sábado, 27 de janeiro de 2018

Perigosa manhã, poema Memória dos Porcos


 


O dia nasceu prematuro,
os bracinhos de galhos secos,
o cobertor de lã cinza
cobre o corpo franzino da manhã,
o rosto amarrotado de nuvens.
Sob o narcótico do sono,
o sol, com sua luz antibiótica,
briga para arregaçar as mangas do dia.

Viro-me na incubadeira da cama,
a focinheira bafeja ar seco,
como seco é o choro do orvalho das árvores
                                    no estio de julho em Brasília.

O cinza que tudo anula,
desfaz, apaga ou nega
– existência que desconhece a existência –
não logra me trazer de volta à rotina
dos que vão para a enfermaria do trabalho.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Junta-cadáveres, Juan Carlos Onetti

Ronaldo Costa Fernandes



Há um engano de avaliação na perspectiva de alguns críticos e muitos leitores. Acredita-se que o ritmo veloz da narrativa é um atributo de valor em detrimento da lentidão. A pior literatura policial tem ritmo frenético, as maiores obras da literatura ocidental e oriental do século XX são lentas, circulares, digressivas. É nesta última categoria que se insere Juan Carlos Onetti.
Onetti (Prêmio Cervantes de 1980) é um clássico moderno num mundo de clássicos modernos de língua castelhana no século XX. Talvez um novo Século de Ouro da literatura, agora não somente da espanhola, mas do mundo Hispano-americano. Junta-Cadáveres, nome dado em razão de o proxeneta Larsen viver à custa de prostitutas velhas e gastas, é um romance de atordoante contemporaneidade, mais de quarenta anos de sua publicação.
Mestre da língua, Juan Carlos Onetti (1909-1994) não chegou a ter ensino regular, apenas cumpriu as primeiras letras. Trabalhou como jornalista da agência Reuters, foi publicitário, diretor da Biblioteca Municipal de Montevidéu, exilou-se em Madri, depois de 1975, fugindo do governo militar. Publicou El pozo (1939), A vida breve (1950), também editado por Planeta, e El Astillero (1961). E, em 1993, Cuando ya no importe. A mestria de Onetti, que o faz ombrear-se aos seus contemporâneos mais extraordinários como, entre outros, os argentinos Cortázar, Bioy Casares, Jorge Luís Borges, Ernesto Sábato e seu conterrâneo Horacio Quiroga, coloca-o, pelo apurado senso de percepção da linguagem literária, entre os mais expressivos em língua espanhola.
Construído de maneira elegante, variando de foco narrativo, este romance de Onetti passa de um personagem a outro, de forma sutil e sem quebra de continuidade. O grande personagem seria a pequena e imaginária cidade de Santa Maria, onde Junta-Cadáveres chega com três mulheres para ali fundar um problemático prostíbulo. O que na pena de um Jorge Amado ou mesmo de Mario Vargas Llosa poderia resultar num romance picante (e picaresco), de cunho satírico, em Onetti temos uma construção romanesca que se move muito lentamente. Diria que Onetti cria uma análise metafísica – e não propriamente psicológica – dos personagens. Estupor, pasmo, desconcerto perante a vida, dificuldade de encontrar significado: o rapazinho Jorge que freqüenta furtivamente a viúva de seu irmão Federico, o surpreendente Marcos Bergner (violento, machista, mas que ao final desconcerta o leitor), o farmacêutico Barthé que banca o prostíbulo, o médico Díaz-Grey, com seu fastio e olhar desenganado à realidade provinciana.
Aqui não há romance de costumes, e mesmo o previsível choque de moralistas x libidinosos é elevado a uma categoria transcendental. Existe, sim, um mundo de desencanto, imobilizado pela modorra das tardes quentes de verão ou a solidão cinzenta das ruas geladas do inverno. A vida posta em desassossego, menos pela presença incômoda da casa de janelas celestes que pela inquietação mesma dos personagens que se desfazem em vidas ordinárias.
O final de Junta-Cadáveres difere do corpo do livro. Onetti recupera a velocidade da intriga e oferece ao leitor um final não compatível com o ritmo anterior. Há algo de policial e trágico no desfecho, que o entrecho não oferece. O melhor do livro está na suspensão, nos parágrafos de difícil tradução, não porque sejam eruditos, mas pela construção original, pela frase de adjetivos surpreendentes, geralmente construídos para expressar a suspensão dos personagens. A suspensão dos personagens em Onetti não está apenas na crise existencial, mas no desenredo de seus incômodos, na desventura de peripécias mínimas, na indigência de vidas sem perspectiva de grandeza.
É boa esta tradução. A dificuldade de tradução aqui está no torneio da frase e não nas palavras raras ou no uso coloquial como a gíria que, na maioria das vezes, dificulta o acesso ao universo lingüístico do autor. Em determinado capítulo, o primeiro tradutor de Junta-Cadáveres, nos anos 70, viu o ronco de uma prostituta como “despencando pela janela como um sapo brando e desossado”, enquanto o atual tradutor apegou-se à real concepção (poética, porém fiel ao autor) do ronco “que despencava da janela e vinha estatelar-se no chão como um sapo esbranquiçado e desossado.” As armadilhas linguísticas de Onetti não param por aí. Leitor e tradutor têm que ler com atenção redobrada, mas com a recompensa de uma prosa inquietante, de uma linguagem instauradora de uma realidade asfixiante e cifrada.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

El animal barbado, poema em espanhol RCF




Este animal que se rasura
como quien raspa la oreja del cerdo
para el plato del domingo,
este animal feroz y matutino,
como un autorretrato,
con sus ojos 3 x 4,
observa el paisaje desde la ventana
y al otro lado del cristal
está él mismo,
es él el paisaje que envejece
cada vez que la visita.
Este hombre al espejo,
cuchilla de martirios y angustias violáceas,
afeita su minuto y su muerte,
exasperada y afilada servidumbre,
la conciencia espumosa de la pequeña guillotina.


(del libro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)





O animal barbado

Este animal que se rasura
como quem raspa a orelha do porco
para a feijoada de fim de semana,
este animal feroz e matutino,
como um auto-retrato,
com seus olhos 3 x 4 ,
observa a paisagem da janela
e do outro lado do vidro
está ele mesmo,
é ele a paisagem que envelhece
cada vez que a frequenta.
Este homem ao espelho,
gilete de martírios e angústias violáceas,
barbeia seu minuto e sua morte,
exasperada e afiada servidão,
a consciência espumosa da pequena guilhotina.


(do livro Eterno Passageiro, Ed. Varanda, Brasília, 2004)


 
Tradução Alícia Silvestre e alunos de pós-gradução da UnB

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A arca das consequências

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nesta minha barca, só entrarão
os animais distorcidos pela aspereza
que dá substância ao ar
e ao viver um ato de roçar a cautela dos dias
haverá uma ninhada de desculpas
as aves irrequietas dos volúveis
paquidermismo da embriaguez
uma avareza em forma de cão
anônimas e sumidas vidas de insetos
répteis dos desejos
duas almas desgastadas
uma família de ânsias
um herdeiro do fim
duas medidas de despejo
o animal disforme da utopia
e muita água uterina
a nos afundar na origem
até que venha a pomba do apocalipse
a mostrar que ainda há vida
sobre a face da terra
e nenhuma salvação nos versículos que escrevo.
 
 
 
(do livro O difícil exercício das cinzas)

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

A arena do corpo, poema RCF




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Às vezes brigo
e fico sem falar comigo.
Viro-me as costas,
durmo numa beirada de cama,
passo dias de mal de mim.
Quero todas as atenções.
Se chego tarde em casa e não estou
quero saber por onde andou meu coração.

De muito tentar me reconciliar,
de me pedir perdão,
e ato contínuo me estender a mão,
percebo que só farei as pazes
quando por fim os dois espíritos
que em mim não se conformam
habitarem o corpo morto
que é uma arena que não abriga dissensão
nem toma partido
de dois que nada mais são.


(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)

domingo, 21 de janeiro de 2018

Exílio, poema RCF



 imagem | hreinn friöfinnsson


Quando nasci, me exilei.
Nascer foi uma guerra,
com sangue, suor e lágrimas.
A porta da rua
– minha fronteira –
faz de casa minha pátria.
Fora dela , vivo na ilegalidade.
Ao fim do dia, me tranco
no meu campo de refugiado.
Sei, contudo, que só estarei
em total privacidade na morte.
Estou farto de revistar
minha  alma clandestina.
Me contrabandeio
cada vez que passo
na aduana da rotina.
Tenho medo de que não carimbem
o visto de entrada na vida.
Amanhã lerei o jornal
– dossiê das violências –
que não traz o nada consta
da minha vazia existência.




(Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)


(foto: hreinn friöfinnsson)