sábado, 9 de setembro de 2017

O algodão dos dias de fumo

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O algodão floresce no capucho
dos meus dedos, bola de pelo
que se emaranha de branco.
Desse tufo farei outra nuvem,
carregada de nimbos.
O algodão avança minha memória
e quer fazer do quarto
os quartos acolchoados dos loucos,
onde não se pode jogar a cabeça
contra as paredes do tempo,
cobertas de fumo branco.
Comprarei um descaroçador
para tirar o prepúcio da razão.
E minha mão não existirá mais,
tomada toda pela luva branca
os dedos como espinhos
que acusam a brancura do algodão amargo
e a colheita de fetos.
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A voz do vazio, poema RCF


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A voz se dobra
e não consegue falar com ele mesmo.
Às vezes, viciado de si,
busca a janela para ver lá fora
as bocas abertas da paisagem.
Quando o chão range
é porque a pele do piso foi ferida.
Os vidros não gostam de incongruência,
por isso são tão rígidos e sem humor.
As mãos se acostumaram a chorar.
Se tomam de uma melancolia branda.
E como não conseguem pegar o vazio
espalmam a mão num espanto.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A poesia de Nauro Machado, RCF


O cárcere das almas

 Poeta Nauro Machado (Foto: Flora Dolores/O Estado)

 
          O início de O baldio som de Deus nos leva a algumas considerações que podem ser expandidas para a obra em geral de Nauro Machado. Mas fiquemos aqui com anotações nascidas da leitura do mais recente livro do autor. O primeiro impacto me vem da leitura dos poemas iniciais em que o poeta se sente acuado e amaldiçoa a ilha em que vive. Esqueçamos por um momento que a ilha de Nauro Machado é uma ilha real, a ilha de São Luís. E vamos observar algumas percepções que o tema da ilha provoca no imaginário coletivo. Estar numa ilha remete a aprisionamento e liberdade. A liberdade vem da ideia corrente de que a ilha pode insuflar a concepção de paraíso. No simbolismo da ilha, ela quase sempre é lugar de descanso, ausência de conflito. De outro lado, temos a visão da ilha como aprisionamento: não é à toa que grandes presídios foram incrustados em ilhas. São elas espaços de interdição, de proibição, de segregação enfim. Uma terceira via lembra que a ilha também é espaço imaginário do isolamento, em que o condômino da ilha é um prisioneiro não só do espaço como também de si mesmo.

Esse aprisionamento do sujeito nos leva ao conflituoso barroquismo. O barroquismo – e não o barroco – invade a poesia do maranhense de forma reveladora. Não está, contudo, naquilo que críticos chamaram em Lezama Lima (e outros autores da literatura hispano-americana) de neobarroco: proliferação de palavras criando um arco semântico cujo centro não se desloca. Na poesia de Nauro, há abundância de antíteses e acolhimento de paradoxos. Uma poesia que apresenta claro e escuro, revela-se soturna, de uma religiosidade pagã. A pura referência a Deus numa expressão poética não constitui verdadeiramente uma atitude religiosa. Muitas vezes se configura apenas uma figura retórica. A personalidade religiosa, entretanto, é um comportamento mental cuja manifestação cristã, muçulmana, hindu são manifestações do pensamento religioso. A religiosidade é uma expressão muito mais densa, psicológica, comportamental e até mesmo sociológica. O barroquismo de Nauro é diferente da expressão de um San Juan de la Cruz ou mesmo de um Vieira. Este último se acerca de Nauro com sua exuberância retórica, seu desvelamento da sociedade maranhense, a visão do esplendor, o descarnar da miséria humana. O barroquismo de Nauro é multifacetado e profundamente existencial, angustiado em sua expressão máxima, vivendo a dialética entre o Bem e o Mal, no exercício do relato exaustivo das dores do homem.

                O Deus de Nauro deve ser incluído na esfera semântica da degradação. Assim como o corpo é sujo, ausente, perverso e putrefato, o Deus de Nauro é degradado. Deus é perverso, câncer, verbo mudo, perseguidor, em vez de salvar mais afunda o pecador, em lugar de ascender degrada o ser que a ele se dirigiu (“Caí comigo num bueiro / aberto alhures pelas mãos de um Deus / que sequer existe...” [1174]). Deus se mescla à derrota e à perdição da carne (o câncer) e a devassidão do espírito (a miséria de ser).

Deus e verbo se confundem. O verbo é a criação do mundo, de si, da consciência. A mudez é a impossibilidade de criar o mundo. Neste paradoxo se ancora a poesia de Nauro que desconfia de sua verbalização, sem contudo negar sua densa poesia. O poeta tem consciência de que sua expressão poética é forte e pertinente, disso não duvida. Duvida, sim, do verbo divino, do verbo usual e que serve de intercâmbio social, do verbo que nada diz, da verborragia do mundo contemporâneo.

A obra revela uma profunda nadificação do eu, em que o poeta descrê de uma possibilidade de construção de uma imagem de si que não seja cindida. Já não se sabe se eu e mim são propriamente sujeito e receptor da ação, mas ambos se mesclam à gramática da angústia e da dissolução. O mim passa a ser eu e o eu se mostra a múltipla e indistinta percepção fragmentada e não se resume a apenas uma clivagem, mas a difusa emanação do nada que pode muito bem agora ser aprisionado ou colocado na centrifugação do cognoscere. O objeto mim também é emanação de significado e contribui para a fragmentação do eu, de sua nadificação, um nada que não representa vazio, mas o preenchimento de uma totalidade anulada, uma busca em vão, um local de acolhimento do multiforme, dissidentes permanências do conflito existencial.

Aqui tudo se derrui, esgarçam-se memória, corpo, infância, luz ou manhã. O futuro, densa neblina, ofusca e diminui matéria e espírito, já de há muito corroído pelo verme da desesperança, o forte e vertical punhal do niilismo a rasgar a carne inglória de um entusiasmo pela vida que nunca se soergueu porque nunca chegou a ser elevado.

Nauro também trabalha com o dualismo que perpassa a nossa cultura cristã: ser ou não ser. Esse dualismo em Nauro se mostra na concepção bipartida de si, de Deus (amoroso x ominimioso) e da dupla pai e mãe, entre outros confrontos essenciais ou fundadores. Apresenta assim a duplicidade do eu em confronto com a multiplicidade da personalidade que não cabe em apenas duas manifestações da psicologia. Quase sempre há a ideia perturbadora de uma anulação do outro, ou ainda um outro que se anula, ou uma subjetividade que se deixa anular. “Vive um filho a matar seus próprios pais” (1170) mostra o mecanismo de tentativa de sufocar a criação e as forças contrárias que interagem para conter o processo de germinação, seja existencial, seja poético.

Nauro pertence à categoria dos poetas metafísicos como Gregório de Matos, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos e Jorge de Lima. Embora não tenhamos na história crítica de literatura brasileira um movimento com este nome ou ao menos uma linhagem explícita, gostaria de ver Nauro inserido num comportamento estético que alça nossa literatura além do espectro da realidade imediata. Coloquei o título deste artigo de O cárcere das almas, título de poema de Cruz e Souza, justamente para apontar a angústia de estar prisioneiro de si mesmo. Uma poesia que se constrói para se desconstruir, uma poesia ontológica e a impossível fuga de si mesmo que atormenta a persona poética como se outro fora. O inferno não são outros, ou melhor, o inferno são os outros eus que configuram a derrota do sujeito empírico e do sujeito do enunciado poético.

                Eu diria que com este O baldio som de Deus, Nauro Machado constrói um só longo poema, não apenas pelo tom uníssono, mas também pelo conteúdo uniforme. O leitor está diante de um magnífico poema escrito por um dos maiores poetas brasileiros.

(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís: Academia Maranhense de Letras, 2016)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Um estudo de linguagem e referencias na obra de Ronaldo Costa Fernandes


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Bruno Ramos


O autor, oferecendo elementos para uma análise do comportamento do personagem Calunga, como em outras narrativas, tem perspectiva multidisciplinar e constrói a partir dela uma base de signos psicanalíticos pela qual denuncia os rigores da vida urbana e as contingencias do que migra para os grandes centros. Para delinear os conflitos de Calunga serve-se da música clássica erudita e do boxe, conteúdos que vão justificar o seu caráter dual. Há, em Calunga, sobretudo, a evidencia de certo neonaturalismo, e a marca constante da fatalidade. Além dessas características, a obra acusa a preferência do autor pelo inusitado, diferente, estranho e não convencional.

“A imaginação, ora. Incendeia quando deve esfriar e não se conforma com um circulo na casa dos quadrados”. (A Peripécia)

Exigindo, apesar da simplicidade do discurso, um olhar interdisciplinar para atender a complexidade de Calunga e seu drama interior, a obra ganha excelência, confirmando a genialidade do escritor. Esse, com aptidão, trata da tipologia do excluído, do que vive a margem ou fora dos padrões convencionais da sociedade.

Em outro trecho da obra, Calunga é situado num contexto de realismo e criticidade descrito com detalhes que dimensionam a experiência do indivíduo determinado pelo seu ambiente e hereditariedade.

“Também sou nordestino. O nordestino não emigra. O nordestino é eterno retirante. A seca, mesmo que o bicho seja do litoral, está entranhada na alma. Não tem gente apátrida? O nordestino, como eu, é sem-estado. Nem lá nem cá. Um ser que migra pro limbo. Porra, pro limbo.”

Poderíamos lançar a pergunta: o que esconde o signo "gordura" nessa obra? O que esse elemento provoca no personagem e que ele quer reprimir? A repulsa e relaxamento dos músculos que o signo causa ao personagem não diria algo revelador sobre sua inquietação? O que está ai insinuado nas entrelinhas do texto? O uso dessa metáfora e dos aspectos sinestésicos que a acompanham (figuras de linguagem) não estariam ai para configurar um conteúdo sexual, instintivo, abrangendo temas comuns do naturalismo como a homossexualidade, o incesto, o desequilíbrio e a loucura?

“– Sonho que o azeite, o óleo, a fritura, tudo isso chegue, fisicamente, lá dentro de mim e amoleça os músculos.”

Como na sua poética, precisamos depreender a carga semântica das palavras e retirar aos poucos a máscara (persona) de Calunga imposta pela vivencias sociais e certo racionalismo do discurso para ver o que denuncia nas entrelinhas. Assim, na (poesia) como na prosa, o uso de metáforas sustentam teses do personagem ou eu lirico.

“Penso em mim como aquele saco.”

O rico material para análise que o protagonista produz diz da especialidade do autor em descortinar e dissecar conteúdos humanos com minúcia machadiana. Porém se esse está para o realismo e engendra no campo do comportamento, Ronaldo mais ao neonaturalismo, aprofunda a pesquisa no âmbito científico da psicanálise, com conteúdos centrados numa provável patologia que dá distinção a seus personagens e, sobremaneira, em Calunga. Assim, desce ao abismo das relações instintivas, das taras, do medo, da ira e da morbidez para justificar ações e palavras do personagem.

Sua sintaxe merece estudo aprofundado. No conto, digo na prosa contemporânea, em que se exige mais objetividade e se quer garantir excelência ao gênero como o fizeram Machado e Duílio Gomes, Ronaldo desafia as convenções e faz uso de conotação, metáforas e outras figuras de linguagem, trazendo as influencias de sua poética, - essa também muito rica em criticidade -, porém não destoa do tom objetivo, cientifico e social da obra. Sem dúvidas, o seu transito pelos gêneros o tornaram um “exper” na arte de escrever.

Ao leitor, sugere a vida do ser em abandono. Constrói para isso metáfora, metonímias, comparações e diversas interdisciplinaridades para que nelas o seu personagem venha refletir sua essências. São nesses elementos da sintaxe do autor que revelam sua genialidade.

“Uma luta de doze assaltos, de peso-pesado, é uma ópera”
“...três assaltos com protetor na cabeça, uma ária.”
“...Mas gosto não é ouriço ou porco espinho: os gostos são animais domésticos.”
“A memória tem um punho vigoroso, mas às vezes soca o vazio.”
“Nada pior que alcançar o queixo do nada.”
“Penso em mim como aquele saco.”

A escolha por esses personagens desajustados, a preferência pelo anti-herói denotam certo niilismo por apresentar as misérias humanas em todos os níveis, físico, psicológico e psicanalítico. Calunga, por isso, vive de exclusões e do fracasso emocional e tem acusados nas entrelinhas os desastres da relação familiar e os desvarios da autocondenação e da culpa. O autor que nos exige, desse modo, uma leitura no nível das significações e lá esconde razões de toda a fragilidade e contingencias que tornam mais verossímil.

Se há um questionamento a ser feito é da própria condição humana. O autor não fica na superficialidade-máscara; antes, o seu conto trata da interioridade para revelar as dicotomias do ser através de sentimentos, culpas e confrontos com seu inconsciente:

“Toda vez que treino e bato no saco, penso que estou batendo em mim mesmo.”

Ler Ronaldo é, sem dúvida alguma, ler um clássico.


(imagem retirada da internet: nastaja fourie)





segunda-feira, 4 de setembro de 2017

O motor do coração, poema RCF


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O homem traz dentro de si
a gaiola do pulmão,
que, com seus talos de ar,
deixa escapar um sopro,
que voa e se dissolve na boca.

Outra gaiola do homem
é o motor do coração,
com sua jaula de afetos,
onde ela guarda os pássaros perdidos
que a dor insiste em ensaiar
o trinado dos pios miúdos.

( O difícil exercício das cinzas. 7Letras, 2014)

Um homem é muito pouco 32



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          A família de Alice tinha grana. Ela é que não tinha grana. Estudara inglês e era poeta. Eu andava com os amigos poetas de Alice e não entendia aquela história de Kerouac, Ginsberg e Silvia Plath. Alice gostava dos poetas beat mas não queria ir on the road. Não era judia, gostava da poesia de Ginsberg, mas não queria ser internada no sanatório para malucos do Bellavue. Nem muito menos queria se matar como Silvia Plath. A maioria do grupo de Alice gostava mais da vida dos escritores do que propriamente dos escritores.

            Li os livros que Alice trouxe para casa. Literatura de confissão. A literatura de confissão – se você tem vida louca, on the road ou suicida – é literatura que chama a atenção. E literatura fácil de ler, mesmo para um cara que não lia muito, embora não desgostasse da leitura, nem fosse idiota. Eu apenas não tinha a pretensão de ser poeta e discutir poesia. Dos brasileiros, eles não comentavam muito. Os franceses eles tinham dificuldade de ler, mas quem eles não podiam deixar de ler eram os malditos franceses, ou melhor, os poetas malditos franceses. Alice via duas ou três sessões seguidas do mesmo filme e eu não entendia como alguém podia assistir a duas ou três sessões seguidas do mesmo filme. A impressão que eu tinha é que ela era burra e queria ver o filme para elucidar alguns detalhes. Mas é claro que Alice não era burra nem queria elucidar alguns detalhes. Alice via os filmes para que os filmes entrassem nela, fizessem parte do passado dela, que fossem como lembranças do que havia vivido e não imagens de filme feito por um diretor e passado no Metro Copacabana ou no Paissandu. Alice fugia da família e do passado, talvez fosse por isso que entrava no cinema em busca de um passado alheio que ela pudesse incorporar no repertório do passado dela.

(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)