sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A noite sucede o dia, poema RCF




Sou pouco de muito me acabar
e esta dor que me atravessa
nasce não sei donde
e não se finda ao corpo findar.

Esta dor que só a mim me resta
não a compartilho com ninguém,
não por egoísmo que dor ninguém a quer,
mas para não ser alvo de mofa
ou ver-se mofado o corpo que o fado traz.

Aos outros sou são e cheio de vida,
cabelo ao vento e rosto corado de lida,
mas o deserto que me corrói,
a dor que me derrota e me erode
me faz grão o que antes era pedra
me torna vento e errático,
ou seja, sou agora o que antes na cara me batia.

Vivendo vou o que me resta
que a dor se fez de mim
como um braço necessário
e uma perna que nos move
e de tanto senti-la
quando não vem me pergunto
que fizeram de minha perna
ou de meu braço que mover não posso,
porque a dor tanto se agasalhou,
tanto se fez própria e minha,
que, em sua falta, me pergunto:
se não era a existência por si só
aquilo que antes me doía
tão natural como a noite sucede o dia.




(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



(imagem retirada da internet: garciaplugado)



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

O poema, RCF

1


O cata-feijão do alfabeto,
o mata-borrão dos erros iluminados,
a pétala dos acentos.

A palavra pende por uma linha
depois cai
- trapézio -
no emaranhado da teia do verso.

As palavras no pátio do verso,
como folhas mortas,
redemoinham
e, no ciclone do poema,
- cicuta -
o verso se desorienta
pelo corpo vazio da biruta.

Eis que súbito
- como a nudez repentina surpreende -
surge,
e ladra,
persegue meu calcanhar,
pedaço de papel no bolso com telefone ignorado,
o poema.

Ainda não perdeu a goma
das coisas novas;
é apenas sensação,
cinema de sombras,
hiato entre gesto e viver.


(do livro Andarilho, 7Letras, 2000)


imagem retirada da internet:almada negreiros

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Um homem é muito pouco 19


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Queria também era anestesiar o pensamento. O álcool não anestesia o pensamento. A maconha e a cocaína também não anestesiam o pensamento. Em mim as drogas fazem o pensamento ficar com o nervo exposto, em carne viva. Em mim as drogas e a bebida fazem é mutilar meu pensamento. E meu pensamento mutilado pensa medo. Meu pensamento com droga não sobe nem desce. Meu pensamento com droga fica como elevador parado entre dois andares e um homem não pode viver com o pensamento parado entre dois andares. Não desgosto do dr. Máximo. Máximo é um homem minúsculo. Gosto das coisas minúsculas que não assustam a existência do mundo. E parecem sugerir que a delicadeza e o detalhe são como uma unha tão nobre e importante como as coisas grandes e que deblateram o tempo todo.

            Ainda há abandono e ruína no mesmo andar. Ou andar acima ou andar abaixo. Uma miséria vertical. Andei muito pelo mundo e conheci a desgraça horizontal. Aqui existe tudo em forma de risco. Um risco de cima abaixo. Há um monte de família. Uma delas: o garçom. O garçom é o tronco. A árvore do garçom só tem galho vadio. É um tronco que trabalha num restaurante perto. Os outros garçons trocam de roupa no trabalho.

            O garçom meu vizinho sai vestido de trabalho. A gente abre o elevador e o elevador está black-tie. Cada dia mais o terno cresce. É que ele murcha na sua função de tronco. A família pouco se dá, hum, hum, se ele adoece. As olheiras piores são as olheiras dos pulmões. Ele também não tem os pulmões vadios. O pulmão dele é operoso e um pulmão operoso que não descansa talvez logo adoeça.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O viúvo, 2º capítulo



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Não sou dos que pensam que a noite apazigua. Mesmo protegido, a sensação é de que há um furto qualquer e que a noite está cheia de roubos que se perpetuam sem que se saiba o quê exatamente foi roubado. Sonhei com ela de forma diminuta. É a vontade que tenho de diminuí-la, digo logo, ela que é tão gigantesca para mim. Então no sonho ela tem o tamanho e a espessura de um cartão de telefone. Coloco-a no bolso da camisa.
 Ando com ela pela cidade. Entro num armarinho que em vez de ilhoses, zíperes, botões e colchetes, vende apenas pernas, mãos, braços e pés mecânicos. O senhor deseja algo, posso ajudá-lo? pergunta o senhor careca com forte sotaque alemão. É o gerente da loja. Enquanto fala comigo esfrega ansioso as mãos. Os lábios são constantemente umedecidos pela língua. Encaro aquilo como licenciosidade. Recuo dois passos, olho para trás, não existe mais a porta por onde entrei.
O armarinho se transforma em imenso galpão e as pernas, pés, mãos e braços mecânicos passam a ser de carne. Estão pendurados como num açougue. Toda a movimentação é de matadouro. Esteiras, ganchos, operários de jaleco e barrete cortam, examinam, selecionam pedaços de gente. Ela, como está no meu bolso, sente meu coração bater mais rápido e pergunta se estou nervoso.
– Você está nervoso, meu bem.
– E não era para estar?
– Eu, ao teu lado, não te dou paz.
– Esta é a maneira de estar ao meu lado?
–Fica calmo.
– Este homem é um maluco.
– Que homem?
– O alemão.
– E por quê?
– Não está vendo?
– Sei, pelos membros expostos.
– São restos de pessoas, é carne humana, e você acha tudo natural. Estou num matadouro, açougue, frigorífico ou coisa que o valha e tudo aqui é perna, coxa, pedaços de gente e você acha tudo isso natural?
– Você se escandaliza com tudo.
– E não é para me horrorizar?
– O horror está aqui.
– Aqui onde?
– Em casa.
– Em casa?
– Olha as frestas.
– Que tem as frestas?
– É uma forma de corte.
– As rachaduras na parede então são cortes como um corte na pele, é isso que você quer dizer?
– Os cortes...
– Você diz as rachaduras.
– As rachaduras são daninhas e nervosas.
– É um apodrecimento das paredes.
– Não, é uma forma das paredes respirarem.
– Se você meter a mão vai esfarelar tudo. A umidade estragou a parede.
– Não é umidade. A parede sua. 
– Ah, a parede sua.
– E outra coisa.
– Diga.
– A casa é um grande intestino.
– Ora, me deixe.
– Quando acontecem as rachaduras é um pouco do intestino também das paredes que quer sair pra fora.
– Me deixe em paz.
– Você já está em paz.
– Desde que você se foi que não tenho mais paz.
– Não seja sentimental.
– E você sabe disso.
A sujeira está sempre em carne viva. Os lençóis são redundantes. Eles têm o meu cheiro. Então me sinto em mim, deito sobre mim, cheiro-me, empapo-me do que sou, do suor do bicho gosmento que à noite rumina. O que em mim rumina não é coisa aproveitável, é o bolo gástrico do pensamento que não me deixa dormir, faz insones as paredes, dá voz à pia. Quando D. Benedita não está aí não entro na cozinha porque posso ser tragado pela fedentina da casa. Todo meu lixo é orgânico. Não existe casca de laranja ou a laranja mesmo. O que está ali é um pouco da boca que a chupou. Do estômago embrulhado que a deglutiu. Sou um animal gorduroso e fescenino, por isso não gosto do bicho cozinha que pode me engolir e não me vomitar mais.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Alugar para sonhar, poema RCF












Queria que alguém sonhasse seus sonhos.
Limpasse os seus pesadédalos.
Um sonho alheio,
outro subsídio da memória,
o passado a limpo,
o presente ausente
e tudo seria futuro
que é a estação
em que tudo que se quer
tudo pode caber.





(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)