sábado, 17 de fevereiro de 2018

Memorabilia, poema RCF



A surpresa sucumbe submissa e arredia.
Os móveis tímidos,
pratos desconfiados.
Não sei para que ralo
escorre o líquido solitário.
Sou feito de matéria que desconheço.
Minhas pernas já se acostumaram
a tomar seu rumo.
A gente vai inventando vivência.
O burburinho de roupas falantes,
a algaravia de pernas de voz fina.



(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Um homem é muito pouco, carta do leitor

Somos poucos para tanta vida



Comecei a ler Um homem é muito pouco em março deste 2011. Confesso que, a princípio, fiquei meio assustado com as 490 páginas. É uma temeridade lançar um livro tão volumoso em tempos de Internet. Segurá-lo nas mãos não foi muito fácil, principalmente no metrô lotado (rs), onde costumo aproveitar o tempo. Até mesmo em casa, costumo segurar os livros nas mãos – não gosto de apoiá-los em mesas porque não oferecem um ângulo bom para leitura. Terminei de ler em fins de abril, mas valeu a pena, porque o seu romance “vale quanto pesa”.
Cara, você é o rei das analogias. Você cria metáforas muito interessantes, poéticas, singulares, aparentemente absurdas, mas que levam o pensamento a campos inimagináveis, inexplorados, estimulando sinapses em nossos cérebros. Cria inteligência natural.
Curioso, também, que você foge dos travessões nos diálogos, assim como das irritantes aspas. E usa poucos pronomes (quase nenhum), preferindo repetir os nomes dos personagens quantas vezes forem necessárias, sem nenhum constrangimento. E faz isso de propósito, notei.
A sua obra é bastante existencialista e reflete sobre a aventura humana de um jeito despojado, como quem não quer nada – filosofia silenciosa. Faço questão de assinalar algumas das analogias/metáforas que mais me chamaram a atenção. Para mim, elas são o ponto forte da sua obra. Eis algumas delas (vou fazer como você, não vou usar aspas):
• O pior clandestino é o sujeito que anda pela vida como se não pertencesse a embarcação nenhuma.
• A maior perseguição é a perseguição do homem com sua fuga.
• Um homem não pode viver despido de sentimento.
• Tem gente que já nasce morto e vive morto pela vida afora.
• A maioria das pessoas vive morta e só acabará com o sofrimento quando chegar o que se julga morte.
• Não, a vida de um homem não é peso que se pesa ao subir na balança. O peso do homem inclui sua consciência.
• O sujeito pode trabalhar todo o dia como pedreiro ou carpinteiro, mas a alma continua vadia.
• Não há passado, nem há presente – apenas o futuro que chega a cada minuto.
• O sujeito que se perde pode estar perto do ponto aonde quer chegar, mas caminha em direção oposta.
• A morte é uma condenação para culpados ou inocentes, e parece que, diante da morte, todos somos culpados.
• Sentaram num restaurante e nenhum dos dois comeu nada. Os pratos ouvindo a conversa.
• Há pessoas que, mesmo na aparente rotina, são tão múltiplas dentro de si, tão outras, tão variadas, que não há jeito de criar rotina.
• Gostava da rotina. Achava a rotina criativa. As melhores ideias que tinha apareciam durante a rotina.
• Os dois médicos de Cristina disseram que ela gestava um medo menina.
• E ela foi viver com Jaime sabendo que casava com um vulto.
• Há pessoas que nascem, vivem e morrem na mesma casa e passaram a vida em fuga.
• Os obsessivos dão voltas em torno de si mesmo.
• Vi o cadáver e o cadáver estava pronto para ir para o trabalho e não para o cemitério.
• Só sei mentir para mim. Sei me enganar como nenhum outro.
• O cara que mais vigio sou eu mesmo.
• O passado pode me abocanhar o calcanhar e não deixar que eu ande livremente.
• A gente não mora em lugar nenhum. O único lugar em que a gente mora é dentro da gente, dentro do corpo.
• Até mesmo a lei da gravidade nos oprime.
• Todo homem traz um pouco do resto da humanidade.
• As grades feitas de pensamento são muito mais difíceis de serrar.
• Eu também devia ter alguns roubos dentro de mim que eu não dava queixa a ninguém.
• A gente nunca sabe quando é a última vez que se vê uma pessoa. Olho-me no espelho e penso que talvez seja a última vez que me vejo.
• O modo de eu desaparecer de mim é perder a memória.
• A doença de Humberto era falta de vida como quem tem falta de vitamina ou de sangue.
• Havia na Rua Buenos Aires uma farmácia que vendia veneno para suicidas e que todos conheciam.
• Caçava-me, caçava uma mulher, caçava um sentido. Cansa muito caçar um sentido para a vida.
• Vestia-me de prisioneiro todo dia para ir trabalhar.
• Amanhã terei que comprar comida para alimentar o corpo que insiste em viver.
Etc., etc.
Meu caro Ronaldo, um homem é, realmente, muito pouco para absorver toda a sua riqueza como escritor. Aguardo o próximo romance. Me avise.



Jaime Pereira da Silva
Jornalista e compositor, 59 anos cravados na beleza da vida.

imagem retirada da internet: loliness

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

A bússola do relógio, poema RCF


 

 

 

 

Para que construir novo relógio?
Em vez do ponteiro
que é uma bússola
que mostra o corte em vez do norte
que aponta o só em vez do sul
que revela a peste em vez do leste
que acusa o fim em vez do oeste,
que se faça uma hora sem ponteiro
como se a bússola do tempo
não tremesse parada na solidão,
não desabrochasse o botão
da rosa de vento da morte
e, por fim, criasse o equívoco
de uma ampulheta de cintura cerrada,
em primeiro lugar venha o fim do minuto
e depois o que se segue é inútil segundo.








(do livro Memória dos porcos. Rio: 7Letras, 2012)



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Aluguel, poema RCF





O que em mim mora e que me deixa imóvel
é este poema que se inquilina
e, de favor, ameaça, mas não sai.
Não há bisturi ou nada que o alcance.
Embora possa soltar-se a qualquer momento
expelido humor que de nós se expulsa,
ainda me faz crer que por mim é criado
quando, poema invasivo, sou dele escravo.
Quer também a mente junto tomar,
já que o corpo me tem subjugado,
corpo metástase de seu mal-estar.
Pensa por mim o que nunca pensei.
Por fim é dos meus nervos locatário,
poema tumescente entre as minhas vértebras.
Verso espesso onde me alongo,
reverso escasso que só me dá cansaço.
Este poema transverso
incha e dói à mente sutil
sem mão que o toque
sem cirurgia que o ameace.
Assim ando torto e doente
de tal poema incandescente
que me habita quando não o expulso
que não tem teto
quando quero retê-lo
em cada verso, canto ou porão.





(do livro A máquina das mãos. Rio: 7Letras, 2009)

imagem retirada da internet: fugindo da crítica, pere borrell

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Um homem é muito pouco - 39








Resultado de imagem para um homem é muito pouco



            Mudei-me para Santa Tereza. Moro num quarto de um apartamento de três quartos. É uma república de estudantes. O único não estudante ali sou eu. A minha vizinha de quarto é Marilyn Monroe. É claro que a minha vizinha de quarto não é a Marilyn Monroe. Fui eu quem inventou o apelido para Sônia. Ela é branca e pinta o cabelo, tem o rosto redondo e embora não se pareça com Marilyn Monroe gosta de imitar os gestos de celuloide de Marilyn e fala com a voz radiofônica e em preto e branco de Marilyn Monroe. Não sei se Santa Tereza é o melhor lugar para me esconder. Creio que não. Há de tudo num bairro como Santa Tereza.
De noite ouço o barulho da cidade que não dorme. Alice reclamava do barulho da Prado Júnior. Agora vejo que não é o barulho da Prado Júnior, mas o barulho da cidade. A cidade é imensa caldeira. Uma caldeira não pode esfriar porque racha. O Rio não pode esfriar porque racha. Uma cidade rachada é uma cidade impraticável de morar. Por isso o estômago do bicho cidade trabalha de madrugada e do alto do morro de Santa Tereza posso ouvir as entranhas desfeitas do bicho cidade.




(do romance Um homem é muito pouco. São Paulo: Nankin, 2010)