sábado, 18 de novembro de 2017

Edificação da memória, poema RCF





Edificação da memória
o rés do chão do presente,
terra de chão batido,
solo gretado dos dias sem varanda,

                      o fero campo que de batalha
                      tem a foice e a enxada
                      o canto agrário do corte
                      no ritmado amansar da cana
                      no navegar nos campos vegetais
                      do trigo, do algodão e dos girassóis.


(imagem retirada da internet: wiki commons)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

O berrante, poema RCF


Resultado de imagem para o berrante


Na estrada ouve-se o berrante
mugindo seu corno de vaca
na maré da grama
trazendo dentro de si
a manada
como a concha traz o mar
no seu bucho de coral.

Berra o berrante
longo e triste
enquanto o boi,
berrante vivo,
caminha para sua sorte
como o homem que, cedo,
levanta-se para o dia.

Berra o berrante
na alma inquieta
dos vaqueiros
que lembram o choro denso
da manada dos homens
perdidos no descampado.

Berra o berrante,
o correio das notas graves,
um féretro de boi
que se enterra ao ar livre,
a própria carcaça servindo
de caixão.

Vai o homem, passa o boi,
vem o cavalo, late o cão,
vai escurecer nos ouvidos retorcidos
– o homem, como os bois,
se rendem à corneta de chifre,
é o lamento da vida
que flui na cornucópia de osso.

De osso é a alma do vaqueiro
– findo o ato do berrante
continua ele a ouvir
o brado silente
do mugido
como a cana na moenda.

Para quem muge o berrante
na ausência de boi e de manada?
O berrante na estrada
é farol de sons,
espectros de notas.
Ao fim do dia,
silenciado o berrante,
continua o som contínuo
a reverberar nos ouvidos
porque o berrante
antes que chamar o gado
anuncia na alma do homem
a noite densa que desaba
feito uma vaca na vala.

O berrante é o berro do homem
que ficou lá dentro preso
e pela goela e pelo chifre torto
é expulso como vômito,
quer fazer do avesso o homem.



(do livro Terrratreme, Brasília, Fundação Cultural do Distrito Federal, edição limitada, 1998)

imagem retirada da internet: luareberrante

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Fiesta con salsa y sinfonía, poema RCF



Resultado de imagem para can dagarslani



Na recepção da Embaixada do Brasil,
estava el maestro Antonio Estévez
sentado en su silla, em Caracas, Venezuela,
porque precisava de pernas de pau
já que suas duas de carne
não lhe davam sustento e batuta.
Não podia caminhar el maestro
y se quedaba sólo sem que ninguém
com ele formasse dueto de conversa e outro som
que não fosse a música que nascia e morria em seus ouvidos.
Antonio, o Villa-Lobos de seu país,
era apenas um compositor sem poder
além de seus concertos.
E o Villa-Lobos venezuelano,
porque no tenia poder,
casi ciego en su vejez
ali ficou escondido do alarido
dos copos e brindes sem harmonia,
preso a sua música, a su silla prisioneira
alheia à noite, à maquiagem dos sorrisos
absorto em sua morte prematura,
segurando sua bengala à frente
como se fosse um leme ou guidão
ou cão espigado à espera que o dono deixasse
la silla y la fiesta e mergulhasse em seu mundo,
a caixa de música que era seu cérebro.

Olhei Antonio Estévez ,
el mago de la música,
y su cuerpo sudaba melodia.
Era meia-noite e a algaravia de chimbos
não deixava que se ouvisse
o som que do corpo partia
como a chama foge do fósforo.
Pensei no poder, na música, na velhice,
na solidão, na bengala e me ocorreu
que um homem passa muitos anos sentado
numa cadeira de cinco patas,
numa festa que o ignora
e só ouve palavras, cego e sem poder,
uma forma de desterro
em que se senta o exilado.



(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)




quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Beira-mar, poema RCF





Resultado de imagem para can dagarslani



O menino olha extasiado a maré encolher-se.
O que era água agora é lamaçal cinza
e os homens bonecos de barro sem pernas
caranguejam atrás de sua imagem e semelhança
– e alguma lata de conserva
que se finge de baiacu de alumínio.
O menino vê o Rio Anil ser engolido pela maré.
Para onde foi tanta água?
O menino também é uma maré vazia perplexidade
vento soprando mangue maré vagueza.
O mangue esponja em seu bolo fecal.
Tarde, tarde, o menino olha a tarde,
o fenômeno é reversível,
maré retrátil,
ele sabe que, como a vida,
amanhã voltará a acontecer.



(do livro Eterno passageiro. Brasília: Varanda, 2004)

terça-feira, 14 de novembro de 2017

As palafitas, poema RCF






O bisturi do rio rasga a carne da terra
e, assim, retorcida e cirúrgica, a floresta
deixa à mostra a veia exposta.

O rio é um mar com margens,
obsessivo e operoso,
sempre com falo ereto e fértil,
quando não defeca as impurezas industriais,
que se rabisca nos papéis da terra,
e vai cuspindo gente ribeirinha.

No campo amazônico,
as casas de varandas arregaçadas
molham as canelas na água.
Veneza selvagem, de palacetes de madeira,
renascimento de instintos insopitáveis.

O silêncio da mata
pia e borda
à beira amazônica das águas.
A água está dentro dos homens
com seus naufrágios. Um dia
a morte virá - colapso - e o
legista assinará: afogado de si mesmo.

A palafita, em meio à selva,
é um bicho de madeira:
tem vértebras das paredes,
tem respiração pelos brônquios das janelas,
excreta pelas fossas do quintal.

Morto o bicho de pernas finas,
seu oco desabitado de entranhas
torna-se hospedeiro do micróbio homem
que ali secreta seus humores
e a palafita, bicho anfíbio,
passa a ser transmissor
das pequenas misérias humanas.



(Terratreme. Brasília: Fundação Cultural do DF, 1998)
 
imagem retirada da internet: rio amazonas, denise barsted


segunda-feira, 13 de novembro de 2017

O Cachorro e os Cães, conto de Jádson Barros Neves





De tarde, sentados no tronco de uma castanheira caída, três homens conversavam na clareira brilhante e silenciosa. Deitado na rede, no canto mais sombrio da palhoça, Severino contemplava-os em silêncio.

Depois, a velhinha enquadrou-se na porta, um vulto ligeiro e escuro como um rato, que logo sumiu para outra parte da cabana. Ela revolveu o borralho e retirou a banana com casca de cima das brasas. Em seguida, soprou as cinzas, pôs gravetos e lenha e despejou álcool. A madeira crepitou, o fogo explodiu, e Severino pensou que fosse incendiar as palhas.

O leite de pinhão-bravo fechara-lhe a ferida, e, mesmo inchada, a perna esquerda já lhe permitia algum movimento. “Sorte sua não ter acertado um osso ou o joelho...” ralhava a mulher, enquanto trocava a atadura. Uma rajada de metralhadora, girada em meia-lua – o cortar sibilante das balas que desapareceriam na mata –, deixando um homem morto e cinco em fuga.

Quando a velha saiu, Severino voltou a olhar para fora, mas não viu mais os três homens. Atrás do acampamento deserto, a floresta escurecia. Severino fechou os olhos e tentou adormecer. Depois de algum tempo, a velhinha reapareceu. Ela fazia tudo com desvelo, causando nele a impressão de sempre deixar desaparecidos seus passos órfãos e miúdos. Entregou a Severino o mastruço na garrafa e as ataduras.

Quando a sombra oblíqua das árvores já avançava pela clareira, apareceu um homem trazendo comida e água, que deixou perto da rede. Era alto, barbudo, de pele trigueira. Severino vira-o algumas vezes, comprando nos armazéns de secos e molhados.

– Os últimos partiram hoje. Vamos voltar para a cidade e ficar quietos por uns tempos. Amanhã cedo, alguns companheiros vêm buscar você, e você vai para outro acampamento. Levo sua cartucheira e estou deixando minha carabina e uma caixa de munição.

– Tudo bem – disse Severino, acomodando-se na rede.

– Camuflamos trabucos em toda a área de acesso à clareira. Protegemos as espoletas com cera de abelha, para não molharem ao sereno. Quem tocar as linhas de cobre vai levar tiro. Se algum crefo disparar, saia daqui e desça até o rio. Lá, você encontra uma canoa com motor, se precisar fugir.

– E Nuta?

– Contam que está preso, mas não sabemos se é verdade... Agora estão procurando por nós. Acham que você lhes preparou uma cilada. Somente ontem à tarde enviaram um pelotão para buscar o cadáver do policial. Hoje, mandamos as mulheres e as crianças para a cidade.– Estendeu a mão para Severino. – Até amanhã, companheiro. Procure se cuidar.

Quando o homem saiu, Severino ficou ouvindo o ruído cuidadoso das botinas que se afastavam, como o pisado macio de um animal nas folhas. Longe, alguém assobiou, e um longo assobio respondeu das imediações da palhoça. Em seguida, mais dois ou três assobios repetiram-se, como numa ressonância de espelhos, e então silenciaram.

A noite subiu pelo retângulo da porta, até escurecê-la, suavizando as árvores e as barracas ainda cobertas de lona plástica. Nos dias anteriores, Severino observara uma mulher muito jovem amamentar uma criança. A cabana dele era coberta com palmas de açaí, e estava enfiada na floresta, sob árvores enormes, perto da clareira.

Aproveitou a última claridade para atar a rede num local seguro. O homem tinha-lhe deixado uma lanterna, fumo, palha de cigarro e óleo de cozinha contra os mosquitos. Severino esticou-se na rede, ouvindo os últimos piados dos jaós. Depois, encostou a espingarda e a lanterna ao lado da perna doente, e ficou ouvindo o ruído da própria respiração, tentando adormecer.

A culpa de tudo era de Nuta, de sua mania de falar às gargalhadas, abrindo o bigode feito asas e encolhendo as perninhas sobre a cadeira. Contava qualquer fato como se fosse para todo mundo ouvir. Na tarde de terça-feira, ele andara bebendo na zona e tinha revelado que sabia onde os posseiros estavam. Sabia, disse, porque Severino tinha dito.

Na quarta-feira, depois do jantar, Nuta apareceu na casa de Severino, acompanhado por um sargento e por dois policiais à paisana. Foi logo anunciando quem levaria os policiais ao acampamento: não ele, Nuta, com a mulher acamada pela malária. Severino explicou que os acampamentos sempre mudavam de lugar. Era difícil achá-los. Existia muito boato, isso sim. Mas o sargento foi falando com calma, dizendo que Severino era o melhor batedor dali, conhecia cada palmo da selva próxima, era o único que poderia ajudá-los. E ainda lhe contou sobre uma recompensa oferecida pelos fazendeiros.

“Então até amanhã”, disse-lhe o homem. “Mas sua resposta é sim”, acrescentou em tom peremptório. “Tem de ser sim...”

Na manhã seguinte, apareceram dois policiais. Com eles, um velho conhecido de Severino, um rapaz de traços indiáticos, que da noite para o dia surgiu fardado na cidade, pondo ordem nos bordéis. Houve uma época em que ele e Severino caçavam juntos: faziam varridas para os bichos andarem na floresta ou armavam cartucheiras nos carreiros por onde passavam caças. Depois, o rapaz tornou-se policial, e então os dois se afastaram. Severino possuía um bar, onde também comprava ouro. Nessa manhã, ele o rapaz se falaram novamente.

“Um dinheirinho a mais não faz mal. Você não acha?” o rapaz comentou.

“Talvez ajude na época das chuvas, quando fecham os garimpos”. E Severino sorriu amargo, olhando a serra azulada pela distância.

“Então amanhã cedo, senhor Severino?”

“Sim, podem passar amanhã”.

Nuta apareceu de tarde com outra conversa. Dessa vez conservou o bigode sossegado e as pernas gambitas quietas, e contou sobre a bifurcação do caminho.

Severino derretia ouro em pó, inclinado sobre o prato de aço, e balançou o maçarico aceso perto do rosto de Nuta:

– Você, você, sempre me deixando em apuros... Não se pode falar nada, que logo espalha para o mundo inteiro.

Esperou que o ouro esfriasse até solidificar. Em seguida, guardou a pepita junto com outras, num bauzinho de madeira.

– Eu vim contar sobre a bifurcação dos caminhos – defendeu-se Nuta.– Na selva, o caminho se abre em dois. Pegue a trilha da direita e se atrase, deixe os polícias seguirem na frente. Quando passarem pela primeira castanheira, à direita, conte até cem passos, aí corra e se enfie no mato.

– Por que tudo isso agora, Nuta?

– Porque se você usar a trilha da esquerda vai levar até as crianças e as mulheres. São dois acampamentos. Num, estão os homens; no outro, as mulheres com as crianças. Imagine cinco ou seis policiais com metralhadoras e fuzis invadindo um acampamento onde só há crianças e mulheres...

– E o que vai acontecer depois?

– Nem me pergunte. Apenas corra e não olhe para trás. Agora está entendendo por que contei que somente você poderia levar eles até o acampamento? Eu não daria conta de correr...

Quando Nuta saiu, Severino varreu o bar e escondeu o bauzinho dentro de uma caixa de sapatos debaixo da cama. Parecia um animal, andando nas sombras do anoitecer. Era um homem baixo, de pele curtida pelo sol, cabelo cor de madrugada, e tinha uns olhos de gato que pareciam enxergar no escuro.

Dormiu um sono breve e agitado.

De manhã, bem cedo, já o esperavam. Eram seis homens. Traziam fuzis, e um deles carregava uma metralhadora. Severino subiu na carroceria da camioneta, onde já estavam quatro policiais. Os outros dois iam dentro da cabine, com o motorista.

Até perto do meio-dia, o veículo rodou velozmente pela estrada de piçarra. Para trás, ficavam as volutas de poeira vermelha. Os homens da carroceria viajavam cabisbaixos, procurando proteger-se do vento e do pó.

À medida que se aproximavam da fazenda, as árvores ficavam maiores. A certa altura, o veículo saiu da estrada principal e ganhou uma estradinha semelhante a dois caminhos paralelos. Não demoraram a chegar à fazenda. O capataz veio recebê-los, e Severino ouviu-o comentar com um dos policiais algo sobre o desaparecimento de reses. Almoçaram e, em seguida, continuaram a pé.

“Agora a coisa é com a gente, senhor Severino. A gente e o seu faro de vira-lata”.

Seguiram ao largo do pasto, que de tão extenso não mostrava a outra margem. Havia bois brancos pastando. Às vezes, erguiam a cabeça de dentro do capim e ruminavam os passantes nos olhos úmidos. Severino caminhava na frente, mantendo a cartucheira com o cano voltado para baixo. Os policiais contavam lorotas, divertiam-se com prisões de bêbados e putas. “Temos de deixar o xadrez com algumas cabeças, senão ficamos sem o que fazer.”

Após uma hora de caminhada, estavam diante da selva. Descansaram um pouco. Os policiais se detiveram, antes de retomar a marcha, olhando as árvores seculares, gigantescas, sufocadas por cipós. Ouviram gritos de animais desconhecidos.

“São apenas macacos guaribas”, disse Severino.

A picada fora aberta recentemente. Agora não se via mais o sol, e a luz descia filtrada pelas folhas. Mais tarde, chegaram ao local indicado por Nuta. Severino fingiu indecisão, mas entrou no caminho da direita. Iniciou, então, seu andar caranguejo: caminhava de lado, com o rosto voltado para cima, como se procurasse algo nas árvores, fazendo dois passos avançados terminarem num recuo. Mantinha, assim, o olhar vigilante e, ao passar pela castanheira, havia feito com que os policiais se dividissem em duas filas de três homens. Ele andava entre os dois últimos.

Colocando-se como o último da fila, pulou para dentro da mata. Correu, sem se voltar, descendo o morro, levando no peito ramagens e flores silvestres, junto com o ar das quatro da tarde de sexta-feira. Sentiu o impacto na perna esquerda, ao mesmo tempo em que ouvia as rajadas da metralhadora, e só depois notou o sangue e começou a sentir dor. Caiu, mas continuou rolando morro abaixo, até ser detido por um tronco meio podre. Pulou para trás dele e ficou deitado, olhando.

Viu os policiais se abaixando, atirando em todas as direções. Manteve o olhar cravado neles e conseguiu perceber quando, após rodar a esmo outra rajada, o rapaz da metralhadora foi erguido do solo por um instante alucinatório, suspenso pela explosão de uma espingarda, que o jogou com força e morte ao chão.

Os tiros vinham de trás das árvores – de mãos invisíveis, para os policiais espantados, que só não morreram porque recuaram. Depois de um demorado silêncio, Severino levantou-se, sacudindo o barro do corpo. Demorou a ver os vultos silenciosos que saíam da tocaia. Aos poucos, um homem surgia de uma moita, outro deixava o tronco de uma árvore ou a proteção de uma pedra.

– Você deve vir com a gente até o acampamento.

– Não sei se consigo andar direito. Acertaram minha perna.

Improvisaram uma maca, com taquaras e cipós. Dois homens o carregaram por quase meia hora, através de caminhos secretos na mata cerrada. Depois, saíram da floresta e entraram no acampamento sob as longas sombras das árvores e pontilhado de barracas. Foi quando deixaram Severino na palhoça, aos cuidados da velhinha.

Colocou a lanterna entre as pernas, o facho de luz dirigido somente para a rede, embora fosse um cuidado desnecessário, pois ali ninguém perceberia claridade alguma. Iluminou a carabina e achou bonita a coronha cor de acaju. Em seguida, abriu uma folhinha de papel, espalhou nela o fumo e enrolou o cigarro. Apagou a lanterna e ficou fumando no escuro. Um mucura entrou na palhoça e comeu o resto de comida. Severino acompanhou com os ouvidos os movimentos invisíveis do animal. Depois, fechou os olhos.

À noite, qualquer ruído torna-se imenso na selva. Ali, a floresta era de vegetação rasteira sob árvores copadas, muito altas, por onde a luz do dia mal entrava. O solo estava coberto de folhas, e escutava-se nelas o barulho dos bichos vagando. Às vezes, os ratos-saruês lançavam seu grito estridente, que repercutia como agulha que penetrasse a carne. Boa parte do tempo transcorreu assim: Severino tirava um cochilo, mas logo era despertado pelo ruído de algum animal nas proximidades.

De madrugada, porém, sentia-se descansado. Trocou a atadura, bebeu um gole do mastruço e fez outro cigarro. Se entrava um bicho buscando alimento, ele o iluminava, apenas para ver os olhos brilhantes sob a luz. Um gato maracajá esteve miando perto da cabana, em alguma árvore, e depois Severino ouviu também o rugido de uma onça. Então o silêncio saiu de seu canto e cobriu como uma névoa toda a redondeza. A onça rugiu ainda várias vezes, ela estava distante, e Severino não sentia medo.

Desejou estar na cidade, deitado com alguma puta ou simplesmente fumando tranquilo, como fazia agora, olhando a cada tragada a ponta vermelha do cigarro de palha. Também sentia saudade de bebida. Sabia que tudo que deixara estaria destruído ou fora roubado. A essa altura, nada mais restaria do bar. Tinha uma boa soma em ouro, guardada fazia vários anos, para montar um negócio melhor. Apenas a Nuta, seu compadre, mostrara as pepitas. Teria de recomeçar em algum acampamento, ou buscar um garimpo clandestino numa fazenda qualquer.

Conhecia o preâmbulo do amanhecer na mata. E aconteceu que o último saruê se calou em alguma toca, e Severino ouviu depois o canto dos mutuns. Duas ou três aves escondiam-se em alguma árvore fechada. Era assim que se protegiam. Às vezes, durante as caçadas, ouvia-as ao anoitecer ou somente na aurora. Pelo gemido dessas aves e o canto dos primeiros pássaros, sabia que já estava amanhecendo.

Fumou outro cigarro, movendo-se cuidadosamente na rede. Depois, ficou vigiando a entrada da cabana. Não o veriam, deitado na rede armada no outro canto, quase ao lado da parede, pois dentro da barraca ainda estava bastante escuro. Atiraria em qualquer sombra que aparecesse ao redor. Longe, na clareira agora acinzentada, havia um veado mateiro, imóvel. Daquela distância, conseguiria acertá-lo tranquilamente, pensava.

Os policiais deviam ter dormido por perto. Mas depois do que acontecera, só iriam procurá-lo à luz do dia. Não tinham instinto, a não ser se fossem orientados por um bom guia, como ele ou o compadre. Nuta nascera numa cidade ribeirinha, cercada pela selva. Conhecia o lugar como poucos. Antes de vir para o garimpo, vivera como seringueiro. Todo mundo conhecia-lhe a fama de bom guia, mas também a de bebedor, de forma que poucos se arriscavam a contratá-lo.

Severino pensava nisso, quando ouviu o disparo seco de um trabuco. Sentou-se na rede, a carabina na mão esquerda, os olhos mastigando a porta. Calçou as botinas e preparou-se para descer. Escutou mais um estampido e, logo em seguida, outro. Ouviu os pisados inconfundíveis das botas militares quebrando galhos, torcendo as folhas, afundando-se na terra macia. Saltou da rede, apoiando o peso do corpo na perna direita. Permaneceu agachado, atento aos mínimos ruídos, e buscando descobrir de onde vinham os homens.

Enfiou-se entre as palhas, sem barulho, e foi-se arrastando para trás. Parou apenas quando se achava numa distância segura. Então descobriu cinco homens cercando a palhoça. Afastou-se um pouco mais, e os viu atearem fogo às palhas. De onde se abrigava, atrás de um tronco, podia vê-los bem.

Observava os cinco homens de uniforme verde-oliva que olhavam o fogo consumir a cabana, quando apareceu entre eles uma figura pequena, vestida apenas de camisa e calção, que, pelo modo de se mover, agitar os braços e olhar para o solo, não deixava dúvidas. “Maldito cavalinho-do-diabo!” teve vontade de gritar. Apoiou o cotovelo no tronco, segurando a parte inferior da carabina com a mão esquerda espalmada para cima, a coronha apoiada no ombro, e o olho fazendo mira, medindo a distância, com o indicador direito no gatilho. Se ameaçassem descer a ladeira, ele acertaria primeiro em Nuta, seu compadre. Daquela distância e com arma tão boa, não erraria: disso tinha certeza.



(imagem retirada da internet: Tomas Kaspar)

Jádson Barros Neves, entre outros concursos de que participou, foi o vencedor do 2º lugar do Concurso Internacional de Contos Guimarães Rosa, promovido pela Radio France Internationale/Paris em 2000 (Prêmio Maison de l’Amérique Latine); vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003; vencedor do prêmio Felippe D’Oliveira, em 2001, vencedor do prêmio Cidade de Fortaleza/2003, vencedor do prêmio Domingos Olímpio/2004; em 2008, vencedor do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, na categoria livro de contos e, em 2011, vencedor do Concurso de Contos Ignacio de Loyola Brandão, tendo outros dois contos classificados como menção honrosa.



domingo, 12 de novembro de 2017

Tu, de Mário de Andrade



Resultado de imagem para são paulo início sec xx

Morrente chama esgalga,
mais morta inda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
e de longe em longe uma chávena da treva bem forte!

Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das torres de São Bento!
Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,
toda insultos nos olhos,
toda convites nessa boca louca de rubores!

Costureirinha de São Paulo,
ítalo-franco-luso-brasílico-saxônica,
gosto dos teus ardores crepusculares,
crepusculares e por isso mais ardentes, bandeirantemente!

Lady Macbeth feita de névoa fina,
pura neblina da manhã!
Mulher que és minha madrasta e minha irmã!
Trituração ascensional dos meus sentidos!
Risco de aeroplano entre Moji e Paris!
Pura neblina da manhã!

Gosto dos teus desejos de crime turco
e das tuas ambições retorcidas como- roubos!
Amo-te de pesadelos taciturnos,
Materialização da Canaã do meu Poe!
Never more!

Emílio de Meneses insultou a memória do meu Poe. . .
Oh! Incendiaria dos meus aléns sonoros!
tu és o meu gato preto!
Tu te esmagaste nas paredes do meu sonho!
este sonho medonho! . . .

E serás sempre, morrente chama esgalga,
meio fidalga, meio barregã,
as alucinações crucificantes
de todas as auroras de meu jardim!

Cineterra, poema RCF







Tiros de celulóide,
blushes de martírios,
na tela a terra - ocre - explode granadina
e surge a esfinge
- medusa a 24 quadros por segundo -
                     México Insurgente

e desafia:
assiste-me ou te devoro.



(imagem retirada da internet: filme México Insurgente)

Macunaíma, cap. de A ideologia do personagem brasileiro



(trecho do livro A ideologia do personagem brasileiro, Ed. UnB, 2007, 6° capítulo)

         Mário de Andrade escreveu Macunaíma em apenas seis dias na chácara Pio Lourenço, na cidade de Araraquara, interior de São Paulo. Escreveu de forma divertida, brincalhona e, aparentemente, despretensiosa. Mais tarde, ao elaborar o prefácio do livro é que Mário tentará organizar uma poética do romance. Mário recolherá do livro de Koch-Grünberg, Vom Roraima zum Orinoco,  alguns mitos amazônicos, comuns aos povos fronteiriços da Venezuela e do Brasil. O mito de Macunaíma está bem presente para explicar as formações rochosas do sul da Venezuela: os tepuyes em Canaima, Gran Sabana. Segundo as narrativas dos povos indígenas do lado da Venezuela, o herói teria se machucado e aquele tipo de erosão fantástica nas rochas formando enorme cânion seria o sangue derramado de Macunaima ( sem acentuação na prosódia da palavra ). Mário de Andrade formula, no prefácio a Macunaíma, de março de 1928, algumas considerações que descartariam a possibilidade de interpretar o herói sem nenhum caráter como representativo de uma coletividade.

  É certo que não tive a intenção de sintetizar o brasileiro em Macunaíma nem o estrangeiro no gigante Piaimã. Apesar de todas as referências figuradas que a gente possa perceber entre Macunaíma e o homem estrangeiro, tem duas omissões voluntárias que tiram por completo o conceito simbólico dos dois. A simbologia é episódica, aparece por intermitência quando calha pra tirar efeito cômico e não tem antítese. [...] Me repugnaria bem que se enxergasse em Macunaíma a intenção minha dele ser o herói nacional.

 Dois anos antes, no esboço do prefácio, datado de dezembro de 1926, ele acusara: “O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros”  ( grifo nosso ). Consciente ou inconscientemente, Mário preparara uma formulação do personagem como emblemático de determinado comportamento sociopsicológico do homo brasilis. Essa afirmação é mais condizente com a proposta estética do Modernismo, movimento altamente nacionalista, de crítica e ironia à realidade e ao ideário brasileiros. Como Oswald de Andrade observou sobre a Antropofagia, manifesto dos vanguardistas brasileiros dos anos 20: “Porque a descida antropofágica não é uma revolução literária. Nem social. Nem política. Nem religiosa. Ela é tudo isso ao mesmo tempo. Dá ao homem o sentido verdadeiro da vida, cujo segredo está no que os sábios ignoram na transformação do tabu em totem”.

Lévi-Strauss
 Para Lévi-Strauss o mito é uma narrativa que se dá por meio da língua.  Ele é parte integrante da língua, “é pela palavra que ele se nos dá a conhecer, ele provém do discurso”, diz Lévi-Strauss.  Ao mesmo tempo, o mito descola-se da lingüística ao não proporcionar que se estudem seus elementos de forma isolada, já que eles se mantêm combinados entre si. O mito é parte da linguagem, mas ele manifesta outros sentidos além da expressão da língua. “Essas propriedades”, ressalta Lévi-Strauss, “só podem ser pesquisadas acima do nível habitual da expressão lingüística; dito de outro modo, elas são de natureza mais complexa do que as que se encontram numa expressão lingüística de qualquer tipo” . O antropólogo acentuará o caráter repetitivo, único, reproduzível dos mitos em todas as culturas de forma igual, o que eliminaria a vocação de discurso do mito e reduziria suas potencialidades lingüísticas. 
  A poesia é uma forma de linguagem sumamente difícil de ser traduzida para uma linguagem estrangeira, e qualquer tradução acarreta múltiplas deformações. Ao contrário, o valor do mito como mito persiste, a despeito da pior tradução. Qualquer que seja nossa ignorância da língua e da cultura da população onde foi colhido, um mito é percebido como mito por qualquer leitor, no mundo inteiro. A substância do mito não se encontra nem no estilo nem no modo de narração, nem na sintaxe, mas na história que é relatada. O mito é linguagem; mas uma linguagem que tem lugar em um nível muito elevado, e onde o sentido chega, se é lícito dizer, a decolar do fundamento lingüístico sobre o qual começou rolando.
 Outro dado que nos interessa na formulação teórica de Lévi-Strauss é a caracterização do estudo dos mitos por meio dos feixes de relações, a propriedade significativa de os vários elementos constitutivos do mito se relacionarem e significarem. Em Macunaíma, Mário de Andrade, ao recuperar vários mitos indígenas e costurá-los, criará outro novo feixe de relações completamente distinto dos elementos primeiros do mito. Mário, ao reuni-los sob novo código, dará outra leitura e outra significação mítica. Os mitos iniciais e primitivos entrarão numa nova órbita, literária e culta, criando um novo discurso, uma nova expectativa, e, dentro do feixe de relações, significarão outro mito. O mito de Macunaíma, inicial, primitivo, tribal, indígena, agora semantizará uma narrativa que se enquadra num movimento estético, na época da modernidade, num mundo letrado.
 A formulação dos mitos é contínua. Lévi-Strauss aponta que Freud ao escrever sobre o mito de Édipo também estava produzindo uma narrativa mitológica. Lévi-Strauss descarta a possibilidade dos mitos puros ou originais. Repudia a versão autêntica ou primitiva, já que todas elas são versões. A interpretação de Freud era mais uma versão do mito edipiano, logo também mito. Dessa forma, não apenas Mário de Andrade produz uma nova narrativa mitológica daquele mito dito original e primitivo, mas ele também promove outro mito, assim como nós, ao escrever sobre Macunaíma, também estamos produzindo outro mito sobre o mito. Se Mário buscou Macunaíma é porque ele teria uma estrutura simbólica que poderia expressar algo por intermédio daquela história, já que a história do mito diria o que foi dito anteriormente, no mito considerado ainda em estágio primitivo, e teria outra leitura, já que seus feixes de relação foram modificados ao virar literatura escrita e culta – aqui de forma interna e externa. De forma interna, a modificação dar-se-ia quando o mito de Macunaíma passa a ser arrolado a outros mitos na história do livro. De forma externa, quando o livro é publicado e penetra no ambiente cultural da época.


O projeto ideológico (...) continua...
(fim do trecho selecionado)

pgs 142e 143 de A ideologia do personagem brasileiro