sábado, 13 de janeiro de 2018

A hora ausente, poema RCF




A moenda dos dias tritura o que já é bagaço.
É muito tarde para inventar a hora e a vida.
Sem rosto,
não me encontro em nada que faço.
Não sei se chego ou se estou de partida.

Não tenho ilusão
a respeito da hora ausente
nem lamento
o fardo afiado da lucidez.
Aqui fico, espectador,
a vida passa,
recolho minhas dores civis,
conclusão: fui o fazedor que nada fez.




(do livro Estrangeiro. Rio: Sette Letras, 1997)



imagem: otto dix

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

No país dos macacos, Ubaldo Moriconi



A SAGA DA IMIGRAÇÃO ITALIANA NA PENA COMPROMETIDA DE MORICONI
Ronaldo Costa Fernandes 

O grosso da imigração italiana ao Brasil se estende de 1880 a 1930.Ela inicia-se logo após a unificação da Itália (1861), quando não se havia sedimentado de todo o sentimento de nação e a identidade nacional comportava várias culturas regionais.  Da parte da Itália, já são por demais sabidas as causas da imigração: a economia abalada pelas guerras de independência e unificação, superpopulação, desemprego, fome e o fechamento da entrada de novos imigrantes italianos nos EUA que era o principal destino da grande leva de europeus.

O pico da imigração italiana coincide com a publicação deste livro de Ubaldo A. Moriconi. Católicos e brancos, os italianos eram imigrantes preferenciais, segundo a aspiração de eugenia, expressa ou subjacente à ideologia preponderante no Brasil.

                A imigração italiana não ganhou unanimidade. Mesmo na Itália, avanços e retrocessos travaram uma luta surda que mexia com a autoestima do povo. A classe dominante temia perder mão de obra e abrir-se uma supervalorização das terras. Diante do quadro de abandono e miséria, muitos optaram por construir a América. Armadores genoveses, por exemplo, eram a favor de que seus compatriotas buscassem melhores oportunidades de trabalho, renda e posse de terra num país, ora apresentado como inamistoso, ora acolhedor e terra da promissão.

                Em 1888, o governo italiano promulga a lei da liberdade de emigração ou de fazer emigrar contingente significativo do povo. Só em 1901, depois de protestos e de manifestações contra a condição dos pobres italianos em terras estrangeiras, o governo aprova lei que especifica e dá as diretrizes para regulamentar as ações dos agentes migratórios e a criação do Comissariado da Emigração.

                Mais liberal que outros países europeus em relação à migração, a Itália precaveu-se apenas duas vezes. Entre março de 1889 e julho de 1893, em consequência da epidemia de febre amarela que grassava em nosso país; e de setembro de 1893 a maio de 1894, alegando a guerra civil no Rio Grande do Sul, destino final de grande número de imigrantes italianos.

                Moriconi não é o único italiano que escreve sobre o Brasil dessa época. Alfonso Lomonaco, com o livro “Al Brasile” (1889), e Ferruccio Macola, com o volume “L’Europa alla conquista dell’America Latina“ (1894), o acompanham na aventura de escrever e pretensamente descrever o Brasil que se lhes descortina diante de seus olhos europeus.

                Para Lomonaco, seus conterrâneos exerciam ofícios menores e laboriosos. Reclama que até mesmo os negros libertos se recusavam a trabalhar nessas labutas humildes e degradantes. Acusa, contudo, uma falta de união entre seus patrícios, o que contribui para a exploração de mão de obra dos imigrantes italianos. E, ainda como bom aluno da escola taineana da influência da raça, do meio e clima, registra que esta última não é propícia aos estrangeiros, além de ser daninha à índole dos italianos.

                Já Macola era um conservador político, irrequieto e provocador. Conde, jornalista (aos 23 anos era diretor do periódico Secolo XIX), nascido no Vêneto, encara a imigração à América Latina como um projeto colonial. Viajou ao Brasil como deputado com o propósito de testemunhar a emigração italiana in loco. Antes aliado de Crespi, desligou-se do primeiro-ministro. Aporta no Brasil em 1883. Acusa o governo italiano de ser inoperante na questão de organizar o fluxo migratório para o Brasil.

                Em meados da década de 1880, duas sociedades representantes dos interesses imigratórios disputavam a primazia e proposta sobre o tema. A Sociedade Central de Imigração, orquestrada por dois grandes nomes (Alfredo d”Escragnole Taunay e André Rebouças), por intermédio de vários expedientes, entre eles um jornal mensário, era contra a imigração massiva subvencionada. Desejavam uma imigração seletiva, com vista à criação de uma pequena e média classe de proprietários camponeses. Já a paulista Sociedade Promotora de Imigração estava mais interessada pela mão de obra para as lavouras. O certo é que o governo central utilizou-se de ambos os propósitos, ou seja, ao mesmo tempo em que provia de mão de obra o campo, promovia e incentivava a propriedade produtiva oriunda dos imigrantes mais habilitados.

                Entre 1885 e 1894, o fluxo imigratório está em seu nível mais elevado. E para tanto o governo nacional utilizava-se das agências de captação de imigrantes. Pagava-se por cabeça, além de subsidiar transporte e propaganda aliciadora na origem do imigrante. Contudo, de 1896 até 1897, restringiu-se ao Estado de São Paulo a importação de imigrantes. Assim Lazzarini, em seu livro “Campagne Venetto ed Emigrazione di Massa” (1866-1900), observa que “as facilidades (de modo particular, a viagem gratuita) tiveram a função de tornar concretamente realizável o êxodo em massa do Vêneto”. São os anos de ouro. Em 1892, existiam 30 agências e 5 172 subagentes trabalhando no agenciamento de grandes levas de italianos para o Brasil.

A emigração do ponto de vista da Itália
Vista por muitos como a solução para diminuir a pressão social (Moriconi mesmo fala em avanço das ideias socialistas), a questão emigratória não tinha consenso na Itália. Grande parte dos proprietários temia a escassez de mão de obra e a valorização da terra. Categorias trabalhistas também participavam do debate e utilizavam sua força de pressão. Os armadores genoveses, cujos navios serviam à massa emigratória, apoiavam as medidas do governo que impulsionavam seus negócios. É de 1888, como assinalamos, contudo, a primeira lei que normatiza o livre exercício do fluxo emigratório. E logo em 1889, como aqui já foi apontado, devido à epidemia de febre amarela, o governo italiano coibirá a emigração para o Brasil, medida que, dois anos depois, será alterada (17 de julho de 1891). Em 1902, a Itália proíbe a emigração subsidiada. Coincidentemente, comenta Angelo Trento (Do outro lado do Atlântico. São Paulo: Nobel, 1989), “num período em que os Estados Unidos haviam demonstrado ser capazes de absorver sem problemas grandes cotas de nossa mão de obra”.

                Curiosa também a observação sobre a origem da emigração italiana dentro do próprio país. Vênetos e friulanos e, ainda em menor número, mas significativa, a presença da Lombardia, configuram as regiões dos italianos das primeiras grandes levas que aportam aqui. A Emília e a Toscana, entre 1887 e 1902, também têm sua representatividade nesse fenômeno. Os do sul da Itália viriam para os grandes centros urbanos, enquanto os acima assinalados miravam o sul do Brasil, principalmente alojando-se no campo. A Sardenha tem número aproximado a zero e a explicação dos estudiosos é que o isolamento e a ausência de tradição em emigrar resultavam nesse contingente minguado. Já os oriundos da Sicília, da Romanha e Marcas não gozavam de boa imagem; pelo contrário, eram vistos como arruaceiros e rebeldes. Franzoni (Franzoni, A. Pel Decoro del Nome Italiano in America, Milano, 1901, citado por Trento) afirma: “Os fazendeiros, criados na época da escravidão, não podem tolerar os altivos calabreses: querem um colono humilde, servil, submisso; e parece que encontram nos vênetos o que eles procuram.”

                E Moriconi também aponta:


                “Hoje, quase todos os vapores que partem para o Brasil com carregamento de emigrantes italianos têm o contingente mais forte formado por vênetos, enquanto antes o formavam os meridionais. Porém, desde a época em que o Governo Federal do Brasil abandonou o serviço de imigração aos Estados Unidos, muitos destes proibiram a imigração turca e napolitana, compreendendo nesta última categoria todos os italianos das províncias meridionais.”


                A destinação dos italianos era para o campo no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Em São Paulo, para as fazendas de café ou para os centros urbanos, notadamente a capital. Outros dois estados também acolheram os imigrantes: Minas Gerais e Espírito Santo. E o Distrito Federal. Para o Rio de Janeiro convergiam os oriundos da Cosenza, Potenza e Salerno. Nápoles, Caserta e Calábria também engrossaram o fluxo para a capital do país, geralmente exercendo o comércio ambulante de peixes, aves, legumes, frutas, vassouras, jornais e mercadorias diversas e miúdas. Alia-se a estas atividades as de engraxate, amolador, sapateiro, barbeiro, marceneiro, enfim uma gama grande de ofícios manuais. Mais tarde, o que não é o propósito deste prefácio, apareceram jornalistas, artistas e maestros, mas essa é outra história e a perspectiva do século XX, enquanto estamos nos atendo somente ao período sobre o qual escreve Moriconi.

                Apenso ao projeto de esvaziamento da panela de pressão social que o desemprego e a miséria provocavam na Itália combalida, existia também o objetivo de criar no ultramar uma colônia italiana que servisse de consumidora dos bens produzidos em sua pátria de origem. A Itália imaginava que pudesse haver uma expansão comercial com a criação de novos e cativos mercados, principalmente nas exportações para o Brasil.

                O certo é que esse projeto comercial não deu certo senão nos primeiros anos. Logo os imigrantes trocavam a importação de produtos italianos por aqueles produzidos aqui mesmo. Não contava a Itália que o fluxo de exportação carecia de mecanismos confiáveis, além do precário sistema de transporte.

                Havia entre os defensores da emigração italiana aqueles que advogavam por uma partida de italianos mais bem educados, técnicos que assumiriam cargos diretivos nas fábricas brasileiras e assim poderiam privilegiar os produtos italianos. Esse era um esboço atrapalhado de um neocolonialismo e/ou expansionismo que via nas relações comerciais a possível dependência entre os dois mundos: a Europa produtora e a América Latina dependente e consumidora.


Destino: São Paulo
O maior contingente de emigrantes italianos se dirige a São Paulo. “Dos quatro milhões de estrangeiros entrados no Brasil entre 1886 e 1934, 56% foram absorvidos por essa região” (HOLLOWAY, T. H. Immigrantts on the land: Coffee and society in São Paulo 1886-1934, Chapel Hill, 1980, citado por Trento). Se, contudo, restringe-se a estatística aos períodos de 1887 e 1902, que é mais próximo ao tema deste livro, teremos o percentual de 63,5.

                Os municípios que mais acolheram os italianos foram os que estavam ao longo das ferrovias Mojiana e Paulista, a rota do café. Chegavam a Santos e, embarcados em trem, seguiam para a capital. Iam curiosos, debilitados, sobreviventes, cheios de esperança e medo. A Hospedaria dos Imigrantes, pertencente à Sociedade Promotora, acolhia-os no bairro do Brás. A distância entre as fazendas e o afluxo permanente e generoso da mão de obra que viria render aqueles rebeldes e insatisfeitos seriam as causas da dispersão dos imigrantes (que, só mais tarde, com o aparecimento de periódicos italianos e/ou a agremiação em fábricas urbanas trariam maior união de interesses).

                As já observadas más condições de trabalho, as multas, os salários baixos ou atrasados, a dependência do dono da fazenda, o endividamento com compras feitas em armazém do proprietário, moradias precárias e tratamento degradante eram as características gerais que formavam um quadro vivo e pungente das dificuldades iniciais e quase impossibilitavam os imigrantes a criar um pecúlio que os faria fugir dessa roda perversa da fortuna.

                Contudo, já em 1890, poderiam ser encontrados italianos proprietários de terra, entre eles a curiosa aparição de três padres.

                Durante o período da imigração houve deserção, volta à Itália e outros fenômenos migratórios como a reemigração, ou seja, muitos deixavam a Argentina, principalmente no fim do século XIX em razão da crise naquele país, e ingressavam no Brasil criando um difícil registro para as estatísticas. Por outro lado, contratados para serem trabalhadores nas fazendas de café, abandonavam o campo e migravam para as cidades. O secretário de Agricultura queixava-se para seu governador à época, o presidente da província Teodoro Dias, que “apesar de todas as seguranças introduzidas no contrato, [...] depois de chegados às hospedarias”, recusam-se a aceitar a colocação na lavoura. “A consequência é o crescimento extraordinário da população proletária das cidades, principalmente da capital” (Relatório anual apresentado ao cidadão dr. presidente Dr. Theodoro Dias de Carvalho Júnior, 1895, São Paulo, 1896).

                Em 1894, 82% dos que se alojavam na hospedaria do Brás trocaram as agruras da lavoura pela incerteza da cidade grande. O presidente Campos Sales (que tragicamente teve um irmão assassinado por “crime de honra” por um imigrante italiano), em jantar em sua honra oferecido pelos italianos, registra em seu discurso:


                “Não existe trabalho lícito, não há setor de considerável produção: agricultura, comércio, indústria, ciências, letras, artes, finanças, não há movimento de sociabilidade em que o italiano não esteja ao lado do brasileiro, partilhando esforços e resultados, dores e alegrias, com a única natural diferença de capacidade, de recursos e sorte de um ou do outro lado [...]. Visto de outro ângulo, e nem por isso menos significativo, a quem pertencem as maiores empresas industriais de nosso país? Aos italianos. A quem pertencem tantas e tantas afamadas instituições comerciais e bancárias? Aos italianos. Quem contribuiu em maior número para o nosso já poderoso organismo proletário? Os italianos. E todos vivem, trabalham e prosperam em louvável fraternidade com nossos patrícios.”


                De mascate a dono de lojinha. Muitos dos imigrantes, desgostosos com o campo ou mesmo aqueles que se dirigiam à lavoura, lançavam-se na aventura urbana. Desempenhando funções humildes e servis, desde engraxates a distribuidores de pão e jornal, o italiano imigrante também tinha como sua principal atividade a arte de mascatear que disputavam com os chamados turcos. Morse observa que o mascate percorria trilhas e rotas ingratas, usando como meio de transporte mulas, percorrendo fazendas, empreendendo vendas ou trocas (MORSE, R.M., Formação histórica de São Paulo, São Paulo, 1970). “Seu sonho de todos os momentos era adquirir capital para abrir um pequeno armazém de artigos generalizados numa estrada movimentada do interior e finalmente estabelecer-se com loja ou fábrica numa cidade, idealmente São Paulo.” É daí que vem a expressão, que Moriconi abomina, de carcamano, ou seja, aquele comerciante que se utiliza de pressão na balança para aviltar o peso: “calcar a mão.”

                Alemães, ingleses e portugueses eram donos dos grandes negócios. Os italianos dedicavam-se aos ofícios menores como pedreiros, sapateiros, alfaiates, cocheiros, cavadores, caldeireiros e muitas outras profissões assemelhadas. Em 1894, os quatrocentos lixeiros de São Paulo falavam com sotaque italiano. Trento chega a dividir as profissões por zonas italianas de emigração. Assim campânios, lucanos e calabreses eram ambulantes, carregadores, engraxates e cocheiros; os piemonteses dedicavam-se ao ofício de cavadores; os toscanos caracterizavam-se pelo pequeno comércio de verduras; já os do norte da Itália se ocupavam de ofícios manuais – os artesãos.

                Os grandes magnatas como Matarazzo, dedicado inicialmente ao comércio de importação e, mais tarde, oferecido à sociedade como exemplo de perseverança, self-made man, assim como muitos outros, não eram os pobres imigrantes que vinham na terceira classe nos navios. Pertenciam àqueles oriundos da classe média italiana que já imigravam com algum capital para investir. E o mesmo se deu, com pequenas diferenças biográficas, com outros mitos do sucesso italiano em São Paulo, como Alessandro Siciliano (fundador da Companhia Mecânica e Importadora e o Banco Ítalo-Brasileiro); Antonio Januzzi na construção civil e Giuseppe Martinelli, fundador, em 1917, da companhia de navegação Lloyd Brasileiro.

                Trento observa que a integração do imigrante italiano foi bem realizada e são raros os momentos de conflito coletivo. Assinalam-se os anos de 1892 e 1896 como aqueles de verdadeiro enfrentamento e crise. No primeiro caso, relata a prisão de um comandante de um navio atracado em Santos que morreu dias depois, depauperado pelos maus-tratos e vítima de febre amarela. “Esse foi sinal de grave desordem: outros exaltados organizaram uma contramanifestação, que, ao grito de ‘Morra Itália! Morram os italianos’, começou a percorrer a cidade, insultando, batendo: foram assaltados jornais italianos e nasceram conflitos, alguns até sangrentos” (RANGONI, D. Il Lavoro collettivo degli Italiani al Brasile).

                O conflito de 1895-1896 refere-se também à Marinha italiana e à febre amarela. 117 mortes da tripulação do navio Lombardia, entre eles o capitão. O governo italiano chegou a pensar numa expedição naval contra o Brasil. O certo é que os governos de ambos os países se estranharam e a crise diplomática refletiu-se na população até ser assinado, em 19 de novembro de 1896, o protocolo final De Martino-Cerqueira, com estipulação de multa de 4 mil  contos de réis para o Brasil.

                Mesmo com outros incidentes isolados e menores, “a rapidez de assimilação dos italianos em relação ao novo ambiente e a facilidade com que o mundo brasileiro acolheu e fez próprios alguns dos hábitos e costumes trazidos pelo imigrante” favoreceram a absorção do elemento estrangeiro no Brasil. Ainda segundo Trento: “Mesmo que essa tese pareça demasiado otimista, não há dúvida de que a integração dos italianos na sociedade brasileira foi muito maior e mais veloz do que na sociedade norte-americana, por exemplo.”


No país dos macacos, de  Moriconi
Visto por estudiosos como etnocêntrico, racista e intransigente, Ubaldo A. Moriconi relata o país que viu no fim do século XIX e que, ainda hoje, causa certa indignação dos leitores que ao livro têm acesso. Impregnado dos conceitos mais gerais sobre antropologia e sociologia, dentro do espectro mais conservador, inclusive com toques de determinismo e ideias já há muito desacreditadas como as de Lombroso, Moriconi não se propôs a fazer um livro sobre essas disciplinas. Ocorre que, ao introduzir temáticas candentes como colonização, raça e clima, o italiano envereda perigosamente numa senda das mais condenáveis.

                A antropologia, a etnografia e a sociologia, na época de Moriconi, grosso modo, dividiam-se entre evolucionistas e aqueles que buscavam não a essência da origem humana, mas um modo de proceder, isento de julgamentos e hierarquia entre culturas. Ou seja, Moriconi, do ponto de vista científico, estava defasado. O que acontecia então com o italiano? Imbuíra-se de uma ideologia corrente, ordinária e oligárquica. Sem nem mesmo ter contato com o escopo científico do fenômeno racial e cultural, o jornalista Ubaldo Moriconi reproduzia, de segunda mão, um complexo conjunto de opiniões que estavam na cabeça de seus mais conservadores contemporâneos, de qualquer que fosse a nacionalidade.

                Moriconi era apenas um jornalista com uma visão parcial e comprometida que escrevia sobre o universo que presenciava, utilizando-se de números inexatos (diga-se de passagem, reconhecidos por ele). Sem método científico, baseando-se na sua experiência, o que já comprometia a análise, o italiano esboçava um painel pleno de lugares-comuns, de uma visão reduzida, limitada por seu conhecimento na área em que atuava como “observador”.

                Visto como mais um livro de viagem – que não o é – podemos entender Moriconi como um desbravador que, sem rigor, descrevia a sociedade que estava diante dos seus olhos. Ora, essa “ingenuidade” científica valia para os primeiros viajantes que aportaram no Brasil, como, por exemplo, entre inúmeros outros, os capuchinhos Claude D’Abeville e Yves d’Évreux que deram as primeiras notícias sobre a povoação do Maranhão e fizeram um verdadeiro estudo etnológico das populações indígenas. A terminologia de livro de viagem cabe muito apertada no livro de Moriconi como quem veste um número menor de roupa.

                Chegado no navio Orénoque, logo imediatamente depois da Proclamação da República, Moriconi é um espírito inquieto e perscrutador. Jornalista e intelectual, logo funda uma revista ilustrada. Mais tarde, em São Paulo, em 1894, dirige o jornal italiano Il Messaggero. Em 1895, tem sua experiência mais forte ao servir ao governo de Minas Gerais, trabalhando no serviço de imigração de seus conterrâneos. Todo o tempo que passa no Brasil vai registrando na memória os casos, recolhendo dados, verificando condições dos colonos na lavoura ou mesmo o turbilhão nascente de imigrantes nas grandes metrópoles de Rio e São Paulo.

                A publicação de Nel Paese de’ “Macacchi”, no ano de 1897, mostra um autor rigoroso com os hábitos de seu povo e crítico com o país que o recebe. A proposta é proporcionar ao leitor italiano, seja ele autoridade, seja o candidato a emigrante, uma justa visão do processo emigratório e as condições de trabalho, sobrevivência e também uma descrição do comportamento (da psicologia coletiva) do homem brasileiro e da sociedade em que os dois, italiano e brasileiro, estarão inseridos. Em seu próprio parecer, Moriconi acredita estar fazendo um serviço de utilidade pública, principalmente ao cobrar do governo italiano determinadas medidas que favoreceriam a entrada de italianos, sua instalação em solo brasileiro e até mesmo, em termos comerciais, um aumento de exportação de produtos in natura ou beneficiados para a grande população de imigrados italianos, cujo mercado era dominado por produtos alemães, ingleses e franceses.


Para voltar ao início
Ubaldo Moriconi, como já foi dito, aporta no Rio de Janeiro logo imediatamente após a proclamação da República. Observa que não havia movimentação, agitação, manifestação pública de apoio à Monarquia ou mesmo um ambiente revolucionário. Aquele é o primeiro motivo para que ele afirme a inépcia, indiferentismo, preguiça, lassidão e ignorância do povo brasileiro. Na verdade, o italiano não dirá nada distinto do que foi afirmado por vários brasileiros e registrado por nossos historiadores: o povo não teve participação direta nos movimentos republicanos e a troca de sistema de governo lhe foi indiferente.  A República foi um ato da elite e do Exército que reclamavam mudanças de governo e não propriamente mudanças estruturais. Os historiadores a chamarão de República Velha, a oligarquia continuará a participar das decisões de um país agrário que acabara de perder a mão de obra escrava.  Passados os primeiros momentos ditos revolucionários e um pouco exaltados na imprensa, logo os antigos colaboradores da Monarquia serão chamados para compor o quadro administrativo do país por falta obviamente de especialistas em várias áreas do novo governo.

                Estudado tanto por pesquisadores das ciências sociais, o livro de Moriconi já teve até mesmo crítica da linguística, que lhe fez a exegese do discurso contaminado pelo racismo. A análise do discurso viu num texto que não precisa muito para escamotear o seu deslavado preconceito contra o Brasil, uma forma de opressão e visão do europeu que nos observa como povo primitivo e atrasado. Moriconi, contudo, apesar das claras manifestações de desagrado à sujeira, insalubridade do clima tropical e das cidades empesteadas pela febre amarela e outras doenças tropicais, tem por trás de seu discurso outro tipo de ideologia mais escamoteada e velada nos entretextos do volume que escreveu.

É curioso, antes de adentrarmos em questões mais sérias, o comportamento do italiano quando recebe o mesmo tratamento que deu ao Brasil. E, tomado por um patriotismo cego, renega em si o que acusou no outro. O visconde de Ouro Preto, diz ele, sob pseudônimo havia escrito um “livreco” sobre a Itália, intitulado Recordações da Itália, “escrevinhado à base de inexatidões e de malignidade”. O visconde escreve que o exército italiano não passava de “trupe teatral e de parada”, o que foi o bastante para que o espezinhado Moriconi acusasse o visconde de “leviandade e incompetência”.


O pensamento da oligarquia
A visão do brasileiro como mistura de raças e uma perspectiva pouco alentadora do processo civilizatório brasileiro está estampada em letra de forma de vários pensadores e escritores brasileiros. Mesmo Euclides da Cunha, no início de Os sertões, não via com bons olhos o futuro de um tipo mirrado, raquítico e doente. Esta concepção do brasileiro miscigenado que não tem futuro estará presente até mesmo já entrado o século XX e exposto como teoria por, entre outros, Monteiro Lobato com seu Jeca Tatu, infestado “por um zoológico em suas entranhas”, ao se referir às doenças endêmicas do nosso caboclo.

                Dito por um brasileiro, soará como lavar a roupa suja em casa e pensar o Brasil verdadeiro (embora saibamos que estavam eivados de preconceitos, mesmo Euclides, no mesmo livro, mudará de opinião e transformará o sertanejo na frase já célebre de que é antes de tudo um forte). Dito por um estrangeiro, inclusive um observador que teve pouco tempo para analisar a composição étnica, política, social e ideológica do povo brasileiro, soará como ofensa e preconceito a um país jovem com boas perspectivas de crescimento.

Mas Moriconi não é original em suas observações sobre o Estado, o homem, a cultura e a sociedade brasileira. Para ficar com seu próprio texto, é interessante observar que um dos nossos mais consagrados pensadores, Joaquim Nabuco, também irá expressar na mesma época os mesmos juízos do italiano. Diz Nabuco, em seus Discursos Parlamentares:


“A esta categoria [de portugueses condenados, hebreus, boêmios zíngaros, a flor da escória daquela época] podem-se juntar os descendentes dos mamelucos e dos caboclos, resultados de cruzamentos como as várias tribos indígenas; cruzamentos que fisicamente não deram origem a um tipo muito feliz...”

“Os negros puros (...) vão sempre diminuindo sob os abraços do elemento emigrado português, que vive em concubinato com a virgem negra, dissolvendo a raça, e engrossando as filas da falange mulata. Aliás, é o único serviço que presta o português, o qual, açambarcador do pequeno comércio e ávido de dinheiro, é considerado como o vampiro do país.” (p.16)


Amigo de Bilac e outros intelectuais brasileiros, Moriconi na verdade teve pouco tempo para deixar que seu pensamento borbulhante e investigativo em relação ao processo migratório pudesse gerar um conhecimento específico e diversificado. Abeberou-se do pensamento mais corrente e contraditório que havia ao seu redor. É certo que certas experiências traumáticas como o cólera que infesta e devasta o grupo de italianos albergados em Juiz de Fora, uma experiência humana limite e arrasadora emocionalmente, contribuiu e muito para sua avaliação do papel do Estado brasileiro e descaso das autoridades italianas.


Amor e ódio
É muito comum o elogio à natureza em detrimento ao ambiente cultural. Há beleza em países da África, América do Sul e Ásia, mas suas culturas estão atreladas ao passado ou expressam um primitivismo bom para etnólogos mas não para o progresso da ciência ou o futuro dos povos. Esse tipo de observação foi muito frequente no passado e – pasmem – continua a pertencer ao repertório de muitos analistas amadores do campo social. Moriconi elogia a nossa baía de Guanabara, as montanhas do Brasil meridional (“a região Sul é temperada e goza de um clima delicioso; [...] ótimas para o cultivo dos cereais e para a criação de animais”), o sistema hidrográfico (“a obra mais bela da criação”), magníficos portos marítimos e os saltos e cascatas do São Francisco são “mais belas e mais imponentes do que as do Niágara”, a serra dos Órgãos e muitas outras paisagens, meio ambiente e clima.

                Mas a natureza humana é preguiçosa, carreirista, os homens empertigam-se em ternos europeus e suam debaixo de tecidos pesados numa rua fétida chamada Rua do Ouvidor e outras adjacentes onde se podem encontrar lojas de produtos finos ao lado de mercearias ordinárias. A febre amarela ceifa a vida dos pobres imigrantes italianos. O Rio de Janeiro favorece um clima insalubre (curioso que muitos higienistas brasileiros também acreditavam que o ar não circulava a contento na capital do país, propiciando o aparecimento de epidemias fatais). A psicologia do brasileiro é a do “esperto”, admiram os corruptos por serem mais “malandros” (a palavra é de Moriconi), os nacionais são superficiais, verborrágicos e vaidosos, mantêm hábitos pouco higiênicos (o que também condena nos imigrantes italianos), as mulheres não sabem se comportar em sociedade e comem sem educação, mesmo aqueles e aquelas que estão inscritos na nobreza da terra.

                Aqui e ali se observa algum comentário exagerado, fruto talvez do cacoete do jornalista que quer chamar atenção ao seu trabalho. A natureza em Moriconi é um Jano com duas faces opostas: se por um lado é exuberante e fértil, por outro é demoníaca e assassina como a febre amarela e o cólera. Neste último aspecto, ele chega a afirmar que na bela natureza do Rio pode-se ter um calor de 40 graus que fulmina o caminhante. Diz ele: “... o termômetro atinge não raro os 40 graus à sombra, e onde os raios do sol, no verão, são tão ardentes que podem fazer cair fulminado o caminhante”.

                Ainda dentro do espectro da contradição, Moriconi condena a imprensa brasileira por ser provinciana e viver de fatos sociais menores e pagos. Fatos íntimos, restritos a batizados, formaturas, casamentos e outros eventos assemelhados, que não deveriam estar em páginas de periódico. Chega inclusive a observar que muitos jornais brasileiros em língua italiana foram influenciados pela imprensa brasileira, tomando o hábito e o abuso de não apenas publicar matéria paga, mas também de usar uma linguagem chula, ameaçadora, divulgar boatos e injúrias. O que demonstra a declaração de Moriconi: o italiano abrasileira-se até mesmo numa atividade mais nobre que a do camponês. Como se o mal fosse apenas brasileiro, como se na imprensa internacional – e até mesmo na Itália – na passagem do século XIX para o XX não houvesse o mesmo fenômeno. De qualquer forma, em outras passagens do livro, elogia “a liberdade sem limites” da imprensa brasileira e os “jornais saem todos à hora prometida e as grandes iniciativas comerciais multiplicam-se vertiginosamente”. Chega a citar três ou quatro publicações brasileiras com um grau de excelência europeu.


O homem cordial
Há uma recaída no fenômeno de absorver as ideias que circulavam na classe dominante brasileira. Moriconi, antes de Sérgio Buarque de Holanda, que cita Ribeiro Couto, acata a percepção de que o homem brasileiro é gentil e que as classes sociais convivem sem conflitos.


“Afirmo, com toda segurança, que não existe outro país que iguale o Brasil na simplicidade e urbanidade de todas as classes de cidadãos, sem distinção de raça e condição. Ali até o último serviçal, escravo até há poucos anos, é tratado pelo seu patrão ou pelos companheiros com a máxima urbanidade e com o título de senhor. E isto é tanto mais notável como se a escravidão não tivesse durado ali, por vários séculos, sem deixar-lhes profundas e sujas raízes.”


A prodigalidade e a hospitalidade são prodígio do povo brasileiro. Até hoje permanece no inconsciente coletivo nacional a ideia de que somos acolhedores e afáveis, o povo simpático e hospitaleiro. Mas, se o povo é de tão boa índole (para usar uma palavra que pertence ao campo semântico da afetividade e instinto), por que então as mulheres são tão mal educadas, os homens superficiais e emproados, o povo indolente e malandro? O próprio Moriconi não se formula esta pergunta pela simples razão de que ele não percebia que se contradizia.

E assim segue nosso observador e diligente jornalista: Petrópolis tem o clima úmido e nocivo (embora não explique sua noção de nocivo). Mas Teresópolis (na mesma serra, cidades gêmeas) não. “Teresópolis é suprida de excelente água potável e dotada de terras bastante férteis”. E o Dedo de Deus, elevação escarpada, vista pelos visitantes ao longe, “nenhuma localidade da Suíça supera”.

Ubaldo Moriconi elogia o exército brasileiro (“o luxo com o qual são equipadas as tropas de cada arma”), São Paulo (o clima, a cidade, a terra a ser plantada, a indústria, a riqueza hidrográfica, as ferrovias, a paisagem), o Rio Grande do Sul (“campos fertilíssimos”, “o caráter enérgico do povo”), entre outras observações positivas. Sobre o italiano, concomitantemente, mesmo entre elogios, também emite opiniões negativas eivadas não apenas de preconceito, mas de erro de perspectiva. Além de absorver a ideologia da classe dirigente (que ele também elogia e renega), Moriconi não detém os instrumentos de sua época para uma análise etnográfica, sociológica ou antropológica.

Quanto às autoridades brasileiras e italianas, Moriconi igualmente investe seu elogio e desaprovação. Em certos momentos, mostra acertos e boas intenções do governo central (quase sempre despreza as administrações estaduais), aprova leis e medidas do Brasil em relação à emigração e acusa de descaso, incúria, incompetência e desorganização o aparelho de Estado. Tratamento semelhante dá ao governo italiano que ele desejaria mais atento ao problema da emigração. Para ele, o governo deveria selecionar os emigrantes e não enviar camponeses analfabetos, sujos e despreparados, quando não enviar feito gado um grupo de malandros e trabalhadores inservíveis. Critica leis e medidas também emanadas do governo italiano, assim como oferece estratégias de seleção, envio e adaptação ao imigrante ao chegar ao novo país que o acolhe.


“Seria concedida a viagem sem pagamento, de suas localidades aos portos de embarque e dali até os lugares de destino, dando-lhes bom tratamento durante a viagem, com vista a sentirem o menos incômodo possível.

“Chegados ao destino, para cada família seria designada uma casa – composta ao menos de dois cômodos – bem construída, e um lote de bom terreno com superfície de 25 a 30 hectares, medido e separado dos vizinhos.”


Há vários equívocos de interpretação da realidade brasileira. Do ponto de vista político, não entendeu o governo autoritário de Floriano Peixoto, repetindo a opinião média generalizada em torno de si. Tem admiração por Rui Barbosa, mas inclui seu amigo Olavo Bilac entre os intelectuais que, na Rua do Ouvidor, discutem trivialidades enquanto a realidade reclama uma participação maior dos artistas. Reproduz uma visão simplória que os próprios brasileiros tinham do mineiro como tacanho, provinciano e desconfiado.

Quanto aos italianos também os critica e, outra vez utilizando preconceituosamente de conceitos ideológicos preconcebidos pela classe dirigente, deplora a vinda de imigrantes do sul e luta por uma imigração de elite, preferencialmente do norte da Itália. Há de se entender que Moriconi escreve o livro para servir de orientação para os que trabalham com a emigração, o povo italiano em geral, e, em particular, àqueles que pensam em imigrar para a nova terra.

O resultado final é positivo porque Moriconi não descrê do processo migratório, apenas quer corrigir imperfeições ou a implantação de políticas de estado levadas a cabo com responsabilidade. Alimenta, principalmente, criar um polo de consumo de produtos italianos na América do Sul. Vê o potencial no fato de que, enviando italianos melhor preparados, estes estarão aptos a consumir a produção industrial ou artesanal italiana. Dá como exemplo a colonização alemã, que conseguiu implantar um sistema de importação de produtos alemães com sucesso.

Vendo-se Moriconi como um propagandista da Itália, um observador subjetivo da realidade brasileira (o seu testemunho de maneira alguma pode ser desprezado e serve mesmo para estudos sobre a imigração italiana no Brasil), um visionário que deseja que seu país tenha um mercado consumidor no Brasil, o livro O país dos macacos torna-se um volume de riqueza abundante, ainda que vários estudos acadêmicos somente o vejam pelo prisma do preconceito, etnocentrismo e racismo.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

De como quase matei Carlos Drummond de Andrade



Certa vez entrei no elevador
e encontrei o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Era no Palácio da Cultura,
na rua México, onde o poeta trabalhou
a vida inteira.
Só nós dois no elevador.
Silêncio.
Houve um espasmo poético,
um frio na barriga em verso livre,
a máquina do mundo da poesia
ali na caixa de ferro do elevador.
Fiquei pensando
que poderia matar o poeta CDA.
Ficaria famoso como ficou famoso
Lee Oswald por matar Kennedy.
Falariam de mim toda vez que
falassem de Drummond.
Mas não aconteceu nada. A porta
do elevador abriu, o poeta
publicou mais livros de poesia
e eu não matei CDA.Ah, ficaria famoso como
quem matou John Lennon.
Como era mesmo o nome dele?


(do livro O difícil exercício das cinzas)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

"O viúvo" por Rogério Lima

(Publicado no livro Novas leituras da ficcção brasileira no século XXI, Helena Bonito Pereira, org., Editora Universidade Mackenzie, 2011)


Uma Existência Desordenada Como Um Bazar Muçulmano


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Os livros de Canetti falavam com ele, o sinólogo do romance de Canetti tinha-os como um exército desencontrado fabuloso. Meus livros não falavam comigo. São arredios, não se mexem, lápides de papel, soldadinhos de papel com o bucho cheio de letras.
                                                                                  Ronaldo Costa Fernandes





Qual é a cota de dor que os mortos, os vivos, os objetos e o tempo presente podem nos impingir? Essa é uma espécie de questão que o romance O viúvo (2005), de Ronaldo Costa Fernandes nos propõe decifrar a partir da sua narrativa. O narrador d’O viúvo é um professor universitário e escritor que se sente aprisionado por sua velha empregada D. Benedita e pela casa onde viveu com sua mulher Lídia, já falecida. Após a morte de Lídia, a casa passa à representar para o narrador a personificação do seu embate psíquico com as memórias da sua vida conjugal. Habitar a casa e conviver com a empregada D. Benedita se torna um exercício penoso; as lembranças da mulher no seu período doente, “em decomposição”, sufocam o narrador. A convivência com D. Benedita transmuta-se num processo angustiante; não porque ela aja, objetivamente, como alguém desagradável, mas pelo que representa a sua presença para o narrador, pela sua existência, pelo que ela traz à tona das lembranças de Lídia.

No discurso preparado para a entrega do prêmio Nobel de 2007 o escritor turco Orhan Pamuk diz que “o escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si, e o mundo que o faz ser quem é: quando falo de escrever, o que primeiro me vem à mente não é um romance, um poema ou a tradição literária, mas uma pessoa que fecha a porta, senta-se diante da mesa e, sozinha, volta-se para dentro; cercada pelas suas sombras, constrói um mundo novo com as palavras” (2007: 12a). Na concepção de Pamuk “Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo real para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria.” (2007, p. 13a). O narrador d’O viúvo carrega consigo um pouco desta obstinação e paciência; sobre a alegria não podemos atestar muita coisa sem que com isso venhamos a criar resistência no leitor.

Em tempos de softliteratura, a literatura que encanta a todos nas feiras midiáticas anuais, a narrativa d’O viúvo é constituída de uma densidade que deixa o leitor tomado por um certo desespero. O desespero do qual falava Manuel Bandeira no seu poema Nova poética, no qual lança a teoria do poeta sórdido. Segundo o Eu poético do poema de Bandeira: o poeta sórdido é aquele “em cuja poesia há a marca suja da vida”. Adiante, o Eu poético defende a tese de que o poema deve ser como uma nódoa no brim branco: “Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero” (BANDEIRA: 1970, p. 201).

Em O viúvo não há uma trama no sentido com o qual o senso comum está habituado. Não existem “grandes” ações que eriçam ou atiçam de maneira espetacular a imaginação do leitor. Não há indicações geográficas ou topográficas desnecessárias; a cidade pela qual transita o narrador-personagem é apenas uma cidade qualquer, anônima; grande o suficiente para acomodar a ordem de problemas que o narrador, contemporâneo de um mundo maquínico, apresenta na sua narrativa. Essa é uma sutil opção estética que compõe a narrativa de Ronaldo Costa Fernandes. Em O viúvo, a narrativa carrega consigo uma grande dose de angústia de um narrador que, ao se dobrar sobre si, se percebe sufocado, aprisionado por suas lembranças, pelos seus gestos, pelas suas atitudes, ações e pela solidão.

No primeiro capítulo da obra o leitor toma contato com o tom que permeará todo o romance:

Sei que, no dia seguinte, a cegueira será ver em demasia. A luz do sol vai ferir os olhos. Tudo brilha demasiado: os carros no estacionamento, o chão cinza de cimento, as paredes marrons, as árvores excessivamente verdes. A claridade é o diabo de uma agulha e os ruídos, por mínimos que sejam, entrarão pelos tímpanos fodendo os meus nervos. Preciso trabalhar. Eu atrapalho? O que você acha? Há mofo por tudo quanto é canto. A empregada está aí pra isso. D. Benedita, ela ainda está contigo?
– Não era teu desejo?
– Tenho frio
A casa não consegue dormir. Quando está com insônia, os olhos inchados e vermelhos ficam de pálpebras baixas, mas não se fecham. Todo um torpor, dores músculos cansados tomam a casa. Os livros sussurram indistintamente. Não querem dizer nada, são balbuceios, murmúrios, apenas sons sem sentidos. Querem se fazer presentes, me solicitam, mas não posso atendê-los. De que adianta o dialogo mudo com eles? Não consigo ler. Porque não dorme? Ora não vê que a casa não deixa. As teclas estão dentro de mim, não posso escrever, oh, não, não posso escrever com teclas que estão dentro de mim.
– Os alunos?
– Continuam lá.
– Você está infeliz.
– Estou inquieto.
Ando pelos corredores, o perigo de Lídia me acusar. Por que isso, por que aquilo, a lengalenga de sempre. Lídia não pode entender a solidão. É difícil para uma mulher como ela perceber porque o homem tem menos facilidade de viver só. A casa bufa. A agitação das narinas, o gosto do olfato, os odores da casa em funcionamento. Meu pai era um homem de cabelos fartos negros o que lhe faltava era argila o que dizes? os mortos somos nós somos nós somos nós a noite tem seus motivos, ora se tem. Se eu estivesse contigo iríamos para a cama. Uma boa foda é o melhor calmante. Você acha que não tenho lembrança de gozar?
– Não quero discutir orgasmos com os mortos.
– Grosseiro.
Agora as cortinas balançavam ao vento. Fechei a janela. Ela ficou lá fora, bateu no vidro, mas como soco de mortos é silencioso, não ouvi nada, apenas vi o vento movendo as plantas da jardineira. (p. 11-12)

Esta é a citação integral do primeiro capítulo. Com essa imagem de corte cinematográfico que dirige o nosso olhar para o exterior da casa termina o capítulo inicial d’O viúvo. Nesse primeiro capítulo estão colocados todos os elementos principais da narrativa: a estruturação da linguagem narrativa que passa de um plano a outro, de um assunto a outro, de um personagem a outro, exigindo a máxima atenção do leitor para com o texto narrado, para que esse não se perca entre o que é narração e diálogo entre o narrador e o fantasma de sua mulher Lídia, por exemplo. Os outros elementos que estão colocados no capítulo inicial são: a casa opressiva que impede o narrador até mesmo de dormir; a presença de D. Benedita, a velha empregada; o fantasma de sua mulher Lídia; a profissão do narrador; a sua condição de escritor paralisado diante da sua dificuldade de escrever; e também a solidão que o oprime.

Vencida a etapa de inicio da leitura da narrativa pouco convencional d’O viúvo, dada a sua falta de linearidade dos fatos narrados, a leitura se torna veloz pois transitamos de um capítulo a outro sem obstáculos além daqueles naturalmente interpostos para o leitor pela própria narrativa, que ora se adensa, ora se atenua como se fosse uma espécie de pausa para o leitor respirar e tomar fôlego.
O romance de Ronaldo Costa Fernandes traz consigo “a marca suja da vida” da qual fala Bandeira. Essa marca que incomoda e angustia o narrador se personifica na presença da lembrança constante da figura da mulher se decompondo diante dos seus olhos, em meio a sua doença:

O olhar de Lídia morria aos poucos, ou melhor, deixava a cada dia de viver, diminuía a existência como cigarro ou fósforo – imagem perfeita para Lídia fumante – que para dar sentido a sua função necessita se consumir. O cheiro de Lídia me perturbava. Não o cheiro dos hospitais, mas dos cadáveres que fedem um cheiro humano em decomposição. Não fiz sexo com Lídia durante a doença porque o corpo dela exalava um odor ardente que impregnava os lençóis, as paredes, os papéis, o livro que lia, tudo que nos pertencia tinha um cheiro teso, o cheiro intumescido de Lídia, ainda que lavada e perfumada de colônia e talco, era o cheiro enervado da morte, os miasmas do apodrecimento, daquilo que corrompe, de algo que colapsa e faz a carne exalar o seu fim.
Eu não podia ter desejo por uma mulher em decomposição (p. 31).

ou na repulsa e culpa que sente por suas atitudes e ações em relação à mulher doente:

Ela me tocava de um toque delicado de quem pede, vem, oh, vem. Eu me recusava. Ia para a sala e lá ficava no escuro que tudo apaga menos a repulsa, a culpa, o nojo e o horror. Voltava para o quarto, verificava se ela dormia. Dorme? A forma egípcia de Lídia dormir – afundada num sono desértico. Então, como criança diante de um besouro morto, tocava e recolhia a mão, a magreza, a pele rústica e áspera, papel ordinário (p. 32).
O que me aumentou o desespero seco, árido, angústia em forma de lixa, minha culpa perversa e pouco viril, foi a participação num congresso. O bar do hotel destilava luxúria, umidificava meu medo. [...] Não queria estar ali. A simples presença minha ali já era traição. Mas estava sem mulher há vários meses. Meu corpo, sadio, inventava outros corpos, latejava.
Lídia me fazia sentir boneco de pano, minhas vísceras eram de pano, serragem, se me abrissem, pularia para fora restos de madeira, aniagem e pó. [...].
Lídia em casa, tumulo absurdo, e eu com a puta de dezoito anos no quarto do hotel, do mesmo hotel onde se realizava o congresso, porque eu traía não apenas Lídia como também Derrida, Foucault e Lacan e meus colegas da universidade, traía a mulher, a doente, traía o bom senso, traía o sujeito decente que a gente pensa que é, e não apenas trouxera outro nariz, também trouxera outro corpo, mais ágil, mais vibrante, ganhara mais sangue, veias, feixes de músculos, órgãos em oficina de cio, eu a chamava de Lídia e, de luz apagada, recuperava trinta anos, todo meu sangue correra para o meu centro de onde emanava minha vitalidade pulsante, e, entre palavras, entre nadas e nadas, eu penetrava num nada úmido e quente, acolhedor e trágico (p. 33).

A angústia do narrador d’O viúvo é a doença moderna do habitante das grandes cidades: solidão.

Fico estirado na cama. Minha cama tem vida própria. Respira, sua, transpira, goza, dorme ou se incomoda. Quando a preguiça a toma, toda ela se esparrama e mira o teto com o tédio dos suicidas. Minha cama não tem vocação para a morte (p. 18).

O narrador se sente e se sabe só, desligado do mundo e alheio a si mesmo, rejeitado pela casa que o oprime e que ele percebe que pode devorá-lo a qualquer momento, mas da qual não consegue se livrar:

A casa não consegue dormir. Quando está com insônia, os olhos inchados ficam de pálpebras baixas, mas não se fecham. Todo um torpor, dores, músculos cansados tomam a casa (p. 11).

Segundo Emmanuel Levinas, podemos pensar a habitação como utilização de um “utensílio” entre “utensílios”. A casa estaria para a habitação como o martelo para pregar um prego ou a pena para a escrita. Pertence, de fato, ao universo das coisas necessárias à vida do homem. Serve para o abrigar das intempéries, para retirá-lo do alcance dos inimigos e dos inoportunos (1988, p. 135).

Ainda segundo Levinas: “O papel privilegiado da casa não consiste em ser o fim da atividade humana, mas em ser a sua condição e, nesse sentido, o seu começo” (1988, p. 135). Em O viúvo a casa não é o espaço onde se realiza o recolhimento necessário para que a natureza possa ser representada e trabalhada. A casa não se configura como morada, pois nela não se realiza propriamente o recolhimento do seu morador. Recolhimento, na concepção adotada por Levinas, é “uma suspensão das reações imediatas que o mundo solicita, em ordem a uma maior atenção a si próprio, às suas possibilidades e à situação” (1988, p. 137). Na verdade, em nenhum momento do romance de Ronaldo Costa Fernandes o narrador se insere na condição de morador da casa. A sua situação configura-se como a de um corpo estranho que invade a casa-organismo que parece querer expulsá-lo.

A casa não me aceitava. Eu, mero apêndice, excrescência, a qualquer momento, ela poderia me expulsar como um organismo vivo expulsa o que lhe é estranho (p. 27).

Ainda nas páginas iniciais do romance, num diálogo em um sonho com sua mulher, o narrador reforça a sua repulsa pela casa:

[...] - O horror está aqui. [...] A casa é um grande intestino. [...] Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora (p. 14-15)

A presença de Lídia é denunciada pela sua ausência. Ao narrador parece incomodar a ausência de um sentimento de familiaridade com a sua mulher, agora morta. O mundo do narrador encontra-se agora desprovido de intimidade e familiaridade. Diante da ausência de Lídia não é possível haver recolhimento, interioridade da casa ou habitação, pois a presença feminina é condição sine qua non para a concretização e instauração desses elementos. Por esse viés é possível entendermos o conflito do narrador com a casa e com as lembranças de Lídia. O porquê dele não optar em nenhum momento por mudar-se e livrar-se da opressão da casa e de D. Benedita, mesmo já tendo considerado a possibilidade de mudança. Ao tomar tal resolução ele estaria se distanciando ainda mais da familiaridade perdida. Conforme Levinas:

A familiaridade do mundo não resulta apenas de hábitos ganhos neste mundo, que lhe retiram a rugosidade e que medem a adaptação do ser vivo a um mundo do qual frui e do qual se alimenta. A familiaridade e a intimidade produzem-se como uma doçura que se espalha sobre a face das coisas. Não somente uma conformidade da natureza com as necessidades do ser separado que de chofre dela frui e se constitui como separado – ou seja, como eu – nessa fruição; mas doçura proveniente de uma amizade em relação a este eu. A intimidade que a familiaridade já supõe – é uma intimidade com alguém. A interioridade do recolhimento é uma solidão num mundo já humano. (LEVINAS, 1988, p. 137-138)

A abordar o tema da solidão Octavio Paz (1976, p. 176) ressalta o fato de toda a vida ser habitada por uma dialética: de a solidão ser uma “pena, isto é, uma condenação e uma expiação. É um castigo, mas também uma promessa de fim do nosso exílio”. Adiante Paz acrescenta: “Nascer e morrer são experiências de solidão. Nascemos sozinhos e morremos sozinhos. Nada é tão grave quanto esta primeira imersão na solidão que é nascer, a não ser esta outra queda no desconhecido que é morrer.” (1976, p. 176). Ainda segundo Paz:

[...] Todos os homens, em algum momento da vida, sentem-se sozinhos; e mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separarmos do que fomos para adentramos no que vamos ser , futuro sempre estranho. A solidão é a profundeza última da condição humana. O homem é o único ser que se sente só e o único que é busca de outro. Sua natureza – se é que podemos falar em natureza para nos referirmos ao homem, exatamente o ser que se inventou a si quando disse “não” à natureza – consiste num aspirar a se realizar em outro. O homem é nostalgia e busca de comunhão. Por isso, cada vez que se sente a si mesmo, sente-se como carência do outro, como solidão. (PAZ, 1976, 175)

De alguma maneira o narrador d’O viúvo procura ultrapassar a sua solidão, reconquistar a familiaridade perdida; seja num novo envolvimento amoroso, seja no seu retorno ao exercício da literatura ou nas fugas imaginativas que empreende quando observa uma foto de barcos num ancoradouro de Portugal presa a parede da sala de reuniões do seu departamento na universidade em que trabalha:

Há realidade bastante no barco pregado na parede. É um Portugal de papel. O norte de Portugal transmuda-se nas janelas absurdas de Magritte. Fixo meu olhos ali. Meus olhos não navegam, mas enchem-se de maresia. Meu alheamento também tem cheiro – de mim. (p. 51)

A solidão na qual o narrador está imerso e da qual tenta escapar é uma pena, uma condenação, uma expiação. A presença de D. Benedita incomoda-o porque reforça o seu estado de condenação à perda da familiaridade. Reforça a situação dialética de pena e promessa de expiação para o narrador.
O viúvo é também um romance reflexivo, no sentido trabalhado por Milan Kundera. Em seu livro de ensaios A cortina (2006) Kundera aborda o tema do romance que pensa ao tratar da forma como Robert Musil e Herman Broch incorporaram às suas narrativas o pensamento intelectual, a reflexão filosófica, psicológica e política. A reflexão psicológica é uma dos temas que é incorporado a narrativa do romance de Ronaldo Costa Fernandes, além da política, do trabalho intelectual, da economia etc. Como exemplo, em O viúvo o narrador utiliza a imagem, hoje já não muito popular, do homem que carrega um peixe (bacalhau) nas costas, estampada no rótulo do frasco de “Emulsão de Scott”, para representar o peso invisível da sua existência que carrega consigo:

[...] O sujeito carregando um peixe nas costas. Penso em mim carregando um peixe nas costas. O peixe que ninguém vê vai comigo pra todas as partes. Ele está agora aqui, na reunião, embora ninguém se dê conta dele. Apenas um diferença: não, não é o peixe que trago nas costas, mas eu mesmo. Não propriamente eu mesmo, mas eu modificado, o sujeito que ninguém conhece. Por isso ando arqueado. (p. 47)

O viúvo é uma narrativa de reflexão sobre o lugar do homem que carrega consigo a consciência de que é portador de uma certa carga de experiência social, amorosa, profissional e artística. A sua narrativa reflete uma espécie de liquefação da vontade perante a certos acontecimentos e constatações que atingem o personagem no seu dia a dia:

O que vejo lá fora é um contra-senso que não me apazigua nem me remove, apenas sou indiferente a ela, como alguém que passa por um quadro que está acostumado a ver – a velha lição de Huxley e a ridícula proposta com mescalina ou sem mescalina de deitar no chão da sala - , mas um jardim não é um quadro a óleo, as semelhanças e diferenças são muitas, de igual a aparente fixa, embora haja quem diga que o jardim se modifica e mesmo o quadro se transforma, se considerarmos o olhar de quem o vê, e depois a dessemelhança vem do fato de que no quadro não há cheiro, animal ou barulho, que o quadro se pode colocar em outro cômodo ou até mesmo se livrar dele, enquanto o jardim, mesmo dinâmico, e movente, ali está, não se pode colocá-lo em outro lugar, removê-lo como uma peça de dois metros quadrados, borrado de têmpera ou acrílico, ou ainda livrar-se dele, jogar o jardim no lixo, dar o jardim de presente ou até mesmo, num ato exagerado, extremo, colocar fogo no jardim que, como fênix, haverá de renascer como pesadelo recorrente (p. 77).

Nos capítulos quatro e cinco o narrador expõe a sua consciência sobre questões particulares, históricas e do próprio tempo do leitor.

Caminho na multidão. Mas, falando sozinho assim, passo a ser um sujeito esquisito, do qual as pessoas se afastam, não pelo medo físico de ser agredidas, mas porque os esquisitos podem dizer obscenidades, despropósitos, inconveniências ou a verdade, o que vem tudo a dar no mesmo. Se as pessoas são como eu elas terão sua pequena dose de loucura escondida, fechada, como se leva dinheiro avulso e não se quer perder e então aperta o velcro ou fecha com zíper o bolso do calção. A pequena loucura, mesmo que seja pequena, não se expõe socialmente, vive aprisionada, principalmente em forma de desejo ou pensamento proibido que surge repentino sem que se puxe por ele . (p. 19)

A reflexão sobre desejo e tecnologia é um dos temas que o narrador toma para si no seu processo de construção intelectual acerca das relações entre desejo e afeto no tempo da narrativa:

Duas moças despertam em mim o que pensava adormecido. Não gosto de misturar outra vez máquina e desejo. São todos fascinados pela tecnologia. A tecnologia não passa de meio mecânico de existência, por que as pessoas se fascinam tanto com tecnologia? A máquina me leva a ser máquina, estende o meu nariz, alonga os meus braços, binocula os meus olhos, coloca meu ouvido do outro lado do mundo, meu ser – meu físico - é um gigante de dimensões inimagináveis, loucura de um cérebro que não ousa pensar-se tão grande. Por trás dela está apenas o vácuo, logo o brinquedo da tecnologia é o desvio de mente enferma que se deixa dominar. Eu não quero que máquina nenhuma venha me dizer como me comportar ou existir. O sujeito que acredita usar a máquina está enganado porque ela traz em si a contradição de sua existência. Miséria. Enquanto penso que uso a máquina, ela me transforma nela mesma e nessa metamorfose quem perde a humanidade sou eu, porque a máquina não perde sua essência de máquina, sua maquinidade. (p. 20-21)

Uma outra linguagem surge em meio a narrativa romanesca, essa linguagem é ensaística, aparentemente digressiva, se assim podemos classificá-la, pois o romance, em grande parte, é feito dela. Ronaldo Costa Fernandes deixa entrar a reflexão intelectual por uma grande porta aberta. O autor segue a tradição de Musil, Broch, Alencar, Stendhal, Machado, Graciliano Ramos e outros grandes autores que tornaram o espaço dos seus romances espaços da reflexão intelectual. Assim o narrador d’O viúvo pousa o seu olhar sobre os engendramentos do comportamento cotidiano do homem contemporâneo. O narrador recusa a coisificação, a maquinização do comportamento humano. Recusa a condição de máquina produzida por outra máquina: “Eu não quero que máquina nenhuma venha me dizer como me comportar ou existir” (p. 21). O narrador recusa ser produção de produção, “produção de consumos, de volúpias, de angústias e dores” (DELEUZE/GUATTARI, 2004, p. 9, grifo nosso).
O narrador d’O viúvo tem consciência do agenciamento maquínico que o ameaça. Da subjetividade controlada por máquinas: mídias, temporalidade dos computadores (tempo real), telecomunicações etc. O narrador se posiciona em estado de alerta em relação ao perigo real que reside no uso e na conformação que pode ser dada às máquinas abstratas: políticas, econômicas, científicas e outros artefatos, que podem agenciar a nossa consciência e sensibilidade de maneira danosa (LIMA, 2002, p. 174).
A frequente inserção da reflexão intelectual no romance do século XXI o coloca numa categoria que eu classifico como Nova Ficção Objetiva (LIMA, 2004), devido ao seu alto grau de elaboração mental em relações à questões que ultrapassam em muito os temas dos quais tradicionalmente o romance se ocupava. Ao longo do século XX, o romance passou a incorporar na sua narrativa, com grande frequência, temas que foram trazidos de áreas de atuação humana como: a economia, dos sistemas de comunicação midiática, do universo acadêmico-científico, da política, do terrorismo, da segurança das nações etc.
No capítulo oito d’O viúvo o narrador participa de uma festa na qual não se sente à vontade. Ele participa dessa festa porque havia sido convidado por sua aluna Fernanda, casada com um alto executivo judeu:

Eu não deveria vir a uma festa metida a besta. Só me meto ali porque quero estar com Fernanda. Ela também não se sente à vontade, pois os convidados pertencem ao círculo profissional do marido. Ela está acostumada a vestido longo, jóia, homem de blacktie e cabelo glostorado. Eu, não. A noite tem seus motivos.
Dois homens fumam termos econômicos. Baforam cifras. Os dados e as opiniões a favor do governo formam redondas tranças de fumaça que, vai não vai, sobem leves e cinzas até se desfazerem no alarido das festas. E as opiniões são mais grossas, e as citações do mercado financeiro são mais anticubanas porque, como um cavalo que bufa na neve, saem de dois longos charutos carregados de tabaco e opinião. (p. 35)

O universo das opiniões e dos jogos de interesses geopolíticos e econômicos perpassam sutilmente a narrativa. O tema da economia e da ciranda financeira que Viviane Forrester (1997) chamou de “Horror econômico” e ao qual Jacques Généreux (1998) classificou como “Horror político” está colocado pelo narrador de maneira sofisticada e delicada.
Outra questão que surge no percurso da narrativa é relativa ao trauma do personagem Manfredo e sua relação com o Holocausto. Aparentemente essa questão não teria lugar na narrativa por conta da sua temática, mas a mesma se impõe de maneira transversal e curiosa. A questão surge em decorrência das relações pessoais que o narrador procura estabelecer na sua tentativa de construir um outro universo afetivo para si, procurando, dessa forma, escapar da solidão. É possível ler o trauma de Manfredo como uma espécie de representação dos traumas e angústias particulares que nos assombram, a cada um de nós, contemporaneamente e cotidianamente. Podemos pensar também que as relações humanas que estabelecemos podem nos colocam diante de problemas que se quer chegamos à considerar:

Manfredo é judeu. Não conviveu com a família, não herdou hábitos judaicos ainda que tenha feito o bar mitzvah. Mas, mesmo assim, ele tem um pesadelo recorrente: está numa câmara de gás num campo de concentração. Não é fácil você viver com uma lembrança que não é sua, um passado que pertence a sua raça. Se fossem só pesadelos, ele poderia se livrar deles ao acordar. Mas os pesadelos continuam durante o dia. Aterroriza-o a possibilidade de ser transformado num daqueles seres esquálidos que saem nas fotos e nos documentários sobre a Segunda Guerra. Oh, Deus, foi apenas um pesadelo. Os judeus aparecem em preto-e-branco, barba por fazer, uma barba desamparada, os ossos espetando a carne, que não é função dos ossos fazer parte da parte de fora do corpo. A fila descomunal e desumana, vigiada por cachorros, enfileirados para o absurdo do crime oficial, a foto mostrando os oficiais nazistas tão ferozes quanto os seus cães.(p. 25)

A mulher de Manfredo, Fernanda, não consegue compreender o que se passa com o marido, com o que o enlouquece, com o seu terror diante das torneiras que liberam o Zyklon-B imaginário. Não-judia, mais jovem que ele, não está preocupada com o que o desestabiliza psiquicamente.
– Você está suando?
– São os gases.
- Onde você vê gases?
– Os gases a gente não vê. Os gases a gente sente o cheiro.
– Não havia cheiro no Zyklon-B.
– Como você sabe disso?
– Eu não sei se li ou não li. O que importa é que é infernal viver com um homem que se sente perseguido por algo que nunca viveu. (p. 25)

O narrador reflete sobre a angustia que atormenta Manfredo, sobre como a imaginação e a memória de fatos não-vividos por esse homem o aprisiona. Segundo o narrador:

[...] Só quem vive um pavor igual pode compreender o outro. Você é capaz de entender o horror, hein, me diga, é capaz de entender o horror?
Sempre esteve fora das minhas cogitações existenciais o sofrimento dos judeus. A gente tem pena, é solidário, se revolta com os crimes nazistas. Mas é algo distante, não faz parte do cotidiano. Curioso como a vida nos coloca frente a realidades que nunca imaginamos presenciar. Jamais imaginei que teria que conviver com alguém que vivera os horrores da guerra, mesmo que essa guerra já tivesse acabado há mais de cinqüenta anos e que ele não tivesse ainda nascido quando ela acabou. Então, é capaz? (p. 26)

O processo de evolução técnica no qual estamos imersos não é estável nem tranquilo, também não nos é possível afirmar que ele irá produzir grandes autores ou obras literariamente significativas. O que há de mais importante nesse processo é um movimento contra a corrente dos best-sellers ou gêneros apelativos como o dos livros de auto-ajuda. Na contracorrente da recusa de teorias das formas literárias citadas é possível indicarmos a afirmação do que identificamos acima como Nova Ficção Objetiva. A Nova Ficção Objetiva possui uma característica ensaística determinante na sua construção narrativa. Essa característica ensaísta dotou a narrativa da transição do século XX para o XXI de uma grande complexidade de impacto afetivo e intelectual, sem promover o esvaziamento da imaginação. (LIMA, 2004, p. 148)
A detecção da presença do ensaio na literatura aponta para a integração de uma liberdade maior ao processo de escritura do texto literário, pois o ensaio é o olhar penetrante presente no texto. É a liberdade de olhar; olhar da liberdade, conforme sugere Eduardo Portella (PORTELLA, 2000, p. 176). Essa liberdade no uso da reflexão de formatação ensaística encontramos n’O viúvo e em outras obras de Ronaldo Costa Fernandes. Acredito mesmo que essa seja uma característica de um autor já acostumado a transitar por gêneros diversos partindo do romance, passando pelo conto, pelo ensaio que reflete sobre a narrativa do romance, O narrador do romance, ou sobre a formatação ideológica de personagens importantes da literatura brasileira, A ideologia do personagem brasileiro, chegando à poesia, gênero no qual tem sido bastante produtivo, aclamado e laureado.
No seu livro Istambul: memória e cidade, Orhan Pamuk revela nunca ter deixado a sua cidade e faz referência ao fato de Nabokov, Conrad e Naipul terem migrado entre línguas, culturas, países e continentes e até mesmo civilizações. Segundo Pamuk, “suas imaginações se alimentavam do exílio, um alimento que tragavam não através das suas raízes, mas da falta delas. Minha imaginação, porém, exige que eu permaneça na mesma cidade, na mesma rua, na mesma casa, contemplando o mesmo panorama. O destino de Istambul é o meu destino. Estou ligado a essa cidade porque foi ela que fez de mim quem eu sou.” (PAMUK, 2007, p. 14). Assim como Conrad, Naipul ou Nabokov o narrador d’O viúvo não está territorializado, não está em lugar nenhum:

[...] Pressinto os olhos dos livros sobre minhas espáduas. Não lhes basta o continente deles, querem saber do meu continente. Meu continente é inverso, dúbio, estrangeiro.
Não estou em lugar nenhum. Minha casa pode se abrir para um subúrbio no Marrocos. Encontraria uma vida árabe, eu que tenho uma existência desordenada como um bazar muçulmano. (p. 93)

O narrador d’O viúvo sabe com clareza qual é o seu papel: “Meu papel, ou seja, o que escrevo, diz respeito à literatura e ao pensamento humano” (p. 75). O viúvo é também um romance sobre a literatura e o papel do escritor, não só pelas citações literária de personagens, autores e obras estrategicamente colocadas ao longo do texto, mas porque ele reflete sobre a literatura e seu lugar e o lugar do escritor no mundo contemporâneo.





Bibliografia

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira : poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.
DELEUZE, Gilles e GATTARI, Félix. O anti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia 1. Tradução Joana Moraes Varela e Manuel Maria Carvalho. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.
FERNANDES, Ronaldo Costa. O viúvo. Brasília: LGE, 2005.
FORRESTER, Viviane. O horror econômico. Tradução Álvaro Lorencini. Campinas: UNESP, 1997. (Ariadne)
GÉNÉREUX, Jacques. O horror político: o horror não é econômico. Tradução Eloá Jacobina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
KUNDERA, Milan. A cortina. Tradução Teresa Bulhões Carvalho da Fonseca. São Paulo: Cia. Das Letras, 2006.
LEVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988. Biblioteca de Filosofia Contemporânea.
LIMA, Rogério. “Perto da máquina: a nova sensibilidade estética no final do século XX”. In COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças (Org.). Arte e Artifício: manobras de fim-de-século. Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura/Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2002.
_____________. “O baixo valor do diálogo e a nova sensibilidade estética ou a literatura depois das torres”. In COUTINHO, Luiz Edmundo Bouças e CORRÊA, Irineu E. Jones (Org.). O labirinto finissecular e as ideias do esteta: ensaios críticos. Rio de Janeiro: Sette Letras, 2004.
PAMUK, Orhan. A maleta do meu pai. Tradução Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia. das Letras, 2007a.
___________. Istambul: cidade e memória. Tradução Sérgio Flaksman. São Paulo: Cia. das Letras, 2007b.
PAZ, Octavio. O labirinto da solidão. Tradução Eliane Zagury. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
PORTELLA, Eduardo. “O ensaio como ensaio”. In Literatura brasileira depois das utopias. Revista Tempo Brasileiro, abril-junho, no 141, 2000, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.



Rogério da Silva Lima foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Lingüística biênio 2006/2008. Foi professor visitante na Fondation Maison des Sciences de L’homme - Paris em 2008. Atualmente é professor adjunto na Universidade de Brasília. Atua na área de Letras com ênfase em Semiologia. É autor de O dado e o obvio: a significação do romance na pós-modernidade e de O imaginário da cidade, publicados pela Editora da Universidade de Brasília.


imagem retirada da internet: otto dix, hopper






terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Carga pesada, poema RCF


 


Minha mente é um navio cargueiro
que leva apenas uma carga:
a carga pesada dos dias
que se torna mais carga
quanto mais afunda
o transporte de bens
que desconhece a estiva do dia
e boia imerso
sob a água insalubre dos relógios de pulso.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)




segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Um tigre no espelho, conto de Carlos Tavares

Pela primeira vez em mais de 40 anos de cegueira, Borges se sente um miserável sem sorte logo ao despertar, numa bela manhã de abril, em seu escritório da Casa Nevada da Patagônia. Escuta o tilintar de chocalhos presos nas alimárias que pastam lá fora sob uma forte ventania, nos campos gelados dos Andes de sua infância. No quarto ao lado ainda dormem o criado Adolfo e a mulher Silvina.
. Borges se debate em intensa agonia, uma sensação de incômodo que jamais o atacara assim de forma tão agressiva, quase um banho de pânico, repentino, ao despertar, como se tivesse sonhado o mais terrível dos sonhos. E o pior é que não consegue se lembrar do sonho.
Senta-se na cama improvisada na poltrona larga e curva, encosto preparado especialmente para essas ocasiões de extrema produção e cansaço. Mas também não se lembra da história que ditou para Silvina e Adolfo; talvez eles tenham gravado sua nova fábula, cujo enredo permanece emaranhado ao torvelinho de incertezas e dúvidas que se abateu sobre ele mal abriu os olhos.
Ainda não é dia, os galos estão quietos no quintal, o silêncio o amordaça ainda mais, na escuridão impenetrável, tão conhecida dele depois que a cegueira o invadiu de vez, após dez anos de declínio, como um ocaso que tremula incerto entre o dia e a escuridão e que, aos poucos, perde consistência para a noite. Nem isso ele podia mais admirar, o ocaso dos pampas.
Mas com o tempo aceitara a sina da escuridão que, no princípio de tudo, costumava encarar apenas como um dia nublado e frio, um suave Noturno em crescendo. “Não é ainda a escuridão total; vejo sombras, vejo vultos, e isso me basta, por enquanto”, costumava dizer, feliz, a Adolfo e a Silvina.
Ergue-se da imensa poltrona, põe os pés no chão e fica arfando, apoiando as duas mãos no colchão, o coração aos saltos, a testa suada, o pijama encharcado. Que ninguém o visse assim, tão frágil, tão humano, logo ele, que durante todo esse tempo jamais dera sinais de ter perdido a batalha para a doença. E tudo por causa de um mero sonho, um rápido e nebuloso sonho, como tantos que o tempo o presenteou e dos quais tantos contos nasceram.
Escrevera até perto de meia-noite. Tentava resgatar na linguagem do conto curto o seu passado com Beatriz, lembrava-se agora. O campo era exíguo, porém, e ele o esticou acima das 20, 30 páginas, incansavelmente, mas não ficara satisfeito. Levantou-se perto das 23h e andou com a bengala de cabo prateado tateando o espaço até bater com a ponta do apoio na quina de um criado-mudo onde guardava porta-retratos.
Sorriu, com uma alegria infantil, quando sentiu que ali estavam ele e Beatriz, abraçados em uma praça, talvez a San Martin, perto da Rua Maipu, sim, pensou: talvez seja ela, a praça, com suas árvores cravadas em seu coração de saibro e pedregulhos, o rebuliço das acácias ao vento, o verão portenho e o seu sopro de nostalgia na moldura invisível de suas caminhadas. As estátuas ainda devem estar por lá, com seus inseparáveis pombos e poses graníticas de heróis do passado.
Certa vez pegara a Rua Florida e caminhara por seus dezesseis quarteirões entrando pela Rua México para ir à Biblioteca Nacional. No meio do caminho, um jovem vestindo uma camiseta com o rosto de Che estampado no peito, cabelos longos, barba rala, passou por ele e gritou, com ódio: “Morra, Borges, traidor!”; o escritor, assustado, parou e sorriu: “Gostaria muito, mas não posso; perdoe-me, por favor, está bem?”.
Já fazia uns dez minutos que Borges arfava à beira da poltrona-cama, ar perdido, desolado.
Onde está você? O outro, o outro que fui, onde anda, onde anda? Aquele outro sentado em um banco de uma praça que me abordou a perguntar meu nome e que sorriu com ironia quando eu o pronunciara? Vamos, vamos cadê você, cadê? Pirandello tem razão, somos mil e nenhum; somos talvez o sonho que se perde, como agora, nada mais. Logo eu, que nunca esqueci um sonho, meus e dos outros, sim, lembro-me bem da rosa e do paraíso, aquele que me rendeu uma das minhas melhores páginas e acabei esquecendo que fui eu quem o escrevera.
O espelho oval ao longe pregado na parede oposta à porta de entrada da biblioteca-escritório deve ser o mesmo da minha infância e já deve ter enferrujado de tantos reflexos inúteis de entes que por aqui passaram e que já não estão entre nós. Sim, quantos livros não foram folheados por eles, os mesmos que talvez ele, Borges, também tenha lido.
Nada refletia com tanta nitidez esse tempo quanto a sua memória prodigiosa. E se refletisse, de que adiantaria? Seria igual a essas fotos que não consigo ver, murmurou. Bem, acho que Ernesto tem razão quando diz que Deus não é assunto dos homens. Os hindus samsáricos também têm razão quando afirmam que não acreditam na existência do universo. Por isso me identifico tanto com eles, que desconfiam até mesmo do nada da existência, física e espiritual do homem.
Mas que sonho, que sonho, que sonho eu tive!
Quando tudo parece calmo, tranqüilo, próximo do ponto final, que adio como um garoto vadio que demora demais a entrar em casa com medo da mãe, vejo-me, primeiro, arrebatado pelo sono e depois pelo sonho esquecido.
Borges pensa que se pudesse ver a fotografia de Beatriz talvez obtivesse a resposta do sonho. Olharia em seus olhos e veria o mundo inteiro, toda a sua vida e a vida a dois de curta e eterna felicidade, mas tudo acabara quase mesmo antes de começar, com a morte prematura da mulher, aquela traidora infeliz, dissera à beira do túmulo.
Naquela tarde fria de dezembro enterrara-se com Beatriz a pedra luminosa e angular da sabedoria e da vida, enterrara-se o amor em sua plenitude e toda a sua história; sim, era isso, daí veio o enxame de sonhos agônicos que o soterrou de inércia e de horror por longos anos.
Ele, o recatado e tímido Borges, que nunca bebera algo além de um ou dois cálices de um bom vinho, passara a consumir sofregamente quase todas as garrafas da adega de seu pai. Os amigos o socorreram em uma tarde de setembro quando a ponta da bengala derrapou no assoalho e ele despencou da escadaria, o que lhe rendeu alguns ferimentos não tão graves.
Passara então seis meses enfurnado na Casa Nevada, por recomendação dos médicos, em companhia dos fiéis Adolfo e Silvina e do médico, amigo e poeta Macedônio Hernandez.
Foram tempos difíceis. Deixara de escrever e de ler, preferia a solidão à companhia e dera ordens para não o incomodarem, a não ser nas horas das refeições. Passaram-se então dez anos da morte de Beatriz. Ele, aos poucos, voltou a ler e a escrever, até chegar ao ponto em que está: cabeça baixa, um nó na garganta, a mente vaga e o espírito inquieto, ainda a arfar na beira da poltrona, à beira do pânico.
Aos poucos foi se recuperando e de repente um estalo dentro do labirinto de idéias o atingiu como um golpe duro e seco nas têmporas. Sim, estou lembrando, sim, sim, é isso, é isso, sussurrou quase gritando de alegria; as lágrimas rolavam em queda livre pelas faces e ele soluçava, com os ombros num movimento incontrolável em sintonia com o choro, o jorro de lembranças, as cavernas, as luzes, os livros, tudo isso voltava de repente e ele não se cabia de felicidade.
O mais estranho é que o sonho não trazia a imagem venerada de Beatriz, a inesquecível. Sim, era como se ele, de repente, como as serpentes que mudam de casca da noite para o dia, houvesse esquecido completamente da existência da mulher, esquecera até mesmo a sua forma física e isso era grave.
Agora estava cercado pela profusão de imagens do sonho.

Via-se em um deserto e andava a esmo tateando o chão arenoso e infinito com sua bengala, as roupas em frangalhos, como se estivesse vivendo um dia após uma guerra sangrenta. Por onde passava via cadáveres e plantas exóticas, flores imensas, rubras, amarelas, verdes, roxas, brancas, enxergava nitidamente as violetas e hortênsias do deserto e uma flor entre tantas se destacava: era parecida com o sol e de seus raios multicores, como um arco-íris esférico, nascia uma fonte concêntrica de luminosidade forte e cambiável para o opaco e o esfuziante.
O facho de luz parecia chamá-lo a seguir seus rastros elétricos de uma maneira que se sentia hipnotizado, esquecera as outras flores e os cadáveres, esquecera o deserto e as dores no corpo, a bengala estava largada no chão e, de repente, em vez da bengala viu que se tratava de uma enorme lança, o instrumento que carregava na mão direita, na outra um cálice de madeira e dentro dele borbulhava o vinho mais vermelho do que o sangue de Cristo.
Passou a seguir o facho redondo, suas luzes circulares em camadas como se fosse um arco-íris enrodilhado, imantado de tanta beleza, um sol colorido em pleno deserto como jamais vira. Sim, estava curado da cegueira, via tudo, todas as imagens do presente e do passado, via os livros que não leu, via os amigos da Rua Tucumã, os criados de seu avô, via Ferrari e Oswaldo, via seus inimigos e velhos sábios sentados em bancos de jardins que se bifurcam com imensos livros nos joelhos e pássaros pousados em seus ombros, via o sorriso de uma criança que nela se reconheceu, via tudo e com bastante clareza.
No sonho, pensou na Casa Nevada da Patagônia e na biblioteca de seu pai, Dom Antônio Luís Borges de Azevedo Saavedra. Pensou nos amigos do passado, nas mulheres que amou platonicamente e se sentia conduzido pela luz em direção a uma escadaria circular feita de blocos de pedra cujos degraus ancestrais pareciam ser em número infinito.
Tudo aquilo, sim, lembrava-se com exatidão, parecia ser uma torre invertida, um imenso labirinto esférico suspenso no ar do deserto construído pelas mãos da eternidade que o homem costuma afugentar com o pensamento negro da morte e da tragédia.
Quando desceu uma quantidade razoável de degraus, parou e olhou para cima e viu o sol distante e colorido a iluminar rostos de cadáveres que ele acabara de ver no chão do deserto, e eram rostos conhecidos, reconheceu o pai e a mãe; reconheceu Simon Bolívar e José de San Martín, também vislumbrou José Artigas, Bento Gonçalves, Solano Lopes, Zapata, Rivadávia e outros grandes traidores e heróis das guerras platinas.
Continuou a descer os degraus de pedra e a escuridão o envolvia a cada passo, com mais intensidade. Voltou-se outra vez na ansiedade de quem deseja um pouco de luz e já não viu o círculo iluminado da boca do poço, sua torre invertida que agora se transformara em uma masmorra.
Escutou de repente o grito de um pássaro em agonia; as asas gigantescas em rasantes na escuridão passaram próximo do rosto dele e o impulso automático foi o de dobrar os braços em defesa, a proteger as faces e os olhos, os olhos que agora não enxergam mais a saída do túnel, nem o céu nem as flores do paraíso. Veem apenas a escuridão fria de seu poço de torturas. Entra em Pânico quando sabe que não pode mais pensar e que ali estará só para sempre, enfurnado dentro de um calabouço, masmorra, labirinto sem espelhos e sem visões a contemplar.
Enfim, chegara ao ponto central de sua arena nas tênebras mais profundas do que a própria cegueira. Súbito, sentiu bem perto dele o bafo pesado e ardente de um animal que não conseguia identificar o gênero, a espécie feroz ou branda, a não ser que ele rosnasse, pois podia ser um cão, uma serpente, uma hiena, ou um tigre do deserto.
Procurou se habituar à escuridão circular em volta de si, acima e em todas as dimensões de sua vida e pensou na pedra mágica, no tabuleiro de xadrez sonhado um dia e em tal jogo de peões contra damas e reis barbudos, perigosamente armados, a ponto de arquitetar uma cilada fatal em menos de um minuto. E sabia que as peças daquele jogo maldito se articulavam em segredo para o lance final.
Estava chegando a sua hora sem segundos. Via o livro e o relógio de areia se desfazendo em milhares e milhares de miríades de grãos e grãos em minúsculos esquemas de pó e fantasia, a areia total, a senha da sina e do deserto que o habita desde o nascimento.
Borges está ainda na mesma posição. Pensa que o sonho fora de tal forma visual e magnífico, que ele não poderia estar cego.
Ergueu-se da cama, apoiou-se na bengala com segurança e arrastou uma cadeira para diante do espelho. Caminhou mais um pouco pelo centro do quarto e pensou em suas ruínas circulares, no tigre e no labirinto que na verdade significavam, os dois, uma imensa biblioteca sem livros, porque todos os livros haviam sido queimados havia mais de três séculos por um imperador angustiado que não via sentido nas palavras, a não ser nas guerras.
Sim, murmurou, mas os livros permanecerão, enquanto desconfio, há muito tempo, que a humanidade ruirá e sobre ela, sobre seus escombros de sangue e desperdício, nascerão apenas as flores da sabedoria e do degredo de uma esperança que me acolhe agora nesta manhã fria e cinzenta na Casa Nevada da Patagônia.
Borges não soube quanto ficou diante do espelho e isso também já não interessava. Sentia-se aliviado, de certa maneira, por ter-se lembrado de todos os detalhes do sonho, salvo aquele que o fizera gritar com medo do animal que rugia a seus pés no centro da torre invertida do deserto e que o fizera despertar de tanto horror.
Molhado de suor, atônito com o fato de achar uma rosa ao lado dele, depositada no colchão da poltrona, as pétalas esmagadas, procurava lembrar-se como ela fora parar neste lugar e por quem teria sido trazida.
Levantou-se de repente e voltou a deitar-se.
Repetiu o movimento algumas vezes numa sequência de sustos e pavores como nunca experimentara antes.
Agora, sentado na cadeira de balanço, de frente para o espelho, Borges já não se lembra de nada, sequer da razão pela qual a agonia de não enxergar o incomodara tanto, assim, de repente, após mais de 40 anos de escuridão.
Isso é apenas de um sonho dentro de um sonho. Um sonho em camadas de cores e feito de luzes esféricas e multicores como o arco-íris do deserto que o fizera provar visões jamais concebíveis em sua pobre realidade de cego e de péssimo jogador de xadrez, a arte da vida.
Talvez ali, naquele momento em que raciocinou pela última vez sobre a razão do sonho e o seu esquecimento, dera o seu último sorriso diante do espelho oval, vago e frio, de moldura colgada com desenhos de punhais e felinos, peças de xadrez. O cavalo, o bispo, a torre, os livros que gostaria de esquecer e assumir de vez o mundo real em sua feiúra tirânica e indomável.
Antes de soar o meio-dia no velho carrilhão da sala central da Casa Nevada, Adolfo e Silvina encontraram Borges com uma das mãos sobre o cabo de madrepérola da bengala, uma rosa na outra, o rosto erguido a indagar o espelho por suas imagens mais queridas, indecifráveis.
O mais estranho era o brilho opaco de seus olhos azuis abertos a refletir no espelho Borges de corpo inteiro, o verdadeiro Borges: o homem, o livro, o sonho que se basta na dúvida do ser e no desejo de reencontrar-se frágil e humilde no topo do saber e no centro da miséria humana que tanto combateu com a palavra, inutilmente.




imagens retiradas da internet