sábado, 16 de setembro de 2017

Um homem é muito pouco 35


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            Pensei em matar Vicentino. Não iria entrar em confronto direto, medir forças. Iria usar a mesma funda de David nele: a traição. Viria por trás com cordão de náilon e enforcaria o bicho. Vicentino deveria ser um bicho desses difíceis de morrer. Ele mesmo contou que durante a guerra viu um vizinho ser crivado de balas, mais de dez, entrar em coma, depois delirar, costurar todas as vísceras e voltar à vida, andando e falando como se não carregasse com ele metade das balas que não puderam ser retiradas. Homens vazados e secos como Vicentino que tinha músculos nas vísceras eram difícil de matar. De súbito me dei conta de que não poderia me converter num Vicentino. Não poderia sair pela vida enterrando corpos, resolvendo diferenças enterrando mortos sob o ladrilho, haveria um momento em que tudo subiria à tona. Não era igual Vicentino e não queria ser igual a Vicentino. Não era angolano, não passara por nenhuma guerra civil, a não ser minha própria guerra.

Alice me contou que eu estava fora, ela estava dormindo. Vicentino abriu a porta para conversar comigo. Pensou que poderia me fazer ouvir suas queixas contra Ariana, o capitão Vaz, o gerente manco, o dinheiro que mais desfazia do que fazia, quando me chamou uma e duas vezes. Não respondi. Não podia ouvir Vicentino me chamar em Copacabana. Eu estava na Rua México. Ele abriu a porta do quarto. A luz pouca acabou mostrando a carne dormida e seminua de Alice. A carne de Alice com pouca roupa era carne cheia de desvios. Vicentino parou diante da estupefação da beleza substancial dela. O problema era que Alice não era mucama, já disse, mucama branca, mucama de Vicentino. Ele tocou na pele branda de Alice. Alice despertou e despertou em mim o ódio que nunca nutri contra Vicentino.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Mulheres-poema de Ronaldo Costa Fernandes

Fernando Botero
Fui o criado mudo
em cada cama que estive.
Busquei glórias
e só tive Marias.
Talvez meu erro seja maiúsculo.
As mulheres sempre tiveram
um corpo de vantagem sobre mim.
Rejeito a amplitude dos cantos.
Meus olhos se descontrolam
diante do remelexo das coisas fixas.
Perco-me buscando o esconderijo
das coisas reveladas.
Vivo escrevendo a duras penas
– a literatura não me satisfaz.
Pensei em Deus
– meu terço é sempre pela metade.
Que fiz de mim?
As mulheres sempre me puseram
a seus pés:
vale quanto pisa.


(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)

imagem retirada da internet

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O poeta e a cidade, RCF





            Há de se fazer uma diferenciação entre civilização e cidade. O poeta apreende a cidade através da civilização. A cidade é um ente concreto, a civilização um estado de existência. A cidade propicia que a civilização, ou seja, a circulação de bens culturais, possa acontecer nela, cidade. Não entremos em considerações sobre a desumanização das cidades grandes. Trata-se aqui de ver como a civilização permeia a cidade e a cidade aconchega, acolhe, permite que o poeta seja possuidor de um bem cultural, a civilização, que a própria cidade lhe fornecerá. Porque a cidade é o grande receptáculo da civilização. Não só continente da civilização como também o caldeirão onde a civilização e a cultura podem ser alimentadas, projetadas, criadas e germinadas.

            A cidade desumanizada também vai afetar o poeta. O convívio com a decadência da cidade, seu lado sórdido, alimentará solidão, medo e desconforto que também serão elementos de tensão produtiva. Mas esta “cidade perversa” só poderá ser apreendida de modo criativo e transformador caso a civilização, cujo veículo é a cidade, possa fornecer os instrumentos para que o artista transforme, por exemplo, violência em produção poética. A cidade em si mesma, conjunto urbanístico e arquitetônico, não tem grande influência sobre a produção poética. Deixemos bem claro: não queremos dizer que o meio, a cidade, não atue sobre a produção poética. A cidade só é elemento frutificador na poesia quando ela passa pelo dado da civilização. Mesmo que o poeta seja ingênuo ou pouco culto, a apreensão da civilização se dará através de sua sensibilidade. Outros buscarão mecanismos convencionais de troca cultural como a universidade, visita a galerias, acesso a publicações ou atos e iniciativas congêneres.

            O grande exemplo entre cidade e civilização está na relação entre Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Mário vivia em Paris, na grande cidade, coração cultural do mundo, abrigo das grandes vanguardas. Pessoa vivia na Lisboa provinciana, no dizer do próprio João Gaspar Simões.[1] Ora, são duas grandes capitais europeias, mas significativamente diferentes no tempo em que viviam. Paris esbanjava modernidade, Lisboa estava presa ao passado, até e principalmente, que é o que nos interessa aqui, em literatura. Antes que Sá-Carneiro influencie Pessoa, ou seja, antes que Paris influencie Lisboa, é Fernando Pessoa que é o mestre de Sá-Carneiro. Seguramente, sem a orientação de Pessoa, segundo testemunho do próprio Sá-Carneiro, o poeta de Dispersão não seria o grande poeta da literatura portuguesa se não tivesse seguido os conselhos do amigo dois anos mais velho Fernando Pessoa. O que acontecia então? Acontecia que Fernando Pessoa entrara, através da grande, mas provinciana cidade de Lisboa (e até mesmo antes na provinciana Durban), em contato com a civilização. A estada de Sá-Carneiro em Paris era uma estada física. Embora Sá-Carneiro tenha falado e comentado com Fernando Pessoa sobre alguns movimentos vanguardistas do princípio do século que estavam acontecendo em Paris, esta mesma cidade que Sá-Carneiro vivia e que o deslumbrava e que, por deslumbrá-lo, dialeticamente, via Fernando Pessoa o modo provinciano de Sá-Carneiro conviver com a cidade, esta mesma cidade, dizíamos, dará oportunidade a Sá-Carneiro entrar em contato com a cidade física, mas não com a civilização de Paris. Foi preciso que um poeta que nunca deixou Portugal, pois Fernando Pessoa veio da África do Sul mas nunca esteve em Londres ou Paris, foi preciso que o poeta de Mensagem, via civilização, desse as coordenadas poéticas para o poeta suicida que vivia nesta época, como apontamos, no olho do furacão cultural das vanguardas. Então façamos a distinção entre a cidade civilização e a cidade física. A primeira leva o poeta a transformações; a segunda é apenas uma moldura, um pano de fundo. A segunda, a cidade cenográfica, apenas transformará o poeta se este deixar-se comunicar e contaminar pela cidade civilização, ou seja, pela civilização que a cidade física lhe facilita.

            Um dos casos curiosos é o de Frederico Garcia Lorca. Poeta cigano, cantor das províncias andaluzas, de ritmo gitano, de romanceiros fáceis e musicais, quando se encontra com a megalópole Nova York é tomado pelo horror. As imagens surreais, absurdas, fantásticas, doloridas e exageradas como a morte por dia de não sei quantos mil cabritos para alimentar os habitantes de Manhattan o impressionam. Para alguns sua poesia se transforma, amadurece. Passa a incluir no seu repertório linguagem e imagem universais e incorpora definitivamente o surrealismo. Mas Lorca já tinha entrado em contato com a civilização em Madri, na mesma Madri provinciana que lembrava a Lisboa de Fernando Pessoa. Ele mesmo dissera que abominava ser conhecido apenas como poeta do Romancero Gitano porque aquele tipo de poesia e temática o caracterizava como um artista rústico, sem instrução, intuitivo, o que era justamente o contrário. Lorca era culto, refinado, cosmopolita, inquieto intelectualmente. De qualquer modo, o impacto que Nova York lhe causa e que resulta no livro Um poeta em Nova York, é de um desatino, um forte impacto, uma surpresa e desconcerto. Estaria o companheiro dos surrealistas espanhóis como Luís Buñuel (que o aconselhara a deixar a temática cigana) e do monarquista Salvador Dalí confrontando-se com a civilização? Não, a resposta é não. Naquele instante, Lorca entrava em contato com a megalópole física, com os números exagerados de animais mortos para alimentar os nova-iorquinos, com os arranha-céus, as grandes avenidas, enfim, com a grandiosidade da maior cidade moderna do mundo. Mais tarde, conhecendo melhor a cidade, os negros, Harlem, etc., Lorca poderá mostrar um lado mais humano da cidade. O contato com a civilização se dará no encontro com intelectuais por um lado e por outro o conhecimento da situação do negro norte-americano, o Harlem, e outras aventuras do gênero. Se por um lado o livro mostra o deslumbramento do provinciano, por outro mostra a conquista estética e transformação que o artista fará a partir do contato com a civilização na grande cidade.

            A questão da civilização e ruína, ruína aqui entendida como a degradação da cidade. O confronto entre o mundo da cidade civilizada e o mundo bárbaro da cidade agressiva e violenta vai gerar no poeta uma consciência não de cidadania – esta, pelo contrário é fragilizada – mas uma consciência de orfandade. Poderiam argumentar que este confronto não apenas coloca o poeta encurralado em sua particular civilização como também degrada a todos. Obviamente não poderíamos eliminar o poeta da polis e a polis é a cidade de todos. Logo o fenômeno certamente se estende a todos os moradores da cidade civilizada acossada pela cidade bárbara. Contudo, o poeta irá transformar a barbárie da cidade civilizada em matéria-prima para sua obra e a sua forma de apresentação dialética desse confronto não necessariamente acontecerá de maneira explícita ou recriminatória. Para mim não me interessam os índices – no sentido da linguagem de Pierce – em que são citados fatos de violência da cidade, mas a maneira como ela sub-repticiamente incluiu-se no poema, embora a temática por vezes esteja longe de falar de violência. Neste sentido, o poeta pode estar falando de tecnologia, ambição, angústia ou amor e seu poema conter a tensão social e a dialética cidade x violência. Talvez este seja o modo mais difícil de perceber a metáfora da violência dentro do poema, mas com certeza é a mais rica e intrigante para o crítico. Até mesmo porque se o poema já chegou a este nível de elaboração é porque sua poesia é transcendente e não apenas relato sociológico da degradação.

            Por fim a questão do poeta na pós-modernidade. A cidade é o lugar privilegiado da dispersão pós-moderna. O lugar que é o não-lugar. É na cidade que o poeta exercita a sua capacidade de desconfiar da cidade e da palavra que a nomeia, de buscar a margem e tornar o que é sombra e resto o centro que por sua vez e por atuação dialética é seu oposto, a periferia. Só a cidade permite a multiplicação do múltiplo, a singularidade do singular, a expressão caleidoscópica dos guetos, das etnias, das reivindicações de um sujeito mutante e fluido. Apreender a cidade não é mais apreender a paisagem física ou, melancólica e nostalgicamente, lembrar-se da rua Lopes Chaves, mas enveredar por um mapa do disforme, uma topografia da ausência, um espaço vazio onde cabem todas as supostas verdades e as muitas ironias urbanas. O poeta está na cidade pós-moderna como a cidade pós-moderna está nele: fragmentariamente, subjetivamente, autoralmente, moral, étnica, marginal, excêntrica, paródica, fantasmal e alegoricamente. A cidade é uma poesia em si mesma, uma poesia não-concreta, uma poesia de um mundo virtual. O poeta hoje está em simbiose com a cidade que o ameaça e o traga, o seduz e o faz vítima da trama da pós-modernidade. Mais do que simbioticamente preso à cidade, o poeta não é mais aquele que somente acusa a cidade, mas também aquele que constrói o imaginário das cidades.




Bibliografia

LORCA, Federico García. Obras completas. Madrid: Aguilar,

HALL, Stuart. Identidades culturais na pós-modernidade. Rio:DP&A,1997.

PESSOA, Fernando. Obra poética. Rio: Aguilar, 1969.

SIMÕES, João Gaspar. Vida e obra de Fernando Pessoa. 6 ed. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1991.


(do livro A cidade na literatura e outros ensaios. São Luís, Ed. Academia Maranhense de Letras, 2016)



[1] Aqui valeria explicar a distinção entre grandes cidades e cultura feita por João Gaspar Simões justamente quando fala da relação dos dois poetas. Esta observação de João Gaspar Simões é que foi o ponto de partida para teorizar sobre a distinção: cidade x civilização. João Gaspar Simões, em seu livro Vida e obra de Fernando Pessoa, afirma que “cultura é do domínio espiritual”, que Pessoa tinha cultura, mas não acesso às grandes cidades, “a civilização é diferente de cultura”. Para João Gaspar Simões, Pessoa era homem culto,  mas provinciano e Pessoa mentira, no disfarce heterônimo de Álvaro de Campos, “em sua fase civilizada, no rompante europeu, ultracivilizado, fumiste, snob do dinamismo moderno, da força, da celeridade, da vertigem, do esplendor material das grandes metrópoles ou da civilização mecânica.” ( p. 270 ) Logo, João Gaspar Simões opõe cultura x civilização, enquanto preferi trabalhar com a oposição cidade x civilização, colocando nesta última todo o peso da cultura. Observe-se contudo que a pretensão de Simões não era tratar do assunto O poeta e a cidade, tema específico deste artigo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Zoológico, poema RCF


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Todo zoo é particular
e não conta com os bichos de sempre.
O esgueirar-se de bicho
anfíbio que pode viver nos escritórios
e respirar o ar insalubre das ruas.
Tem o bicho de sete cabeças:
o bicho condenação ao abandono,
o jaguar do sonho ruim,
as ruinsmanhas do esquecimento,
tem bicho girafa com sua
escada magirus de ansiedade,
o tanque de guerra dos rinocerontes
que pastam indiferentes aos homens,
mas também tem o tamanduá
que lambe as horas
e seu primo ave que engaiola os minutos.                                       



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio 7Letras, 2014)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Caminhante, António Machado


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XXIX



Caminhante, são tuas marcas
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
se faz caminho ao andar.
Ao andar se faz caminho
e ao voltar a vista atrás
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
senão estrelas no mar.





segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Destilaria (e fermentados)


O que se destila neste barril
que se subordina ao grão?
O que se aprisiona nessa caixa de pandora
é o mover dos dentes do lúpulo,
o cavalo fermentado de músculo e remorso.
A cevada do nojo
ou o levedo do fim
amadurece
a máscara de rapina
a cada manhã ou forno do dia.
Rum de carícias,
uísque de negaças,
cerveja negra do esquivo,
a destilaria (e fermentados) vai envelhecendo
o vinho amargo do recuo.
A régua improvável
que menos mede que encomprida,
menos risca que corta,
menos dá lucidez que desafio.
Longa é a jornada dos tonéis
que decantam em seu bucho
e madeira a passagem silenciosa
do tempo maturado no escuro
que por si só é outro barril,
não de madeira, mas de decomposição,
borra e recusa – nada destila
ou fermenta mais que a recusa.                               
(do livro O difícil exercício das cinzas)

domingo, 10 de setembro de 2017

Calunga, conto de Ronaldo Costa Fernandes


(Mudei o final do conto "Calunga". Publicado no livro Manual de tortura, sai aqui postado com outro desenlace)







Todo esporte é bom para o corpo, mas o boxe não é recomendado para quem quer ter boa memória. Faço força pra ser claro: se faltar algum detalhe é que a memória me trai. A memória tem um punho vigoroso, mas às vezes soca o vazio. O que é pra ser lembrado se esquiva. Nada pior que alcançar o queixo do nada. Tudo começou com as minhas duas paixões: o boxe e a música erudita.
Seria contraditório? Sei não. Há muito punho numa nota, muita harmonia num jab. Uma luta de doze assaltos, de peso-pesado, é uma ópera. Uma luta de amadores, três assaltos com protetor na cabeça, uma ária.
Muitos devem estranhar dois prazeres tão disparatados. Mas gosto não é ouriço ou porco espinho: os gostos são animais domésticos. E doméstico deveria continuar meu gosto por ópera. Mantê-lo escondido.
– Deixa de lado essa coisa.
– Que coisa?
– Música clássica.
– Música erudita.
– Como?
– Esquece.
– Não dá certo com boxe.
– Já ouviu um concerto para oboé de Mozart?
– Acaba te tirando a garra.
Se tivesse que fazer alguma comparação, eu escolheria um saco. Toda vez que treino e bato no saco, penso que estou batendo em mim mesmo. É, em mim. Soco soco soco. Tem lutador que imagina o inimigo. É bom para relaxar e, ao mesmo tempo, incitar o sujeito para a luta. Mas eu não. Penso em mim como aquele saco. Porrada porrada porrada. Sem braços pernas cabeça. Um saco de vísceras, apenas. Um saco de vísceras. É uma desgraça você se considerar um saco de vísceras.
Mas não ganhava a vida com luta de boxe. As lutas não davam para sobreviver. Fazendo as contas, acabava pagando as lutas. Não pagava as lutas diretamente, não. Pagava a academia, pagava meu treinador. A gente não ganhava nada ainda porque eu era amador. Um amigo meu dizia que pagava pra levar porrada. Está certo que nem sempre ganhava, mas também não era assim. Não pagava pra levar porrada.
– E então, Calunga, o pastel sai ou não sai?
Esta era outra ironia. Você veja, trabalhava numa pastelaria para ganhar a vida. Também na pastelaria não podia falar que gostava de música erudita. E bem, talvez eu até pudesse falar, mas meu patrão não gostava de música. Nem de clássica, como eles dizem, nem de popular. E coisa e tal. Digo que talvez pudesse falar porque tive um patrão italiano numa lavanderia que o homem gostava de ópera. Mas italiano gosta de ópera. Italiano conhece ópera. Seja ele ignorante, inculto, siciliano de merda, o filho da puta de um mafioso, mas o italiano, mesmo operário, gosta de ópera. Não aqui, na pastelaria, desse china nem dos companheiros de trabalho, gente rude. Bando de nordestino. Também sou nordestino. O nordestino não emigra. O nordestino é eterno retirante. A seca, mesmo que o bicho seja do litoral, está entranhada na alma. Não tem gente apátrida? O nordestino, como eu, é sem-estado. Nem lá nem cá. Um ser que migra pro limbo. Porra, pro limbo.
– Vou vencer, meu camarada, um dia vou vencer – me confessei com um colega de trabalho.
Passava a maior parte do tempo ali, depois chegava na academia para treinar e estava morto de cansaço. Isso é lá vida? Ainda por cima, dormia mal. Os pesadelos.
Meus pesadelos eram estranhos. Todos pesadelos são estranhos. Sonhava com minha mão inchada. Não usava luva para lutar. Lutava de mão nua. Sabe por que lutava de mão nua? Porque elas estavam inchadas e vermelhas. Depois o cheiro de gordura do caldeirão onde fritava os pastéis. Logo minha cama cheirava a gordura, meu corpo cheirava a gordura. Não tinha namorada. Como um sujeito que cheira a gordura pode ter namorada?
– Sabe meu medo?
– Você é cheio de medo, Calunga.
– Meu medo é de que meus nervos fiquem amolecidos.
– E como isso pode acontecer?
– A música não altera em nada, ou melhor, até me põe mais excitado. As óperas me põem louco, fico uma fera. Queria lutar com ópera ao fundo. Já imaginou?
– E por que os nervos vão amolecer?
– A gordura.
– Que tem a gordura?
– A gordura pode entranhar nos nervos.
– Você está falando, como se diz, em forma de metáfora.
– Que metáfora porra nenhuma.
– Então?
– Sonho que o azeite, o óleo, a fritura, tudo isso chegue, fisicamente, lá dentro de mim e amoleça os músculos.
Acabei me profissionalizando e deixando a pastelaria. Moro num quarto sem janela. Às vezes penso que estou num caixão. Um caixão grande. Passarei a eternidade no caixão grande, enterrado vivo. Quem mora num caixão não pode saber se é dia ou se é de noite. O diacho do caixão. Nem dia nem noite.
Me aproximei do meu técnico que tinha o apelido de Cara de tijolo.
– Até ontem você não acreditava em mim.
– Agora acredito.
– Mas sou eu agora que não acredito em você.
– Quer ganhar dinheiro?
– Quem não quer?
– Chegou a hora. Você está preparado.
– Não era o que você pensava até a semana passada.
– Houve um fato novo.
– O único fato novo que eu conheço é que perdi o emprego nessa brincadeira.
– Temos uma empresária.
– Empresária?
– Sim, no feminino, é mulher. A dona quer te patrocinar.
– Não está cheirando bem.
– É um caso complicado, mas eu não quero entender os motivos lá da dona, eu quero é a grana dela. A grana dela deixou você sair do emprego, se dedicar mais aos treinos e já tem luta marcada.
Eu ganhava luta atrás de luta. Lutava com adversários magros, sem bíceps, que caíam feito moscas. Me levantavam o braço. O vencedor é. Palmas minguadas. Auditório de desocupados. A maioria de jogadores, apostadores de tudo: rinha de galo, corrida de cavalo, Fórmula 1, cão atrás do coelho, quantos carros vermelhos passam debaixo de um viaduto do Aterro do Flamengo, quem vai dar o último boa-noite no Jornal Nacional, apostadores de tudo. Quis conhecer minha empresária. Mas Cara de Tijolo adiou. Até que não pôde mais.
– Desculpe a mão suada – eu disse.
– Fazia tempo que gostaria de conhecer você. Mas andava muito ocupada, sem tempo, até que seu treinador falou que você queria me conhecer. Aqui estou, em carne e osso. E, se me permite uma brincadeira, em mais carne que osso.

Eu ri. Gostei dela. Estávamos na academia. Eu ficava meio encabulado de receber D. Violeta ali na academia. O cheiro de suor e poeira, o lugar meio escuro, cheio de homens suados. De vez em quando voava um palavrão. Voava como um soco no ar. (Quem não conhece boxe não imagina o que é dar um soco no ar. O adversário se evaporar. Uma nota dissonante. Algo desafinado, é, algo desafinado.) A academia tinha um cheiro de azinhavre e enxofre que não conseguiam se desprender da gente. Como a gordura quando trabalhava na pastelaria. Só que a gordura enfraquecia. E o cheiro de enxofre me dava força. Era como se eu fosse, mesmo deitado, vinte e quatro horas lutador de boxe, é, o cheiro de azinhavre e enxofre.
Foi ela mesma quem quis me ver treinando.
– Nós temos muita coisa em comum – ela disse.
– Como assim? A senhora luta boxe?
Ela riu.
– Não, não luto boxe.
– Então aprecia o esporte.
– Também não.
– Então?
– Sei que você gosta de ópera. Fui cantora lírica durante anos. Fiz carreira, viajei. Agora, velha, perdi a voz.
– E por que me escolheu para empresariar? Não foi porque temos o mesmo gosto, ou foi?
– Um dia você saberá.
– E por que tanto segredo?
– Não é bem segredo. Enfim, você quer ou não quer o meu dinheiro?
– Claro.
D. Violeta usava dentadura. O som saía chiado. Ela espalhava perdigoto.
Tinha o colo alvíssimo e cheio de jóias. D. Violeta era rica pra chuchu. Mesmo estranhando o interesse dela, aceitei o dinheiro que eu não era bobo. Quem ia deixar de aceitar grana para realizar o grande sonho da vida? Mas algo nela despertava meu lado cínico. Havia nela um colar de suspeição. Se me divertia e lhe era grato, havia o furto de uma verdade escondida. Que queria D. Violeta de mim, hein, que queria ela de mim?
O tempo foi passando e eu, o galinho, ia ganhando luta atrás de luta. Até o dia em que ganhei do Negro Bimba. Ora, o Negro Bimba era conhecido como o Colosso Negro. A nossa profissão está cheia de lugar-comum. Eu não inventei o boxe, logo não inventei os nomes dos lutadores. Mas, bem, dizia eu que o Negro Bimba era o Colosso Negro. Eu não podia, mirrado que sou, derrubar o Negro Bimba. Não, não podia.
Peguei o Cara de Tijolo no canto, apertei o bicho. Que merda tá acontecendo? De que você tá falando?
– Do Negro Bimba.
– Que tem o Negro Bimba?
– Eu não podia vencer o Negro Bimba.
– Mas venceu.
– Tem alguma coisa estranha aí.
– Tem. Você é o azarão. Já ouviu falar de azarão? Você é o azarão.
Apertei mais, mais, mais mais mais e aí Cara de Tijolo abriu o jogo. Eu sabia que apertando Cara de Tijolo, ele acabava confessando. Tem sujeito que não sabe conviver com pergunta. A pergunta arde, é aguda, tem nota alta difícil de alcançar. Cara de Tijolo podia levar um soco, mas não suportava uma pergunta. Uma pergunta dessas, sabe como é que é? Uma pergunta.
– A velha é maluca.
– Que é maluca eu já tinha percebido há muito tempo.
– É ela quem paga para teus adversários perderem.
– Puta merda!
– E não acaba aí.
– Não?
– Você é herdeiro de uma grande fortuna.
– Olha a brincadeira. Fala sério, camarada. Não se brinca com essas coisas.
– Não, não, é verdade. Tua mãe trabalhou na casa dela quando mocinha.
– Como tu sabe tudo isso?
– Ela me contou.
– E por que contou?
– Eu também desconfiei dela, mulher fina, empresariar um pé-rapado como você.
– Não ofende.
– Mas é a verdade. Qual o interesse dela?
– E qual o interesse dela?
– A mulher se apresentou nas maiores casas de espetáculos do mundo. Eu não entendo disso. Só repito. Cantou na Argentina, no Chile, na Espanha, na Venezuela.
– Ela, a branquela?
– E aí descobriu que era tudo uma farsa.
– Farsa?
– É, farsa, que não era boa cantora, que era uma fraude.
– E então por que cantava nesses lugares?
– O marido, um italiano riquíssimo, amante também da ópera. O marido pagava para ela ser contratada.
– O marido.
– Seu pai, meu camarada.
– Não estou entendendo patavina.
– É muita coisa. Deixa eu organizar minha cabeça.
– O marido pagava para ela cantar?
– O marido pagava para ela cantar. Ela tinha voz, mas não era uma voz para todo aquele estardalhaço.
– E aí?
– E aí ela descobriu e ficou uma fera.
– Com razão.
– Mas só descobriu quando o marido morreu.
– E onde entra meu pai?
– A dona Violeta não podia ter filho. Tua mãe trabalhava na casa de D. Violeta. Tua mãe engravidou do italiano. Aí sumiu com o garoto. O garoto era tu. Tua mãe tinha medo de que o italiano e D. Violeta ficassem com o garoto, entendeu?
– Então eu sou herdeiro da fortuna do italiano.
– É.
– E a história acaba aí?
– Não. O velho deixou no testamento que D. Violeta pra receber a maior parte da herança tinha que descobrir onde estava o filho perdido.
– Eu.
– Sim, você.
– Bom, agora eu pego o dinheiro.
– Não, não pega o dinheiro.
– Como assim não pego o dinheiro? Não sou filho do italiano?
– D. Violeta morreu.
– Morreu?
– Morreu faz uma semana.
– E por que você não me contou?
– Eu não podia contar porque você precisava ganhar a luta. Ganhar pelo menos uma luta.
– Mas se ela pagava para eu ganhar. Não entendo.
– Ela pagava para você ganhar enquanto estava viva. No testamento que ela deixou...
– Ela também deixou testamento?
– Ela também deixou testamento.
– E o que diz o testamento?
– Que tu só ganharia a herança se vencesse uma luta.
– Uma luta?
– Uma luta. Vencesse por conta própria uma luta. Sem suborno, sem grana por fora, sem pagar o adversário. Uma luta só. Você só vai receber a herança se vencer uma só luta sem pagar para ganhar.
Esta foi a vingança de D. Violeta. Vingança contra a empregadinha do italiano. Vingança contra o marido, que pagava para ela cantar. E, por fim, vingança contra mim, porque repetia o mesmo método do marido. O bastardinho teria de vencer uma só vez, por conta própria. Era a vingança. A matrona, em ritmo de ópera-bufa, me pregava uma peça.
O testamento é uma luta de boxe em dois tempos. Um lutador que não se vence, porque está morto e sua vontade, que se transforma numa espécie de soco, atinge o outro lutador. Uma luta sem rounds, sem lonas, sem luvas. Mas uma luta atroz, feita de vontade e de genes, de pequenos jabs de letras ou um uppercut na vaidade daquele que, vivo, ainda se agita num ringue vazio.


imagem retirada da internet