pedras.
De que me valeu ler tantos livros?
O carro, embriagado de espanholismos e de desterros fatais,
envereda pela maré baixa, me torno sutil e melindroso
como um caranguejo que palita o andar.
Que horas devem ser no Brasil?


(poema do livro Andarilho)


sábado, 14 de outubro de 2017

Um homem é muito pouco 23

Resultado de imagem para radu balcin
    
        Onde está minha cruz? Às vezes deito no chão. Ponho pé sobre pé. Abro os braços. Tento pensar como Cristo. Não sou Cristo. Nem sou cristo. É apenas um exercício. Tem gente que faz flexão; outros, abdominais. Minha flexão é mental. Minha abdominal é cerebral. Faço duzentas flexões mentais. Por outro lado, meu recorde é cento e vinte abdominais cerebrais. Uma delas é pensar como Cristo. O que Cristo pensou na hora em que estava na cruz? Doem-me as costelas, tenho um pulmão perfurado, vaza água dentro de mim. Há uma fileira de Cristos. Só eu ficarei na História. Se tivessem me matado com uma adaga, qual seria o símbolo da minha religião? Uma adaga turca? De envenenamento? De envenenamento o símbolo teria que ser abstrato. Eu criaria a primeira religião cujo símbolo é abstrato. Abstratos são o pão e o vinho. Se morresse envenenado poderia eleger a pimenta como símbolo da minha religião. Riam, riam. Ninguém consegue hoje pensar em Cristo e não pensar na cruz. A Bíblia teria sido reescrita: o vinho é o meu sangue, o pão é minha carne, e a pimenta será minha cruz. Não, não pode haver cruz. Então há de reescrever a última frase. Mas Cristo, na última ceia, não fala da cruz. Então não seria necessário reescrever a Bíblia.

            Quanto tempo passo como Cristo? Não sei. Às vezes estou na rua e também sou Cristo. Ninguém sabe que sou Cristo na fila do supermercado, na fila do banco, na feira livre. Ser Cristo na feira livre equivale a cinquenta flexões, o sujeito que consegue se concentrar numa feira livre faz muito mais esforço que se concentrar na antessala vazia de consultório de dentista. Meu exercício para ser Cristo é tremendo. Estou na fila do caixa do supermercado e me imagino ali com coroa de espinhos na cabeça, camisão branco, barba longa e escura. Ninguém vê minha coroa de espinho, meu camisolão branco e minha barba comprida. Um amigo meu não vê diferença entre mim e um hare krishna que canta mantras. Mas não é igual o meu Cristo a ser um budista de classe média de cidade grande no meio dos trópicos, no calor de quarenta graus do Rio de Janeiro no verão, onde até as ideias são bronzeadas de tanto esquentar o cérebro, mesmo na sombra. Um calor como esse não deve fazer bem aos nervos nem aos pensamentos.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Dias perdidos, Lúcio Cardoso


Lucio Cardoso




Perto do coração banal


Ronaldo Costa Fernandes

O banal instaura o mundo circular. É o vício do círculo que promove, concomitantemente, a opressão e a ânsia de fuga. O banal em Lúcio Cardoso germina na circularidade da família provinciana. O banal em lugar da peripécia exuberante se apresenta como principal viés deste Dias perdidos (1943). Frustração, presença do mal, sonhos desfeitos, tédio, expectativas de grandes transformações, espírito debatendo-se entre modorra e busca de uma liberdade que não se sabe definir ou se desconhece existir, estas são algumas das questões opressoras do livro. O mal, indefinido mal, que não é causado pelo caráter intrínseco do homem nem pelas pressões sociais, que surge virulento e perturbador já aqui está, o mal, como no dizer de Antonio Arnoni Prado, no seu papel de “verdadeiro topos da elocução narrativa de Lúcio Cardoso.”
A história de Dias perdidos gira em volta do derrotado Jaques, sua mulher Clara, o devaneio tuberculoso da pequena Madame Bovary de Vila Velha: Diana, casada com o personagem principal Sílvio. A pena de Lúcio Cardoso, quando não cai, raras vezes, na frase de mau-gosto, sabe escavar e adensar o personagem que, provincianamente, teria pouca psique a oferecer. Mesmo que Crônica da casa assassinada (1959) se utilize de vários recursos – alguns nem tanto avançados –, a longa recorrência da memória e o perquirir contínuo dos personagens talvez possam encantar mais os leitores de hoje que o romance considerado maior do escritor mineiro.
Os críticos geralmente esquematizam a obra de Lúcio Cardoso em duas fases. Apontam os romances que não preparam para o clímax que será Crônica da casa assassinada e aqueles outros que são treinamento, preâmbulo e exercício estilístico e temático que desembocará no livro maior da obra do escritor mineiro. Lançando-se com Maleita (1934), romance de feitura da geração de 30, Lúcio Cardoso integrará o grupo dos romancistas intimistas como Octavio de Faria, Cornélio Pena e Clarice Lispector (amiga e confidente, a ponto de o título do primeiro livro de Clarice ser escolhido por ela e por Lúcio).
Mesmo que Lúcio Cardoso, mais tarde enverede pelo estigma do mal e da consciência e atmosfera asfixiantes que perseguem seus personagens, já nesta obra também se observam comportamentos típicos do escritor mineiro. Em Dias perdidos, existe a atmosfera carregada e interior. O narrado não está no mundo de fora, mas passa pelo filtro delicado do pensamento do personagem. Não chega a ser monólogo interior como também não chega a ser fluxo de consciência. O narrador em terceira pessoa mantém o pulso da narrativa. Apenas coloca o mundo de fora visto, observado e sentido pela razão e emoção dos personagens.

Dias perdidos também é romance de formação. Foge à caracterização pura do romance de formação, criado por Goethe, mas acompanha ao melhor estilo de formação ao crescimento físico e existencial, principalmente psicológico, de Sílvio e sua atmosfera pesada e sombria, comum a quase toda a obra de Lúcio Cardoso. Vários críticos ainda apontaram, baseados no depoimento da irmã do autor, Maria Helena Cardoso, fortes traços biográficos. O que é apenas curioso, mas nada acrescenta à leitura da obra.
Não se pode negar em Lúcio Cardoso o poder de sedução de sua prosa. Narrador vigoroso, Lúcio é irregular em Dias perdidos. A segunda parte, renegada por Sérgio Millet como “apressada e confusa”, beira o lugar-comum e o mau-gosto. Embora, o autor não perca o ritmo nem o encadeamento da trama. Francamente alongada e repetitiva, o autor, contudo, demonstra que deseja aprofundar-se no conflito dos personagens, principalmente Clara, Sílvio e Diana.
Por fim, lembremos-nos, que o banal também está no romance que irá aparecer um ano mais tarde: o de Clarice Lispector, com seu Perto do coração selvagem (1944). Nesta obra, o banal toma ares de renovação. Há o desconcerto de um fluxo de consciência original e transformador, que desloca a questão psicológica para segundo plano e investe no desencadear de crise ontológica e metafísica. Em Dias perdidos, o banal é reduzido a sua atividade de produção menor da representação existencial. Em Perto do coração selvagem, o banal se insurge e torna-se fonte geradora de apreensão distorcida e questionadora da realidade exterior.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A ofensa de existir, poema RCF

Resultado de imagem para rebecca dautremer


Existir é uma grande ofensa.
Morro melhor quando morro pela manhã.
De tarde há muito sol
e meu corpo defunto sua
as maldades do mundo.


(do livro O difícil exercício das cinzas)

(imagem: rebecca drautemer)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Um homem é muito pouco 14



Street Art

Um dia Yolanda acordou e entendia de artes plásticas. Quis visitar museus, fez viagem à Europa com
Clemente e com Clemente visitou o Prado, o Louvre, a National Gallery, em Londres, e outros museus e galerias. Encontraram-se em Gênova, onde o navio de Clemente parou e ele desceu de férias, como o combinado com o Lloyd. Yolanda queria esquecer a presença de Toninho Marcos que havia aparecido em seus sonhos e em alguns objetos que pegava.
          Entrava na cozinha, pegava o bule no café da manhã e o bule era Toninho Marcos. O bule não era Toninho Marcos, é claro, mas o rosto dele estava no bule tão nítido como se refletisse não a mão grande dela perto do bule, mas o rosto magro e ovalado de Toninho Marcos. Abria o guarda-roupa e Toninho Marcos estava lá dentro, pendurado num cabide. Entrava no táxi, ia pagar o motorista, ele se virava e o motorista era Toninho Marcos.
         Ela não queria trair Clemente e por isso inventou a tal viagem à Europa que ela já tinha tanto ido com os pais e nunca dera tanta atenção aos museus, nem via as igrejas como góticas.
       Para falar a verdade, aquele mundo de antiguidade e arte pertencia ao mesmo universo degradado do pai que vendia sabão. O pai gostava dos museus e das igrejas e logo se o pai gostava do museu e das igrejas e vendia sabão, a pequena Yolanda punha no mesmo saco igrejas, museus e sabão.
       A viagem não fez Yolanda esquecer Toninho Marcos. Ele estava nas gravuras ensandecidas de Goya, nos quadros medievais com guerreiros sobrepostos – como cabia tanta gente num mesmo quadro?, dos quadros da Galeria del Ufizzi, em Florença, nos retratos de Rembrandt e ela não entendia porque Rembrandt havia pintado Toninho Marcos. Nem também entendia como os rostos longos de El Greco todos retratavam Toninho Marcos.
         Durante toda a viagem, Yolanda reclamava do frio europeu e do cansaço de visitar tantos lugares de uma só vez e por isso não ia para a cama com Clemente. As duas únicas vezes que dormira com Clemente o chamara de Toninho e, em certa noite, que sonhava que discutia com Toninho Marcos o valor de um quadro, começou a falar palavras soltas como móbile, arte, vida, arames, Gauguin. Só quando voltou ao Brasil é que Yolanda percebeu não poderia mais viver com Clemente.


(Um homem é muito pouco. São Paulo: Ed. Nankin, 2000)

Um homem é muito pouco 15




Street Art

Meses depois, Toninho Marcos voltou dos Estados Unidos. Conseguira a galeria e marcou a exposição. Ele ficara com todos os encargos e gastos da montagem. Mas como eram os Estados Unidos, Toninho Marcos contratou firma que transportava, montava e divulgava a exposição. Os irmãos de Toninho Marcos não gostavam da profissão de artista dele, mas compareciam às vernissages e gostavam de sair nas colunas sociais onde apareciam em foto. Toninho Marcos voltou ainda mais americanizado, tinha morado em apartamento de um só cômodo e fizera ali também seu ateliê, o único inconveniente era dormir com o cheiro de tinta, comer com o cheiro de tinta, pensar em Yolanda com o cheiro de tinta. Toninho Marcos usava muitos termos em inglês, o cabelo vinha até o meio das costas, fumava, contudo, cigarros brasileiros e bebia vodca.

Tinha o cacoete de virar-se para trás como se alguém estivesse em suas costas. Da mesma maneira que Clemente tinha medo de Bremen, Toninho Marcos tinha medo de voltar à casa da dra. Nise da Silveira. Andava pela city como estivesse numa grande galeria. Olhava as paredes laterais dos buildings e pensava numa grande tela. O cheiro de descarga dos carros e outros cheiros urbanos, ele não os sentia, carregava no nariz o cheiro das tintas. E cada olhada mais demorada sua, ele pouco via movimento e sim cores, luzes e sombras e fixava o momento como se estivesse dentro de um quadro. Às vezes Toninho Marcos pensava a cidade do Rio como a Paris de Utrillo, mas quando ia levar à tela as impressões e visões da cidade saía algo abstrato e, agora, caminhava para o geométrico.

Como voltara a estar com Liechtenstein, Toninho Marcos sentia a influência dele e caminhava também para registrar as cenas urbanas numa espécie pop das revistas em quadrinhos, como já fizera outro pintor carioca, que Toninho Marcos conhecia socialmente, mas não gostava por ser pernóstico e, assim pensava Toninho Marcos, vê-lo, a ele, Toninho Marcos, como naïf ou louco que pintava como terapia.



(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010.)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Metamorfose, Fernando Paixão



No meio da praça, no centro desta cidade sem litoral, cria-se o mar. Corre o pensamento caudaloso, a saliva plena. Rodeado por janelas coloniais: estou argonauta.
A água dos beirais ondula nos vidros. Rápido ficam nítidas as ondas sobre o pedregal das ruas. Repousam próximos os navios das montanhas. E os pássaros lanceiam sobre a face líquida.
Torção espumosa no ar: as águas correm, voltam, cortam as esquinas. Mesmo as pontas das casas se armam com o movimento das barbatanas. Movem-se cardumes no telhado.



(do livro Palavra e Rosto, de Fernando Paixão, São Paulo, Ateliê Editorial, 2010)

Um homem é muito pouco, por Lourival Serejo

O ROMANCE DE RONALDO
Jornal "O Estado do Maranhão"




Acabei de ler o último romance de Ronaldo Costa Fernandes, com este título instigante: “Um homem é muito pouco” (São Paulo: Nankin, 2010). Antes, já havia lido “O viúvo” (Brasília: LGE, 2005), um romance muito elogiado pela crítica, mas cuja leitura não me causou o impacto desta obra ora comentada. Aliás, elogios o autor já vem recebendo há muito tempo, inclusive de forma objetiva, ao vencer vários concursos literários, como foi o caso do almejado prêmio “Casa de las Américas”, pelo romance “O morto solidário”, que ainda não li.
O desafio da leitura de “Um homem é muito pouco” começa pelo número de páginas: 487. Para a pressa em que vivemos, é um número considerado elevado. Só o prestígio do autor pode tornar esse detalhe irrelevante, como é o caso de Ronaldo. À minha frente estou com o propósito de ler o “2666”, de Roberto Bolaño, com 852 páginas. Por enquanto estou marcando corrida.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes compõe-se de quatro partes, com uma sucessão de histórias distintas que se interligam em alguns pontos. Aliás, esse entrelaçamento de destinos é a tônica notável do romance. Adianto que a terceira parte arrebatou com mais intensidade minha preferência.
O leitor deve saber que vai encontrar um romance moderno e maduro, que não segue o clássico encadeamento de começo, meio e fim, com os personagens permanentes que desembocam num final esperado no círculo de suas expectativas.
Milan Kundera, em seu livro “A arte do romance”, lembra que o romance não examina a realidade, mas a existência, como um campo das possibilidades humanas. A meu ver é este o catálogo que Ronaldo oferece ao tratar da história dos personagens que desfilam no romance. São as possibilidades que surgem em razão das ações do homem, das relações familiares conflituosas, dos anseios e sonhos recalcados, dos condicionamentos e, até mesmo, do absurdo do cotidiano.
Trata-se de um romance escrito por um professor de literatura, pleno de todas as técnicas da escrita, fatores que poderiam retirar a leveza do estilo e provocar uma reação negativa no leitor. Mas nada disso ocorre, pois o estilo é leve e me fez lembrar alguma coisa como mastigação. O autor fica remoendo o fato, indo e vindo, repetindo, fixando, o que torna agradável a leitura e faz o leitor viver a realidade que a ficção pretende criar. São frequentes passagens como esta: “Nunca vi Alice tão solar, nítida e límpida. Eu via Alice através de um olho só. Era o olho que com lente de aumento se avalia a joia. Que joia era Alice? Alice não era joia alguma, pois joia é um fetiche da mercadoria como ela mesma disse. Alice era submarina. Gosta das mulheres submarinas. Nossa conversa era toda debaixo d´água. Eu abria a boca e da boca não saía nem um som. Ela abria a boca e da boca de Alice não saía nenhum som. Nós só precisávamos das borbulhas para nos entender.”
Apesar de Ronaldo ser maranhense de São Luís e morar em Brasília, as histórias que tecem o romance se passam no Rio de Janeiro, cidade que, pelas descrições minuciosas dos lugares, deve fazer parte, também, da vida do autor como fazia parte da vida do narrador da segunda parte do romance: “Não posso fugir do Rio de Janeiro porque o Rio de Janeiro está em mim como fígado ou rim. Não posso viver sem o fígado, não posso viver sem o rim”.
Como já disse anteriormente “Um homem é muito pouco” revela a maturidade de um escritor que não faz romance pela primeira vez, que já teve testada e aprovada sua competência como romancista.
Quanto ao título do livro, se o leitor não encontrar a resposta após o término das suas 487 páginas, só perguntando ao autor que detém a chave dessa inspiração. Umberto Eco, ao explicar as origens do processo de criação de “O nome da Rosa” disse que um título deve confundir ideias, nunca discipliná-las.
Com certeza posso dizer que tantas páginas ainda me deixaram a sensação de que foram muito poucas para o que ainda se desejava saber sobre certos personagens.

imagem retirada da internet: magritte

domingo, 8 de outubro de 2017

Cosmos, de Gombrowicz









O universo do absurdo ou o absurdo do universo










Ronaldo Costa Fernandes

Cosmos não é um romance convencional. O leitor comum não deve esperar uma história linear com personagens lógicos e atuando diante de um conflito pertinente. A atmosfera de Cosmos (Companhia das Letras, 2007) é a do nonsense, do desconcerto e da hilaridade nervosa. Considerado um dos grandes mestres do século XX, Gombrowicz (1904-1969), em 1939, exilou-se na Argentina, fugindo de sua Polônia natal e do nazismo. Passou 24 anos em Buenos Aires e ali, empregado miseravelmente num banco polonês, conviveu com os escritores argentinos, embora fugindo do grupo de Borges de quem nunca gostou e que pontificava no país portenho.
Ao partir da Polônia, Gombrowicz já publicara, em 1937, seu primeiro romance, chamado Ferdyduke (uma palavra que não significa nada). Ou seja, o ambiente literário de Buenos Aires não o influenciou, pois o autor já tinha um estilo formado mesmo com a pouca idade. Se influência houve foi sobre os argentinos (Ricardo Piglia mesmo declara que um dos seus romances deve muito a Gombrowicz).
Retornando à Europa, fixa-se em Paris e publica, em 1965, Cosmos, que ganha o Prix International de Littérature e o reconhecimento do mundo literário. Sua literatura tem muito de Ionesco e de Beckett, desde o deboche com que trata o tema narrado, mas também a escritura “desencontrada” e que se fixa em pormenores que outros autores desprezariam: o pardal morto, a boca de sapo de uma personagem, uma seta, as conversas triviais sem aparente significado para a trama. Cosmos é um livro para quem gosta de literatura e não um passatempo de leitura. O universo de frases entrecortadas, as longas sentenças com pontuação pouco ortodoxa, a reiterativa descrição de mãos que podem se tocar com luxúria, de bocas de mulheres que ele acredita licenciosas, a obsessão de descobrir e dar nexo a fatos ordinários fazem do livro um conjunto de situações comuns que o autor apresenta de forma exagerada.
Os personagens de Cosmos agem sob a égide da farsa, do burlesco e do riso. Gombrowicz parece não levar a sério a literatura dita “séria”. Ele mesmo se chamou de palhaço, numa entrevista. E o mistério que norteia a narrativa e a tentativa de descobrir quem matou o pardal, o gato e, por fim, um homem, durante um passeio campestre que toma quase metade do livro, apresentam-se em tom de parodia e de escárnio ao romance policial. Gombrowicz também se dá ao luxo de brincar com determinadas palavras como a palavra “berg”. Os personagens bergam, outro quer bergar, outro gosta de berg berg. Não está longe das experiências formais e anarquistas dos vanguardistas europeus do início do século XX.
O romance começa quando o narrador e Fuks chegam a uma pensão. Há apenas dois espaços: o da pensão (fechado) e o da montanha (aberto). Durante o romance inteiro, o narrador busca entender a razão de enforcarem um pardal, um gato (que ele assume a autoria) e um homem. Ainda que alguns críticos queiram ver uma “cosmogonia” e um alto valor filosófico em Cosmos, a narrativa não tem essa pretensão nem mesmo esse tom. Cosmos está mais aparentado ao dadaísmo e se há uma intenção filosófica esta é o velho desconcerto do mundo e a vacuidade das ações humanas.
Há também em Gombrowicz certa afasia, ou, como lembra Piglia: “Gombrowicz trabalha sobre a afasia como condição de estilo. O afásico é uma criança crônica”. Esta afirmação de Piglia retrata bem certa perplexidade do narrador perante fatos absolutamente desprezíveis e observações propositalmente infantilizadas. Este talvez seja o grande charme da literatura de Gombrowicz que também já trabalhara com um personagem em Ferdyduke que, aos trinta anos, retorna à escola.
Aqui estamos diante de um fenômeno que existia entre os escritores de vanguarda do século XX. De forma acintosa, desprezavam o mercado. Mais tarde, incensados pela crítica, alcançavam vendagem comercial. Gombrowicz pagou muito caro por sua atitude diante da vida e da literatura. Viveu numa Buenos Aires de marinheiros, prostitutas e vagabundos e optou pela difícil arte de apresentar uma narrativa renovada e não o requentado romance do século XIX que ainda persiste em escritores de todas as latitudes.

sábado, 7 de outubro de 2017

Leveza do escuro

gaveta
O sol mancha as árvores
com suas sombras longas.
A natureza se espreguiça
com seus braços de galhos.
Nada é fixo e tudo muda.

Queria ser ligeiro
como um dia após o outro,
mas consigo apenas
andar ao longo dos meses,
que são paquidermes do tempo,
embora, ao fim e ao cabo,
percebo a metamorfose:
foi apenas uma andorinha
e seu verão que rápido alçaram voo.
E então sinto que passo feito sombra:
intermitente, incorpóreo e obscuro.





(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O viúvo, 4º capítulo

           


         Caminho na multidão. Mas, falando sozinho assim, passo a ser um sujeito esquisito, do qual as pessoas se afastam, não pelo medo físico de ser agredidas, mas porque os esquisitos podem dizer obscenidades, despropósitos, inconveniências ou a verdade, o que vem tudo a dar no mesmo. Se as pessoas são como eu, elas terão sua pequena dose de loucura escondida, fechada, como se leva dinheiro avulso e não se quer perder e então aperta o velcro ou fecha com zíper o bolso do calção. A pequena loucura, mesmo que seja pequena, não se expõe socialmente, vive aprisionada, principalmente em forma de desejo ou pensamento proibido que surge repentino sem que se puxe por ele. Um desejo molesta a gente, chega em hora imprópria. Pode nos surpreender numa fila de banco ou dos Correios, numa loja de perfume, numa praça de alimentação ou ao ser apresentado à filha de um amigo, o desejo, ora o desejo.
            Não quero também ser descarnado, que me retirem tudo o que tenho de libido e passe a ser um sujeito anódino, máquina que anda por aí, alguém a quem cortaram os colhões.
            Entro numa farmácia, mostro a lista de remédio.
– De que o senhor está rindo?
– De nada.
– Então por que me olha assim?
– Assim como, senhor?
Há outro rapaz atrás do balcão. Ao me ver alterado – por que estou alterado? – ele vem e se coloca fora do balcão. Entendo a atitude dele. Atrás do balcão, caso eu tenha alguma reação violenta, terá entre nós o próprio balcão que dificulta ataque, mas também atrapalha a defesa. De repente percebo que toda a farmácia está com a atenção em mim. É mais um louco, devem pensar. Manias. Mas o homem gordo, rosto redondo, que me olha sério e irônico – é certo que me olha irônico – não deveria rir de minha cara, da minha receita, do meu modo de vestir, o que está olhando? Não posso me engalfinhar com o rapaz que se aproxima como quem vai expulsar um mendigo da farmácia. Insensatez. Recuo.
– Onde está minha receita?
– Ele foi buscar o remédio.
– Não quero mais o remédio.
– Ó Jorge, o cliente não quer mais o remédio – grita o gordo para dentro da farmácia.
            Não sou mais um homem jovem. Se me atraco com o rapaz, por certo ele me trucida, quebra meus ossos. Além do mais, os empregados todos da farmácia se colocam de prontidão. Percebo que sou uma ameaça. Eu, quem diria, a ameaça. Não gosto de me sentir uma ameaça. Se alguém ameaço esse alguém sou eu mesmo. Aqui está, senhor, a sua receita. Coloco a receita no bolso. Me dirijo para o shopping do outro lado da rua. Percorro as vitrines. Nada me interessa. As luzes dos jogos eletrônicos me atraem. Outra vez me pego pensando nas máquinas. São todos jovens os que estão ali.
Duas moças despertam em mim o que pensava adormecido. Não gosto de misturar outra vez máquina com desejo.
São todos fascinados pela tecnologia. A tecnologia não passa de meio mecânico de existência, por que as pessoas se fascinam tanto com a tecnologia? A máquina me leva a ser máquina, estende meu nariz, alonga meus braços, binocula meus olhos, coloca meu ouvido do outro lado do mundo, meu ser – meu ser físico – é um gigante de dimensões inimagináveis, loucura de um cérebro que não ousa pensar-se tão grande. Por trás dela está apenas o vácuo, logo o brinquedo da tecnologia é o desvio de mente enferma que se deixa dominar. Eu não quero que máquina nenhuma venha a me dizer como se comportar ou existir. O sujeito que acredita usar a máquina está enganado porque ela traz em si a contradição de sua existência. Miséria. Enquanto penso que uso a máquina, ela me transforma nela mesma e nessa metamorfose quem perde a humanidade sou eu, porque a máquina não perde sua essência de máquina, sua maquinidade.
– Quanto custa?
            – O quê, meu senhor?
– Quanto custa jogar naquela máquina?
– É uma máquina nova.
– Desculpe, perguntei quanto custa, não se a máquina é nova.
Ele me vendeu uma ficha. Coloquei-a na máquina. O bicho disparou. Perdi todos os jogos. Aborreci-me. Fui tomado por um ódio visceral, eu que costumo ser pacífico. Chutei a máquina. Puxei os fios. O segurança se aproximou.
– Emergência, setor 3 – disse no rádio. E repetiu: Emergência, setor 3.
E, virando para mim:
– O senhor pode me acompanhar?
– Já estou indo embora.
– O senhor danificou a máquina, meu senhor.
– Que máquina?
Não sei que aparência tinha. Que aparência eu tinha, diga, que aparência? Dois homens fortes, vestidos de roupa preta, me levaram para uma sala.
– O coroa é maluco – disse um deles.
– Com maluco a gente tem uma maquininha que os malucos gostam de brincar.
E tirou da gaveta a porra de uma máquina de dar choque.
– Tudo quanto é louco gosta de choque.
– O senhor gosta de estragar máquina, né? Esta aqui estraga maluco.
E me deu choques que me fizeram rolar pelo chão de dor. Desgraça. Depois a sala ficou vazia. Me recuperei. Mas já não era o mesmo. Andava entorpecido, a vista turva, o coração disparado. Andei ainda pelo shopping como autômato, mais tarde peguei um táxi.
Não sou mais eu, sou vários e não sou ninguém, um ninguém cibernético, um ninguém eletrônico e entediado. Tenho também várias cabeças, a que pensa que pensa, a que mandam pensar o que a máquina pensa, o que pensa os outros, o que pensa o que pensa, o que pensa que pensa independente do que pensam as pessoas que pensam pelos que não pensam.
Nenhuma máquina poderá viver por mim. Nenhuma, veja, nenhuma. Só me fascina o velho e destoante: o corpo. O corpo humano, mesmo aquele plastificado e vítreo, que já me horrorizava no colégio: um homem com as vísceras à vista: o corpo de plástico transparente onde se viam lá dentro o fígado azul, o pâncreas verde, o intestino marrom, o coração cor de rubi, as veias azuladas e os músculos beges.