sábado, 6 de janeiro de 2018

Esconderijo, poema RCF









Esconde bem tuas lágrimas.
Os homens desprezam os fracos.
Esconde bem tua emoção.
Os homens respeitam os fortes.
Esconde bem tua tristeza.
O mundo evita
os melancólicos.
Esconde bem a ti mesmo.
Os homens não gostam de se ver.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O tempo na lapela, poema RCF






Certa vez um pedaço de tempo
feito floco de neve
– fiapo de algodão doce
que se desfaz à lambida do toque –
caiu no meu casaco e não se dissolveu.
Permaneci com o tempo na lapela.
Me dei conta de que o pedaço de tempo
– corrosivo e nada friável –
que carregava na lapela
em vez de desaparecer
insistia em crescer
até me tomar o corpo todo
como o reconhecimento do erro
que é uma febre que não cede
ou a lembrança incômoda,
cão que nos segue
e ameaça nos morder a memória.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(imagem: anne liori)

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Espiral dos caminhos, poema RCF









Haveria um santo dos caminhos
que fizesse reto o que Deus gosta de entortar.
Deus deveria ter um caderno
de caligrafia para melhorar a letra.
Os caminhos que são linhas tortas
corrompem a emoção.
O peso dos outros é sempre
desigual, inumano e cheira a culpa.
Os caminhos emanam cheiro de futuro.
O ódio, o amor, o riso.
Tudo tem seu cheiro e sua medida.
Um metro de ódio,
uma dose de amor,
uma talagada de riso.
Aqui estão os caminhos espiralados,
os caminhos sem chão,
as retas que não levam à lucidez.


(do livro Memória dos Porcos. Rio: Ed. 7Letras, 2012)
(imagem: radu belcin)



terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Um homem é muito pouco 20



Resultado de imagem para vivian maier


        
          Há também moças em flor. Mas as moças em flor do apartamento do andar de cima são flores murchas. Também são flores vadias. A verdadeira flor vadia é a do campo. Posta aqui, sem tomar sol, trabalhando de pernas para o ar, as flores logo pegam doença venérea. E doença venérea não é boa pras flores. A polícia já apareceu aqui para conferir o jardim. A polícia queria saber se era jardim de infância. Mas como não tinha nenhuma menor a polícia decidiu pegar um pouco de grama. A grama que a senhora dona do estabelecimento dá pros guardas também é verde e vale uma nota. Toda semana a polícia vem visitar o jardim de d. Sereja: as moças não desabrocham, embora tenham pernas firmes e andem sem raízes.
            Fui duas vezes lá. Pensei até que uma delas, Marilene, deixava escapar um botão de Rosa. Eu a chamava de Rosilene, ela ria. Ela ria mais, depois tossia. Uma tosse vadia. Não era doença de pulmão. Os peitos de Rosilene tinham duas camélias de dar inveja a qualquer expositor. D. Sereja cultiva pecado e doença. Por isso as flores dela não duram muito. Ele tem que plantar outras mudas, que logo adoecem. Se não adoecem de doença venérea, adoecem de droga.
            Certa vez encontrei dr. Máximo na floricultura de d. Sereja.
            O que o senhor faz aqui?
            Vim descansar.
            O senhor está louco, aqui não se descansa, o que tem mais é suor, não sente o cheiro de suor?
            O cheiro de suor que eu sentia não era cheiro de sexo. O cheiro de suor que eu sentia era cheiro de animal que trabalha muito. O cheiro do lombo do cavalo, por exemplo. O lombo de cavalo das meninas ficava suado e aquela exuberância de coxas e peitos era falsa como pivô dos dentes do dr. Máximo. Elas tinham que cavalgar a tarde inteira e a noite inteira.
            Não voltei lá, é uma furada se apaixonar por puta. Elas dormem quando você acorda, elas acordam quando você vai dormir. D. Sereja aluga cinco apartamentos. D. Sereja também dá grama para o síndico. E não o deixa pagar quando ele arranca as flores do pé do jardim dela. Tenho muito grama na cabeça, às vezes me pego pensando erva daninha. Não gosto de pensar coisas daninhas que podem apodrecer meu pensamento. Por isso evito qualquer coisa que possa tirar seiva da minha cabeça.


(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)




domingo, 31 de dezembro de 2017

Passagem do ano, poema de Carlos Drummond de Andrade




O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejaria viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.



(in: A rosa do povo)