sábado, 21 de outubro de 2017

A estrada, conto RCF






Arre. Nem mesmo o posto de gasolina da Ipiranga havia encontrado. Parou o caminhão no acostamento. Desceu. Olhou em volta: a vegetação miúda e retorcida. Tirou o boné, passou o braço na testa para recolher o suor. O que havia de errado naquele caminho? O pio dos pássaros. Como podiam sobreviver ali? Comer das árvores sem fruto, beber na poeira dos riachos secos. Entrou no caminhão. Pasmo. Que ia fazer? Inútil. Não estava três horas naquela esperança de encontrar Carolina?

Avistou o caminhão que vinha na outra pista. Fez sinal. O motorista não parou. Vinte e tantos anos de estrada e nunca vira aquilo. Vira assalto – chegara a ver motorista morto dentro de caminhão –, prostituição – as menininhas da idade de sua filha se oferecendo por quase nada –, vira de tudo na estrada, só não vira aquela afronta, aquele descaso, aquilo lhe doía mais do que assalto ou prostituta sem peito.

Cosme seguiu estrada. Mas não andou muito. Merda, sem gasolina. A única coisa diferente na estrada que conhecia de cor e salteado eram uns marcos, visivelmente novos, anunciando os quilômetros. Cosme estava no quilômetro 320 – quilômetro trezentos e vinte de onde para aonde?

Já ia anoitecer.

Lembrou-se da família – o que estariam fazendo agora? Três filhos, a mulher e a avó morando numa casa de dois quartos que construíra ele mesmo, tijolo após tijolo.

Frequentava a igreja. A igreja é que salvava todo mundo na vizinhança. A igreja é que salvara o Silvino da bebida, salvara o Marcos da jogatina, salvara a própria mulher dele da tristeza. A tristeza da mulher era um vício. Se não fosse o pastor da igreja a mulher tinha se matado e ele tinha de criar três filhos e cuidar da avó – como ia cuidar da avó e criar três filhos se cada dia que passava em casa correspondia a uma semana na estrada?

Adormeceu.

Dia seguinte, acordou com o sol seco e frio batendo no rosto. Pela primeira vez na vida, pela primeira vez na estrada, Cosme entrou em pânico. Imaginou-se eternamente perdido ali, abandonado. Como um náufrago, como alguém perdido no deserto. Que diabo acontecia com aquela estrada, que diabo acontecia com ele? Teria entrado numa estrada desativada? Ou ainda estava preso ao pesadelo? Iria acordar em Carolina, na cama de um hotel vagabundo e aí então suspiraria de alívio. E riria de tudo aquilo, contaria o sonho para a mulher que se benzeria e diria, cruz credo, parece até coisa do demônio.

Nenhuma nuvem no céu. Ligou o rádio. Chiado. Mexeu na antena e nada. Isolado do mundo. Desesperado, fechou o caminhão. Caminhar ainda com o sol fraco. Meio-dia, impossível a caminhada. Carolina deveria estar atrás de alguma curva, ainda que Cosme pudesse avistar a estrada meter-se, de tão reta, na linha do horizonte.

Por certo havia acidente. A polícia rodoviária desviaria o trânsito. Seria isso? Sabia não. Ao meio-dia exato, parou. Buscou abrigo na sombra de uma árvore. Passado um tempo conferiu o relógio: meio-dia. Há quantas horas ou minutos estivera andando com o ponteiro em meio-dia? Teve medo de enlouquecer. A mulher, Valquíria, lhe disse que preferia a loucura à tristeza. Quis enlouquecer: louco, ele não estaria ali. Adormeceu. Não sabia quanto tempo dormira, mas, agora, de onde estava, podia ver a estrada movimentada: caminhões, caminhonetes, carros de passeio, a estrada voltou a ser a estrada que conhecia.

Um caminhoneiro parou a um sinal de carona de Cosme. Levou-o até o local onde estava o caminhão. Mas o caminhão não estava lá. Cosme enfureceu-se. Filhos da puta, nem podia ganhar a vida honestamente, um bando de malandros vinha e lhe roubava o instrumento de trabalho.

Meses depois de voltar para casa, Cosme foi ficando triste, triste e a mulher o levou até a igreja. O pastor não a havia livrado da tristeza, por que não podia tirar Cosme daquele abatimento? Cosme frequentou a igreja. Tomou gosto das rezas. Estava desempregado, pagava ainda as cotas do caminhão roubado. Mas era feliz. Até o dia que entrou na igreja e encontrou-a vazia. Nem mesmo o pastor estava lá. Como a igreja podia estar vazia se era domingo de Páscoa?





imagem retirda da internet:rodney smith

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Pai nosso que estais no céu de Brasília, RCF


portinari

  

O cheiro é uma espécie de diálogo.
Sempre dialoguei bem com as plantas.
Fácil é dialogar com o céu de Brasília,
porque ele é claro, transparente,
imensa bola de gude a nos cobrir.
Pai nosso que estais no céu de Brasília,
dai-nos hoje o estado de graça e beleza
dos olhos cheios d’água,
dos ipês acenando com mãos roxas,
do sol narciso que vem no Lago se mirar.
Dai-me o solstício das discórdias,
o zênite dos meus gozos,
a estação solar e a estação das águas:
mas, há também a estação das esperas,
época de seca de desvelos
e de enchentes de perdas.
Se o céu é o mar de Brasília,
estamos todos naufragados na luz intensa
que move o motor do nosso corpo
e a terra pronta para plantio da nossa mente.
E quando chega o planetário da noite
vêm as estrelas ciciar saudades.
Sob o céu transatlântico de Brasília
navega a nau dos operários
que a cada dia reinauguram a capital
ancorada neste porto sem água.
Difícil é dialogar com os pássaros,
riscos ariscos no céu de Brasília.


(Publicadono Correio Braziliense)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

E a história começa, Amós Oz



Em E a história começa, Amós Oz comenta dez inícios de clássicos da literatura universal. Alguns por demais conhecidos como o conto “O nariz”, de Gogol, o romance O outono do patriarca, de García Márquez e o conto “Um médico da aldeia”, de Kafka. Outros não são tão familiares ao leitor brasileiro. Exímio narrador, Amós faz de cada análise sua uma outra narrativa também tão agradável e surpreendente quanto o texto de que trata. A interpretação e leitura de Amós não desvendam os mistérios da ficção. O leitor desavisado não aprenderá a ler ou a escrever, mas a perceber que existe um mundo mágico na leitura. Amós aponta procedimentos narrativos que passam despercebidos aos leitores. E são esses “elementos despercebidos” que criam a magia da leitura. O início de cada narrativa é uma maneira de cativar o leitor, mas também tem a função de fazê-lo penetrar num mundo mágico particular. Cada narrativa, mesmo a realista, tem seu universo mágico próprio. A narrativa é um mundo virtual que, a priori, o leitor sabe-o crível, mas não verdadeiro. O papel do início é dar a segurança de um mundo virtual, verossímil e encantatório. Por ser o início do pacto leitor/narrador, os inícios de narrativa são reescritos várias vezes pelos autores a fim de encontrar o tom exato do fascínio. O início das narrativas é como, nos parques, os homens que anunciam as atrações fantásticas da tenda de horrores ou fantasia que estão lá dentro. “Certa vez, em uma praia de nudismo, vi um homem sentado, nu, prazerosamente absorto em um exemplar de Playboy. Exatamente como esse homem, no interior, não no exterior, é onde o bom leitor deve estar enquanto lê”, conclui Amós.



imagem retirada da internet: escher

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Poema de amor, RCF




 


Meus cílios batem asas mas não voam.
Digo ao meu amor: buganvila-me.
Às vezes falo nerudamente.
Sua o corpo de mulher,
fecha os ouvidos da perna
e aí meu pensamento
sussurra em língua Breton.
Três caravelas descobrem
a américa do meu norte:
santa maria pinta e borda,
sob os olhares de Nina.
E aí me pergunto:
de quantas luzes
se faz um escuro?
Ela, com sexo submarino e salgado.
Uma igreja não é um templo,
mas uma caixa de esperança.
Meu medo às vezes enferruja.



(O difícil exercício das cinzas, 2014)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A máquina das mãos por Igor Fagundes

A medida de um palmo




Publicado no jornal Rascunho

Ainda que porventura fora dos perímetros de intenção do autor, aludir à máquina do mundo de Camões e Drummond consiste em um dois caminhos possíveis para nos aproximarmos do livro de poemas "A máquina das mãos", de Ronaldo Costa Fernandes. Não apenas pela presença, quiçá proposital, da palavra "máquina" no título. Sobretudo porque, a cada página, participamos de uma meditativa mundividência, que teria tônus metafísico ("Um dia me cansarei de ser/a nota dissonante/ e abandonarei a lição de casa,/ a lição da rua, a lição da vida,/ Oh, Deus, todas as lições que nunca aprendi") se, em contrapartida ao etéreo e elemental do autor de "Os lusíadas", não houvesse duas mãos(pensas)e um sentimento do mundo.
Se a poesia em questão não contasse nos dedos algum senso crítico e alguma ironia que rói a melancolia encardida nas unhas. Se, enfim, uma - assim chamada- "alma pequena" não assistisse à produção em série de sua inoperância: "Não contente com sua oficina de erros,/ criou em mim uma máquina de desconcertos".
A máquina perfeita da razão, a pressupor uma existência organizada segundo leis bem definidas, finalidades manejadas por uma causalidade e eficiência transcendentes, seja intelectualmente, seja divinamente, rui para dar vez à "vida como carro desgovernado", "costura de fio sem meada" em meio à qual as linhas inscritas e cruzadas na palma judiariam de toda crença em uma travessiaprescritível e, sob quiromantescifras, por elas esclarecida ("Quem inventou a medida do palmo/ queria ter o mundo em suas mãos.// As palmas me causam horror: o ato vazio de nada pegar").
Ronaldo Costa Fernandes faz da imperfeição de sua máquina impulso para uma escrita que, engenhosa, anseia o perfeito, isto é, a plenitude de um poeta senhor de suas impressões digitais (para não dizermos, mediante um desgastado fonocentrismo, senhor de sua voz). De pulso forte para cavar "fundo até aparecer o osso do mundo", de modo que não somente o termo "máquina" venha assumir relevância nas referências a Drummond e a Camões, mas o próprio vocábulo "mundo" em sua recorrência lexical e inquietante: " o mundo deve ser muito importante/ pra dar muxoxo pra gente/ ou não responder ao que a gente pergunta.// Ontem inventei outro mundo, mais cheio de vermes e de tarântulas,/ os coelhos gostam de mastigar o infinito".
Por manusear o que não tem limite, o que não encontra fim e, assim, desafia o empenho das fábricas do pensamento, bem como o desempenho das programações, o punho de Fernandes, à revelia do maquínico, se dedica a compreender incompreensões com a mesma força que incompreendecompreensões; à indagação sobre qual rumo perseguem os maratonistas e qual sem-rumo conseguem os suicidas; à exclamação do crematório dos fornos de churrasco; à amostragem sem auto-vitimização dos pecados pendurados em carnes de açougue; à assunção de tudo o que, finito, flagra a limitação dos dedos fincados no teclado e na tinta impressa das letras, metonímicos e metafóricos dos seres humanos, que "não têm tato, só conhecem o tagarelar dos acenos". O poeta ensaia sua poesia quando falha o projeto de dizer, quando equivocada a redução da trama do viver às sistemáticas forjadas pelo homem:

"Meus dedos demoram a pensar.
Têm memória curta.
Têm a surpresa do estalo,
mas não regulam bem,
cada qual em seu drama:
a polegada de vida medida,
o fura-bolo do desatino,
o maior-de-todos os
descompassos,
seu-vizinho do medo de viver
e a vida mindinha que se leva".

A lírica de descuidos com que este livro cuidadosamente se faz alça-o a uma claridade paradoxal, enquanto coerente em seu ofício de dar-nos mais clareza quanto aos paradoxos que subsistem no homem e regem sua inventividade- senão redentora, sentenciosa da impunidade com a qual somos coniventes e viventes quando alimentados pelo estremecimento nosso de cada dia.
A partir de tamanho tremor (nunca temor) imagético, o poeta verte seu verso e é profícuo na proeza de não deixar que a articulação soberba de imagens a priori desconexas, características da poesia, caia na armadilha do "incongruente como fórmula" ou do fluxo compulsivo que só prevê vertigem sem sentido, e não inverso: o sentido com vertigem, a oscilação entre um e outro, a impedir aquele enfadonho hermetismo onde as possibilidades de acesso e interpretação se encarceram. Na obra "A máquina das mãos", a fartura de figuras de linguagem ("Os cabelos das ondas/ necessitam de cachos para espumar") não insinua exibicionismo infértil, houvesse a fatura de um pensamento regente, consciente da pertinência de suas escolhas formais e estilísticas, zeloso de uma poética que, na contramão de um dito plenamente realizado de significados, conhece a diferença entre "dizer possibilidades e nada dizer". Habitante de uma terceira margem, não vê, por outro lado, diferença entre o beletrismo conservador-tecnocrático e a ditadura da anarquia verbal, para a qual liberdade estética é antônimo de responsabilidade artística e, quando muito (ou pouco), só se quer mesmo responsável pela geração espontânea do novo natimorto.
Não se encontrando "em nenhum canto do triângulo das dúvidas", vive "de ponta-cabeça" este poeta "cansado de pisar [ou, no caso, apalpar] a própria sombra".
Por isso, ele a compartilha conosco e, ao revés, irradia uma oblíqua luz de dentro e para dentro de seus (nossos)- não mais drummondianos, mas personalissimamente universais- claros enigmas. Mesmo que duvidoso das linhas da palma e da medida de um palmo, merece o dadivoso de todos os aplausos.



Igor Fagundes é poeta e crítico literário.
 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Se correr o bicho pega..., poema RCF







Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
A frase popular virou nome de peça.
O teatro ficava perto de um viaduto.
Eu tinha que passar pelo viaduto quase todos os dias e via o letreiro da peça.
E morria de medo, diabo, então não tem salvação.
Mal eu sabia que o bicho era eu.


 
(do livro Memória dos porcos, Ed. 7Letras, 2012)





domingo, 15 de outubro de 2017

Mares, poema RCF

malecón de Havana

Na Venezuela, meus companheiros
me levam para ver o mar do Caribe.
Bebemos, rimos, comemos peixe à beira-mar.
Me perguntam o que acho do mar do Caribe.
Ora, amigos, o mar é o mesmo como uma nota musical.
No malecón de Havana, Cuba,
em La Guaira ou na Urca,
o mar não tem sotaque nem hino que se cante.

Uma cantora canta El día que me quieras e penso
que o que vivi é apenas bolero.
Os amigos são fotos que falam, batem no ombro
e dizem que não vale a pena sofrer por uma mulher.
Os amigos afundam na densa neblina da essência e, fugidios,
deixam-se entrever na parede do espanto e nas portas do tédio.

O mar chocoalha as maracas de espumas
para acompanhar a cantora.
Alguém, bêbado, brinda a mim;
penso na ressaca exagerada de mim mesmo,
no sal extravagante da memória e dos fugazes tateares
do mistério de ser eu mesmo meu algoz.
Falam de mulheres e riem alto. Nada mais sabem de literatura.
Ao diabo a literatura!
E então penso em ti, que engana meus sentidos,
como o pau de sebo das marés
se oferecendo e recusando como dois amantes com remorso.

Ao final saímos do bar e dirigimos feito loucos
sempre bordejando o mar, eternamente bordejando o mar,
o mar que sacode o lenço de sal e maresia.
Onde estarás agora que arrisco minha vida e minha literatura
na avenida beira-mar de um país distante?
Onde estará teu corpo de ausência
e cavalos-marinhos de torpor e vício?
A literatura já não me importa, nem mesmo a vida
com suas saias rodadas e luas espessas já não me importa.
O álcool espuma nas veias como o buscapé das águas
explodindo nas pedras.
De que me valeu ler tantos livros?
O carro, embriagado de espanholismos e de desterros fatais,
envereda pela maré baixa, me torno sutil e melindroso
como um caranguejo que palita o andar.
Que horas devem ser no Brasil?


(poema do livro Andarilho)