sábado, 2 de setembro de 2017

O vento marítimo dos edifícios, poema RCF


Ilustração | Jorge Roa






De meus cabelos sopram os ventos mais agudos,
as  cordilheiras mansas e as planícies do homem.
De tal sorte, estou com os ossos oxidados
que, ao sair de casa,
não posso suportar o vento marítimo dos edifícios.


Ando pela rua torta,
o corpo cheio de musgos
e as pernas cobertas de sacrifícios.
De tal monta é meu teorema
que me penitencio na igreja de prata
que pende do meu pescoço.


Os porteiros escoltam as cargas e descargas
de gente miúda que alisa as calçadas
ou toma corpo na fauna dos carros
ou floresce na estufa dos homens nos ônibus.


Mundo desfeito de inutilidades,
cozido na salsa do mormaço, a cuspir prédios,
descaso e a puerícia dos cadáveres.

Roço a existência.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)


imagem: Jorge roa

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Entrevista Memória dos Porcos







ENTREVISTA AO JORNAL O ESTADO DO MARANHÃO





P: O que influiu ou modificou em sua vida a permanência tanto tempo fora do Brasil dirigindo o Centro de Estudos Brasileiros em Caracas, na Venezuela?
R: Há uma coisa curiosa, para mim, na minha estada em Caracas. Primeiro, o fato de passar nove anos na minha vida. Ora, durante nove anos, estando no Brasil ou fora dele, você se modifica, vive novas experiências. Outro dado é o contato com a língua. Muito próxima do português me abriu um universo de autores e de imaginário que desconhecemos aqui. Tentei entender o comportamento mental de um povo que idolatra a terra-mãe, a Espanha, ao contrário de nós em relação à Portugal, tem outra música e outra História. Se, ao mesmo tempo em que me ensinou muitas coisas, também me fez entender melhor o Brasil. Mas confesso que houve um momento, principalmente nos últimos anos que embotei, não conseguia mais escrever, misturava as duas línguas, escrevia não propriamente num portunhol, mas numa língua portuguesa que tinha a sintaxe espanhola.
P: Você chegou a participar da vida cultural venezuelana?
R: Dava aulas na principal universidade do país, a Universidad Central de Venezuela, a USP de lá. Publiquei uma novelinha em espanhol pela Monte Ávila Editores, escrevia artigos para jornais e revistas, mas sabia que aquilo era provisório, passageiro (não é à toa que o título de um dos meus livros de poesia se chame Eterno passageiro). Poderia ter sido esquecido lá, mas sabia que nunca seria um autor de língua espanhola porque não era um Nabokov ou um Conrad que, um sendo russo e outro polonês, estão hoje como grandes autores da literatura de língua inglesa. Por isso voltei.
P: Você publica poesia relativamente tarde. Antes você era visto como prosador, autor de livros como João Rama, prêmio APCA de Revelação de Autor, e de O morto solidário, com o qual você ganha o Prêmio Casa de las Américas. O que o fez publicar poesia?
R: Meu primeiro livro de poesia foi Estrangeiro, de 1997. De lá para cá são seis livros publicados. Não vamos confundir publicação com produção. Sempre escrevi poesia. Creio que tenho mais livros de poesia do que de ficção. Só que pensava que ainda não estava maduro para publicar poesia. Esperei o tempo exato, penso eu, da maturação. A prosa requer fabulação e a poesia me exige mais ritmo, musicalidade e construção metafórica. Não ia passar a vida inteira sufocando o poeta.
P: O que prêmio da Academia Brasileira de Letras para o livro A máquina das mãos representou para você?
R: Quando se ganha um prêmio, corre-se para saber o júri. E o júri era um júri que eu respeitava. Além do prêmio em dinheiro – sempre bem vindo –, havia o reconhecimento de um trabalho. O poeta vive de migalhas, de uma distribuição quase artesanal, e quando recebe um reconhecimento sente que o trabalho não foi em vão. Contudo, acredito que os prêmios vêm e vão, o que fica com o tempo é a qualidade da poesia. Ao longo da história da literatura, muitos autores que não foram premiados sobrepujaram os premiados. Que prêmio ganhou Sousândrade?
P: De que fala Memória dos Porcos e o porquê deste título?
R: Geralmente as pessoas fazem essa pergunta (sobre o tema) quando se trata de prosa ficcional. Mas não fujo da pergunta e creio mesmo que valha a pena. Os livros de poesia têm a especificidade de tratar do humano, da condição humana, do estar-no-mundo. E Memória dos Porcos não foge à temática geral da produção poética. Quanto ao título, tem sido uma pergunta recorrente. De uma maneira geral não gosto de explicar meus títulos pois creio que os leitores podem ter uma interpretação melhor daquela que pensei. Mas posso dizer a minha, sem excluir a do leitor: Memória dos Porcos tem a inspiração inicial, no título, de usar a palavra memória que é recorrente na literatura brasileira. Os porcos ficam por conta um pouco do excluído, do não aceito ou daquilo que não seria considerado literário. Mas, ao fim de tudo, é apenas um título como outro qualquer.
P: Uma pergunta clássica mas que acredito tem que ser feita para os autores. Você poderia explicitar algumas de suas influências?
R: Geralmente, quando o autor ouve esta pergunta de imediato relembra os escritores que leu, admirou, procurou aproximar-se ou repeti-los. Eu diria que esta é a primeira e talvez a mais importante. Mas há outras influências que não são aparentes. A segunda influência seria a própria cosmovisão do autor, a maneira de encarar não só a literatura como a realidade que o cerca. Nesse segundo caso de “influência” estariam desde os filmes que o impressionaram, as músicas e compositores que admira e outras mídias e mesmo uma “filosofia” de vida. No terceiro caso de “influência”, eu colocaria as chamadas por mim de “influências por negatividade”, ou seja, o autor é “influenciado” por aquilo que ele despreza. Esta última “influência” é uma afirmação por intermédio de uma negação. Ele rejeita determinado comportamento, determinada escola, determinado estilo, certo maneirismo aqui, muito beletrismo ali, enfim, toda uma gama de literatura que não entra em sua Paideia, todo um mundo de negatividade, mas contribui para sua afirmação e sua positividade.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Crime passional, poema RCF





Só o homem é capaz do exagero.
Aquilo que aparenta ser exagero
– tempestade, tormenta, rio caudaloso –
é apenas crime passional das águas.

Ó tu que não sabes ser só,
vem, aconchega-te,
a natureza não conhece a solidão.
Por que o vermelho
dá a falsa impressão do grito?


(Eterno passageiro, 2000)


Golem, de Donizete Galvão (1955-2014)





Ficar só não é bom.
Para espantar o tédio,
convém criar um homem
que encene em sua carne
o espetáculo da queda.




quarta-feira, 30 de agosto de 2017

A vida é sonho, Calderón de la Barca



Pedro Calderón de la Barca 01.jpg




Ai de mim, ai, pobre de mim!
Aqui estou, ó Deus,
para entender
que crime cometi contra Vós.
Mas, se nasci,
eu já entendo o crime
que cometi.
Aí está motivo suficiente
para Vossa justiça,
Vosso rigor,
porque o maior crime
do homem é ter nascido.
Para apurar meus cuidados,
só queria saber que
outros crimes cometi contra Vós
além do crime de nascer.
Não nasceram outros também?
Pois, se os outros nasceram,
que privilégios tiveram
que eu jamais gozei?
Nasce uma ave e, embelezada
por seus ricos enfeites,
não passa de flor de plumas,
ramalhete alado quando
veloz cortando salões aéreos,
recusa piedade ao ninho
que abandona em paz.
E eu, tendo mais instinto,
tenho menos liberdade?
Nasce uma fera e,
com a pele respingada
de belas manchas,
que lembram estrelas.
Logo, atrevida e feroz,
a necessidade humana
lhe ensina a crueldade,
monstro de seu labirinto.
E eu, tendo mais alma,
tenho menos liberdade?
Nasce um peixe,
aborto de ovas e Iodo e,
feito um barco de escamas
sobre as ondas,
ele gira, gira por toda parte,
exibindo a imensa habilidade
que lhe dá um coração frio.
E eu, tendo mais escolha,
tenho menos liberdade?
Nasce um riacho,
serpente prateada,
que dentre flores surge
de repente e de repente,
entre flores se esconde onde
músico celebra
a piedade das flores
que lhe dão
um campo aberto à sua fuga.
E eu, tendo mais vida,
tenho menos liberdade?
Assim, assim chegando a esta paixão,
um vulcão qual
o Etna quisera arrancar do peito,
pedaços do coração.
Que lei, justiça
ou razão pôde recusar
aos homens privilégio tão suave,
exceção tão única
que Deus deu a um cristal,
a um peixe, a uma fera e a uma ave?
É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.
Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.
Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.


Tradução de Renata Pallotini. Rio: Ed.Scritta, 1992.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Os patos selvagens, poema RCF




as cidades intumescem
caçadas inúteis
                       pelos arrabaldes do vago
                       no mais recôndito
                       das algibeiras
                       está o coração do homem
                       o coração do homem
                       batendo nas fotos antigas
                       ou nos recortes de jornal
                                                procurando emprego

já não tenho dezoito anos
nem o relógio de corda
que não me deixava dormir
                                               tomando meu pulso
                                               eu
                                               refém
                                              do tempo
                                                         no terrorismo da distância

podes até trocar
            de pensamento
            recalcar amores fugidios
            negar
                               o toque do tempo
                               e de sua matéria
                                          feita de areia

o que não podes trocar
                               é de corpo
negar

este está ferido
e deitou-se em cama que não quis

os patos selvagens
salvam a aurora
que se partiu
em vários
                e difíceis pedaços


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet: van gogh









segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Três breves contos de Cortázar



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Preâmbulo às instruções para dar corda no relógio

Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você — eles não sabem, o terrível é que não sabem — dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrines das joalherias, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.


Instruções para dar corda no relógio

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.


As linhas da mão


De uma carta jogada em cima da mesa sai uma linha que corre pela tábua de pinho e desce por uma perna. Basta olhar bem para descobrir que a linha continua pelo assoalho, sobe pela parede, entra numa lâmina que reproduz um quadro de Boucher, desenha as costas de uma mulher reclinada num divã e afinal foge do quarto pelo teto e desce pelo fio do para-raios até a rua. Ali é difícil segui-la por causa do trânsito, mas prestando atenção a veremos subir pela roda do ônibus estacionado na esquina e que vai até o porto. Lá ela desce pela meia de náilon da passageira mais loura, entra no território hostil das alfândegas, sobe e rasteja e ziguezagueia até o cais principal, e aí (mas é difícil enxergá-la, só os ratos a seguem para subir a bordo) alcança o navio de turbinas sonoras, corre pelas tábuas do convés de primeira classe, passa com dificuldade a escotilha maior, e numa cabine onde um homem triste bebe conhaque e ouve o apito da partida, sobe pela costura da calça, pelo jaleco, desliza até o cotovelo, e com um derradeiro esforço se insere na palma da mão direita, que nesse instante começa a fechar-se sobre a culatra de um revólver.


(in Histórias de cronópios e de famas de JULIO CORTÁZAR, Ed. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1998, trad. De Gloria Rodríguez)