sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O amor perfeito-poema de Ronaldo Costa Fernandes


Aspiro o amor perfeito
ou aspiro ao amor perfeito?
A gramática das flores
exala anacolutos.
O amor perfeito é uma cabala.
Todas as pétalas do idealismo.
Círculo inexato,
triângulo profundo,
número místico
- flor de misterioso aroma,
de forma labiríntica,
que brota em cada pensamento.

A que ramo pertence o amor perfeito?
Às obsessões que são tubérculos?
À submissão que são plantas aéreas?
Ao desejo que é flor que se abre ao toque?
Ao ramo dos exuberantes como os girassóis?

O amor perfeito é planta de laboratório,
rato vegetal,
cobaia pouco humana,
experiência empírica dos sentidos
ou especulação científica das frustrações?

O amor perfeito não existe em flora alguma.
Viceja apenas na botânica humana,
no húmus das delicadezas da alma,
na suprema aspiração das raízes do ser
que brota a flor mais díspare, metafísica,
desarmoniosa e triste.

O amor perfeito é uma abstração
no jardim secreto dos homens crédulos
na serenidade e no círculo da vida.




(do livro Terratreme. Brasília, Secretaria de Cultura do DF, 1998)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Tempestade da carne, poema Memória dos Porcos


 

O que quero saber é a altura
das tuas vertigens horizontais,
a medida dos teus ais.
O que me desvirtua
é a virtude do teu verbo
porque no princípio,
ao contrário do que se diz,
no princípio era o Verbo
e Deus disse:
Fiat Carne e a carne se fez.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: rodney smith)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Café para dois, poema RCF









O café nos une.
Mas as palavras não se diluem
como quem adoça com pó de gesso.
É preciso degustar
o açúcar refinado das relações perigosas.

Sob a luz fria e fluorescente das negações,
a cegueira das mãos
que não sabem por onde andam.
O que nos separa não é uma mesa.
São a tabula rasa do medo,
a toalha dos bons comportamentos
e as quatro pernas do desejo.





(do livro Andarilho, Rio, 7Letras, 2000)


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A torre e o abismo





Aqui estaremos seguros da vida.
Nada nos atingirá – nem falésia
nem miséria nem a ambição dos homens.

Mais tarde subiremos à torre
e de lá olharemos os homens
e diremos que não fugimos
ao pasmo do abismo,
apenas preferimos o risco do silêncio.



(do livro Eterno passageiro, Ed. Varanda, 2004)



Retrato do artista quando jovem, James Joyce




                Há um movimento circular, giratório, ao início do romance de Joyce, escrito entre 1904-1914, que permanece por várias páginas e leva ao leitor uma sensação de vertigem. Ao fugir do realismo, Joyce ingressa na narrativa do século XX onde predominará o fragmentário, o recorte, a dúvida antes que a onisciência e o personagem, como diria Zeraffa, engolfado por uma “miríades de sensações”, antes que descrição psicológica, coerente e linear do herói.
                Cabe bem aqui a afirmação de Forster: ”Gertrude Stein triturou e pulverizou seu relógio para dispersar seus fragmentos sobre o mundo como os membros de Osíris. Isto porque quis libertar o romance da tirania temporal, fazendo-lhe exprimir somente a vida dos valores.” Stephen Dedalus é puro papel sensível onde a fotografia do mundo vai sendo impressa. Logo não importam datas ou certa cronologia. Embora a narrativa avance desde a infância até a adolescência, não há explicação ou fixação de datas entre uma cena ou outra, o corte é abrupto e Joyce descreve a atuação do jovem Dedalus como se duas ações fossem contíguas e não houvesse intervalo entre elas.
                Joyce utiliza dois procedimentos, grosso modo, que são a narração pura e simples das ações dos personagens e, em vez da análise psicológica, aprofunda o perquirir do comportamento mental de Dedalus ou o seu estado de espírito. O grande drama do personagem adolescente é a luta do pecado dentro do espírito de formação católica e, mais ainda, jesuítica. As emoções tumultuadas do personagem fazem o autor suspender a ação e descrever as impressões do personagem, seja diante da casa da amada, seja no prostíbulo da cidade.
                “Queria pecar com alguém da sua espécie, forçar um outro ser a pecar com ele e exultar juntos no pecado. Sentia qualquer presença mover-se irresistivelmente para ele das trevas, uma presença sutil e murmurosa como uma torrente enchendo-o todo. O seu murmúrio alcançava seus ouvidos como o murmúrio de qualquer multidão em sono.”
                O clima de catolicismo exacerbado me incomoda (alguns dirão que a essência do livro é a discussão teológica, e eu aceito). O que me causa certo tédio não são as discussões teológicas, mas, por exemplo, a exaustiva, longa, desinteressante apresentação do retiro espiritual feita por membro do clero explicando (sem dialética) o que vem a ser aquele momento de religiosidade para os alunos que o ouvem. Não há criatividade, parece que Joyce copiou de algum catecismo as três páginas de lugares-comuns.
                O romance toma outro rumo, mais denso, original e ativo quando o personagem, instado a ser padre, reconhece sua mundanidade e sua opção pela vida não religiosa. O drama que antes era pueril, agora se torna mais adulto e o romance empina-se.
                Desagradam-me um pouco as mudanças de estilo, ou se quiserem, as mudanças de discurso. Há três modalidades de expressão que não se mesclam: uma mesma longa cena pode conter as três, separadas apenas por indicação de parágrafo. São elas: primeiro, as ações mais simples, quando o discurso se torna referencial como a ida ao colégio, as conversas, as descrições de paisagem (poucas). A segunda, num nível outro de construção, estão os pensamentos sobre cultura, feitos de forma mais clara, incluídas aí considerações concretas sobre a realidade do colégio, da vida familiar (observar que elas se tornam mais densas quanto mais o personagem passa da infância à juventude), mas de qualquer maneira são elaboradas como num ensaio. Nesta última podemos citar a seguinte passagem (para os brasileiros curiosa é passagem em que aparece a frase que será título do livro de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, sugerida pelo amigo Lúcio Cardoso):

“Ele estava longe de tudo e de todos, sozinho. Ele estava desligado de tudo, feliz, perto do coração selvagem da vida. Estava sozinho, e era jovem, cheio de vontade, e tinha um coração selvagem.”

                E a terceira refere-se a uma expressão mais nebulosa, típica do impressionismo pelo qual Virginia Woolf advogava, inclusive aproximando a narrativa à pintura, perguntando-se porque a prosa não podia ser prenhe de descrições da desorganizada vida mental submetida às impressões da realidade como nos quadros dos franceses do fim do século XIX. (RCF)


domingo, 3 de dezembro de 2017

Meu pai habita meu corpo, poema RCF





Meu pai vive em mim.
Não sei onde se localiza,
no meu corpo, meu pai morto.
Há anos que trago meu pai
como um apêndice.
Ao meio-dia meu pai está a pino.
De madrugada,
no quarto crescente,
ando de lua,
minguando meu coração.
Depois cresci e meu pai
virou um latido rouco numa garagem vazia.
Pai, estanca o trem do tempo,
há chuva na estação do meu olho,
o cão de madeira do banco
me faz companhia fiel.
Meu pai vive em minhas mãos,
por isso colho ausência.
Meu pai usa meus ouvidos,
abusa dos meus olhos,
repete a mesma frase
na máquina da memória
que, enguiçada,
distorce imagem, som e o filho.




(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)