sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Poema sobre pás, poema RCF




As pás do ventilador nunca se alcançam:
eternamente perseguindo a pá que segue
e fugindo da pá que lhe persegue.
Estou no mundo entre duas pás:
a pá de espírito que não alcanço
e fugindo da pá de cal
que me quer dar descanso.




(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)


imagem retirada da internet: miró

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Ato do fim, poema RCF


Arte | Antonio Lee
Antonio Lee





Gosto dos parques sem diversão.
As cortinas das minhas pálpebras
cerram a última peça  do quebra-cabeça.
Domingo é uma palavra preguiçosa.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

O beco do corpo, poema RCF




A febre faz mormaço no meu corpo.
As juntas discordam
o bípede que hospedo.
Mínima queda de braço
derruba o dedo levantado da presença.
O que é víscera
se comporta à flor da pele onde nada medra.
Este calafrio responde ao calor
que insiste em tremer
o que se paralisou.
Nenhuma aspirina cura meu quebra-cabeça.


(do livro A máquina das mãos, 7Letras, 2009)



imagem retirada da internet: julianery

terça-feira, 22 de agosto de 2017

O incêndio, conto RCF


Resultado de imagem para mabel frances

 As crianças nasceram grandes. Ficam na sala, olhares fixos, braços pendidos. As crianças falam dentro da minha cabeça. Às vezes ouço elas mesmo no trabalho.

Não podia ter um trabalho mais ordinário. Fui gari, com emprego garantido por concurso, mas fui expulso por roubo. Não, não fui eu quem roubou. Sumiram do depósito algumas peças, principalmente vassouras. Havia um desgraçado qualquer que roubava vassouras para revender. Não sei como me envolveram no caso, de repente estava no olho da rua.

Agora estou nessa firma de limpeza. Me mandaram para cá. Não reclamo, pobre não pode reclamar, se tivessem mandado pro inferno, ia deixar o inferno limpinho. Aqui não é o inferno, mas bem que tem ligação com ele. Meu trabalho aqui é limpar o necrotério. A parte de cima, que tem escritório e recepção, é moleza. O duro mesmo é limpar as salas de autópsia. Varrer do chão o resto dos cadáveres. É ver os bichos lá estendidos. Recolher os sacos de lixo com bando de fígado, vesícula, pedaço de coração, linha pra costurar defunto, o diabo a quatro num lixo que vai ser queimado. A gente usa luva. Mas mesmo usando luva a impressão que tenho é que toco naquelas partes mortas e que aquelas partes mortas me infeccionam. Tem gente que morre de tiro, mas tem morto que está ali porque desconfiam de doença contagiosa. Um dos médicos já morreu porque tocou no cadáver sem luva, adoeceu, quando a gente deu conta quem estava na mesa era o médico que não fazia uma semana estava em pé, diante de outro cadáver, na mesma mesa em que agora estava estendido.

A gente já se acostumou a ver defunto. A gente se acostuma com tudo. Moro na periferia, num bairro que não pode ser chamado de bairro, é uma invasão. Tem um bando de malandro por lá. Eu quase virava malandro. A vida te leva a ser bandido. Não tenho raiva de bandido, eu até que entendo eles. Pois bem, agora não há mais surpresa e medo. Mas a primeira vez que vi um bandido lá da invasão em cima da mesa do necrotério, meu coração disparou. Era como se eu estivesse ali. A gente mora vizinho ao crime. O crime está na nossa porta. Às vezes até dentro de casa. Se você pegar as famílias da invasão você vai ver que em cada família você encontra um bandido. Aqui em casa não há bandido, mas podia haver.

Deus meu, nunca mais me esquecerei da cena. O Magro deitado lá na mesa, o rosto estraçalhado, não precisa nem de autópsia nem ser médico para dizer a causa mortis do malandro. Com o tempo, a gente aprende umas palavras com os médicos e com os assistentes. Eu não gosto de falar palavras que aprendo no necrotério lá onde moro, porque não quero parecer pernóstico. O pessoal fala presunto, nós falamos o falecido, o melhor é quando algum advogado fala o de cujo, aí é de doer. Os evangélicos também dizem o falecido. Os evangélicos são mais espertos porque lêem a Bíblia. Eu não acho fácil ler a Bíblia, porque tem um monte de palavras difíceis. Acho até mesmo que muito evangélico lá da invasão fala as palavras, mas não sabe o que significam. Pobre mora em outro país, com outras leis, outro povo, outra língua. O diabo é a gente trabalhar de dia no país dos outros e de noite ir dormir no país da gente.

Não tenho memória do meu tato. Só percebo que tenho mãos quando elas seguram o cabo da vassoura, agarram o pano úmido e cáustico. Meu suor é cáustico. Os cadáveres não só cheiram à morte, também exalam outros vapores – soda cáustica, raticida, álcool, cloro.

Por isso eu grito: Sai daí, Maria. Sai daí. Ela não me ouve. Uma mulher inerte, gigantesca, peitos imensos. Nada em Maria é resto. Seca, dura, olhar de pedra. Não me acaricia. A carícia tem um nome desajeitado. O modo de ser de Maria é de silêncio das coisas mecânicas. Uma vitrola quebrada, um rádio sem pilha. Agora o fogo deve ter outras manias, embora a única função dele seja desinventar. O fogo também é memória que se apaga. O fogo tem mania de negar o mundo. O fogo não é morte, o sol é um fogo, logo, se pode inventar o dia, o fogo não pode ser a noite dos homens. E ninguém dentro da casa ruge, ninguém dentro da casa geme. Só gemem a madeira, os vidros – o olho vidro de Maria podia gemer –, os vidros se quebram, só o fogo reclama com ruído, raiva, dor e chiado de quem morde o ar.

Tudo pega fogo, o inferno é brutal. O inferno não tem nome. Meu medo é de que eu pegue fogo por dentro. Aí minha memória vira cinza e permanecerei eternamente com o cheiro de fumaça. Há muito que tudo era cinza. Posso fazer outra Maria e outras duas crianças. O pior fogo queima sem se ver e não há água que apague. As chamas estão no chão do necrotério, as chamas estão nos ônibus, meus olhos estão cansados – incendiados – de pânico e perversão.

Maria agora é apenas um resto. Ou menos que um resto. As crianças não sentiram nada. As crianças nunca sentiram nada. Dois bonecos de pano não sentem nada, além de uma existência de algodão, mudez e imobilidade. Não pense que há morbidez na companhia de bonecos. Fiz eles para me dar companhia. Um homem precisa de família.


(Manual de Tortura, 2014)

domingo, 20 de agosto de 2017

O abutre albino, poema RCF





A noite dorme só com um olho aberto.
Na caserna do pasto
se perfilam as árvores-soldados
vestidas de verde oliva.


No campo, nada adormece
além dos homens e das pedras.
O sono reparador das pedras:
inexato e fluido.
O sol, ao se pôr, recolhe as tralhas
– panelas velhas de alumínio do corpo,
restos do couro da frustração,
a bolandeira gasta da fome –
e se acocora atrás da mata
à espera de outro dia
quando sai a lume
e espreguiça seus dedos rosa que Homero pintou na Odisséia.

O sol campesino é marcial,
marcha nos trilhos do céu,
um vagão só fornalha.
Ao se pôr, o sol não se deita
nem puxa o cobertor de veludo negro.
Fica ali mesmo, sem sono.
Por isso o sol é triste e bufa no espetáculo de fogo
e queima com dó no peito.
Barítono da epopéia dos nadas,
tenor do deserto,
soprano dos sentimentos escusos.
O sol é o avesso
com seu monóculo cego.
Linear e bacharel,
doutor em cruzes,
magistrado das plantas,
falastrão no tribunal das urzes.
No céu despido, voam as aves negras de rapina
sob a vigilância do abutre albino:
o sol, imóvel, sobrevoa a presa,
maligno e único com suas garras de hidrogênio.

(do livro Terratreme, Prêmio da Fundação Cultural de Brasília)

imagem retirada da internet