sábado, 5 de agosto de 2017

A peripécia, conto de Ronaldo Costa Fernandes


Vamos, imagine, um padre de batina na fila de uma boate de striptease. Uma geladeira no meio da sala. Um fogão no banheiro. Vamos, imagine. A imaginação tem dois defeitos. A imaginação tem vários defeitos. Mas dois me incomodam, só dois. A imaginação, ora. Incendeia quando deve esfriar e não se conforma com um círculo na casa dos quadrados.
Era como me sentia ao dizer que era professor de grego. Grego. É muito difícil sobreviver hoje em dia com uma língua que não está nos currículos escolares. Só o alfabeto, alfa, gama, sigma, só o alfabeto já reprovaria metade da turma. Falam tanto em mundo virtual e essas coisas e tal. O barato hoje é ser virtual. O grego é virtual. Uma língua que não existe mais é virtual. Existe apenas nos livros e na mente das pessoas. Nada mais virtual que o grego.
Os colégios expulsaram o grego como quem afasta mau-olhado. Nas reuniões, festinhas, mesas de bar, quando você fala que é professor de grego, as pessoas o olham como se tivesse revelando uma tara. Minha tendência é beber mais um copo de cerveja, olhar o relógio, desculpar-me. Ora, desculpem, mas estou atrasado. E nunca mais voltar a ver quem me acha esquisito. Atrasado, desculpem. O relógio. Não vou conviver com quem me acha esquisito.
Tenho parte de culpa por não ter virado professor universitário. É, universitário. Mas minha experiência com a academia foi desastrosa. O erro é meu. O erro não é do grego. O grego não tem erro. O grego é uma língua e uma língua não é errada por existir. Ou por ter existido. Morrer é um equívoco. Mas acontece que não consigo conviver com intriga, vaidade, gente medíocre e, principalmente, com alunos desinteressados que perguntam a todo o momento a serventia do grego no mundo moderno. Oh, Deus, pra que serve o grego no mundo moderno? Sem resposta – é, sem resposta.
Passei a dar aula particular. Sou baixo, ando de terno sem gravata – um terno surrado que me faz suar, afasta as mulheres, dá asco nos homens. O terno. Ou o paletó. O paletó me torna mais civil. E me protege. Eu, que tenho bunda larga e gorda. O paletó me cobre a bunda larga e gorda. Há algo de couraça no algodão. Se ando de manga de camisa, tanto que estou desacostumado, que me sinto nu. É muito inconveniente você andar nu pelas ruas. Nu na casa dos outros. Entrar nu em fila de banco. Sei que cheiro mal. Mas gosto de mim desta maneira. Não, não, não falo do odor. Falo da maneira sem compromisso com a vida social. O paletó me cobre a bunda larga e gorda, cobre.
Gosto de pensar em mim como um ser em extinção. Um mico leão dourado, olhos pequenos espantados, gestos rápidos e ladinos.
– Você é um cara antigo – dizia um aluno. – Um cara que devia ter vivido antes de Cristo.
Quando nasci? 50 a.C. Antes de Cristo era uma hipótese de Deus sem carne. Eh, bem.
O sujeito tem que revolver a memória. Revolvendo minha memória, talvez eu já tenha nascido antigo. Morei em orfanato. Morar em orfanato é ser inquilino do diabo. O endereço, inferno. Lá, a gente aprende duas artes: a de sobreviver e a de viver desterrado.
Fui o que sou hoje: criança triste e desconfiada. Nunca mudei. Por isso digo que já nasci velho. Criança não é projeto de adulto. Não é miniatura de gente. Criança é espécie de raça. A raça negra, amarela, branca caucasiana e, por fim, a criança. Um dia já fui da raça das crianças. Magrelo, feio, cheio de feridas, lendo pelos cantos O Cruzeiro, revista de contos policiais, nunca gostei de gibi. Quando deixei a raça criança, fui ser de outra raça mais mofina ainda. Mas aí, ora aí, aí eu já sabia outras línguas, tinha outro corpo, outras mãos, os pés me levavam aonde queria. Cresceu meu membro que, depois descobri, ao morar com uma viúva velha de um parente afastado, me transformou em homem.
Sempre sobrevivi aos trancos e barrancos. Morei numa quitinete no Méier, cercado de livros, em sua maioria, é claro, em grego. Uma pequena fortuna. Houve mês que deixei de comer para comprar livro. Hoje não faço mais estas extravagâncias. Um mês comendo miojo, um mês.
Vivi assim até o dia em que um incêndio tirou meu ganha-pão. Todo incêndio faz desgraceira danada. Queima documento, queima móvel, queima coisas queridas, queima coisa cara. Nunca vi incêndio doméstico que não roubasse a paz de um cristão. No meu caso, tenho o nervo como a coisa mais inflamável dentro de mim. Este incêndio queimou principalmente meus nervos.
O incêndio levou os livros e meus dois alunos. Não, não, claro que o incêndio não matou os dois alunos, os frades capuchos que tinha, não, o incêndio queimou minha vontade de ensinar.
Fui então trabalhar como balconista – longe dos livros, longe de qualquer coisa que me lembrasse os livros. Era loja de bricabraque, numa rua sem saída, do centro da cidade, cercada por lojas de carcamanos que vendiam roupas baratas, utensílios de cozinha, cutelaria, chapelaria, todas ordinárias, as mercadorias cheias de pó, antiquadas como seus donos septuagenários, um gueto de libaneses com barba por fazer, cabelo ralo em pé, curvados, vidros embaçados das vitrines e as moscas visitando as lojas como nos velórios.
Jantava às vezes no botequim que misturava ovos coloridos com esfirras. Andava calado e, quando falava, falava grego com os clientes. Nem grego era. Digo que falava grego porque dizia coisas sem nexo, resmungava, falava sozinho, discorria sobre as peças de Sófocles e o teatro grego pro rapazinho da lanchonete que, para outro cliente, girava o dedo à altura da orelha. O riso dos outros é uma comédia e a comédia, vocês sabem, Aristóteles não tinha em boa conta a comédia. Que riam, os cretinos.
Fui mandado embora. Já não tenho mais nada o que vender para sobreviver. Depois do incêndio sobrou pouca coisa: minha língua inútil, meu cansaço dos anos. Um homem deve orgulhar-se de sua diferença, língua estranha ou estrangeira – o que dá no mesmo – e sua enorme capacidade de ocupar um espaço na natureza. Por isso, renego a cremação. A cremação é um ato indigno, recolhe da natureza algo que ainda existe. Os ossos ainda são parte da natureza, embora sua existência seja tão sensível como uma pedra.
Procurei os padres capuchos. Um estava no Rio Grande do Sul, outro voltara para a Itália. O certo é que estavam doentes, tomados por doença rara, falavam grego, sim, falavam grego, para espanto dos seus pares e do superior. Não creio que tenham enlouquecido. Queriam um mundo helênico para suas vidas, apenas. Que mal há de querer a convivência com Aristóteles, Sócrates e Ésquilo?
De qualquer maneira não poderia mais ter um trabalho ordinário. Estava ficando cego. Fui ao médico. De nada adiantou. Como iria ganhar a vida? O destino, que tem buraco no muro de beco sem saída, outra vez me pôs em caminho sinuoso.
Chego ao fim da minha peripécia, se posso chamar de peripécia. Fui até o subúrbio, busquei o número anotado no verso do cupom de loteria. A moça me abriu a porta, perguntei se era ali que tinham posto anúncio pedindo professor de grego. Ela me levou até o quarto escuro, onde jazia o homem. Seu último desejo: aprender grego e depois morrer. Foi o velho mesmo que propôs que eu fosse morar com eles. O senhor tem onde morar? Não? Aceite o meu convite, disse o velho. Mudei-me para a casa do subúrbio.
A menina gostava de hip hop, reggae baile funk fumaça crack a pedra andava de moto estudava no noturno do supletivo, Quer saber, dizia, não estou nem aí. Acabou acordando num hospital público emergência o tênis sujo de sangue, a calça de cós baixo tinha virado bermuda e a escuridão tomava os olhos e tudo por causa do tiroteio e de uma bala encontrada (não perdida) uma bala alojada no cérebro que não afetou nada além do nervo ótico.
Os objetos são negros, a experiência é negra e, logo, o mundo é negro. Ensinei-lhe o elementar do grego. Os pássaros riscavam o cinza dos dias chuvosos que têm tom grave.
Um homem deve ser senhor do seu último desejo. Um professor de grego como eu só tem um único desejo: a mocinha cega. Tenho que aprender a viver com poucos recursos e meus últimos desejos. Por que, tardiamente, os testículos vêm me atormentar como se o pesadelo não estivesse na cabeça, mas entre as pernas?
Com o tempo, o velho morreu. O enterro foi uma tristeza. Só havia a neta, mais dois parentes (um dos quais bêbado), e eu. Cega, a mocinha pediu que eu ficasse na casa, ajudasse no supermercado. Aos poucos os objetos vão perdendo contorno, mesmo onde há luz existe penumbra. Não me importa ficar cego. O silêncio é escuro. O silêncio. O grego já não me serve para ver nada. Olho difusamente a mocinha trocar de roupa. Aquilo me enoja. Sinto-me covarde e canalha. Logo a escuridão vai ser minha nova língua. Sem ver a mocinha, perco os testículos e ganho a escuridão. A escuridão é silenciosa. A solidão é língua morta.


(do livro de contos Manual de Tortura, Ed. Esquina da Palavra, 2007)



imagem retirada da internet: lucian freud

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O tempo, poema RCF




O tempo e sua matéria
a máquina dos meus humores
tão rica e mineral
enquanto lá fora
a sonata dos desatinos
orquestra o boi que se estende no varal.

O tempo e sua miséria,
deus negro que não encontra o sono.

O tempo e sua morfologia
feita de nada e de tudo
como alguém que anda
com os calcanhares para a frente.

O tempo e sua bílis negra,
atrabiliário e perverso,
monstro do Loch Ness,
ó profundeza feita de vazio.

O tempo e sua caixa de música
o lugar dos sons prisioneiros
que se escuta é o silêncio das horas
lambendo o ar rarefeito.

O tempo – animal que não envelhece,
nós é que passamos por ele
como alguém que acena de um ônibus
para a imobilidade saudosa
de um bar à beira da estrada.



(do livro Eterno passageiro, Varanda, 2004)






quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mojave, poema RCF





No deserto de Mojave,
há um cemitério de aviões.
Poeira vazio seco vento estéril
Vento dolorosamente seco do deserto.
Vento cassino
vento jogador
roleta de poeiras
vento máquina
que vem de Las Vegas.
Lá estão os aviões,
enfileirados em sua cova
cova de aço, cova de asas
apodrecendo
do verme da oxidação.
No deserto de Mojave,
os aviões têm sua lápide mais comercial:
a marca da empresa.

Em outros desertos,
não se poderia
expor o humano à oxidação,
os mortos não têm corpo de aço,
homens não podem fazer de seu corpo cova,
os vivos não suportariam
conviver com o horror
de ver os mortos como os aviões de Mojave
a lembrar-lhes a inconstância do minuto
e a perenidade do fim.
Os mortos devem ser enterrados
bem enterrados, bem cobertos
para esconder o horror insalubre.
Mortos devem ser enterrados
e, medo maior dos vivos,
para que não tragam
em sua carcaça como os aviões
no corpo sem asas
seu próprio logotipo: o esqueleto.




(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

JAZZ, Toni Morrison


A afinidade entre Faulkner e Toni Morrison do romance Jazz é por demais evidente. Em Faulkner a relação entre negro e branco do sul dos EUA percorre várias de suas obras. Jazz se afina com Absalão, Absalão, quando trata de sangue mestiço entre negro e branco, paternidade, filho rejeitado, ambiente sulista e sufocante de calor e de conflitos amorosos e doloridos dentro de um círculo bem restrito de personagens. Além do mais, Morrison gosta de situar a ação dos seus personagens num tempo histórico passado. No caso de Jazz, a ação transcorre nos anos 20 quando o casal Joe e Violet Trace migra para a cidade grande e se fascinam pela modernidade e anonimato dos grandes centros urbanos. Durante várias páginas do romance há referência à cidade grande e seus aspectos urbanísticos, sociológicos e psicológicos. Já é a grande cidade que traga os personagens vindos do interior agrário e atrasado, sem perspectiva de emprego e, no caso de Jazz, fugindo também do racismo. Morrison volta a se aproxima de Faulkner – ou usa de seus artifícios artesanais para construir sua narrativa – de vozes que constroem o painel romancesco.
Belo e trágico romance, Jazz se inicia pelo clímax. Joe, o marido de Violet, cinquentão, se enamora da jovem Dorcas e a mata ao ver-se abandonado por ela. Violet vai ao enterro e tenta retalhar o rosto da morta. O resto do romance mostra como vive e vivia o casal, as razões do ato de Violet e de Joe, tudo narrado, a princípio pela voz anônima de uma amiga da falecida Dorcas. Lembrei-me do romance de Paul Auster, Levitã, que se inicia com uma grande explosão, que poderia estar no final do romance. Da mesma maneira, a morte de Dorcas poderia vir precedida de um longo trajeto narrativo em que culminaria com o desfecho trágico. Ao começar pelo fim e desfazer o clímax, Morrison mostra habilidade ao narrar sua história e, mesmo que saibamos o fim, ficamos presos aos detalhes das vidas perdidas de um casal de negros provinciano sobrevivendo na cidade grande nos anos iniciais do jazz, música pecaminosa (ressalta a tia de Dorcas), cheia de luxúria e que leva ao pecado.

Ganhadora do primeiro prêmio Nobel para uma escritora negra, Toni Morrison tem em sua bibliografia o já filmado Beloved (Amada), recém-reeditado pela Companhia das Letras, numa bela edição em capa dura. E também de Compaixão, ambos romances históricos não no sentido de que se apropriam de fatos e personagens da História, mas é em séculos anteriores em que se passa o relato da vida simples e conflituosa dos seus personagens que não estão nas páginas dos livros escolares, mas constituem a grande massa que com sangue, suor e drama escrevem seus nomes no anonimato do espaço romanesco das paixões humanas.
Em Jazz, pode-se estabelecer um tipo de comportamento que diz respeito às relações ou intercursos entre personagens. Chamaríamos de círculos concêntricos aqueles romances que a partir de um dado ou uma ação se desenvolve toda a trama. É mais ou menos como se jogamos uma pedra n’água e os diversos círculos se ampliam, inclusive com espaços diversos. Em Jazz, a primeira ação desencadeadora (embora na verdade cronológica seja uma das últimas) é a morte da jovem Dorcas pelo amante cinquentão Joe. Também faz parte da narrativa um comportamento muito curioso que já foi utilizado antes na história da literatura e, no caso do Brasil, no século XIX, por Raul Pompeia no seu O Ateneu: o eu onisciente. Este paradoxo refere-se ao fato de o narrador em primeira pessoa falar sobre os outros personagens dominando a psicologia alheia e até mesmo narrando fatos em que não esteve presente. Lêdo Ivo e Silviano Santiago observaram e estudaram bem este tipo de narrador em O Ateneu. Aqui também em Jazz temos a amiga de Dorcas, Felice, que nos narra com a desenvoltura de um narrador onisciente.

Ronaldo Costa Fernandes

terça-feira, 1 de agosto de 2017

'O Viúvo', um acontecimento literário

                                                                                  

O Viúvo, de Ronaldo Costa Fernandes. Brasília: LGE Editora, 2005.


"Publicado, em 2005, por uma editora de fora do eixo São Paulo-Rio de Janeiro, é claro que este livro, uma das poucas obras-primas do romance brasileiro deste início de século XXI,
praticamente passou despercebido
do leitor-consumidor. Azar dele, pois, se se fiar nas listas dos mais
vendidos das revistas semanais que, como se sabe, só reconhecem
autores e livros publicados por grandes editoras, vai continuar
a ler muito lixo cultural."
(in: Pravda.ru, Tripov, Germina e o jornal
Primeiro de Janeiro, do Porto, Portugal)      
                                                            Adelto Gonçalves



Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um poeta
do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999),
Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999;
São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage - o
Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

 



segunda-feira, 31 de julho de 2017

Voragem, de Tanizaki


“Vim hoje à sua casa com a intenção de lhe contar todo o incidente, sensei, mas...noto que interrompi seu trabalho. Tem certeza de que não se importa? Narrada em detalhes, a história é longa e tomará um bocado do seu tempo... Eu podia até registrar os acontecimentos no papel em forma de romance e submetê-lo em seguida à sua apreciação, soubesse eu ao menos redigir melhor.”



Assim começa o romance Voragem, de Junichiro Tanizaki (1886-1965). Publicado em 1931, ambientado nos anos 20, no Japão, Tanizaki, um dos mestres maiores da literatura japonesa, se aventura em Voragem (Cia. das Letras) como autor de envergadura moderna, a ombrear-se com as temáticas do Ocidente, e ainda mantém o vínculo com a tradição que lhe deu, segundo muitos críticos, seu livro mais importante: A vida secreta do senhor de Musashi. A história de Voragem é contada por um dos personagens que se dirige a um sensei (pessoa com formação superior e que tem aura de orientador), do qual o leitor nada sabe, pois não aparece em cena e serve apenas para que a narração dos fatos aconteça. Um quarteto amoroso se instala, com aventuras homossexuais, tramas e desvios narrativos, surpresas e outros truques que o autor nos brinda. Tanizaki não utiliza técnicas narrativas sofisticadas como seus pares no Ocidente nos anos 30. As surpresas e os turnpoints ocorrem dentro da própria narrativa, linear e tradicional, sendo a trama mesmo que nos surpreende, emociona e nos desconcerta.

Voragem é um romance intimista, embora as ações exteriores das personagens sejam muito presentes. A análise da psicologia dos personagens é desconcertante, pois o que é afirmado logo a frente é desmentido e o leitor fica com a sensação de que, como sua última gelstalt do personagem, ela logo será desfeita ao apresentar um comportamento que o narrador desconhecia.

O narrador do livro, Sonoko, uma dama da classe média japonesa ascendente, casada com um advogado, apaixona-se por outra moça, solteira, de rara beleza. Tem-se a impressão de que a grande vítima de toda a trama é a própria Sonoko que, somente nas páginas finais, apresenta a versão com que findará o livro. Ao negar ao leitor a confissão completa e logo no início, o que desfaria a tensão com que o romance é mantido, a narradora costura toda a história com descrições das ações dos personagens e a análise desconcertante que ela julga ser a definitiva em relação ao quarteto amoroso.

Essa habilidade narrativa não é própria da literatura oriental. Voragem é um romance bem moderno e arrojado para sua época e deve mais às técnicas narrativas do ocidente do que ao paisagismo, tema amoroso, os samurais e outros personagens que ilustram o passado do país insular.

Por fim, uma última observação: o que predomina em Voragem é o espaço interior. Embora haja poucos momentos em que os personagens se aventuram por espaços exteriores como na a fuga de Sonoko pela praia, vestida com maiô à ocidental, a maioria predominante refere-se às ações dentro de casa, na escola de pintura, no hotel de encontros, no escritório de advocacia do marido. Já em A chave, Tanizaki se exercitara nos ambientes interiores e no tema obsessivo do adultério – visto de maneira suave, magoado, doloroso e silencioso. No caso de A chave, eu até tenderia a dizer que o grande espaço romanesco se restringe aos cadernos que servem de diário ao marido e à esposa que estimula o parceiro com a sua traição. (RCF)

imagem retirada da internet

domingo, 30 de julho de 2017

O lugar onde não estou, poema RCF









Longo como vigiar as horas.
O caminho com sua
barba comprida de capim.
Muitas vezes meu corpo
não me é contemporâneo.
A que horas acordam
as plantas?
As plantas dormem
em pé como cavalos.
Tenho apenas
o artesanato dos dias.
E, convenhamos, é muito pouco.
Prefiro as belezas subterrâneas
que estão na arqueologia da pele.
A despensa cheia de fome enlatada.
Meu estoque de fugas está no fim.


(do livro O difícil exercício das cinzas.  Rio, 7Letras, 2014)