sábado, 28 de outubro de 2017

Perguntas infantis para um coração baldio, poema RCF




Quem colocou a vitrolinha
dentro do passarinho?

Quem construiu um terreno
debaixo do mato baldio?

Quem cura as feridas
que fazem as mulheres sangrar?

E, por fim, quem deu corda no coração
e o faz um vitrolinha de duas notas,
um terreno cheio de dores baldias
e que menstrua a cada batida
como se um óvulo do tempo
se desprendesse do ovário das aortas?



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)
(imagem: rebecca drautemer)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Tesoura cega: a poesia afiada de Carlos Machado

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                                                                  Ronaldo Costa Fernandes


         A poesia de Carlos Machado se insere no conjunto de propostas da grande linha da poesia universal: o discurso do homem no mundo e sua condição existencial. Estudando longamente a produção homérica e outras da antiguidade, Lezama Lima observou – embora não seja novidade, a abordagem de Lezama é primorosa e erudita – que mais do que tudo o ethos perpassava os poemas e nele eram fundadas as estéticas e as angústias coletivas e individuais. Borges, por sua vez, afirma que a metáfora, por mais abstrata que seja, carrega consigo o dado concreto, e mais: que a metáfora, embora seja vista como uma sofisticação da linguagem, nasceu da observação mais objetiva da realidade. Para que nos servem as observações do poeta cubano e do argentino? Para ressaltar que a poesia, por mais sofisticada, abstrata, esotérica ou metafísica, está apoiada na realidade, dela nasce, salga a ferida social, aponta as dores do mundo e do homem no mundo, é testemunha das mudanças no tempo em que o poeta vive e sobrevive e, ainda sem esgotar a lista, que não pode fugir do horizonte cambiante do presente. É o que empreende Carlos Machado neste Tesoura cega, que aponta para sua poética de desvelamento do real de forma criativa e renova seu arsenal linguístico em favor da melhor poesia.

         É de longa data que o site Alguma Poesia – um dos melhores do Brasil – criado por Carlos Machado mostrou sua competência no jornalismo literário e na crítica de poesia. Carlos publica seu site acompanhado de lúcidos e pertinentes comentários sobre autores mortos e vivos da literatura brasileira e universal. Entre eles, podemos encontrar páginas sobre T.S. Eliot, Walt Whitman, Marianne Moore, Paul Éluard ou Federico García Lorca, da mesma maneira que poderemos ler sobre João Cabral, Drummond, Murilo Mendes ou sobre contemporâneos mais ou menos conhecidos, mas todos de qualidade. O prisma crítico, de antologista e de homem de letras, já mostra que além de bom gosto, não lhe é estranha a melhor poesia e, mais ainda, que Carlos Machado detém uma cultura literária – especialmente poética – que poucos literatos brasileiros dominam.

         Sem vincular-se a nenhum movimento, há em Carlos Machado uma pluralidade que faz sua singularidade. Baiano-paulistano, sua poesia neste livro foge do regionalismo (embora em outro, exerça com competência a literatura de cordel), sem entretanto escapar da crítica à megalópole paulistana onde vive. Mas é no espaço e tempo de sua existência, na memória e seu estar-no-mundo que Carlos vai garimpar seu ouro drummondiano para ser um poeta nacional. Orientando-se pela bússola da emoção e pelo mapa da perplexidade diante da vida, o poeta logo em seus primeiros poemas, oferece-nos quase uma orientação/desorientação sobre sua cartografia estética:


         Mapa

         De certo, apenas a incerteza.
         O copo branco sobre a mesa
e esta aspiração de domingos.
De certo, a morte e seus respingos.

O menino azul quer um mapa,
carta de agir, segura e exata.
Quer seguir rijo, reto e justo
para justíssimo lugar.

O que, então, responder? Desiste,
esse lugar não há e – triste! –
não há mapa, nem portulano,
nem porto lhano onde ancorar.

Como dizer: menino, os mapas
não são roteiros de achamento,
mas tênues direções de vento
para quem só busca o buscar?


A recorrência à infância e seu mundo mágico também incide na lembrança de uma pastelaria. Ampliar a experiência particular ao universal (“Cada um de nós tem sua Pastelaria Triunfo / seu porto de sonhos à prova / de vento e desterro.”) alarga a vivência de um fato pessoal para o repertório das ocorrências humanas. É um bom exemplo de uma poesia que não se centra no ego, mas amplificada a voz idiossincrática, torna-a comum à coletividade a fim de que se entenda – e compartilhe – a aventura existencial.

Carlos bordeja os variados exílios da vida – cotidiana ou não – neste bloco de poemas que inclui a temática que virá a seguir: o tempo. Entre a esperança e o desânimo, a espera infrutífera e a antecipação de “um tempo de abutre”, o poema “Xeque-mate” revela o cansaço de quem ansioso vê perderem-se a tarde, a primavera e o gume, percebe que já é tarde e que, “sobre a pele confusa da alma”, abateu-se a desesperança, bicho que entope as artérias da vida. Essa mestria de construção, de compor com exuberância imagética e, ao mesmo tempo, saber dispor e adequar com inteligência tema e linguagem, é mais uma vez aqui demonstrada.

Xeque-mate

Quando menos se espera, já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora.

Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja.

De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.

Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.

         Na seção “Antilira paulistana”, não há a melancolia ou a recordação de um passado. Nem mesmo há o flâneur baudelairiano. Carlos Machado reconstrói a metrópole de todas as raças e contrastes da vida urbana, Oxóssi e a Paulista, a contradição do grande capital e a capital das favelas e bairros periféricos violentos. Adeus à rua Lopes Chaves, de Mário de Andrade, embora haja, já que falamos de Mário, uma boa referência macunaímica no poema “Oxóssi na cidade” (“Oxóssi está na Paulista. / Apura os ouvidos / para escutar / os passos da caça.”). E Fiat lux para um mundo informe e desigual, a boca gigante do medo a deglutir poeticamente a miséria urbana e humana da Pauliceia movida por sua lógica cujo desvairamento é o conjunto das disparidades.

         Carlos Machado está mais preocupado em flagrar o pequeno cotidiano (nada de parques e jardins, mocidade vibrante, desvios e comportamentos da juventude ou dos marginais), o “lava-rápido, a floricultura e o escritório de contabilidade”, ou seja, “a terrível humildade / insuspeitada em dias de negócio”.

         Domingo

         O lava-rápido
         a floricultura
         e o escritório de contabilidade
         recolhem-se todos
         a uma terrível humildade
         insuspeitada em dias de negócio.

         Na rua vazia,
         são todos como aves empalhadas
         destituídas do fogo
         capital
         que alimenta suas entranhas.
        

         O tempo sempre fascinou o homem e ingressou na poesia desde épocas homéricas. E não é para menos, porque o tempo que “dói como um caminho que nunca chega” (“Pedra”), cria e definha o que está em nossa volta para não dizer que dele somos filhos e sofremos, assim que nascemos, sua bonança e sua desgraça. Carlos Machado retoma a tradição dos grandes poetas ao debruçar-se sobre a temática dolorosa de constatar que o tempo é nosso cúmplice, nosso criador e nosso algoz. No grupo de poemas temáticos sobre o tempo, o poeta exercita sua veia filosófica – embora poesia não seja filosofia – e mostra que é um excelente bricoleur de imagens (com acerto, Derrida afirma que “tout discours est bricoleur”). Carlos Machado tem algo a dizer e o diz muito bem: “Um buraco na pele das horas. / Quem ousa pensar / o tempo / como rota interrompida?” Ou: “Quem se atreve a dizer / que ontem não existiu? / E que o próximo sábado / vai cair no oco e ficar suspenso / do calendário?”.

         O poeta opera com a temática do tempo cercando-se de metáforas da vida concreta a fim de que se tenha a ideia mais aproximada de passagem, desgaste, ausência de reversão e outros atributos do fenômeno temporal. Igualmente, investe no campo do abstrato, já que ao falar de tempo é difícil não questioná-lo metafisicamente ou abismar-se diante do grande vazio que tudo move.

         É talvez nesse trecho do livro acerca do tema que Carlos Machado mais inaugura seu arsenal de imagens – cruas, revoltadas, ora conformadas, ora na tentativa em vão de detê-lo –, de belas imagens, desafiando o próprio tema, buscando uma fórmula para triturá-lo como se rompe uma pedra ou mirando desconfiado essa dança desconcertante.
        
         Tango

         Bem que eu desconfiava:
o passo do tempo
não é constante
nem fiel ao
milho seco do relógio
– ração ofertada,
de grão em grão, a um
pássaro invisível.

Serpente elástica,
o tempo se expande
e contrai como
corda de trapézio
circense
e arrasta o espaço
num laço dodecafônico.

Para Einstein
ao tempo se permite
uma dança,
e o espaço vai
passo a passo com ele.

Os dois parceiros,
num tango
cósmico, vibram
no desconcerto desse
trapézio-violino,
que os maestros nunca
saberão se está
dentro ou fora do tom.


Dentro do espectro da temática do tempo, não existem apenas o princípio de corrosão (tão utilizado por Drummond em sua poesia), espanto, desânimo de uma luta inglória e em vão, da desagregação e perda, mas também outros elementos como a alegria, o acaso, a memória. Sob, contudo, o espectro da lixa do tempo, a memória revela lembranças. Mas, curiosamente de maneira original, o poeta apresenta o passado e o acervo de recordações não de forma rememorativa da infância com lugares-comuns. Apresenta, sim, uma gama variada e única de memórias: “os sótãos / as fossas submarinas”, a cicatriz, o silêncio, “a lagartixa antiquíssima”, demonstrando mais uma vez o caráter idiossincrático da poesia de Carlos Machado: “tudo não passa de rara / penugem no braço da imaginação?”.
O tempo nos transforma em animais num petshop. “O tempo é nosso bicho de estimação”, afirma o poeta, para logo em seguida, corrigir: “nós é que somos seus artefatos de brinquedo”. E nessa dialética bem construída, num raciocínio lógico, mas sem perder a poeticidade, Carlos Machado erige seu pensamento de que somos, como no poema de Camões, “bichos da terra tão pequenos”. Mas aqui a diferença está em que somos “brinquedos orgânicos” para o desfrute de um grande e perverso deus, Cronos, que tudo pode, tudo corrompe e está tão ubíquo que dele não podemos fugir, presos a sua teia infinita.

A ironia e a leveza dos poemas enfeixados no subtítulo “Lições de assovio” mostram um poeta que sabe lidar tanto com temas profundos e considerados nobres quanto com expressões miúdas do cotidiano. Mas mesmo nos flashes da vida urbana, permanece o instinto investigatório da alma dos homens, da pequena insônia do dia a dia e dos destroços da existência. Em poemas curtos, em que Carlos Machado se serve do sense of humour tão machadiano quanto da melhor poesia brasileira das últimas décadas, a poesia aqui se apresenta como um espocar de novidade estilística e fixa um momento de grande surpresa. Veja-se o uso da ironia e o inesperado jocoso final deste poema:

Josué

se você estiver cansado
de si mesmo,
vá ao cartório civil
e troque seu nome para Josué

depois, com a nova certidão
no bolso, corra
desembestado pelas ruas
gritando: sol, para! sol, para!

isso não resolve sua dor
nem vai frear
o giro da terra, mas
propicia um belo espetáculo

Os assovios incluem também uma gama variada de sensações, angústias e percepções da realidade. Só um poeta com visão delicada e sensibilidade estética pode variar de tema, nesses “assovios” poemáticos, e lidar com apreensões que variam das luas e do passado, das cigarras, das frestas do escuro ou mesmo de um quadro de Hopper onde figuras desaparecem ou da estranha mulher de maio que “passa disfarçada de pedestre diante do Relógio de são Pedro e de todos os relógios”.

Sem ser paulistano ou baiano, poeta de espectro nacional, Carlos Machado ainda persegue o tempo do tempo que lhe é recorrente como no poema abaixo:
        
Baobá

Vontade de fazer
uma coisa grande
de futuro imenso:
plantar um pé
de jacarandá
um baobá
e deixá-lo aí
para beijar
a cumeeira
dos séculos,
zombar de tudo
que é breve
e que, como nós,
se consome
no atrito das
horas, na
vertigem
incontrolável
das coisas miúdas.

Mesmo que o próprio autor revele que neste livro utiliza-se menos de imagens, elas permanecem – para estesia do leitor – a contribuir à fertilização poética que não advém apenas de formulações emuladas pela disciplina da razão ou utilitarismos mecânicos, mas da prodigiosa imaginação e adequação entre objeto comparado e estímulos imagísticos.

Tema imemorial, o amor, suas venturas e desventuras, frequentam as páginas deste livro na sessão “Sete grãos de chumbo”, que, pelo título, o leitor logo perceberá que o poeta dele se encanta, mas o vê com reticência e algum peso, entre tantas variações de vivê-lo. O amor desnorteia, inflama, desconcerta, enlouquece, faz os amantes renunciarem ao mundo para viver na renúncia do espaço infinito do sentimento em que cabem apenas os dois. Contraditório, incandescente, pluma de chumbo, peso e leveza, encanto e desencanto, o poeta descarna o amor em suas vestes mais ilusórias e o expõe em sua nudez mais perversa: constrói e desconstrói a uma só vez.

A última parte do livro envereda pelo exercício da exegese da linguagem, de processo criativo e da existência per se da poesia. Carlos Machado debruça-se sobre o ato de escrever, a tentativa do poeta de se igualar ao caçador de coisas miúdas (“Relojoeiro, numismata / colecionador de conchas do mar / gastas o olho / e a alma / nesse ofício minúsculo.”), à pesquisa de palavras que nos fazem enxergar o mundo. O poeta é um criador de mundos. É por intermédio da palavra que a realidade existe e, como Octavio Paz apontou, além de todo poema arregimentar-se com sua mitologia pessoal, o poeta só entende a realidade se ela está filtrada pela palavra. E assim o poeta nomeia o mundo, numa descoberta constante da realidade e uma renomeação obsessiva das coisas que já existem e que o poeta insiste em rebatizá-la com suas metáforas e ali, no poema, na realidade poética, a realidade das palavras é mais realidade que aquela que pretensamente acreditamos ser o real empírico.

Carlos Machado, em sua metalinguagem, não vê a palavra – sustentáculo do poético – erigir-se em mito ou salvação. Sua visão – diga-se de passagem, é original, pois o comum é enaltecer o verbo como salvador e como antena da raça quem o utiliza – é de uma negação antes que afirmação de uma realidade que constrói e fornece outro mundo mágico onde o poeta poderia abrigar-se. Nesse sentido, o elenco de semas negativos se acumula: poço, solapa, destelha, devassa, osso, escalavra, avesso, náufrago etc. Desmitificador de sua profissão, seu ato de fé na redenção da palavra é invertido para um sofrimento – no sentido de ser o contrário de ativo, ou seja, o poeta sofre o desgaste e a maldição da palavra (“palavra que me fabricas / palavra que te fabrico / produto de minha lavra / sou eu que lavrado fico”) –, tornando-se o poeta vítima do instrumento que utiliza.

Gosto dessa maneira de Carlos Machado desfazer o mito da salvação pela palavra numa atitude religiosa que atravessou séculos e ainda persiste na maioria dos poetas vivos. Não que não se possa encontrar na linguagem a salvação última e exercitá-la em busca de humano conhecimento do mundo, mas é preciso ter coragem e também denunciar aos coetâneos que a palavra, antes de tudo, é perigosa e pode machucar antes que curar quem a utiliza com engenho e arte, com destreza e lucidez, com perícia e perquirição, que pertencem todos à esfera do repertório do mágico e do poeta Carlos Machado.


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A deusa, poesia Ana Maria Lopes


Another great painting by Rafal Olbinski


Quando deus adormeceu
ela tomou conta de tudo 
Deusa para todo serviço 
lava, passa, cozinha, 
dá referência

Enquanto ela ordena o mundo 
cuida do código camponês 
e traduz o chão,
o mar começa a ser mar 
dentro dela 

Úmida para servir, ela fala com peixes 
brotam-lhe escamas 
Na cama vê o dia aparecer 
sem projeto ou esboço 

Para ela a vida se desenha 
naquilo que se chama 
fundo do poço



(da antologia Mulherio das letras, 2017)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Nadar quando se voa, poema RCF

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Um pequeno ser – vespa
ou algo parecido – bate
asas no ar pesado da água.
O ser alado não entende
como seu habitat  se tornou
denso e líquido
e que voa na horizontal,
sem fôlego, à beira da exaustão.
Nunca imaginou que existir
exigisse tamanho esforço
e aquilo que era fluido e gasoso
passou a ser um tormento aquoso.
Retirado da água,
longe do pesadelo molhado
esquece que um dia esteve
preso a sua própria precariedade
e que nadou numa piscina
como um peixe que voasse.
A vespa nos lembra
que, como uma gravidez de pânico,
às vezes esquecemos a dor do parto
de nadar quando se deveria voar
ou voar quando nadar é preciso.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Clara dos Anjos, Lima Barreto



por Adelto Gonçalves




Não se pode dizer que a reedição de Clara dos Anjos, de Lima Barreto (1881-1922), que narra as desventuras de uma adolescente pobre e mulata, filha de um carteiro, seduzida por um malandro branco, apesar das cautelas familiares, seja uma boa oportunidade para se reavaliar o conceito emitido por antigos críticos segundo o qual este romance que não estaria à altura da melhor produção de seu autor. Não está mesmo. Se não constitui um romance de todo falhado, a verdade é que, se comparado com os de Machado de Assis (1839-1908), cujas origens sociais são idênticas às de Lima Barreto, este livro deixa a desejar em alguns aspectos, inclusive, em certa pobreza vocabular, ainda que seja fundamental conhecê-lo para se entender a grandeza de toda a obra do autor.


Publicado postumamente em folhetim entre 1923 e 1924 e em livro em 1948, Clara dos Anjos, provavelmente, ainda passaria várias vezes pela lima horaciana de Lima Barreto, não tivesse o autor uma vida tão breve e interrompida aos 41 anos de idade por um colapso cardíaco depois de impiedosamente minada pelo alcoolismo. Fosse como fosse, o certo é que a trajetória de uma mulata jovem moradora nos subúrbios do Rio de Janeiro do começo do século XX foi uma ideia que perseguiu Lima Barreto desde cedo, exatamente desde 1904, quando começou a tentar colocar em pé o esqueleto desse romance. Levou quase vinte anos nessa luta e, quando morreu, ainda estaria às voltas com o romance.

De fato, a obra traz algumas descrições que, mesmo hoje, quando o Rio de Janeiro está totalmente desfigurado em relação ao que era há um século, graças às picaretas de uma falsa modernidade que não respeita nada e só leva em conta os lucros das construtoras e incorporadoras que seguem sempre montadas à ignorância cavalar dos governantes, seriam perfeitamente dispensáveis, pois tiram um pouco o ritmo da trama. Uma trama cujo desfecho está anunciado desde as primeiras páginas: a de que a jovem mulata haveria de sucumbir à lábia do malandro carioca suburbano, de nome Cassi Jones, entregando-se a ele para, logo em seguida, ser rejeitada. E condenada a criar um filho sem pai.

Já o sedutor Cassi é pintado com tintas pouco carregadas. Contra ele, vê-se apenas que é um incorrigível galanteador de donzelas pobres, mas, ao contrário de outras personagens, não é dado ao vício da bebida. De pele sardenta e cabelos claros, pouco afeito ao trabalho, Cassi serviria hoje mais para compor um personagem comum na cena política brasileira: o malandrão de poucos estudos que, graças à lábia, sabe como convencer amigos, conhecidos e até multidões para, assim, galgar espaço na vida sem muito esforço. São tipos comuns hoje no sindicalismo e nos partidos políticos.

II

Apesar de tudo o que se escreveu aqui, é claro que Clara dos Anjos constitui um texto-chave para se entender a obra do criador de Triste fim de Policarpo Quarema, autor de cabeceira e inspirador de outro escritor que procurou retratar a vida dos proletários e marginais que habitam as periferias das grandes cidades brasileiras, João Antonio (1937-1996). Além disso, esta nova edição pela Companhia das Letras traz notas explicativas a cargo de Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino, que se tornam fundamentais para a compreensão de alguns trechos e para a localização de determinados logradouros que no Rio de Janeiro desfigurado de hoje já não existem.

Sem contar que os editores tiveram o bom senso de reproduzir a introdução escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), publicada originalmente na edição de Clara dos Anjos de 1948 pela editora Mérito, e o prefácio de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), que saiu na edição de 1956 preparada pela editora Brasiliense. E ainda encomendar uma apresentação à crítica literária Beatriz Resende, professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro e especialista na obra de Lima Barreto, que não só elucida muitas passagens do romance e aspectos da escrita do autor como traça um panorama do que foi a rejeição sofrida pelo romancista/jornalista a uma época em que o Brasil vivia um regime de apartheid disfarçado.

Apartheid, aliás, que pôde ser superado por alguns poucos afrodescendentes que não só tiveram engenho para adquirir fortuna e prestígio social como por aqueles que souberam ascender socialmente por meio da aquisição de cultura e conhecimento. Entre esses, podemos citar não só Machado de Assis, que procurou seguir caminho inverso de Lima Barreto, saindo do morro do Livramento para viver em bairros de classe média e abastada, depois de conquistada uma boa posição na burocracia estatal, como ainda pelo menos dois presidentes da República, Campos Sales (1841-1913) e Nilo Peçanha (1867-1924), ambos com visíveis traços fenótipos de descendência africana. Todos, obviamente, graças à riqueza familiar e ao prestígio social, tornaram-se “homens invisíveis”, para se citar aqui Invisible Man (1952), romance do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).

É de lembrar que, no Brasil, o dinheiro sempre teve o poder de “embranquecer” pessoas que, quando bem postas na vida, sempre tratavam de “esquecer” as origens. Ainda na década de 1980 – não faz tanto tempo assim... –, alguns senadores e deputados fugiam de qualquer reportagem que pretendesse fazer alguma referência a suas origens raciais. Bem situados no poder, o que menos queriam lembrar era que carregavam sangue africano ou indígena nas veias.

III

Não foi o caso de Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido no Rio de Janeiro, filho do tipógrafo João Henriques e da professora Amália Augusta, ambos mulatos. Seu padrinho era o visconde de Ouro Preto, senador do Império. A mãe, escrava liberta, morreu precocemente, quando ele tinha seis anos. As marcas desse período da história brasileira, que inclui a abolição da escravatura em 1888, sempre ocuparam o centro da obra literária de Lima Barreto, que procurou denunciar o preconceito racial e a difícil inserção de negros e mulatos na sociedade brasileira.

Lima Barreto sempre preferiu o subúrbio, o “refúgio dos infelizes”, território que passara a abrigar “os que perderam o emprego, as fortunas, os que faliram nos negócios”. Mas, ao contrário do pobre que só entraria triunfalmente no romance brasileiro na década de 1930 cheio de solidariedade com o próximo – inspirado pelas idéias socialistas e comunistas –, os pobres de Lima Barreto são “feios, sujos e malvados”, para lembrar aqui um filme de Ettore Scola.

Nada solidário, quem é um pouco mais branco já olha o mais escuro com desdém. A família cujo patriarca – geralmente, funcionário público – ganha um pouco mais já encontra motivos para menosprezar aquela que vive em maiores dificuldades. A família de Cassi, por exemplo, fazia questão de se mostrar superior às demais no subúrbio porque teria tido um ascendente importante. Isso era comum no Brasil: não havia família de descendentes de portugueses que, ao enriquecer, não tratasse de recorrer à arte da heráldica. Mais tarde, quando um dos rebentos ia a Portugal em busca de terras e brasões, geralmente, descobria que pais, avós ou bisavós nunca passaram de aldeões que se haviam atirado ao mar para escapar da pobreza.

Diz Sérgio Buarque de Holanda que Lima Barreto nunca conseguiu reunir forças para vencer, “ou sutilezas para esconder, à maneira de Machado, o estigma que o humilhava”. Pelo contrário. Em seus contos, romances e artigos de jornal ou revista, há vários exemplos de críticas ao comportamento larvar de alguns mestiços diante de brancos.

Diante disso, não foi à toa que Lima Barreto também encontrou obstáculos quando tentou ascender na república literária, ainda que a casa principal que abrigava a intelectualidade da época tivesse sido fundada exatamente por Machado de Assis. Intelectual versado em Humanidades, que por pouco não se formara engenheiro – a loucura que acometeria o seu pai o obrigaria a ganhar o sustento para a família –, Lima Barreto procurou por mais de uma vez alcançar o reconhecimento de seu talento por aquela sociedade ainda escravocrata no pensamento, ao candidatar-se sem êxito a uma vaga na Academia Brasileira de Letras.

Ainda no prefácio de 1956, Sérgio Buarque de Holanda recorda uma observação de Astrojildo Pereira (1890-1965) segundo a qual Lima Barreto pertenceria à categoria dos “romancistas que mais se confessam”, isto é, daqueles que menos se escondem e menos se dissimulam. É o que se constata também nos registros de seu Diário íntimo, iniciado em 1900, que reúne impressões sobre a vida urbana do Rio de Janeiro.

IV

Lima Barreto começou sua colaboração mais regular na imprensa em 1905, quando escreveu reportagens publicadas no Correio da Manhã, sobre a demolição do Morro do Castelo, no centro do Rio, consideradas um dos marcos inaugurais do jornalismo literário brasileiro. Dele são ainda os romances Recordações do escrivão Isaías Caminha e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá.

O primeiro saiu em folhetim na revista Floreal, em 1907, e em livro em 1909 e o segundo seria publicado apenas em 1919. No primeiro romance, o jornal Correio da Manhã e seu diretor de redação são retratados de maneira impiedosa, ao que parece como uma espécie de vingança por seu autor ter sido maltratado. Provavelmente, Lima Barreto teria recebido como pagamento um salário tão miserável que não daria sequer para pagar uma dose diária de parati. Teve, então, seu nome proscrito na grande imprensa carioca.

O escritor publicou ainda crônicas, contos e peças satíricas em veículos como o Diabo, Revista da Época, Fon-Fon, Careta, Brás Cubas, O Malho e Correio da Noite. Colaborou também com o ABC, periódico de orientação marxista e revolucionária. Em 1911, escreveu e publicou Triste fim de Policarpo Quaresma em folhetim do Jornal do Commercio. Levando-se em conta a precariedade dos jornais e revistas da época, é de imaginar que escrevesse apenas pelo prazer da polêmica ou pelo fascínio da letra impressa. Afinal, se nos dias de hoje a grande imprensa costuma não pagar nada aos seus articulistas-colaboradores, só um tolo poderia imaginar que há cem anos teria sido diferente.

Publicou ainda Numa e ninfa (1915) e Histórias e sonhos (1920). Postumamente saíram Os bruzundangas e as crônicas de Bagatelas e mafuás.

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CLARA DOS ANJOS, de Lima Barreto, com apresentação de Beatriz Resende, introdução de Lúcia Miguel Pereira, prefácio de Sérgio Buarque de Holanda e notas de Lilia Moritz Schwarcz e Pedro Galdino. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2012, 304 págs., R$ 26,00. Site: www.companhiadasletras.com.br

___________________

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

As palavras interditas, Eugênio de Andrade





Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te... E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.




           De As Palavras Interditas (1951)




domingo, 22 de outubro de 2017

Poema sobre cheiro, RCF




Naquelas tardes neutras
cheiravas a navio.
Cabelos invadiam o voo dos ventos
e se faziam asas
que em vez de pena
usavam fios sonoros e socorros de cabelo.

Se tu fosses uma morta,
mesmo com a fetidez da morte,
ainda seria um odor vital.
O morto não tem narinas,
não pode respirar o fim.
O teu cheiro é vontade de ser carne.
O teu cheiro – vapor –
é um dos estados da carne.

Meu cheiro tem lembranças
de outros cheiros teus.
Nada mais sugestivo
que o olor do canto
– o canto, por sua vez,
traz teu cheiro em forma de som.

Gostaria de ter um armário de cheiros
– não o armário de cheiros
dos perfumes que são bibliotecas
de cheiros – mas a estante
guardada dos mínimos anos.
Lá poderia me apropriar
do raso, do fluido,
do inexato, de ti.
Meu cheiro tem vários sentidos.



(do livro A máquina das mãos, 2009, prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras 2010)


(imagem internet: di cavalcanti)