sábado, 30 de dezembro de 2017

Pescoços torcidos, poema RCF






Os pássaros se jogam de cabeça
na piscina vertical do reflexo
e, na sua ânsia de voo,
não percebem que a janela
é uma fotografia de vidro.

Os pássaros já vêm com pescoços torcidos
para a forca horizontal
da janela narcísica
em busca do infinito.
O lago de vidro não tem fundo
e o que espelha
é apenas uma imagem virtual
que mata com sua força de ilusão.
Nada é tão cortante, falso,
nulo e sem perspectiva
que a ilusão de vidro fumê.

Há de se ter por coisa não pouco
miúda isso do medo dos vidros,
da ilusão que pode se converter
em forca e fazer do voo diário
um espelho de pescoço torcido.




sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

O coração das trevas no pulso, poema RCF



Resultado de imagem para vivian maier

O relógio de ponto calcina
o coração das horas.
Na bainha do pulso
o tique-taque da bomba-relógio.
Os minutos disparam
o gatilho do tempo.
A roda da fortuna
 sempre os mesmos números.
Tiros de festim na pontaria dos ponteiros
atingem o difícil exercício das cinzas.

(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

O boi, poema RCF



na colcha
                  de retalhos das plantações
o campo
                  não se mede com o metro do homem
o que vale
                 são os pastos
o livro tombo dos mourões
o tabelionato das valas
a notaria dos rios
o documento de letras dobradas
dos córregos e montanhas

o boi
              é o verdadeiro agrimensor
                                                anarquista
tabelião rebelde
              só respeita a seca
                                     forma de cerca
               hectare de um metro
que o cerca a cada passo
                            na terra devastada

o boi
           come o hectare
                                como quem pasta o limite


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)

(imagem retirada da internet: pintura ignacio da nega)

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Desclassificado poético, poema RCF




Vende-se, troca-se, empresta-se
alma vazia, uso desmedido,
não necessita de muita manutenção,
um pouco de poesia,
dois dedos de beleza,
um pouco de amor, pelo amor de Deus.
Capaz ainda de espasmos,
lúcida, embora dolorida,
aparência de nova,
perspicaz e dolorosa,
pode ser usada em leitura,
sentimentos nobres permitidos,
outros ignóbeis também presentes.
Quem tiver interesse,
telefonar ou procurar
na portaria do corpo
bater à porta
do corpo que a transporta.
Exige-se sigilo.
E uma profunda humanidade.


(do livro Memória dos Porcos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2012)


(imagem retirada da internet: alma gêmea)

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Ensinamento do mundo, poema RCF



Em cada luz há implícita a escuridão.
Tão urgente
quanto um pássaro
que não pode fechar asas
em pleno voo.
A vocação fantasma dos navios
– existir na imaginação
incrédula dos outros.
O cinza é a dor
que mais endurece.
(do livro O difícil exercício das cinzas. Rio: 7Letras, 2014)

domingo, 24 de dezembro de 2017

Tristeza marinha




Sofro de tristezas marinhas
e, no lusco-fusco
das minhas tormentas,
na umidade das indecisões,
a noite ilumina-se
nos abismos da vertigem.

Pertenço ao armário
das armas incompletas:
como xícara sem asa
ou graxa que endurece e racha.

De alumínio são meus nervos
                 – dúcteis com aparência de aço.
Sou troco que se recusa,
embora maior quando dizem
                 que me dobro.

Meu quarto é um terço do que sou.
E um terço do que sou é meu rosário.

Pai nosso que estás no céu,
a soma dos meus ângulos
é um teorema de nulidades.


(do livro Andarilho)


fotot: rodney smith