sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Um homem é muito pouco 25



Imagem relacionada

         Há outro tipo de frequentador do bar do Vicentino. O sujeito que se aposentou da vida. O sujeito que se aposentou da vida não é necessariamente um sujeito velho, apenas deixou que o corpo dele desse expediente. O sujeito aposentado da vida não tem fundo de garantia, nem pensão. Geralmente vive à custa de mulher balzaquiana encalhada e com furor uterino, muitas vezes casada, ou vive de pequenos bicos e trambiques. Esse cara propriamente não tem a alma vadia e muito menos a alma dele chora pelos cantos. É um sujeito aleijado. Não no corpo, mas na alma. A alma de um sujeito que se aposentou aos vinte e três anos é alma que tem a perna da alma quebrada, os pés da alma quebrados e as mãos da alma inertes e perdidas. O corpo mesmo só serve para lhe dar prazer. O sol da praia, a cama das mulheres, um cigarrinho do que quer que seja. Se o corpo se esquece de ficar sadio e adoece, ele não quer mais o corpo. O corpo só lhe dá prejuízo. O corpo come, o corpo precisa de cama para dormir, o corpo tem que pagar roupa. É certo que ele gosta de dar roupa ao corpo, mas não gosta de gastar grana para o corpo deixar de ser corpo que é quando o corpo dorme. O sujeito que se aposentou da vida é vaidoso, gosta do corpo bronzeado que ele passeia pelas areias da praia. Drogado, gostaria de jogar o corpo fora. Não o sente. O corpo só dá gasto. Até que um dia o corpo também estará gasto. O corpo e suas despesas. Mas sabe que a alma não se deita com as mulheres maduras e gordas que fodem com ele e lhe dão grana. Sabe que a alma não lhe dá o prazer da droga. Sabe que a alma não toma sol.

            Outro tipo que aparece no bar do Vicentino é o sujeito que quer fazer câmbio de Dolores, como chamo o dólar. Como na região tem alguns hotéis e sempre estão cheios de gringos, Vicentino descobriu que podia ganhar a vida como banqueiro. Banqueiro de dolores. O gringo chega, pergunta se há cambiô e Vicentino já responde com a cotação do dia, vinte para a venda, quinze para a compra. Todo bar é um câmbio negro. A energia que emana de um bar é uma energia escura, cheia de ácido úrico, bêbada. Há algo bastante escuro no cambiô de dolores.




(do livro Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Viuvez da humanidade, crítica sobre O viúvo


Não é só pelo texto de correta sintaxe, ou pela impecabilidade do andamento da narrativa, construída em unidades de dominada autonomia, que o romance de Ronaldo Costa Fernandes – cativa, assoberba e embebeda o leitor, mas, sobretudo, pela capacidade de fundir personagem e realidade. No andamento, a realidade vai se fechando com suas falências, nada incentivadoras do investimento afetivo. Várias outras superposições criativas apontam para a oportunidade de se inscrever O viúvo (LGE) entre os grandes clássicos da literatura brasileira, e que o recomendam para estudo nos assentos escolares para que seja identificado o homem que vai se moldando na automatização das relações sociais, somadas aí as muitas perdas a que ele se submete. Primeiramente, o domínio de localização temporal do personagem. Em seguida, os diálogos, que não funcionam com a presença de um interlocutor, mas com a intervenção das próprias neuroses do personagem. Assim, Ronaldo Costa Fernandes, já aclamado por críticos como Franklin de Oliveira e Oswaldino Marques, e detentor de vários prêmios (destaque para o Casa de Las Américas e o Guimarães Rosa), com O viúvo demonstra que, além de conhecer os domínios da narrativa, encontra-se no auge de sua potencialidade criativa.

















Jornal do Brasil - 23/12/2005 - Salomão Sousa



quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Vertigem das baixezas, poema RCF




Os alpinistas escalam a morte.
Também sei o perigo do cume,
mesmo sem me deslocar,
sei o alpinismo dos olhares submersos
que me fazem perder o pino.



(Eterno passageiro, 2004)




 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Minha Foz não é do Iguaçu, poema RCF





A rotina muralha o dique das vontades.
Tudo comporta minha voracidade represada.
As hélices da liberdade
logo percebo são asas de borboleta,
lúbricas, mas aleatórias e divergentes.
O que me põe elétrico são as turbinas do sonho.
Em outros momentos, seco-me.
Desaba sobre mim o desânimo.
Não sinto nenhuma energia.
Só uma queda na seca.
Um arame de água
– o desconforto do abismo –
nada de mar vertical,
o drama de esperar
a catarata do tédio
as sete quedas da semana.



(do livro MEMÓRIA DOS PORCOS. Rio: 7Letras, 2012)

(Sete Quedas, de Reginaldo Pereira)

 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Imaginações violadas, poema RCF





O padeiro exerce o fermento
na alquimia do forno
que tudo assa: trigo e cotidiano.

Há fila de espantos
para comprar o alimento
que já está em nós:
rotina de existir todas as manhãs.

Há algo de bíblico
em meu ateísmo amanteigado
e no confuso café com leite
em que as matérias filosóficas
se reduziram, em minha mesa, a migalhas.

A imaginação é o grande padeiro,
de um lado me fermenta,
de outro me coloca em seu forno:
a combustão de existir.



(do livro Eterno passageiro, Varanda, 2004)


imagem retirada da internet: Igorkmarques