sábado, 25 de novembro de 2017

O animal barbado, poema de Ronaldo Costa Fernandes



Resultado de imagem para radu belcin


Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a freqüenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.



(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)

imagem:magritte

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Lua negra, poema RCF




Todos nos vigiam pelas janelas abertas do outono,
Desejo humano, a reticência do convívio, os ossos
Do temperamento vão constituindo seu ofício
De capinar - o tempo é quem capina (ceifa, seca, urina).

Desfia-se, a seda O dedo escorrega sobre a superfície
Da conversa na cozinha - sempre na cozinha - onde
Abrimos a alma fechada como um vidro de conserva
O dedo, dizia eu, corta-se nos dois gumes do diálogo.

Não posso mais resgatar as horas que só são reversíveis
Na ampulheta revezando-se sem nunca findar, cíclico,
De pernas pro ar, embora pouco e arenoso, jeito que nada
solidifica nem com ele nada se constrói.

Não entendes que as horas não existem
Dúvidas vermes redemoinhos tudo isso é invenção
Das minhas máquinas A ansiedade fabricando minhas pílulas
A minha indústria de mim comprimido
Caio no poço do tempo e afogado escalo paredes de limo
Que mais me afunda quanto mais sublimo.

A lua negra assombra a noite de claro ódio
A noite, ela reverbera em mim, agora que tenho nome
Meu nome é abstração que me inventaram
Lua, grita e briga comigo, lua negra
Podem me achar - polícia, oficial de justiça, etecetera e tal
Porque estou em todas as partes onde não existe sim.


( do livro Andarilho, 2000)

imagem retirada da internet: by deni braga

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Lamento do menino triste, poema RCF






O azeite ainda se agarra
às paredes do frasco depois de esvaziado.
A água, leve, esvazia-se rápido,
às vezes até evapora, e não deixa resíduo,
nada se gruda à parede do frasco.
Ó mãe, faz permanecer em mim a água da alegria
e me livra do azeite do desengano.




(do livro A máquina das mãos, 2009, Ed. 7Letras)
 

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

O cavalo, poema de Lêdo Ivo

Paolo Uccello



No campo matinal
um cavalo assediado
pelo zumbir das moscas
mastiga avidamente,
o capim do universo.
Os insetos volteiam
no anel azul do mundo
- esfera sem passado
nos ares momentâneos.
Não há mitologia
espalhada na relva
que é verde, sem caminhos,
longe das longes terras.
E o cavalo sobrado
da inenarrável guerra
e da paz defendida
à sombra das espadas
mata a fome no campo
onde não jazem mortos
nem retroam clarins.
Sua crina estremece.
E seus cascos escarvam
a plácida planície
coberta pelos pássaros.
Já sem fome, relincha
para os céus que não guardam
as fanfarras e flâmulas
e a fumaça da História,
e se muda em estátua.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Os aniversários queimados na vela do tempo, poema RCF



Resultado de imagem para vivian maier
Minha infância foi morar no calendário.
E me lembrei dos aniversários em família.
Os zepelins dos balões,
as velas do bolo
navegam na falsa calmaria.

O bruxuleio familiar escondia diferenças.
Todos se cumprimentavam
como bonecos de impulsão
– prestes a pular da caixa
onde estavam aprisionados.

Havia o risco de os parentes de papel
se amarrotarem no calor das discórdias
que nenhum refrigerante diminui.
Por fim as saudações de plástico
e o bolo cortado da distância.
Não escrevo para preencher o vazio,
mas para esvaziar-me.



(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

Da linguagem, poema de Hildeberto Barbosa Filho

Resultado de imagem para can dagarslani


Meu código
de ira e de uivos
combina signos
perfumados,
sintaxes inauditas.

Na minha frase faz
o tempo vertical.

Meu idioma
é a sobra das coisas
arruinadas.

A poesia bruta
da vida e sua imagens
fraturadas.

Os violinos da morte
numa sinfonia
inacabada.


Hilberto Barbosa Filho publicou Nem morrer é remédio (poesia reunida), pela Editora Ideia, de João Pessoa. Hildeberto reúne aqui todos os livros de sua brilhante carreira.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Um homem é muito pouco 22





Resultado de imagem para can dagarslani


            Não gosto de nada eletrônico, as máquinas de jogo me deixam confuso. Minhas mãos são máquinas, meus pés são máquinas, meu corpo todo é máquina. Meus sonhos são meu videogame. Jogo quando durmo e jogo também quando não durmo. Se abstraio a rua e estou no bar do Vicentino posso jogar com a realidade. A realidade é um videogame mais lento e mais perigoso. O mundo mesmo parece a tela de televisão. Soube de um sujeito que morreu de ver tanta televisão. Ficou preso numa cela e não se alimentava. Morreu balbuciando frases de seriados, de desenhos animados, de programa de auditório. A causa mortis foi infarto e falência dos órgãos. Para mim, se eu fosse o médico, colocava como causa mortis overimagem ou assinaria o óbito como falência da realidade. 
            O sujeito morreu de quê?, perguntariam.
            De falência de realidade e infarto de imagem. 
           Já tenho bastante imagem dentro de mim. Não preciso procurar mais imagem fora de mim. Por isso penso em ir para uma cidade do interior e viver lá como matuto. E quando precisar de cidade, aciono minhas imagens de cidade e fico dormindo. O diabo é que ninguém se esconde em cidade do interior. No interior você aparece mais e há muitos olhos nas cidades pequenas. As cidades pequenas devem sofrer de visão exorbitada.
        As pessoas acompanham a vida das outras pessoas, tudo se vê, tudo se confere. Não poderia viver numa cidade que tem mais olhos que habitantes. Alto Mandubinha, população: cinco mil habitantes, número de olhos: vinte mil. A impressão que tenho nas cidades do interior é que até os cachorros e os bois me olham com curiosidade. Um cachorro de rua de cidade grande não dá bola para ninguém. Mas um cachorro de cidade pequena tem mais olhos do que os dois olhos de cachorro. Uma vaca de cidade pequena tem mais olhos que os dois olhos olhando um para um lado e outro para o outro. Todo mundo gostaria de ter olhos que olham um para um lado e um para outro. Todo mundo gostaria de ter mais olhos. De substituir perna quebrada, de trocar de nariz, de ter outra boca e coisas desse tipo. É a mentalidade de videogame que existe no homem mesmo antes de existir videogame.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

Canteiros, Cecília Meireles






Quando penso em você fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento
Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Para correr entre os canteiros e esconder minha tristeza
Que eu ainda sou bem moço para tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.




Em meu ofício ou arte taciturna, Dylan Thomas





Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a lua se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo mínimo salário
De seu mais secreto coração.

Escrevo estas páginas de espuma

Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da lua enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.



domingo, 19 de novembro de 2017

Poema quase erótico, RCF


Di Cavalcanti



A visão dos teus quartos




O parlamento do corpo
na assembléia de membros,
tua bunda,
tuas duas luas nuas,
o sistema solar do assoalho,
os olhos chineses da persiana,
e, tu, na ventriloquia do telefone.

Tu, que és distúrbio,
multidão de uma só pessoa,
passeata de sopranos e bombardinos,
me lanças coquetéis molotovs
e me incendeias com a gasolina dos teus cheiros.

Os poros como ventosas,
os pelos se eriçam como línguas tremelicantes.
Cai a chuva amarela da luz dos postes.
Meus dedos têm memória:
tocam o espinho de carne do teu seio.
Teu biquinho do peito
como o segredo do cofre,
vou rodando até fazer clic
e aí teu coração – ou o tesão – se abre.



(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet